Quinta-feira, Julho 02, 2009

Rodrigo de Souza Leão (1965-2009)

"Ainda sou o garoto do cachorro azul. Um azul enorme refletido agora no olho do garoto que achou no lixo o meu cachorro azul".

Acabo de saber por um amigo do Rio do falecimento do poeta e escritor

Rodrigo de Souza Leão (lincado no blog lowcura, ao lado),

de ataque cardíaco.

Há pelo menos dez anos nos comunicávamos por e-mail. Nos falamos por telefone algumas vezes. Uma vez, no Rio, liguei para combinarmos de nos encontrar mas acabou não acontecendo.

Rodrigo era um dos melhores escritores de sua geração, poeta de primeira

e que havia lançado no ano passado um livro literalmente bárbaro, Todos os Cachorros São Azuis.

Descanse em paz, xará.


Terça-feira, Junho 30, 2009

É SÁBADO

https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=e75c3589d3&view=att&th=1222d1e7241bd53a&attid=0.2&disp=inline&realattid=f_fwjh4tk01&zw
Neste sábado vou ter o prazer de participar do projeto capitaneado pelo bruóder Ademir Assunção em Sampa. O Pinduca diz que tem dado um bom público. O projeto já trouxe gente do calibre de Mario Bortolotto, Zeca Baleiro, Madan, Edvaldo Santana, Celso Borges, Carlos Kareqa, Marcelo Montenegro, entrre outros. E nada melhor do que estar do lado de quem a gente gosta: divido a noite com a grande amiga, parceira, poeta, compositora e cantora (das melhores que já ouvi no Brasil) NEUZZA PINHERO. O formato é assim: rola um bate-papo informal sobre nossas leituras, referências, sobre nosso trabalho e sobretudo as relações entre poesia e múica e sobre o trabalho de cada um. Também falamos das nossas parcerias. Neuzza promete mostrar parcerias inéditas nossas. Estou curioso. Em seguida eu leio alguns poemas, toco duas músicas e entra o show da Neuzza, com sua banda. Imperdível. O convite está ai embaixo.


Segunda-feira, Junho 29, 2009

NESTE SÁBADO, EM SÃO PAULO

Quarta-feira, Junho 24, 2009

COYOTE 19 UIVANDO COM GOSTO



Saiu a nova Coyote, revista que edito com Marcos Losnak e Ademir Assunção. Já são 7 anos editando a bagaça. Este número tá imperdível. Por que?

1) Por trazer uma entrevista inédita de
João Cabral de Melo Neto

2) Por um conto do norte-americano
Donald Barthelme,

3) Por trazer traduções da poeta espanhola radicada no Paraguai,
Montserrat Alvarez

4) Poela história em quadrinhos de
Teo Adorno, com roteiro de Luiz Bras



“Quando estava morando em Barcelona, tinha acabado de escrever e publicar a ‘Psicologia da Composição’ e estava certo de que não iria mais escrever poesia. (...) Tinha a impressão que havia chegado a um extremo tal de intelectualismo, por assim dizer, com a ‘Psicologia da Composição’, que não tinha mais sentido seguir naquele caminho." A revelação surpreendente de João Cabral de Melo Neto dá o tom da entrevista feita pelo poeta gaúcho Thomaz Albornoz Neves, no outono de 1993 – um dos destaques da nova edição da revista Coyote.

Em seus sete anos de atividade, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina.

COYOTE 19 // 52 páginas // R$ 10,00
Uma publicação da Kan Editora. Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161 (site: www.iluminuras.com.br). Pode ser adquirida também na internet pelo Sebo o Bac:
www.sebodobac.com

Contatos: losnak@onda.com.br / rgarcialopes@gmail.com / zonabranca@uol.com.br
Fone: (43) 3334-3299 / (11) 3731-3281

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA (PR)

Quinta-feira, Junho 18, 2009

EM TRABALHO DE PARTO

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Não tenho postado com muita frequencia neste Estúdio por conta do romance que estou escrevendo e que tem me absorvido as 24 horas do dia.

Está sendo um desafio, mas estou aprendendo, apanhando e me divertindo muito. Uma experiência totalmente nova. Como aprender a andar a dirigir.

No meu caso, como aprender a filmar com as palavras.

Terça-feira, Junho 16, 2009

VERSO QUE NÃO ME SAI DA CABEÇA



" O tempo é um monarca sonolento"



(Rodrigo de Haro)

Quinta-feira, Junho 11, 2009

O MAR (Jorge Luis Borges, trad. Rodrigo Garcia Lopes)

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Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o olha o vê pela primeira vez.
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as charmosas
tardes, a lua, ou fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Isso saberei
No dia seguinte da minha agonia.



Jorge Luis Borges
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

COMO ME SINTO QUANDO ME APAIXONO (Rodrigo Garcia Lopes)

Há um mês a jornalista Deborah Paula Souza, que eu conheci na época em que trabalhava (ela, não eu), na Marie Claire, me achou e pediu uma crônica para a revista Cláudia. Eu topei. Interrompi o romance que estou escrevendo e mandei ver num texto de 1.000 caracteres sem espaço. Um dia depois escrevi dizendo que já tava rascunhando algo, e perguntei se eu poderia escrever sobre uma paisagem. Ela disse: "Bonito isso, Rodrigo. Eu também sou apaixonada pelas minhas plantinhas e pela jaboticabeira no quintal, mas não é isso que estou pedindo. É pro público feminino". Dias depois mandei o texto integral, e saiu uma edição menor da Cláudia deste mês, especial dia dos namorados na capa.


COMO ME SINTO QUANDO ME APAIXONO


Rodrigo Garcia Lopes


De cara, me vem a frase de Rimbaud: na paixão, "eu é um outro". Ou penso no que costuma dizer um amigo: o fim da paixão coincide com a descoberta de que "um é pouco, dois é muito". A paixão, antes, era uma promessa de felicidade. Hoje, desconfio que antes eu não me sentia: as coisas é que começavam a sentir, a sofrerem em mim. A memória de um rosto ou de uma voz é o que me deixava sentindo, sentindo. Sobretudo a memória de uma presença, ou aquilo que os antigos chamavam de musa. Pois só uma musa é capaz de despertar essa música em nós, essa irmã da paixão chamada poesia, e que nos leva a escrever coisas "sem sentido" como: "Imprimo em seus lábios lírios & jasmins / primícias de cetim em toques de neve / mixo a ti e a mim nesses senfins / gravo na boca o cheiro bom do cravo. / Nenhuma nóia a nos tocar se atreve. // Ligado, digito os terminais dos teus sentidos / Regulo o foco do deleite, chupo teus bits & bytes, / Quando a aurora goza um sono rosa, Danaê, acredite: / com sentidos assim, quem precisa de inimigos? [...]. Sim, a paixão é uma mulher de olhos invisíveis.

Dizer que a paixão implica em perda da razão não parece correto. Talvez seja mais apropriado dizer que a paixão carrega uma outra razão. A paixão, para mim, é como a leitura de um poema. Ou nos arrebata ou não é poesia. Nem paixão. A paixão é como uma palavra, num poema, uma palavra que busca uma rima. Quando duas palavras se beijam, nasce a poesia. Para mim, a paixão tem a ver com aquela "realidade ficcional" na qual estamos imersos quando lemos um romance: uma suspensão temporária do descrédito do mundo e do outro. Mas, antes que acabe, "posto que é chama", pintam os sintomas: insônia (pensa-se naquela pessoa), suores e tremores nas mãos (pensa-se naquela pessoa), enfim, dispara-se um mecanismo mental obsessivo (pensa-se naquela pessoa). A paixão é patética (palavra-irmã de paixão). Pateta é a pessoa apaixonada. Um marmanjo passa a se comportar como um adolescente. Não há como escapar.

A paixão, como a poesia, não tem muito sentido num mundo regido cada vez mais por valores como Mercado e Sucesso. Pois a paixão não é um valor: ela é um bem, um talento, uma espécie de reserva ecológica da sensibilidade. Em nossos dias, a paixão virou artigo de luxo. A arte de padecer por um amor está se tornando tão exótica quanto a poesia, uma arte mais e mais restrita a iniciados, como o foram a falconaria, a numismática, a filatelia. Pois para o que serve esse negócio que nos acossa, nos deixa em estado de transe, de sítio, de alerta, de poesia? Nesses nossos dias velozes e superficiais, ninguém parece ter mais tempo para o tempo que a paixão exige. O mundo deveria se adaptar à paixão, e não o contrário.

Apesar de já termos visto e vivido o filme da paixão, o fascínio que o outro pode exercer em nós nos faz cair, como patos, nessa lagoa que os gregos chamavam de... pathós: sofrimento. Parece que se a paixão não carrega este componente de dor, não é paixão. Lembro, em cenas que hoje fazem parte definitiva de minhas amnésias afetivas, que a ausência da pessoa pela qual estava apaixonado provocava em mim os mais estranhos pensamentos. Hoje penso que essa projeção é a de nossa própria imagem. Como tentar agarrar o próprio reflexo num espelho, como no mito de Narciso. E tem outro problema: a paixão sonha eliminar a solidão, o que é uma impossibilidade. E é bom mesmo que "seja eterno enquanto dure": nossas expectativas em relação à pessoa-objeto de nossa paixão são quase sempre inatingíveis. Pois mesmo que apaixonar-se seja uma forma de "dor elegante", como diria Leminski, implica uma situação de estresse emocional e afetivo que nenhum ser humano pode suportar por longos períodos, sob pena de enlouquecer, e aí não seria mais paixão. Pois a paixão é um pensamento são num mundo insano. Quanto dura o filme da paixão? As personagens mudam, a paixão, não. Para mim, a paixão é como um daqueles paraísos perdidos: Mu, Atlântida, Agartha, Shambala, praia de Dido. Vê, já estou apaixonado e falando coisas sem sentido.


Rodrigo Garcia Lopes é escritor, poeta, jornalista, tradutor (Sylvia Plath, Rimbaud, Whitman, Laura Riding) e compositor, autor do CD de música e poesia Polivox, e dos livros de poemas Solarium, Visibilia, Polivox, Nômada. É um dos editores da revista Coyote e autor do blog www.estudiorealidade.blogspot.com

Domingo, Junho 07, 2009

20 ANOS SEM LEMINSKI

Como deixar passar esta data triste em branco? Há 20 anos exatamente falecia, em Curitiba, o grande Paulo Leminski. É impressionante como o tempo passa. Todas as cenas de 20 anos atrás estão muito, muito vivas. E imaginar que ele tinha apenas 44 anos quando morreu, e com uma obra que o coloca entre os grandes da literatura do século 20, sem qualquer exagero.

Insubstituível.

Um abraço para você, Leminski, esteja aonde estiver. Você faz uma falta danada nestes tempos de caretice e poesia chata para caralho.


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ICEBERG



Uma poesia ártica,

claro, é isso que eu desejo.

Uma prática pálida,

três versos de gelo.

Uma frase-superfície

onde vida-frase alguma

não seja mais possível.

Frase, não, nenhuma.

Uma lira nula,

reduzida ao puro mínimo,

um piscar do espírito,

a única coisa única.

Mas falo. E, ao falar, provoco

nuvens de equívocos

(ou enxame de monólogos?)


Sim, inverno, estamos vivos.



(Paulo Leminski)


Sábado, Junho 06, 2009

MESMERISMO




Nova fagulha e doc, falha, fissura exata, prata do ocidente, rente, resto que não remanesce. Nasço como relva, revelada pela voz do verde que, adormecido, retém o tênue da areia residual do amanhecer e suas estrias de nuvens em suas redomas de chumbo e, hoje, volta completa sobre si e é ele, ou eu, agora, aqui: um sono e de noite e de novo trevas. Presenças ao redor da fogueira, vaga-lumes no banhado, imóveis, como estrelas no céu influenciam ao penetrar, sem dor, cada um de nossos poros, de uma pele mais antiga, o mais antigo papel.



Rodrigo Garcia Lopes (em Nômada, lamparina, 2004)

Quarta-feira, Junho 03, 2009

DE QUINTA A DOMINGO: SIMPOESIA 2009


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Experiência literária de quatro dias, que reunirá entre 4 a 7 de junho de 2009, poetas e críticos literários do Brasil e exterior, além de uma feira de editoras independentes de poesia do Brasil e Argentina promovida pela revista Grumo. Um encontro que envolve a troca de idéias, a exposição da diversidade intelectual e o intercâmbio artístico e cultural entre diversas expressões da poesia contemporânea. Curadoria: Virna Teixeira

Realização: Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo / Produção: Casa das Rosas e Organização Social POIESIS de Cultura / Patrocínio: Instituto Cervantes, Consulado do México e Centro Cultural da Espanha em São Paulo

Programação completa no site Http://www.simpoesia.wordpress.com.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

NESTA QUINTA EM SAMPA


Para quem estiver em Sampa:


CANÇÕES DO ESTÚDIO REALIDADE

Nesta quinta, dia 4, às 21 horas (entrada franca), na Casa das Rosas, (Av. Paulista, 37, Metrô Brigadeiro) dentro da programação do SIMPOESIA 2009 apresento Canções do Estúdio Realidade, um pocket-show que traz canções de meu primeiro CD, Polivox (2001) e músicas inéditas que farão parte de meu próximo disco, Também vou ler alguns poemas inéditos. Canções do Estúdio Realidade apresenta músicas novas, como “Pariso”, a balada “Vertigem”, o rap “New York”, musicalizações para poemas como “O Navegante” (de cerca de mil anos de idade).

Apresentação: Casas das Rosas, 4/6 às 21 h.
ENDEREÇO:
Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de poesia e cultura) - Av. Paulista, 37 – Bela Vista. Tel. 3285-3986.
Metrô Brigadeiro

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO SIMPOESIA 2009
AQUI:
http://simpoesia.wordpress.com/

Contato: simpoesia2009@yahoo.com.br

MYSPACE:http://www.myspace.com/ogirdor2009

ENTREVISTA HISTÓRICA COM GARY SNYDER PARTE 2 (Rodrigo Garcia Lopes)

A seguir, a segunda parte da entrevista com GARY SNYDER, com meu texto de abertura original (reduzido na versão impressa).

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Rodrigo Garcia Lopes (Especial para O Estado)


HICKORY - CAROLINA DO NORTE - Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat – o mais importante movimento literário e comportamental do pós-guerra nos Estados, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara em nossos dias: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã de nossa complexa paisagem cultural. No seu caso, como defende nesta entrevista exclusiva, seu papel tem sido o de ser uma testemunha da natureza, do mundo não-humano.

Ele já foi chamado de “o Thoreau da geração beat”. Faz sentido. Incansável ativista ecológico, Snyder vem repetindo pelo menos desde os anos 50 e 60 um mantra que se tornou comum nos dias de hoje: devido à nossa obsessão com o consumo e materialismo e nossa violência sistemática contra a natureza (ou o que ele chama de “guerra contra a natureza”) o ser humano está com os dias contados.

Incluindo gêneros como poesia, ensaio, diário, tradução e prosa, sua obra corresponde aos principais movimentos contraculturais americanos: dos beats, nos anos 50 e hippies, nos anos 60, até os movimentos ecológicos dos anos 80 (como o Ecologia Profunda) e os movimentos anti-globalização dos anos 90. Sua literatura está marcada por uma assimilação e um diálogo profundo com as religiões e as culturas do Extremo Oriente e dos índios norte-americanos, além de uma ênfase na ligação entre ética e estética num grau máximo. Poesia, na sua definição, é “um instrumento de sobrevivência ecológica”, “o uso inspirado e hábil da voz e da linguagem para incorporar estados mentais raros e poderosos”. Sua poesia meditativa soube fundir o legado de Whitman, Thoreau, Ezra Pound, William Carlos Williams com os preceitos básicos do budismo, da filosofia e da poesia oriental, além da mitologia dos índios norte-americanos. Poucos fizeram tal fusão com tamanha competência.

Desde que foi celebrado como herói contracultural no romance The Dharma Bums, de Jack Kerouac (1958), na figura do personagem Japhy Ryder, muita água rolou: depois de ser marinheiro, lenhador,guarda florestal e passar mais de dez anos vivendo no Japão como um monge zen-budista, traduziu poesia japonesa e chinesa (Han Shan, entre outros), viajou pela Índia e retornou para os Estados Unidos. Depois, construiu seu rancho nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, onde vive até hoje, teve filhos, ganhou o Prêmio Pulitzer em 1975 (por seu livro Turtle Island), e foi membro do conselho de artes da Califórnia. Atualmente, Snyder faz leituras e conferências por todo o país.

Seus livros mais recentes são Danger on Peaks: Poems (2004), espécie de diário poético, e Back on the Fire [de volta ao fogo], coletânea publicada no ano passado e que reúne ensaios sobre temas caros à Snyder, como o papel do fogo na preservação das florestas da Califórnia, poesia oriental, mitologia indígena, a “nova desordem mundial” e ecologia.

Ele nos recebeu no quarto do hotel em que estava hospedado na cidadezinha de Hickory, Carolina do Norte, enquanto se preparava para uma palestra numa escola local. Sua voz é grave, melódica, firme. Seu sorriso é gentil e jovial. A barba e os cabelos brancos, além dos vincos na face, contam toda uma história de vida e sabedoria, um conhecimento que este senhor de 78 anos compartilha com o leitor nesta entrevista exclusiva.


Lendo sua poesia em geral, tem-se a sensação de estar lendo um tipo de poema meio americano, meio chinês. Fica claro que você incorporou a economia da língua chinesa, além da apresentação direta, seguindo as fórmulas básicas tornadas famosas por Pound. Quão importantes foram as poesias chinesas e japonesas para você?

GARY SNYDER - Mas isso não é tão claro assim porque você não lê chinês! . O que você está querendo dizer é que eu incorporo o que, para você, parecem traduções chinesas em inglês. Então, vamos ser precisos, porque queremos ser internacionais aqui, é preciso respeitar línguas individuais e nem tudo está em inglês. Nós estamos no processo de criar uma linguagem moderna e pós-moderna em um sem números de línguas mundiais, e fico feliz em dizer que a poesia do Extremo Oriente tem dado uma contribuição importante para isso. Não se lê um poema original em chinês como um poema moderno em verso livre: ele é rigidamente formal, muito breve e estruturado: é uma coisa totalmente diferente. Uma das coisas que aprendi foi com a leitura de poemas chineses em chinês, mas isso não aparece, não deveria aparecer.

Como você vê a importância e a presença cultural das chamadas poéticas orais, ou da etnopoesia, na poesia americana contemporânea?

A etnopoética não teve muita influência, sinto dizer, em termos de quais são seus potenciais. A verdade é que pouquíssimos leitores e escritores se importam com as tradições orais. Para mim e para alguns colegas meus é um grande interesse, e acho que há muito a se aprender com elas, principalmente a importância da performance. Toda literatura oral é, por definição, apresentada Há muito a se aprender com elas, há todo um ensinamento que vai com isso, para explicar como as tradições orais - antes da descoberta ou invenção da escrita, ou em culturas que não tinham escrita - ainda assim podem ser tão ricas, como podem ter tantas canções e histórias nas tradições orais. Milhares e milhares de histórias e canções podem existir dentro de uma tradição oral. Como você deve saber, os textos fundadores da literatura ocidental, a Ilíada e a Odisseia, eram orais, para começar, e só mais tarde foram escritos. Mas na América do século 21 existem formas contemporâneas praticadas como performances orais que ainda podem ser testemunhadas. Hoje o mais próximo disso são as "poetry slams" [competições de poesia falada], onde os poetas têm que memorizar seus poemas e fazer uma apresentação inteiramente oral. A arte da performance - onde geralmente o poeta ou o artista é também o "performer" - as performances beiram o teatro, dança, ritual e cerimonial: todas essas são qualidades da arte oral. A maioria de nós não está praticando isso, mas é algo que aprendemos e respeitamos. Nas poéticas orais a linha entre poesia e prosa não é tão clara, porque toda as tradições dramáticas de narrar estórias são métricas e rítmicas, e é como uma forma de verso livre solta ou até concisa. Se você já assistiu uma sessão de narração tradicional, e ainda há muitos indígenas especialistas nisso, contadores de histórias vivos, que às vezes cantam ou semi-cantam. Na Ásia Central há uma tradição forte na Mongólia, no Azerbaijão ou na Turquia. Nestes lugares ainda se pratica isso, embora eles tenham escrita. Nossos romances em prosa são artificialmente chatos e planos de certa maneira. E as histórias não seriam bem recebidas se fossem escritas como os contos. Dennis Tedlock, que é um estudioso proeminente da literatura oral, e cujo campo é a antiga língua e a narrativa maia, e ele também trabalha com as tradições Zuni do Sudoeste dos EUA. Ele desenvolveu um sistema de escrever estórias, em inglês, tal como são contadas, com versos de extensões diferentes e diferentes tamanhos de fontes: fontes grandes para vozes altas e pequenas fontes para vozes suaves, e fontes minúsculas para sussurros. É muito bom e rico o que ele fez, mas ninguém aprendeu muito com isso. Nós apoiamos da boca pra fora as tradições orais mas a maioria das pessoas não conhece nada sobre isso.

E isso reflete o caráter marginal das culturas indígenas na cultura norte-americana.

Claro que estas culturas são marginais, todo mundo sabe disso. Embora eles tenham uma proteção legal e uma voz forte eles são numericamente pequenos. E claro que a tradição oral não é nativa só dos EUA: ela se encontra também na América do Sul, no sul da Ásia, e por toda a África, e está presente ainda aqui ou ali na Europa, mas não há ninguém fazendo algo com isso realmente. Eu diria que a tradição oral mais viva na cultura americana são as piadas sujas.

http://www.news.ucdavis.edu/photos_images/news_images/04-2009/snyder_gary.jpg

Desde o começo da colonização norte-americana, o padrão da invasão do continente pelos europeus foi de violência, de negação do outro, e do holocausto das populações nativas e suas culturas. Você poderia falar sobre o "trauma" presente na mente norte-americana, já que você escreveu que "o índio americano é o fantasma que se espreita no fundo da perturbada mente americana"?

Quando escrevi isso acho que estava citando D. H. Lawrence. Bem, isso é apenas parcialmente verdadeiro. Há outros fantasmas à espreita na cultura americana, até mesmo mais conscientemente presentes agora como, por exemplo, a história do tratamento dos afro-americanos, da escravidão. Nos últimos vinte e cinco anos têm sido publicados livros que tem explorado isso de forma mais aberta e profunda, trazendo anais específicos, listas, dados econômicos, nomes, com informações atordoantes que não existiam quando eu era estudante. A mudança no estudo da história afro-americana na América é significativa, brutal, honesta. As pessoas por toda a América do Norte estão muito mais conscientes disso, não só os afro-americanos. Isso muda o diálogo para melhor, é ainda um território que ainda não foi lidado psicologicamente. Legalmente, estão trabalhando em cima disso, mas espiritualmente ainda há um longo caminho a se percorrer. Porque toda hora vemos uma quantidade de reacionarismo branco nos dias de hoje - particularmente na administração Bush - contra todas as políticas universitárias de inclusão, de ajuda especial para estudantes de minorias.

Isso também tem acontecido no Brasil nos últimos anos. O que pensa sobre isso?

Claro que sou a favor. O Brasil tem uma história de escravidão tão grande quanto os EUA. Acho uma coisa boa, com certeza, e que pode aumentar a discordância, mas acho que é algo necessário pela qual tem que se passar necessariamente. É muito importante apoiar jovens que pertencem à minoria para obter uma melhor educação e curso superior e para se mover mais para o centro da sociedade, mesmo que isso signifique se juntar à classe média capitalista prevalecente. Como no feminismo: há uma linha que é politicamente radical e outra que quer entrar na classe média branca capitalista e apenas fazer dinheiro, o que não me interessa, mas isso sem dúvida serve para abrir o diálogo.

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Quando estudamos a história da erradicação das populações indígenas norte-americanas, o que surpreende é a rapidez com que ela ocorreu. Vemos a persistência deste padrão acontecendo agora, por exemplo, desde a invasão do Iraque, com uma ignorância e desrespeito totais pelo outro e sua cultura, pelas culturas nativas. A doutrina do "Destino Manifesto", formulada no século 19, continuaria a ser uma parte importante da política estrangeira norte-americana?

Você sabe, isso não é poesia, é política, e não estou querendo falar muito sobre política. Cada pergunta sua eu poderia responder por meia hora . Eu é que lhe pergunto: o que a poesia tem a ver com poder político? O trabalho do artista, dos poetas, dos escritores, continua o mesmo: como diriam os Quacres, é testemunhar, ver o que está acontecendo em seu próprio tempo e falar deste ponto de vista. Honestamente, outros leitores vão aprender e se beneficiar com isso. O papel mínimo do intelectual é ser um porta-voz, uma testemunha. Meu papel é o de ser uma testemunha da natureza. Embora eu esteja consciente desses temas e problemas raciais e econômicos em nossa cultura, o papel que eu tenho exercido na minha poesia e na minha prosa nesses anos todos têm sido o de estar profundamente envolvido com o mundo não-humano, o mundo natural.

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Japhy Rider/Gary Snyder, herói do romance The Dharma Bums, de Jack Kerouac.

Como você vê a situação do ser humano hoje? Não se pode ignorar que as coisas estão preocupantes, como o terrorismo internacional, a crise ecológica e o aquecimento global, a pobreza de bilhões de pessoas, guerras, violência. Sua poesia frequentemente lida com temas como sobrevivência, comunidade, amor à natureza. Como você vê problemas como esses hoje, além da superpopulação, que você sempre menciona em seus livros? É possível ser otimista?

Não, claro que não é possível ser otimista em relação a nada hoje em dia. Mesmo que não nos preocupássemos com o meio ambiente, mesmo assim, não há razão para ser otimista. Isso por causa do enorme desequilíbrio econômico no mundo todo. Mesmo nos EUA e também no Brasil há a diferença imensa entre as classes mais afluentes e as mais pobres. Nos EUA essa diferença está aumentando o tempo todo. Essas coisas devem ser entendidas em termos de dinâmica histórica, e que ainda está com a gente, o que Marx chama de luta de classes. Na política americana ninguém quer falar sobre luta de classes hoje mas, sem dúvida, é uma parte importante do que está acontecendo. Há uma outra abordagem para essas coisas que eu gostaria de levantar: o mundo humano, com todos os seus problemas, ainda está separado da natureza, ele não entendeu a condição do mundo natural. Você abriu sua pergunta com a pergunta "qual é a situação humana"? E eu pergunto: qual é a situação da natureza? O problema, no mundo desenvolvido, é que os seres humanos são totalmente colocados, sempre, em primeiro lugar. Isso ocorre tanto na tradição científica quanto na religiosa e espiritual, que correm paralelamente. As religiões abrâmicas - como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo - compartilham o mesmo mito fundador como a história de Abraão no livro do Gênesis e na Torá. Dos dez mandamentos, o mais importante e o que é lembrado pelas pessoas é "Não matarás", mas isso só se aplica aos seres humanos, e muitas pessoas no ocidente nem sequer percebem isso. Isso evidencia um fracasso moral profundo dessas tradições religiosas, e uma fonte de dificuldade considerável. A tradição científica que se desenvolve nos séculos 16, 17 e no Iluminismo europeu, em particular através de René Descartes, impõe uma visão dualista do mundo e de nossas mentes. É a ideia de que a mente e a matéria não se interagem e que os seres humanos e a inteligência humana estão destinadas a encontrar um modo progressivo de fazer um uso melhor do mundo. O mundo natural é visto apenas do ponto de vista materialista e científico, meramente enquanto um provedor de recursos naturais, como pedrisco, ar, água, peixe: como coisas a serem usadas. É visto como algo para ser usado, como uma grande depósito de madeira. As visões judaico-cristã e islâmica também defendem a posição de que os seres humanos são as únicas criaturas na Terra que têm uma fé divina em potencial, de modo que eles estão destinados a ir para o paraíso. Já os demais seres vivos não teriam tal destinação. Eles são tratados meramente como objetos sobre a mesa, e que algumas vezes exercem apenas a função de personagens em nosso drama de salvar nossas almas, mas eles não evoluem e não vão com a gente. Esta é uma deficiência imaginativa e de preocupação moral tão profundamente embutidas no pensamento do mundo desenvolvido que uma das tarefas das pessoas é chamar a atenção para isso e, assim, abrir o coração para a compaixão. Não só para falar para e pelas pessoas da minoria e pessoas que estão sofrendo mas também para a condição do mundo animal, das plantas, florestas, da água, dos oceanos. Este é um trabalho que mal começou. A preocupação com o aquecimento global leva em conta isso simplesmente porque as mudanças serão tão drásticas, mas o relatório que é mais conhecido trata da possibilidade real do desaparecimento dos ursos polares, em decorrência do desaparecimento do gelo no Pólo Norte. Com certeza haverão cada vez mais casos assim. É interessante como esses temas têm surgido cada vez mais na mente das pessoas. Essa crise ecológica não é algo que vai perturbar a natureza e sim os seres humanos! O mundo natural, que é mais amplo, um processo vasto de milhões e milhões de anos, pode se ajustar às mudanças climáticas. Os seres humanos é que estão preocupados com o que vai acontecer! A natureza pode cuidar de si mesma.

Você foi um dos fundadores do movimento da Ecologia Profunda. E como você vê o movimento ecológico hoje, especialmente nos EUA?

Quando comecei a escrever poesia a ideia de um escritor se interessar por ecologia, pelo mundo natural e por filosofias orientais soava como algo bizarro para a maioria das pessoas. Achavam que eu deveria ser eurocêntrico. Agora creio que há uma maneira mais cosmopolita de se perceber as coisas, por isso as entrevistas se tornaram um pouco mais interessantes. O governo Bush se voltou contra o movimento ecológico. Hoje há duas correntes, eu diria: num nível nacional, um grupo que trabalha como um organização, um lobby, com escritórios em Washington, e que tenta mudar a legislação. Do outro lado, grupos regionais e locais que estão em toda parte, existem as pessoas que estão trabalhando em suas próprias regiões e bacias hidrográficas, a maioria sendo voluntária, e que são pessoas comprometidas em trabalhar com temas locais, e estes estão trabalhando muito bem. Em todo o país, ambientalistas regionais e locais têm chegado a algum tipo de consciência sobre o mundo não-natural, e também uma compreensão maior sobre a viabilidade da natureza. Isto se vê no movimento das bacias hidrográficas: as pessoas entendem que as bacias são ecossistemas em si mesmos, e que através da compreensão da qualidade da água é possível saber o que está errado com nosso sistema. E também há o tema da biodiversidade, o que significa potencialmente perder muitas espécies causada pelo comportamento humano, como a pesca predatória, ou intolerância aos lobos no norte das Montanhas Rochosas, ou com os ursos pardos e outros grandes animais. Em geral, as pessoas acham que a natureza é uma inconveniência . As forças econômicas que impulsionam o desmatamento excessivo na bacia amazônica ou na Indonésia, através de companhias japonesas e chinesas, são um problema global. Por isso, uma das primeiras áreas a ser corrigida é a imaginação humana do mundo. Costumo dizer que a imaginação humana do mundo existente num haiku pode ser a mesma que vai salvar o mundo. Essa imaginação que leva em conta o outro, que neste é caso é simplesmente o outro, o não-humano.

Nos EUA, desde o começo da colonização, existiam alguns caçadores que tinham essa consciência da importância de se integrar à natureza. No entanto, a visão dominante tem sido a da natureza como nossa inimiga. Qual é a origem disso?

A ideia de natureza como algo a ser conquistado e destruído vem principalmente da tradição judaico-cristã, sendo posteriormente reforçada pelo urbanismo europeu e por atitudes mentais ao chegarem no mundo novo moderno, na América moderna, puritana e cristã, para quem a vida selvagem era uma analogia das profundezas obscuras da natureza humana. Pessoas que viviam nas florestas, como os índios, tinham uma vida sexual diferente, mais livre, e que os puritanos queriam a todo custo reprimir. Isso é bem conhecido já nos primeiros estudos de ingleses e franceses que fizeram contato com a América do Norte. Isso é parte do nosso conhecimento de como a psiquê anglo-americana e europeia foi moldada por uma imaginação cristã ao ser confrontada com uma paisagem nova e vasta, a qual não era cheia de estradas e cidades. E há toda uma história sobre isso, contada em detalhe em livros como The Wilderness and the American Mind, de Roderick Nash. O contraste com o mandamento "não matarás" é encontrado no Hinduísmo e no Budismo, é a ética do Extremo Oriente que diz: "cause o mínimo mal e não mate nada a não ser que você precise realmente". Isso inclui toda a vida, plantas, e até mesmo a vida não-consciente. O grau de ética e preocupação com relação à água, ao solo, pedras - como fazem as crianças quando dizem "não machuquem aquela rocha, ela pode ter sentimentos". O mundo tem sentimentos.

Então o que precisamos é de mais Budismo?

Bem, o Budismo aponta um caminho. Não é preciso se tornar budista para perceber que não é só o mundo humano com o qual temos que nos preocupar, mas também com o chamado mundo não-humano. Este é um detalhe tão pequeno, mas tão profundo. E agora existem movimentos ecológicos cristãos que estão reconhecendo isso, grupos pequenos que estão começando a vir à tona, como o Cristianismo Verde.

É possível traçar uma linha de americanos outsiders, que fundem cultura e natureza, uma ética transcendentalista que recorre em momentos da história americana? Você se vê como parte de uma tradição?

Claro que sim. Aprendi muito com Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson ou Walt Whitman, mas não vejo a ideia do Transcendalismo e do Romantismo estão ressurgindo. Essa visão não é muito útil. Não é assim que as coisas acontecem, porque as influências estão constantemente correndo juntas. Todas essas coisas são simplesmente componentes do passado e o presente corre adiante. Eu diria que um dos componentes mais fortes do passado do mundo desenvolvido é a história de Abraão, a ideia de que Jeová deu a algumas pessoas a Terra Prometida. Que ideia intoxicante! A ideia de que aquela terra foi prometida a você, mesmo que exista gente morando ali, você pode ir lá e se apropriar. Foi isso que os judeus fizeram com Canaã, e foi isso que os europeus fizeram com a América do Norte, que eles a chamaram de "a Terra Prometida". Você já havia pensado nisso? A Califórnia era chamada de Terra Prometida quando as pessoas estavam se movendo rumo ao Oeste, só que já havia gente morando nela! . Nós não temos que nos preocupar com quem está lá porque nos foi prometida, Deus nos deu, é a promessa divina da Torá, da Bíblia, é parte do pacto de Abrãao. Isto não é só falar de religião enquanto uma abstração, leia de novo o livro do Gênesis para entender o que estou querendo dizer. Nós não tínhamos conhecimento deles mas assumimos que era nossa. Já a ideia do "Destino Manifesto" é apenas uma outra maneira de invocar essa psicologia da Terra Prometida: o governo central americano do século 19 daquele tempo afirmava que toda a América do Norte havia sido prometida a nós.

Numa entrevista ao tradutor e ensaísta Eliot Weinberger, você argumenta que "nós pensamos antes da linguagem, e imagens e ideias se tornam linguagem em determinado ponto. Nós temos processos de pensamento fundamentais que são pré-linguísticos. Parte de minha poesia remete a isso". A linguagem não seria simultânea ao pensamento? Não vivemos em estado permanente de linguagem? É possível estar totalmente separados da linguagem?

O que você acha?

Acho que estamos imersos na linguagem o tempo todo, de um modo ou de outro.

Bem, então você precisa investigar mais sobre isso. É para isso que nós meditamos: para investigar profundamente nossas próprias mentes e realmente ver - ao sentarmos e nos observar enquanto pensamos, observar o que a mente está fazendo sozinha dentro de você - em que momento e o quanto esse processo é linguístico. Você me perguntou antes sobre Zen. Como eu cheguei à essa conclusão a que você se refere? Depois de ter meditado milhares de horas e de ter realmente trabalhado em cima disso, e eu queria ver de onde vinham meus pensamentos. Esta é minha resposta. Para qualquer pessoa que diga o contrário eu diria, "tente você mesmo". Mas não aceite isso como apenas uma ideia: essa é um ideia popular e pós-moderna, a de que todo pensamento é linguagem. Ok, mas é apenas uma ideia. Mas você já investigou essa ideia? Como você sabe disso? É só uma opinião, ou você está repetindo o que outras pessoas disseram? Ou é algo que você aprendeu olhando dentro da sua própria mente? É só o que posso lhe dizer: olhe para sua própria mente.

Não poderia deixar de perguntar sobre sua relação com Jack Kerouac, que o transformou em personagem principal do romance The Dharma Bums [os vagabundos do dharma], de 1958? [Snyder ri]. Ele parece que tinha um carinho especial por você, tendo sofrido influência sua.

Eu não sei se tive tanto contato assim com Jack, em comparação a outras pessoas, especialmente depois que fui pro Japão. Jack e eu dividíamos uma casinha em Marin County, perto de San Francisco, no outono de 1955 e no começo da primavera de 1956. Cozinhávamos e vivíamos juntos neste lugar pequeno e simples. Não tínhamos eletricidade. Morávamos numa casa inacabada e sem janelas. Fazíamos trabalho florestal e fizemos longas caminhadas juntos nas montanhas. Eu fui embora pro Japão em maio de 56, e depois nunca mais o vi.

Sério?

Sério. Estive por doze anos no Japão. Mantivemos certa correspondência por um tempo. Seus editores me mandaram On The Road e The Dharma Bums quando foram publicados. Jack pediu desculpas por me colocar no livro, mas eu fui apenas um modelo artístico para o personagem Japhy Ryder. E ele me devia mesmo desculpas porque ele me causou alguns problemas. Desde então, ao longo dos anos tenho tido que explicar que não sou Japhy Rider! . Minha vida e personalidade foram apenas um modelo para o personagem, que vai lá e faz outras coisas no romance que eu nunca fiz. Para se dar algum crédito a Jack, devo lembrar que ele não era um jornalista e sim um romancista. Fiquei um pouco irritado com algumas pessoas tomando o personagem como um modelo. Minha correspondência com ele geralmente tratava mais de aspectos do Budismo. Ele tinha compreensões muito doces, tinha coração doce e profundo. Não importa outros problemas que ele tivesse, confusões sobre sua sexualidade, sobre sua mãe, e bebida demais. Mas ele tinha um bom coração, e no fim da vida parou de escrever e foi cada vez mais fundo em seus problemas, e então ele se virou contra Allen Ginsberg! Acusou Allen de ser judeu, entre outras coisas. E no fim se voltou para sua herança católica.

Você acha que a poesia perdeu sua força cultural nos EUA, como possuía na época da geração beat?

Veja, a poesia vem e vai. Forças culturais são ocasionalmente acidentes. Através da história, vemos que, quando o tempo é apropriado, o escritor certo aparece como uma força cultural. Não é que a literatura seque e vai embora, é que cada época tem sua peculiaridade. Somado a isso, vivemos na era da mídia eletrônica. Quando me perguntam sobre qual é a influência da mídia sobre a literatura eu respondo que linguagem é linguagem: ela ainda é o instrumento mais maravilhoso que possuímos. Nada vai substituí-la. Os escritores e poetas são aqueles que estão mais atentos à linguagem. A linguagem sempre continuará com a gente.

Você foi membro do Conselho de Artes da Califórnia. Qual é sua opinião sobre políticas públicas governamentais para a literatura e as artes?

Eu tenho sentimentos variados este assunto. Não tenho dificuldade nenhuma em ver as artes enquanto negócio, em ver um artista que pode ocupar seu lugar no mercado de arte e ver quão bem ele se sai. Isso se dá especialmente no caso do romance, que certamente compete no mercado. Mas há outras artes que, por várias razões, não podem competir no mercado, e outras que não têm absolutamente entrada no mercado, como a poesia. É simpático apoiar a poesia com fundos mas você não precisa do governo para isso, para fazer uma pequena publicação. A poesia é sempre uma arte marginal, sempre semi-subterrânea, e é uma arte de comunidade. Não é uma carreira: é uma vocação. Você é levado a ela, é um dom. Você não deve se preocupar se está fazendo dinheiro ou não com poesia. O que você precisa fazer é trabalhar com a sua comunidade. É uma coisa cultural. As culturas tradicionais não precisam de dinheiro do governo, precisam é de apoio da comunidade, isso sim. Sim, as artes precisam de apoio da comunidade, mas não quero falar sobre dinheiro governamental. Pra dizer a verdade, o governo norte-americano ferrou com a arte neste país, especialmente em nossos dias.

Em Back on the Fire você fala sobre o controle florestal através do fogo, o que pode parecer paradoxal para algumas pessoas. Você escreve sobre como a saúde ecológica das florestas da Califórnia, especificamente, dependem em parte desses incêndios periódicos. Poderia falar mais sobre isso?

Eu uso o fogo como uma metáfora interessante. Na diretriz de gerenciamento florestal nos EUA e no mundo, por mais de cem anos o fogo florestal era considerado como um tipo de inimigo. Consequentemente, toda vez que aparecia um incêndio florestal, mesmo que pequeno, ele era apagado imediatamente. A metáfora era ressaltar e identificar o fogo como perigoso e demonizá-lo. Então perceberam que, ao se apagar pequenos incêndios, de repente isso apenas aumentava a chance de imensos incêndios, que é o que temos tido, principalmente na costa oeste dos EUA. A falha é toda nossa. A metáfora que uso é social, política e espiritual: a questão é como não demonizar coisas que são simplesmente inconvenientes. Como usar o fogo, por exemplo, como amigo. E isso pode ser aplicado a muitos territórios da vida humana, como na política. Pegue o exemplo da guerra no Iraque: a rejeição da diplomacia por parte da administração Bush, desde o começo, e que teria resolvido o problema, e a pressa e voracidade em começar esta guerra, desinformação fantasiosa, é um caso de se querer demonizar e de se recusar a ter um entendimento maior, e uma negação de ser tratar a questão de um modo mais gentil, e é exatamente sobre isso a que o título do meu livro se refere. Como fazer do fogo - algo que se costuma pensar como um inimigo - um aliado? E é exatamente isso que os EUA tem tratado, oficialmente, em relação ao problema da imigração, sobre o qual também trato no livro.

Em 'Back on the Fire' você traça diferenças entre migração - que historicamente é um processo natural - da imigração, que assume, por definição, o sistema de estado-nação, como sendo um problema político. Já Michael Hardt e Antonio Negri, em Império, afirmam que a ideia de estado-nação está em desuso, que não é mais possível pensar o mundo em termos de estado-nação.

A migração é algo que tem acontecido através dos tempos, era uma questão de populações se movendo livremente de um lugar para outro. Quando os ancestrais dos índios norte-americanos vieram da Ásia para a América do Norte provavelmente não haviam pessoas aqui. Foi uma migração sem problemas. Mas a imigração se torna um problema quando as fronteiras nacionais já existem. Isso o força a pensar o que é uma fronteira, como torná-la porosa, e quando se fecha uma fronteira e por quais motivos. No meu ponto de vista é imperativo se pensar em termos de capacidade ecológica, em algum momento, simplesmente porque, por estarmos presente aqui, nós temos uma obrigação não só para a nossa sociedade mas para a Terra em si mesma. Mas de fato as fronteiras entre os EUA, Canadá e México são algo inúteis neste momento. A administração Bush está construindo uma imensa muralha na fronteira com o México, e agora estão fazendo isso no Arizona. É só para mostrar serviço. Ela não só não será terminada como não resolverá os problemas. Vamos ver o que acontece depois do Bush, com certeza algo melhor ou pelo menos diferente vai acontecer. É o que todos esperamos.

Você diz que não se considera um americano mas um habitante de Turtle Island [ilha da tartaruga]. Como é isso?

Não gosto da palavra América. Quem é esse cara, Américo Vespúcio, que nem esteve aqui? "Turtle Island" é um nome que os nativos americanos davam para o continente norte-americano. É um nome charmoso, eu gosto mais, o faz pensar de uma maneira diferente. "América" se aplica aos últimos quinhentos anos de história, quando os europeus chegaram aqui. Já "Estados Unidos" é um termo que se aplica a mais ou menos duzentos anos de história. Quão velha é a palavra "Brasil"? Quinhentos anos ou mais? "Turtle Island" é um nome que existe há milhares de anos, e quando uso o termo estou apenas tentando lembrar as pessoas de que este é um continente antiquíssimo. Sua origem e história são geológicas e mitológicas. Quando usamos o termo "Turtle Island" estamos nos referindo a um lugar que existe há milhões de anos, com uma presença humana de 40 a 50 mil anos. E é por isso que "Turtle Island" é um bom termo, coloca o tempo sob outra perspectiva. Não sei que nome seria mais adequado para a palavra "Brasil", ou "América do Sul". Isso é com vocês.



Este blogueiro e Snyder, em Hickory, Carolina do Norte. Um encontro esperado por mais de quinze anos.

Domingo, Maio 31, 2009

ENTREVISTA COM GARY SNYDER (por Rodrigo Garcia Lopes)

http://www.poetryfoundation.org/images/features/SnyderGary500.gif

O Estadão de hoje publicou a entrevista que fiz com o poeta, tradutor e ecologista GARY SNYDER, um dos últimos remanescentes da geração beat. Ele foi um dos entrevistados para o documentário que Walter Salles Jr. está preparando sobre a beat generation. Eu o entrevistei na cidadezinha de Hickory, na Carolina do Norte. A conversa aqui está na íntegra. Divirtam-se com a lucidez e sabedoria de um velho mestre. Vamos por partes:


sábado, 30 de maio de 2009



'Preciso estar pronto para a poesia'

Para Gary Snyder, a escrita em versos é uma surpresa a partir de uma ideia 'que vem de outra parte'


Rodrigo Garcia Lopes - Especial para O Estado


HICKORY, CAROLINA DO NORTE - Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder, aos 79 anos, pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara na atualidade: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã da complexa paisagem cultural dos dias atuais. Seus livros mais recentes são Danger on Peaks: Poems (2004), espécie de diário poético, e Back on the Fire, coletânea publicada em 2007 e que reúne ensaios sobre temas caros a Snyder, como o papel do fogo na preservação das florestas da Califórnia, poesia oriental, mitologia indígena, a "nova desordem mundial" e ecologia - sobre os quais ele fala na entrevista a seguir, realizada na cidadezinha de Hickory, Carolina do Norte.

'Danger on Peaks: Poems' foi publicado em 2004. Por que você demorou tanto para publicar poesia novamente (seu último livro dedicado ao gênero havia sido ‘Mountains and Rivers Without End’, de 1996)? O senhor acha que às vezes é mais importante viver do que escrever?

Estou sempre escrevendo poemas. Quando me sinto estimulado a escrever? Quando me sinto estimulado a escrever! A poesia não é prosa: na prosa você pode se atirar e se forçar a escrevê-la. Já com a poesia é preciso esperar que a voz chegue até você. É uma questão de inspiração, de se conseguir uma ideia criativa que o surpreende e que vem de outra parte. Meu trabalho é sempre estar pronto para a poesia. A escrita de um novo poema é sempre uma surpresa.

No poema 'Waiting for a Ride' (esperando uma carona), do último livro, você escreve: "a maior parte de minha obra / tal como é / está feita". Como você vê seu trabalho, retrospectivamente? Quais poemas você acha que sintetizam sua poética?

Meu trabalho é tão diverso, e há tantos tipos de poemas, que existe um ecossistema literário inteiro aí. Não há um exemplo de um poema em particular que eu sinta interesse, orgulho ou que eu tenha preferência, mesmo porque eles servem funções diferentes. Cada um tem um papel: não fosse assim, eu não deixaria ser publicado.

http://www.wlbooks.com/wlb455/images/items/31753.jpg

Que paralelos você traça entre Zen e poesia, em seu caso? Seus poemas incorporam a precisão e concisão da poesia chinesa e japonesa, e a percepção detalhada e afinada cara ao Budismo. Como a poesia e arte chinesa e japonesa afetaram sua sensibilidade?

Esta é uma questão interessante. Em primeiro lugar, é preciso fazer uma distinção entre a sensibilidade Ch'an (ou Zen) e as artes. Nem todos os grandes artistas do Extremo Oriente - que são Japão, China, Coreia e Taiwan - foram necessariamente influenciados pelo Zen, mas um número surpreendente o foram, especialmente durante as dinastias chinesas S'ung e T'ang, bem como durante boa parte da história do Japão. No entanto, é preciso fazer uma distinção entre poética e trabalho artístico e algo como a prática Zen. A prática Zen o distancia da arte: ela é uma prática de meditação e de investigação profundas e, enquanto tal, não está preocupada com expressão ou representação. Claro que a prática Zen está preocupada com a comunicação, e ela tem seus próprios métodos de se comunicar que estão embebidos na literatura Zen, com o ensino da literatura, em coleções como o Mumonkan, ou O Portal Sem Portão, ou os escritos extraordinários do filósofo Dôgen [(1200 - 1253), fundador da escola Soto de Zen Budismo], no século 13. Qualquer artista pode aprender muito com a leitura destes textos, mas eles não representam a poesia em si. A psiquê estética do Extremo Oriente sempre valorizou a concisão, a observação clara, a condensação, o registro direto da experiência. Em parte, isso acontece porque ela não tem uma carga teológica ou ideológica a dirigindo, como acontece em toda a literatura europeia pós-romana e cristianizada, que possui na maioria das vezes um componente teológico do qual é muito difícil se livrar. Por isso, a poesia chinesa do século 8 soa muito moderna porque fala de história, de amizade, de ideias culturais, bem como ser uma resposta direta para o mundo natural. Este é um caso interessante, como no caso de tradições japonesas como o haiku, sobre a qual escrevo bastante em Back on the Fire. O haiku agora é um valor internacional, sendo ensinado em toda parte. Falando nisso, há inclusive alguns haikaístas nipo-brasileiros maravilhosos, e que escrevem tanto em português quanto em japonês.

Em Back on the Fire você fala elogiosamente de Masaoka Shiki, por exemplo. Quem são os melhores haikaístas, na sua opinião?

Ah, não respondo perguntas como essa. É como comparar laranjas e maçãs.

Você acredita que existe uma imaginação haikaística? Como ela pode ser aplicada a poemas mais longos, como seu 'Mountains and Rivers Without End'?

Em primeiro lugar, é preciso separar a forma do haiku da imaginação do haiku. Nem todos os poemas curtos e breves são haikus. Isso é uma coisa que tenho que explicar muitas vezes, como fiz recentemente para um alemão que me entrevistou por e-mail. Ele queria que eu dissesse que todo poema curto é um haiku. Não é este o caso. O haiku tem uma estética específica e, neste sentido, quero dizer que o que existe é uma imaginação do haiku. As pessoas tropeçam nela mas nem sempre a obtém, a tem, ela é aberta, fresca e sem ego, mas não sempre está no "momento" ou nem sempre é "zen". Este é um assunto complicado, não é tão simplório quanto pode parecer. Não gosto de chamar de haiku os poemas escritos em poucas linhas, a menos que eles se encaixem de fato dentro da estética do haiku. Acho maravilhoso que pessoas na Dinamarca, Itália, Estados Unidos ou no Brasil, sobretudo crianças, estejam aprendendo haiku nas escolas ou escrevendo poemas curtos influenciados pelo haiku. É bonito isso, mas não precisa necessariamente ser haiku. É mais útil dizer que o haiku é um poema japonês escrito numa forma específica mas nem todos os poemas japoneses curtos são haikus. Sugiro a leitura de um livro excelente, escrito por Haruo Shirane, Traces of Dreams: Landscape, Cultural Memory, and the Poetry of Basho [rastros de sonho: paisagem, memória cultural e a poesia de Bashô], que é a primeira descrição bem informativa e de senso comum do mundo social em que o haiku se desenvolveu no Japão dos séculos 18 e 19. O haiku também é um fenômeno sociológico.

http://contentcafe.btol.com/Jacket/Jacket.aspx?SysID=Jacket&CustID=Image&Return=1&Type=L&Key=1593761376

Há alguns anos o haiku está em voga no Brasil. Alguns críticos, no entanto, têm dito que ele tem tido uma influência negativa na nossa poesia, se tornando um maneirismo, uma maneira "fácil" de escrever poesia. Poucas pessoas sabem, como você afirma em Back on the Fire, da enorme influência que o haiku teve sobre o modernismo.

O que chamamos de influência do haiku na poesia moderna, pelo menos na poesia escrita em inglês, é a influência sobre o Imagismo, e claro que Ezra Pound fez parte disso em algum momento. O haiku não é necessariamente Imagismo, nem uma imagem. De fato, muitas vezes são duas imagens justapostas que se intersectam. Mas outra coisa que não é realmente percebida é que o haiku é escrito em japonês. Isso significa que a gramática é totalmente diferente,a gramática é totalmente fora do quadro de qualquer coisa que conheçamos nas línguas germânicas ou românicas. Parte do poder de um haiku japonês é o que ele faz em termos de sintaxe. Você sabe o que isso significa? Em primeiro lugar, no japonês os verbos sempre aparecem no fim da frase, mas não se usa frases no haiku. Se o jogo sintático é uma parte da força do haiku, como alguém que não conhece japonês pode apreciar isso? Do mesmo modo, há muitas coisas na poesia portuguesa e inglesa que só pertencem a essas línguas e que somos incapazes de traduzir. Então não devemos nos preocupamos com isso. No entanto, entendo que a escrita de um poema curto pode virar um maneirismo. Mas isso passa. Podemos aprender algo com o modo como o haiku funciona na escrita de poemas longos? Em relação ao poema longo, a questão é mais sobre o que podemos aprender com o Imagismo em relação à escrita de poemas longos, o que já foi demonstrado por Ezra Pound, como algumas coisas que ele fez em seus melhores "Cantos". Muitos não são muito bons. Ele apontou uma maneira, e muitos modernistas da primeira metade do século 20 tocaram no que o Imagismo pode fazer. Eu uso pequenas imagens precisas disso ou daquilo o tempo todo em minha poesia, inclusive em poemas mais longos. Suponho que tenha aprendido isso com o haiku e com o Imagismo, mas para dizer a verdade nem costumo pensar sobre isso.


fim da parte 1

http://www.altmanphoto.com/altman_snyder_ginsberg.jpg

Snyder, Ginsberg ao fundo, anos 60

Sexta-feira, Maio 29, 2009

O LUZINADO


"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"

"Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um bobão"




Lembra dessa? Tá no Iluminado, do Kubrick, com Nicholson arrasando. Que filme do caralho. Imperdível. E sempre reassistível. (O que será que Dorival Caymmi diria em resposta?).

Quinta-feira, Maio 28, 2009

TEM TAINHA NA REDE



As estrelas da festa, flagradas no exato instante em que saíam de uma balada, fugindo do assédio dos peixerazzis..... (foto: Tástôlo Associated Press)


Enquanto milhões de pessoas acompanham as celebridades dos Big Bloggers, Big Brothers, Fama, Dança dos Famosos, etc etc meus amigos Fernando Alexandre e Andrea Ramos acompanham a chegada das tainhas no Pântano do Sul, em Floripa. Quando morava lá sempre via como as pessoas ficavam em maio, com a temporada da tainha. Um evento que une a comunidade numa atividade coletiva, quase um ritual que traz à tona a cultura atávica dos manezinhos, esta gente simples e apaixonada pelo mar. É-é-é.

Vou te dizer-te uma coisinha pra ti: os vigias, posicionados dos altos das dunas, em lugares estratégicos, ficam como monges zen-budistas com os olhos e a mente atentos para uma aproximação de um cardume ou manta de tainha, vinda do sul. Elas saem, lá de longe, da cloaca da Lagoa dos Patos, e vêm subindo, subindo, numa longa viagem. A frente fria e o vento sul dando as condições ideais para a chegada de milhares delas, lindas e, sobretudo, deliciosas.

De longe, o vigia acena a camisa negra quando avista um lanço, -- sacando o cardume pelo eriçar na água e por outras técnicas que eles não confessam -- indicando para os pescadores já posicionados do outro lado da praia o número de canoas necessárias para o cerco e o arrasto da rede de terno. Sem dizer que antes, através de um grito de u-u-u-u que percorre a vila em tempo recorde, atraindo as pessoas para a praia, que fica cheia num lance de mágica. Ou de peixe. Tudo muito simples, tudo muito mágico. Tá no blog: "arrastados para a praia, as tainhas são contadas e divididas entre os donos das parelhas (canoas e redes), os camaradas que fazem parte das listas de pesca e também por todos que ajudaram a puxar a rede. Se o lanço for grande, não fica ninguém sem ganhar o seu peixe. À noite, praticamente todas as casas do Pântano do Sul exalam o delicioso cheiro de tainhas fritas ou assadas".

O Fernandão e a Andrea estão lá acompanhando a chegada dessas estrelas no pasto dos peixes.

Tem tainha na rede. Aqui:


http://www.tainhanarede.blogspot.com/


Quarta-feira, Maio 27, 2009

SIMPOESIA 2009 (contagem regressiva)



Semana que vem, de 4 a 7 de junho, em São Paulo, acontece o SIMPOESIA 2009, um festival internacional de poesia que acontece na Casa das Rosas e que reunirá poetas e críticos literários do Brasil e exterior, além de uma feira de e
ditoras independentes de poesia do Brasil e Argentina promovida pela revista Grumo. Com curadoria de Virna Teixeira, o festival é um encontro que envolve a troca de idéias, a exposição da diversidade intelectual e o intercâmbio artístico e cultural entre diversas expressões da poesia contemporânea. Eu participo no dia 4, 21 horas, com o pocket-show Canções do Estúdio Realidade, e no dia 6, 'as 14:30, do debate Poesia Brasileira em Tradução, ao lado Steven Buttermann, Stefan Tobler e Flávia Rocha.

LOCAL:

Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de poesia e cultura) - Av. Paulista, 37 – Bela Vista. Tel. 3285-3986.

Instituto Cervantes -Av. Paulista, 2439 (Metrô Consolação).

Contato: simpoesia2009@yahoo.com.br


Mais informações no site: Http://www.simpoesia.wordpress.com


Terça-feira, Maio 26, 2009

poema de NÔMADA (Rodrigo Garcia Lopes)



De leve, neste banhado em abril,

a paisagem nos descreve

arroios são rios


de planície

parecem não se mover


distância aquarelada

contornos adensando

enquanto chuva arrefece


pago arenoso do agora

faces, não-superfícies


o sabiá afia seu bico

no arame farpado

pensando


precisa descer

de seu altar de vento


precisa caminhar

na relva revelada





Rio Grande (2002)

Quinta-feira, Maio 21, 2009

PRA QUEM ESTIVER EM SAMPA
















Amanhã tem mais uma rodada do projeto Parcerias: A voz da poesia.
Os encontros acontecem na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo.
A idéia: um poeta e um compositor são reunidos para um bate-papo. E tem rolado muita coisa boa. No evento com Zeca Baleiro e Celso Borges 200 pessoas ficaram de fora.

Não há interesse pela poesia? Conta outra.

São oito encontros quinzenais, de abril a agosto, sempre aos sábados, às 18h30.

Os convidados deste sãbado são o compositor EDVALDO SANTANA e o poeta e letrista ADEMIR ASSUNÇÃO.

Mais informações, acesse o Espelunca, blog do Ademir Assunção.


Quarta-feira, Maio 20, 2009

PAISSAGEM (Rodrigo Garcia Lopes)





Um mapa na tapeçaria deste agora: grão de luz oscila na centelha da palavra noite. Cubo negro. No espaço do olho, ilha, detetive do dentro, dança numa reminiscência de íris, a ciência do acaso tocando sua música abstrata que trata dos segundos e deste corpo que se duplica em sua passagem pelo rebatimento das duas imagens, paralelas, para lê-las. Vem em sua direção mais uma onda, na verdade todo o mar a seu encontro, mas não a tempo de impedir os retornos imprevisíveis de uma imagem de flor num rosto deserto, sol estrondo crepúsculo. Se isso não estivesse acontecendo, nessa vila, sob nuvens, ou mapas fossem nossos próprios corpos ambulantes, como se centelhas se espalhassem como ímãs num espelho que é você.






Sexta-feira, Maio 15, 2009

SATORI USO é eleito melhor curta de ficção no Arraial Cine Fest 2009

O curta londrinense SATORI USO, uma realização da KINOARTE com patrocínio da Prefeitura de Londrina, foi eleito o Melhor Filme de Ficção, de curta duração, no 3º Arraial Cine Fest, festival realizado nas cidades de Arraial D’Ajuda e Porto Seguro, na Bahia, entre 4 e 17 de abril de 2009. SATORI USO, inspirado na obra de Rodrigo Garcia Lopes, que inventou o personagem e sua biografia e também co-escreveu o roteiro, é um falso documentário sobre um poeta que não existiu, apresentado por um cineasta imaginário. O filme integra o projeto Curta Petrobras às Seis, estando em cartaz atualmente no Cinemark Midway Mall Natal, em Natal (RN), até o próximo dia 19. SATORI USO já recebeu os prêmios de Melhor Filme (Crítica), Melhor Fotografia (Júri Oficial) e de Aquisição do Canal Brasil no 35º Festival de Cinema de Gramado, Melhor Filme e Melhor Fotografia no FAM 2008; Melhor Filme no 15º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, Melhor Fotografia (Júri Popular) no 5º Festival de Cinema de Maringá, Melhor Fotografia (júri oficial) no Festival Primeiro Plano 2008, Melhor Direção de Arte (para José de Aguiar) no 7º Santa Maria Vídeo e Cinema, Prêmio ABC de Melhor Fotografia para Curta-Metragem, Melhor Roteiro no 6º Curta Santos, além de Menção Honrosa no 14th International Short Film Festival in Drama, na Grécia, no Curta Cinema 2007 – Festival Internacional de Curtas Metragens do Rio de Janeiro e na IV Mostra Curta Pará Cine Brasil. Comercializado com o Canal Brasl (com exibições entre agosto de 2008 e julho de 2010), SATORI USO também foi exibido pelo programa Zoom da TV Cultura (SP), e está disponível em DVD pelo projeto Programadora Brasil, do Minc. Mais informações pelo e-mail: kinoarte@gmail.com

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Nascimento da Poesia (Rodrigo Garcia Lopes)


Quando a linha era só voz

era uma margem sem rio pois


seguia


foz em foz

oculta (miragem)


na escuta da memória.


Séculos se passaram.


Um dia a voz

efêmera

é escrita na areia


e nasce a linha

retorno

virada


“trazendo a palavra

da boca ao ouvido”.


A consciência sulca

e eterniza o fugaz

no grão da linguagem.



Sábado, Maio 09, 2009

O AMOR É UMA MULHER DE OLHOS INVISÍVEIS (de Rodrigo Garcia Lopes)


Um poema na levada do doce estilo novo dos poetas do círculo de
Dante, em diálogo com a poesia trovadoresca provençal. Está no Solarium, de 1994;





Imprimo em seus lábios lírios & jasmins
primícias de cetim em toques de neve
mixo a ti e a mim nesses senfins
gravo na boca o cheiro bom do cravo.
Nenhuma nóia a nos tocar se atreve.

Ligado, digito os terminais dos teus sentidos
Regulo o foco do deleite, chupo teus bits & bytes,
Quando a aurora goza um sono rosa, Danaê, acredite:
com sentidos assim, quem precisa de inimigos?

Quem dera ver nascer desse oscilar nova beleza
que trema nossos ossos de delícia, e dance,
deixando no ar um doce incenso, ninfa acesa, em transe,
cabelos elétricos, olho fixos medusa.

Amor me fia como teia, sua presa,
me tateia lá onde o orvalho goza na manhã.
me tenta e me entontece em teu veneno, vinho, surpresa
depois do bom do beijo, erva, & relvas de avelã.
Memórias ondulam indolores, cuja malha
aquece o cor como uma blusa, leve como lã.

Eu quero que você levite e me leve a um outro reino
lá onde uma luz eterna de Amor emana
aura perfeita bebendo minha dor no ar sereno
dizendo-se musa, mas oásis que engana.

Agora olha bem fundo em mim e diz:
vê esse silêncio, esses mínimos grãos de luz?
Essa é a vida que não bisa, um sentir que se reprisa,
estrela que desliza, sol que eclipsa, um deus?

Por que o que vai dentro e fora nunca se condiz?
sempre por dentro e fora do tempo, algo traduz
nossos gestos mais secretos, brisa que nos irisa,
onda que, um dia, alisou esta camisa, onde se lia:
“o homem que a vestia nunca foi feliz”




Rodrigo Garcia Lopes (Em Solarium,Iluminuras, 1994)

Sexta-feira, Maio 08, 2009

A VOZ DA POESIA (Com Celso Borges e Zeca Baleiro)
















Amanhã tem a segunda rodada do projeto Parcerias: A voz da poesia, coordenado pelo poeta A
demir Assunção. Os encontros acontecem na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo. A idéia: um poeta e um compositor são reunidos para um bate-papo de Oito encontros quinzenais, de abril a agosto, sempre aos sábados, às 18h30.
Os convidados deste sãbado são
ZECA BALEIRO e o poeta CELSO BORGES.
Mais informações, acesse o Espelunca, blog do Ademir Assunção.
Muito legal esta iniciativa, em tempos de pobreza poética.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

YAMA


Seu rosto a montanha verde grávida de mata mágica

Por onde passa uma sombra imensa de céu.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

OS CÃES DETETIVES (Rodrigo Garcia Lopes, inédito)




Os cães detetives
em seus capotes negros
nunca desistem --
farejam dunas, em dupla,
pegam a praia de surpresa
siris telepatas

os cães detetives
mordem a neblina da maresia
investigam
gaivotas suicidas
pesqueiros sinistros
matas que meditam
o mar e seu mantra
o estrondo das ondas
sempre outras

elucidam minhas
pegadas na areia
ondas terroristas
surfistas suspeitos
outros cães
por toda a tarde
em busca de pistas

os cães detetives espreitam
o bege sílex das dunas
a queda kamikaze, vertical,
dos mergulhões
e nunca se deixam enganar
são cães detetives caiçaras
soltam pistas que as ondas ocultam
quando explodem

cães sem dono, detetives,
dão seu batente na praia
e sabem ser sacanas também
latindo seus enigmas
pressionando vítimas
ocultos pela restinga
ou disfarçados de humanos

os cães detetives se colocam
na pele de sua presa
e não desistem dos siris
acham seus álibis
nos lábios das ondas
única evidência
a praia e seu colar de pérolas
o mar é testemunha

também se divertem
com o vento sul
orelhas
entre as patas
olhos cerrados de espera
quando do dia retraçam as pegadas
os cães negros detectam
a verdade, peixe podre,
se levantam e seguem
até que a tarde se entregue.



MÚSICA DESERTA (Rodrigo Garcia Lopes)



Tempo reverte. Era um devir, a base de uma experiência, de virar muitos e um, chuva virando gente e vice-versa. Chovia, mas não estávamos aqui. Agora, de novo, estamos. A chuva parou. Agora o tempo se esvazia, luz num copo d´água, já que seu devir é um tipo de entropia, metempsicose. Seu retorno, vê, não é apenas para um só mas para muitos, se é que esta paisagem de noite de chuva com um mar em si ainda significa alguma coisa. Ou que inclui uma chuva, piscina de silêncio. Oásis de sussurros, cobra sibila. Essa chuva vira um tipo de filosofia, mais intensa, um modo de existência, vertendo-se em desvios. Numa outra língua: como se o futuro fosse agora mesmo aqui & em toda parte junto da chuva do poema, ou da neve do não-poema, ou do deserto do ainda não escrito. Essa corrente, essa mente. O sentido de algo. Algo poderoso. Uma mutação biológica, uma sensação alien nos ocupa, um mergulho em outro espaço, nadando rumo a uma manhã ofuscante. Vê: essas são apenas palavras, aspectos de múltiplos eventos raptados num momento de distração. O sentido é algo como um sintoma, fugidio, sempre virtual como um vírus, uma força mais poderosa do que nós. Despossessão, multiplicidade de sensação. Sem direções: só ligas, pontos de interseção: a chuva deixa apenas brechas e ameixas úmidas, mas daí a mente a tudo reconecta e, com elas, o mu(n)do. Este. E novamente a chuva: escuta. Algo, não uma dor, além de nós, além de todos os sentidos. Como esta noite ocorrendo e aproximando-se como um avião. Noite é plural, como a flora. Tempestades são poesia pois parecem prosa, mas esta não é uma questão reveladora ou relevante, não é só questão de devir, mas a qualidade da experiência o que interessa. O que interessa é: você e eu não somos o mesmo não importa o quão um possamos ser. Você, chuva, com sua festa de diferenças, seu carnaval de sons-imagens, seu brilho sábio & tranqüilo, faz de mim um homem virando chuva. Talvez agora você possa ser gente novamente. Vê: não sou seu oposto, pois agora você chove e eu respiro. Os pássaros do não-ser cantam lá fora, dentro de nós. Sombras na página-vagina, uma lírica quebrada feita de respiração e queda. Meu devir dizendo que você está devindo, e afirmando nesta coisa ou sentido ou o que quer que seja com a mesma força que faz chover, ou trazer nossas idéias para dentro das margens, contra a corrente, ou o poder em nós de olhar silenciosamente o dia virando noite, assim mesmo, virando alguma coisa, uma coisa boa de ver virar. Ao dizer isso eu quero dizer, eu digo, eu algo. Que pode ser noite, você, chuva, céu, ou esta escrita.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

A VOZ DA POESIA















SÁBADO passado começou o ciclo Parcerias: A voz da poesia, coordenado pelo poeta Ademir Assunção. Os encontros acontecem na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. A idéia: um poeta e um compositor são reunidos para um bate-papo de Oito encontros quinzenais, de abril a agosto, sempre aos sábados, às 18h30.
Mais informações, acesse o Espelunca, blog do Ademir Assunção.


Quinta-feira, Abril 16, 2009

ITAMAIS




O real é a rocha que o poeta lapida

Doando á humanidade mal-agradecida.
Poeta, talvez seja melhor
Afinar o coro dos descontentes.



Itamar Assumpção


Quarta-feira, Abril 15, 2009

A SANGUE FRIO




18:00

as vísceras suicidas do crepúsculo
tiroteio da noite, seu uivo:
o momento decisivo.


06:00


espelho e seu outro
gesto ecoa

incenso maçã
bala perdida
(verde penumbra)

imagem butô



Quarta-feira, Abril 08, 2009

KOSMOS

A página começa a ler você,

ser aquilo que você sonhava ser:


Pacto contra o nada,


jardim veloz de acantos, planetários,


Vulcões de asbestos, voragens de pó e lacunas de relva.


No rebatimento da luz, azul se espalha,


E lenta vem a noite, espelho negro espesso


revelando furos na lona do circo eterno


pontos em negativo na tela branca


os olhos do tigre de Blake.








Rodrigo Garcia Lopes

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Um inédito



A casa é um convés

O evento é um vento sul
Nuvens são ilhas no azul
As ondas rosnam estilhaços
Renascem em nossas peles

Folhas soltas são almas
Rufam e cintilam na beleza
Ministram a paciência das rochas
Perfuram o espaço

Os olhos se refolham na clareza
O sul sequestra as sombras das gaivotas
E a tarde resume o que és.



Quinta-feira, Abril 02, 2009





pedra que a mente esculpe


em biombo de maresia?


uma dona de luz chamada dia.