sexta-feira, dezembro 22, 2006

LADY LAZARUS, poema de SYLVIA PLATH




Tentei outra vez.
A cada dez anos
Eu tramo tudo

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha como um abajur nazista,
Meu pé direito

Um peso de papel
Face sem feições, fino
Linho judeu.

Livre-me dos panos
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo?

O nariz, as covas dos olhos, os dentes postiços?
O hálito azedo
Some num só dia.

Logo logo a carne,
Que a caverna carcomeu, vai voltar
Pra casa, em mim.

Sou uma mulher que sorri.
Não passei dos trinta.
E como um gato tenho nove vidas.

Esta é a Terceira.
Que besteira
Se aniquilar a cada década.

Milhões de filamentos!
A platéia comendo amendoins
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e meus pés
O grande strip-tease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos,
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

Mas sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.

Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
E rolei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar
E arrancar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.

É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral

Voltar em pleno dia
Ao mesmo local, à mesma cara, ao mesmo grito
Brutal e aflito:

"Milagre!".
Que me deixa mal
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração
Ele bate forte.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou um trapo ou uma mecha de cabelo.
E então, Herr Doktor.
E então, Herr Inimigo.

Sou sua opus
Seu tesouro,
Seu bebê de ouro puro

Que se derrete num grito.
Ardo e me viro.
Não pense que subestimei sua imensa consideração.

Cinzas, cinzas
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali

Barra de sabão,
Anel de noivado,
Prótese de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer,
Cuidado
Cuidado.

Renascida das cinzas
Subo com meus cabelos ruivos
E como homens como ar.





Sylvia Plath
(23-29 de outubro de 1962)

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça


domingo, dezembro 10, 2006

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA (de Allen Ginsberg)



















Cada pensamento tive com você, Walt Whitman, enquanto caminhava
pelas calçadas sob as árvores com dor-de-cabeça consciente de mim olhando a lua cheia.
Cansado de fome, fazendo shopping de imagens, fui até o néon do supermercado de frutas, sonhando com suas enumerações!
Que pêssegos, que penumbras! Famílias inteiras indo pro shopping de noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebês nos tomates! –
e você, Garcia Lorca, o que fazia no meio das melancias ?

Eu vi você, Walt Whitman, sem filhos, velho safado solitário, fuçando as carnes do refrigerador e paquerando os garotos da seção de verduras.
Peguei você fazendo perguntas pra eles: Quem matou as costeletas de porco?

Quanto custa a banana? Você é meu Anjo?
Entrei e saí das prateleiras de enlatados te seguindo,
e eu na minha cabeça sendo seguido pelo segurança.

Vadiamos juntos pelos corredores abertos em nossa imaginação solitária
provando alcachofras, passando a mão nos congelados sem nunca passar pelo caixa.

Pra onde agora, Walt Whitman? As portas se fecham em uma hora.

Pra que direção sua barba aponta esta noite ?
(Toco seu livro e sonho com nossa odisséia no super e me sinto absurdo.)
Vamos andar a noite inteira pelas ruas solitárias? Àrvores somam sombras às sombras, luzes se apagam nas casas, logo estaremos sós.
Vamos passear sonhando com a América perdida do amor cruzando os carros azuis

nas estradas, de volta pra nossa cabana silenciosa?
Ah, querido pai, de barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América tinha na mente quando Caronte parou de empurrar a barca e te deixou na margem nevoenta olhando-a sumir nas águas negras do Letes?




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quinta-feira, dezembro 07, 2006




sem som
esquecida em seu
refúgio de

sombras úmidas
de cuja seiva espessa
sobrevive

alguma coisa miúda,
muda, num
ramo qualquer

onde possa se
sentar
— ela nos espreita

hesita, pressente,
espera-nos passar
(até razão
estar ausente)

para que recomece
segura

a cigarra





(De Visibilia, Travessa dos Editores, 2005)

terça-feira, dezembro 05, 2006

EL DUENDE




O dia lapida
o lado mais raro
da dor.

A mulher transpira
pelos poros
iridescentes
dos dias.

Há dias
em que um homem
tem o tamanho de uma flor.


EM SONETO

Todos os quartos eram isto e aquilo: mesmo os detetives
Andavam perdidos pelos corredores dos arquivos
Sem sentido. Uau. Um duelo de lírios flutuava, astronauta,
No tumulto dos telefonemas, nos bilhetes do declive

Da tela que dispensa a diferença num segundo. Falta,
E quem cobrava eram pétalas secas num verão e restos
De toques líquidos como um pensamento: pedra.
Perda é mais fácil, o sonho abre portas que ele mesmo fecha

Enquanto a penumbra da tarde luta para superar a planta,
Os mapas rasgados desta noite descontínua, seguindo o ser,
A linha paralela do que eu não disse, o que acabei de esquecer.

Plins nos despertam: uma fuga de Bach. O autor atrás da porta
Pede mais uma cerveja, enquanto se livra num segundo dos espelhos,
Dos livros sobre a mesa, enquanto livra-se de si e me desperta.

HIKMA




A casa foi sendo progressivamente esvaziada, até que na manhã de domingo só restou ele. E o falcão.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

SPIRITUS MUNDI

A voz toca no ventre da aceleração. No Museu do Dia objetos ecoam na tatuagem da memória de seus habitantes. Abduzido, o olho humanimal é de um metal necrosado e devorador, racimo de genes durante a pressurização. Clareiras. A matriz translúcida como presença de religare, tigre de Lascívia e sua dança filosófica. A estrada do tato. Ilhas femininas. Dentro e fora comercializam artigos baratos e tapetes persas onde me encontro: a escrita de luz nas costas da jovem gueixa dispersa, um continente feito de blocos moventes e piscantes de gelo. Atraquei consoantes, com cimitarras certeiras, e nada. Alguém aumentando o volume da mata. Os nômades olharão para trás: enxergaram a avalanche em sua direção, nada que um leque não possa indicar, um tiro de alguém. A captura se dá a caminho, com nossas presas embrulhadas em tecido de tule, quase transparentes. Na fuga, quase sem saliva, a aranha deixa seus hóspedes de cera para exposição em Lexotan, enquanto contorcionistas regem o vento com um manual de hermenêutica. É preciso reconhecer as trilhas jesuítas, marca d´água revelando ruínas, musgos e brotos em densidade alvoroçada, proliferante, uma imagem de mundo que não reflete nossa mente, mar entrando em surto. O lugar de onde você veio é tão distante que pode muito bem ser aqui.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dois poemas de PAUL AUSTER



PEDREIRA


Nada mais que a canção disto. Como se
só o canto tivesse nos trazido
até este lugar.

Temos estado aqui, e nunca estivemos aqui.
Estivemos a caminho até o lugar onde começamos,
e estivemos perdidos.

Não há fronteiras
na luz. E a terra
não nos deixa palavra alguma
pra cantar.

Pois o desmoronar da terra
sob os pés
é música em si, e caminhar entre estas pedras
é ouvir a gente mesmo
apenas.

Canto, logo, nada,
como se isso fosse o lugar
para onde não volto --

e se voltasse, descontava a minha vida
nessas pedras: esquecer
que um dia estive aqui. O mundo
me caminha

além do meu alcance.





QUARRY

No more than the song of it. As if
the singing alone
had led us back to this place.

We have been here, and we have never been here.
We have been on the way to where we began,
and we have been lost.

There are no boundaries
in the light. And the earth
leaves no word for us
to sing. For the crumbling of the earth
underfoot

is a music in itself, and to walk among these stones
is to hear nothing
but ourselves.

I sing, therefore, of nothing,

as if it were the place
I do not return to --

and if I should return, then count out my life
in these stones: forget
I was ever here. The world
that walks inside me

is a world beyond reach.





FRAGMENTO DE FRIO



Porque ficamos cegos
no dia que se apaga conosco,
e porque temos visto nosso hálito
nublar
o espelho do ar,
o olho do ar vai se abrir
em nada a não ser na palavra
que renunciamos: inverno
terá sido um lugar
de amadurecer.

Nós que viramos os mortos
de outra vida, não a nossa.






FRAGMENT FROM COLD



Because we go blind
in the day that goes out with us,
and because we have seen our breath
cloud
the mirror of air,
the eye of the air will open
on nothing but the word
we renounce: winter
will have been a place
of ripeness.

We who become the dead
of another life than ours.




Paul Auster (De Fragments from the Cold (1976-1977))
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

segunda-feira, novembro 27, 2006

TRANCE MUSIC

Não perde o tempo entre os riffs dessa noite
mais distante que um DJ em transe
Voz rouca segue a linha do baixo, baixe a sanha,
Circule entre senha e groovie
Entre estrelas & champanhe.

Pouco a pouco
O calor liga você.

Como nos pegam de surpresa, sons,
e das vezes em que nos
acuam
Ou suspendem
o branco
com o charme de um grito.

Seara de sorrisos, só isso aqui parece não virar mercadoria.

Talvez mulheres líquidas, ou ícones que se desmancham ao toque da tecla

Delete Cartago,

pois o sonho é só veloz
o solo só é veraz
Se entra na primeira

esquina intuitiva e se
na sintaxe da levada

o Excêntrico Sr. Sentido venha junto,
taxiando

o que quer que vida seja, tensão de arroios,
e o quer que não seja também,
chá de cereja sob uma lua que viceja
nos quatro céus desta canção.





sábado, novembro 25, 2006

Idéia De Camiseta


EU NÃO MUDO.

EU SOU SURDO.





Creta, janeiro de 1984



voltando pela praia

as pegadas na areia

são as minhas



(de Solarium, Iluminuras, 1994)

Há Anos Vende Seu Peixe





Há anos vende seu peixe
podre
seu suflê de vísceras
para vegetarianos sem o menor senso de humor.

Há tempos leciona
o dialeto do caos
dá conselhos ao sol
vende orquídeas escritas com
seu sangue
para vampiros que têm medo do vermelho.

Há séculos ele pratica
a extinta arte da pluviometria
fabrica idéias inúteis
conta os carros da esquina
compondo um poema longo e atroz.

Há minutos ele liga
Para uma secretária eletrônica
Que repete, estranho, exatamente
A gravação de sua própria voz.




(De Nômada, Lamparina, 2004)

Homem-Chama (segundo Richard Pryor)

"Quando você está pegando fogo

E correndo como um doido pela rua

As pessoas evitam seu caminho.

Menos um velho vagabundo

que grita pro homem estranho

Tem fogo aí, amiguinho?"


(sobre uma gag de Richard Pryor)
Deus dorme na pedra
Sonha na planta
Se mexe no animal
E acorda no homem



Ibn Al Arabi, místico sufi, séc. 12

Mantra




Vento sedento de espaço

Vento sedento de espaço

Vento sedento de espaço

Pedra sedenta de tempo


sexta-feira, novembro 24, 2006

Sobre Profecias (APOLLINAIRE)




Conheço umas profetizas por aí
Madame Salmajour aprendeu na Oceania a arte da taromancia
Foi lá também que teve a chance de participar
De uma deliciosa cena de antropofagia
Claro que ela não espalhou pra todo mundo
Mas sobre o futuro nunca errava uma

Uma cartomante ceterana* Margarida etcetera e tal
É talentosa também
Mas já Madame Delroy é mais inspirada
Mais precisa
Tudo que disse sobre meu passado era verdade e o que ela
Predisse no tempo aconteceu no tempo que indicou
Conheço um sciomântico* mas não queria que interrogasse minha sombra
Conheço um adivinhador de água o pintor norueguês Diriks
Espelho quebrado banho de sal migalhas de pão
Que esses deuses sem figura sempre me poupem
E ao mesmo tempo não acredito mas olho e reparo
Acho que leio mãos muito bem
Pois não acredito mas mesmo assim reparo e escuto e olho

Todo mundo é profeta caro amigo André Billy
Mas por tanto tempo as pessoas foram levadas a crer
Que não tinham futuro e ficariam pra sempre ignorantes
E idiotas de nascença
Que eles acabam se resignando e nunca mais ninguém se lembra
De especular sobre se ele conhece ou não o futuro
Não tem nada de religioso nisso

Nem nas superstições nem nas profecias
Nem em nada que as pessoas chamam de ocultismo
O que existe acima de tudo é um jeito de observar a natureza
De interpretar a natureza
Que é completamente legítimo


Guillaume Apollinaire

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes


* Nascida em Céter, (nos Pirineus orientais). De Ceretani, "antigo povo da Espanha, da Terraconaise, ao pé dos Pirineus".
* Forma primitiva de necromacia, relativo à adivinhação através de comunicação com as sombras (espíritos) dos mortos; também relacionado com a evocação de reflexos astrais para adivinhar eventos futuros.

Manobra, de Apollinaire















Perto de uma vila na retaguarda
Marchavam quatro fuzileiros
Todos cobertos de merda
Da cabeça até os pés

Olhavam o vasto descampado
Falavam sobre o que se passou
Nem puderam olhar pro lado
Quando uma bomba detonou

Todos da turma de dezesseis
Falavam do passado não do amanhecer
Assim prolongavam suas asceses
Que exercitaram ao morrer




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quinta-feira, novembro 23, 2006

Segunda Rua Cristina (de GUILLAUME APOLLINAIRE)

Publicado pela primeira vez em Les Soirées de Paris (Dezembro de 1913), este é um exemplar da poética revolucionária de Apollinaire e, sobretudo, do grupo de poemas que se pode chamar de “poemas-conversas”, composto quase que inteiramente de “atos de fala”.

O título já posiciona a situação “em estado de colagem” dos fragmentos que o poeta justapõe: segunda-feira (tempo) e Rua Christina (espaço). Fazendo máximo uso de “material encontrado”, com ouvidos e olhos atentos, Apollinaire constrói este poema como um quebra-cabeça, tendo como foco a textualidade do ambiente que o rodeia, os fragmentos de linguagem estereofônicos dispersos, captando a polifonia dos espaços públicos (um café na Rua Christina?).

Apollinaire nos mostra assim o estranhamento daquilo que aparenta ser tão comum, convidando o leitor a ver, no ordinário, o extraordinário. Poema-colagem feito de pedaços de conversas, pleonasmos, protocolos profissionais e sociais, clichês, trocadilhos, interjeições, indiretas, insinuações. Assim como os cubistas apropriavam pedaços de objetos banais (fragmento de jornal, rótulos etc) para sua pinturas, Apollinaire opera o mesmo com a linguagem do seu cotidiano. Faz parte do impulso do que ele chamou de “simultaneísmo” (chave para a sensibilidade modernista), antecipando poemas como “The Waste Land” de Eliot e outros cuja chave é a descontinuidade, ou mais recentemente os cut-ups de William Burroughs.

Ao invés de escrever sobre a experiência da cacofonia dos espaços públicos, Apollinaire decide incorporar no texto a linguagem mesma dessa experiência.





SEGUNDA RUA CRISTINA


A mãe da zeladora e sua filha vão liberar o caminho
Vem comigo essa noite se você for homem
Um só já é bastante para que vigie a porta
Enquanto o outro sobe a escada

Três lamparinas iluminam
A velha está no fim
Quando você terminar vamos jogar um gamão
O maestro com dor-de-garganta
Chegando na Tunísia pinte pra fumar um haxixe

Vixe quase rimou

Pilhas de pires flores um calendário
Pim pam pim
Devo quase 300 paus pra locatária
Prefiro cortar o meu que dar pra ela tá ligado

Caio fora às 8 e 27
Seis espelhos ficam se encarando
Tô achando é que nos metemos numa fria
Caríssimo senhor
Tu é mesmo um bosta
O nariz daquela moça parece um verme
A Luiza esqueceu o casaco
Não tenho casaco mas também não tenho frio
O dinamarquês fuma seu charo enquanto checa os horários
O gato preto cruza o restaurante

Os crepes-suzettes estavam demais
Fonte verte
Vestido negro como suas unhas
Isso é completamente impossível
Aqui está senhor
O anel de malaquita
Chão coberto de serragem
Então é verdade
A garçonete ruiva se mandou com o livreiro

Um jornalista que conheço mais ou menos

Olha Jaques é extremamente sério o que vou te contar

Companhia de navegação mista

Ele diz o senhor gostaria de dar uma olhada no que eu pinto
Eu só tenho uma criada

Depois do almoço Café Luxemburgo
Chegando lá me apresenta um gordão
Que diz pra mim
Escute isso seria chique
Em Smyrna em Nápoles na Tunísia
Meus Deus do céu quando é que estive
Pela última vez na China
Deve fazer o quê uns oito ou nove anos
Honra é um troço que depende da hora
Bati





Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quarta-feira, novembro 22, 2006

Saltimbancos (poema de Guillaume Apollinaire)

SALTIMBANCOS
À Louis Dumur

Pelos campos vêm os saltimbancos
Vêm passando por jardins e campos
Diante de cinzentas estalagens
Pelas vilas sem igrejas

E crianças abrem caminho
Os outros em sonho seguindo
As árvores frutíferas se resignam
Quando de longe eles acenam

Trazem todo o peso na bagagem
Tamborins de aros dourados
Um urso e um macaco amestrados
Pra pedirem dinheiro na passagem

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes


Saltimbanques
À Louis Dumur.

Dans la plaine les baladins

S'éloignent au long des jardins
Devant l'huis des auberges grises
Par les villages sans églises

Et les enfants s'en vont devant
Les autres suivent en rêvant
Chaque arbre fruitier se résigne
Quand de très loin ils lui font signe

Ils ont des poids ronds ou carrés
Des tambours des cerceaux dorés
L'ours et le singe animaux sages
Quêtent des sous sur leur passage

terça-feira, novembro 21, 2006

O Rumor das Máquinas Crescia (de Severo Sarduy)


O RUMOR DAS MÁQUINAS CRESCIA


O rumor das máquinas crescia
Na sala contígua: já minha espera
De um adjetivo—ou de teu corpo—não era
Mais que a intenção de encurtar o dia.

A noite que chegava e precedia
O vento do deserto, a certeira
Luz—ou teus pés nus na esteira—
do ocaso, seu tempo suspendia.

Não recordo o amor e sim o desejo:
não a falta de fé, e sim a esfera—
Imagem confrontando seu reflexo

com a textura branca, verdadeira
página—ou teu corpo que inda releio—;
vasto ideograma da primavera.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

the eye of the hurricane

inside the old school

domingo, novembro 19, 2006

HÁ (poema de Guillaume Apollinaire)
























Há um cargueiro que desatracou com meu amor
Há seis vinas[1] no céu e a noite chega e você pensa vai ver são vermes chocando estrelas
Há um submarino inimigo planejando seqüestrar o meu amor
Há milhares de pinheiros despedaçados pela explosão das granadas caindo a meu redor
Há um soldado passando por mim totalmente cego de gás asfixiante
Há tudo o que reduzimos a pó nas trincheiras Nietzsche Göethe e Colônia
Há minha ansiedade por uma carta que nunca chega
Há na carteira fotos da minha companheira
Há prisioneiros passando pela mina de olhos assustados
Há uma bateria com seus servos fiéis fuçando entre estilhaços
Há um mensageiro que chega pontualmente trotando pela trilha do pinheiro solitário
Há informações que um espião circula por aqui invisível como o horizonte que usa como camuflagem sem vergonha alguma
Há empinado como um lírio o busto do meu bem
Há um capitão desesperado esperando o comando vindo dos cabos transatlânticos
Há soldados por volta da meia-noite serrando tábuas pros caixões
Há mulheres se humilhando por milho gritando diante de um Cristo sangrando na Cidade do México
Há a Corrente do Golfo tão tépida e benéfica
Há um cemitério cheio de cruzes por 5 quilômetros
Há as cruzes de um lado e do outro
Há figos da Barbária nos cactos na Algéria
Há meu amor com suas mãos curvilíneas
Há um tinteiro que fiz de um foguete de 15-centímetros que não explodiu
Há minha sela pegando chuva
Há os arroios que nunca mais vão transbordar
Há o amor que gentilmente me fascina
Há um prisioneiro alemão com sua metralha nas costas
Há homens no mundo que nunca lutaram na guerra
Há os Hindus observando atônitos as campanhas ocidentais
Eles pensam nos chegados com saudades e imaginam se vão vê-los outra vez
Pois fomos longe demais nesta guerra na arte de invisibilidade




[1] Referência aos zepellins, novamente numa operação de animismo metafórico e com referência às salsichas vienenses, ou vinas, como se diz em Curitiba.



Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

meu velho amigo Tico (onde anda o Teco?)

segunda-feira, novembro 13, 2006

William S. Burroughs - Thanksgiving Prayer

Burroughs lendo um poema em forma de oração pelo Dia de Ação de Graças.

Oração ao Dia de Ação de Graças, de William S. Burroughs

Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo. Dia de Ação de Graças, 28 de novembro de 1986.



Obrigado pelo peru e pelos Pombos Correios, destinados a serem cagados por saudáveis tripas americanas
Obrigado por um continente para se pilhar e se envenenar
Obrigado aos índios, por nos abastecerem com uma quantia módica de perigo e desafio
Obrigado pelas vastas manadas de bisões para se matar e se escalpelar, deixando as carcaças apodrecerem
Obrigado pela recompensas por lobos e coiotes
Obrigado pelo Sonho Americano, por tudo vulgarizar e falsificar até que as mentiras nuas resplandeçam
Obrigado à Ku Klux Klan, por tiras assassinos de negros acariciando as marcas na coronha...por mulheres decentes e carolas, com suas faces amarradas, amargas e más
Obrigado por adesivos tipo “Mate um viado em nome de Cristo”
Obrigado pela AIDS criada em laboratório
Obrigado pela Lei Seca, e pela Guerra Contra as Drogas
Obrigado por um país que não deixa ninguém tomar conta de seus próprios assuntos
Obrigado por uma nação de dedos-duros, é....
Obrigado por todas as lindas lembranças, “tudo bem, maluco, pode ir mostrando os bracinhos! “... você sempre foi uma dor-de-cabeça e um pé no saco
Obrigado
Pela maior e última traição
Do maior e último dos sonhos humanos



Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Em Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Editora Iluminuras, 1994, com entrevistas com Roy Lichtenstein, Meredith Monk, John Cage, Allen Ginsberg, Burroughs, Laurie Anderson, Amiri Baraka, Marjorie Perloff, Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure, John Ashbery, Wanda Coleman, Nam June Paik, entre outros)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Instantâneos Contemporâneos


uma e trinta da matina a loucura quebra minha esquina

esmaga com força sua rotina de estrelas mínimas

ferra as bocas do acaso com trancas de ciúme

de Galatéia expulsa a espuma de seus crimes

condena o Vácuo veloz ao silêncio do tumulto

só resta um pedaço da escotilha do piloto

e uma palavra em transe na testa do palhaço

o padre conversando com um surdo-mudo

anjos em carne viva rasantes no céu de merthiolate

poeira de metal e carnes prédios desabando

o anjo do mal com seu sorriso absorto

na rosa flechada sangrando mental

a aurora ladra seus rubros massacres

e a lentidão do real levita é um milagre

estar aqui entre gritos neste estado de sítio

descobrir que foi a vida que mentiu







(De Nômada, Lamparina, 2004)

terça-feira, outubro 24, 2006





poesia é quando sai faísca do papel


Paulo Leminski

domingo, outubro 22, 2006

DIÓGENES, O CÃO















Há alguns anos eu, Maurício, Beth e Yuri compusemos esta canção:
DIÓGENES, O CÃO


“Saia do meu sol, Alexandre Magno,
Deixe-me na minha barrica
Ou lhe mando um raio
Desferido de meus poderes espaciais.

Eu sou o primeiro cínico da Terra,
O primeiro signo,
O primeiro cigano.

Meu nome é Diógenes
Eu vim de longe
De onde a gente vive o hoje.

Vai tirando o cavalinho da minha chuva
Pare de ficar secando a minha uva
O seu poder não cabe numa luva

Lambo aos que me dão
Ladro aos que não dão
E mordo os maus

Meu nome é Diógenes
Eu vim de longe
De onde a gente vive o hoje.





sábado, outubro 21, 2006

PASCAL




Eu descobri que toda a infelicidade humana vem disso, do homem ser incapaz de ficar quieto em seu quarto.




Blaise Pascal

quarta-feira, outubro 18, 2006

AMOROSA, de Paul Éluard





















Retrato de Paul Éluard, por Salvador Dali



Ela pousa em minhas pálpebras,
Põe seus cabelos sobre os meus,
Tem a forma de minhas mãos,
Tem a cor dos meus olhos,
Se entranha em minha sombra
Como uma pedra contra o céu.

Ela nunca fecha seus olhos
Nem me deixa mais dormir.
Em pleno dia, seus sonhos
Dissipam os sóis,
Me fazem chorar, chorar e rir,

Falar sem ter nada pra dizer.




L´Amoureuse

Elle est debout sur mês paupières
Et ses cheveux son dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mês yeus,
Elle s´englouit dans mon ombre
Comme une pierresur le ciel.

Elle a toujours les yeus ouviers
Et ne me laisse pas dormer.
Sés rêves em pleine lumière
Font s´évaporer lês soleils,
Me font rirer, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.




(De Nourir de ne pas mourir, 1924.)


Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sexta-feira, outubro 13, 2006

Mais Um Poema de Bukowski (saído do forno)

NÃO SOU O SABICHÃO MAS....


um dos problemas é que
geralmente quando as pessoas
sentam pra escrever um poema
elas pensam,
“agora vou escrever um
poema”
e aí
passam a escrever um poema
que
parece um poema
ou o que eles pensam
que deve ser um poema.

este é um de seus
problemas:
claro, tem outros
também:
aqueles escritores de poemas
que se parecem com poemas
começam a achar que precisam
sair por aí
lendo-os para
outras pessoas.

isso, ele dizem, é feito
pelo status e pelo reconhecimento
(eles tomam cuidado
em não mencionar
a vaidade
ou a necessidade de
aprovação imediata
de alguma platéia minguada
e idiota).

os melhores poemas
me parece
são aqueles escritos
por uma necessidade
máxima.
e uma vez escrito
o poema
a única necessidade
é escrever
outro.

e o silêncio
da página impressa
é a melhor resposta
para um trabalho
concluído.

em décadas passadas
alertei alguns
de meus
poetas-amigos
sobre a natureza masturbatória
de leituras de poesia
feitas apenas para
o aplauso de
meia dúzia de
panacas.

“isole-se e
faça seu trabalho e se você
tiver que se misturar, então
se misture com quem
não demonstra o menor interesse
por aquilo que você considera
tão
importante”.

a resposta
que recebi então
de meus poetas-amigos
foi tão raivosa
tão hipócrita
que parecia que eu
havia provado
exatamente
meu ponto de vista.

depois disso,
cada um tomou
seu seu rumo.

e isso acabou resolvendo
só um de meus
problemas
e um problema deles também,
presumo.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

(De Come on In!, Black Sparrow Press, 2006)

quinta-feira, outubro 12, 2006

Bukowski reads

Bukowski lendo
linguagem - paulo leminski

confira leminski falando de poesia

Dor Elegante, poema de Paulo Leminski (musicado por Itamar Assumpção)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

quarta-feira, outubro 11, 2006

Aqueles Bons e Raros Momentos, de Charles Bukowski




quando os deuses descansam
quando os cães se
calam,
voce sentado numa
espelunca Sushi
mandando ver nos palitinhos
entre duas grandes garrafas
de saquê
só que quietinho pensando
sobre todos os infernos
que você
sobreviveu,
provavelmente mais que
qualquer um
so que esses são seus
pra se lembrar.
Sobreviver é uma coisa
engraçada demais,
e doida.
Passando com segurança por todas
as guerras,
mulheres,
hospitais, xilindrós,
juventude,
meia-idade,
danças suicidas,
décadas
de nada.

Agora aqui
nessa espelunca Sushi
numa rua suburbana
de uma cidadezinha,
tudo passa à sua
frente
rapidamente
feito um filme
bom/ruim.

Há essa
estranha sensação
de paz.

Nem um carro na rua
passa,
nem um som.

Você segura os palitinhos
como se fizesse
isso há
séculos,
repare no pedacindo
de repolho na
borda do seu
prato.
aí, é isso aí,
todo aquele estilo,
graça,
caralho é tão
estranho
sentir-se bem por estar
vivo,
sem fazer nada
de mais
e sentindo
a glória
disso,
como um pleno
coral atrás
de você,
como as
calçadas,
como as
dobradiças.

cresce grama na Grécia
e até os patos
tiram uma siesta.



(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amém, Buk, amém

terça-feira, outubro 10, 2006

BUK


Domingo assisti um documentário maravilhoso sobre Charles Bukowski (pronuncia-se biukauski). Daqueles que dão vontade de rever e rever. Mais de duas horas com entrevistas raras, imagens de Bukowski dirigindo seu volks vagabundo pelas ruas de L.A., levando roupa pra lavanderia, entrevistas pra TV alemã, belga, Bukowski declamando seus poemas para platéias ensandecidas e caindo na gargalhada. E bebendo, claro. Entrevistas com ex-mulheres, o editor John Martin, que foi quem apostou nele, com Ferlinghetti, e com os amigos Bono (do U-2), Sean Penn e Tom Waits.

O filme do John Dullagan traça um ótimo panomara do "Hank", da infância até os últimos anos. É hilariante. É emocionante. É de foder, enfim. Bukowski penou muito até começar a ser reconhecido, é um exemplo de persistência. Engraçado é que até a pouco tempo ele era conhecido apenas como prosador no Brasil, enquanto nos EUA todos o conhecem mais como um poeta. Vou ver se posto uns diálogos e depoimentos aqui neste Estúdio Realidade.

Enfim, um filme daqueles pra gente repensar a vida. Traduzi ins 15 poemas de Bukowski nos últimos anos, sempre me dão muito prazer. Uma amostra está embaixo deste post, com o qual costumo abrir recitais de poesia e música. É killer. Confira:

Definindo a Magia, poema de Charles Bukowski




um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche

de presunto, quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

domingo, outubro 08, 2006

PELOS OLHOS DE LAURA RIDING, por Mariana Ianelli

A poeta paulistana Mariana Ianelli acaba de publicar no jornal Rascunho, de Curitiba, uma concisa e ótima resenha sobre Mindscapes, o livro de poemas da poeta modernista americana Laura Riding que publiquei em 2004 pela Iluminuras. Dê uma conferida:



Mindscapes
Laura Riding
Trad.: Rodrigo Garcia Lopes
Iluminuras
256 págs.

"Ecce Homo, parece dizer cada poema", foram, certa vez, as palavras de Eugênio de Andrade. Esta ambição da experiência poética por um sentido humano é o que diz, na duração do pensamento, cada poema de Laura Riding. Há mais de uma década de sua morte, Riding ressurge, em sua primeira edição brasileira, convocando o ser para a linguagem. Mindscapes, paragens da mente, do infinito durante - o espaço luminoso onde a consciência lingüística se converte em um projeto de existência.
No ponto em que se tocam criação e crítica, a poesia de Riding tem como origem e destino o próprio homem, este mesmo que, em sua possibilidade de ser, tornou-se alvo da linguagem para Heidegger. "O que é ser?" - pergunta a poeta. "É ter um nome", e carregá-lo em si, inteiramente, até que se faça silêncio. Onde a verdade fala, a palavra consente. Por um momento, Riding e o mundo se cruzam - e este momento, de hesitação e equilíbrio, de amor e contenda, é o poema. Exatamente aí dobra "a sineta do pensamento".
A poeta ronda a "fala absoluta", "o verso simples e impronunciável", o milagre que está dito em sua presença muda. Lê-se, para além da palavra, a eternidade. Para além do tempo, da beleza e do amor, o homem em sua justa dimensão. Não são poemas que se abrem ao primeiro apelo da leitura, antes são muros que procuram os olhos da mente, despertos para a interminável aventura da autognose. Poemas para se olhar por dentro e através de si, no que lhes é sem limite e sem vaidade: este caminho de aprendizagem no abismo, "um continente imaginário", mindscapes.
Companheira de Robert Graves por mais de seis anos, admirada por Yeats e Auden, Riding foi uma daquelas mentes poéticas que, diante do questionamento dos valores humanos na travessia do séc. 20, não se furtou a enfrentar o risco de limites extremos no estudo e na criação da obra literária, chegando a abandonar a poesia por esta mesma fidelidade de consciência que calou a vida de Paul Celan.
"Não somos o vento", segreda a poeta. Não somos isto que é pleno em si mesmo sem ao menos saber seu nome. A morada da natureza humana está em outra parte: na imanência de um porquê."Devemos distinguir melhor entre nós mesmos e estranhos", separar pela diferença e conciliar pela identidade. É assim que, na poesia de Laura Riding, o tempo musical da mente abole o tempo transitivo dos relógios e o pensamento, tal como o compreendia Ralph Waldo Emerson, desdobra sua existência "mutuamente contraditória e exclusiva".
Numa época em que urge a tarefa de pensar, os poemas de Mindscapes vêm atar o elo entre o homem e o mundo por essa íntima relação entre experiência e iniciação, a partir da qual poesia e filosofia se conversam de um modo fecundo, infinito e revolucionário
.
A poeta, crítica e ficcionista Laura Riding, uma das feras da poesia americana do século 20.

Dois poemas de Laura Riding

O MUNDO E EU


Isto não é bem o que quero dizer, não,
Nada mais do que o sol é o sol.
Mas como significar mais corretamente
Se o sol brilha aproximadamente?
Que mundo mais desajeitado!
Que hostis implementos de sentido!
Talvez isto seja o sentido mais preciso
Que talvez fiquem bem o saber disso.
Ou então, acho que o mundo e eu, sim,
Devemos viver como estranhos até o fim –
Um amor azedo, ambos duvidando um pouco
Se um dia houve algo como amar o outro.
Não, melhor termos quase certeza
Cada um de nós onde é que exa‑
tamente eu e exatamenre o mundo falha
Em se cruzar por um segundo, e uma palavra.







NENHUMA TERRA AINDA


Mar demorado, como é fugaz,
De aguidéia a aguidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.

Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.

Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu –
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.

O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.

E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.

E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas –
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.



(Em Mindscapes, Poemas de Laura Riding, Trad. RGL, Iluminuras, 2004)

No Blog de Douglas Diegues

Meu amigo Douglas Diegues acaba de postar um comentário bem simpáico a este modesto Estúdio Realidade em seu blog (lincado aí do lado). Douglas é uma figuraça, e ótimo poeta também.

RGL LANZA ESTÚDIO REALIDADE
O poeta Rodrigo Garcia Lopes acaba de lanzar um blog, chamado Estúdio Realidade, que merece ser conhecido por los que ainda no lo ficaram sabendo. U blog do Rodrigon tá cheio de coisas legais. Todos os dias tem alguma novidade que ele vem di escrever ou traduzir pras pessoas que gustam do que ele escreve y traduz. Particularmenti gosto dessa mescla de pedra e pluma que o RGL faz sem forçar la barra. Aliás, essa geração Londrix, Ademir, RGL, Losnak, Maurício Arruda Mendonça yo conozco y prezo desde quando eles nem tinham livros publicados e faziam aquela esplêndida revista KAN onde yo los empezava a leer e admirar. No Estúdio Realidade, RGL manda também instigantes traduciones, sempre certeiras, sempre com aquele frescor impagable. Conheci u Rodrigon no Londrix 2006. Me diverti muito com ele naquele primeiro Londrix que ao que tudo indica nunca. Nunca mais irá se repetir.

quinta-feira, outubro 05, 2006

EM RIDING



Viver numa realidade de palavras,


com a consciência de que, a cada passo, falha,

no entanto atenta ao que cada instante desperta,

É a ambição da poesia quando trava

com o artifício mortal da absorção — escrava

do som que a persegue como um alerta —

Entre letra e mente uma batalha.




(De Nômada, 2006)
montanhas

não são nuvens
mas tão brancas

solitárias
mas são tantas



(de Solarium, 1994)

quarta-feira, outubro 04, 2006
















"A realidade não está simplesmente ali, ela tem que ser buscada e conquistada"

Paul Celan
"Eu estava mais interessado na poesia do que na prosa -- exatamente porque o poeta é alguém que cria sua linguagem, enquanto o prosador, na maioria das vezes, usa a linguagem"

Aimé Césaire

segunda-feira, outubro 02, 2006

As time goes by....



Peguei esta foto hoje no blog do meu amigo Mário Bortolotto. O aniversário dele foi na sexta. O meu e o da Isabela, filha dele, e que está no colo do Marião, é hoje. Três librianos.

Feliz aniversário para nós!

Esta foto foi tirada no lendário Bar Valentino, em 1994, nos ensaios para o Poesia in Concert, que fizemos junto com outros dois grandes amigos, o Maurício Arruda Mendonça e o Silvio Demétrio no violão de aço e slide. A casa lotou duas noites seguidas, pra ver a gente mandar ver na poesia. Lemos de tudo ali, de trechos da Bíblia em hebraico, Marcial, até Ginsberg, Bukowski, Leminski e nossos próprios poemas, é claro. As noites foram um sucesso. Uau, que saudades, de quando tudo parecia mais fácil e leve.

Mais um ano se vai.
Como diria Chacal, a vida é curta para ser pequena.

sábado, setembro 30, 2006