quinta-feira, julho 07, 2016

O NAVEGANTE E MINDSCAPES - resenha Folha de S. Paulo

OBRAS TRILHAM PERCURSO DA FUNDAÇÃO À CRISE DO VERSO

MARCELO PEN
CRÍTICO DA FOLHA


Da fundação à crise na poesia. Esse é o percurso sugerido por dois recentíssimos lançamentos, "O Navegante" e "Mindscapes: Poemas", ambos traduzidos pelo poeta, ensaísta e editor londrinense Rodrigo Garcia Lopes, 39.
"O Navegante" pertence ao domínio oral anglo-saxão, com texto fixado por um monge no século 10. Ezra Pound, que verteu um grande trecho da obra para o inglês, disse em "O ABC da Literatura" que realizou a tradução "para que possam mais ou menos ver onde a poesia inglesa começa".
Já "Mindscapes" é uma coletânea da poeta modernista americana Laura Riding (1901-1991). Depois de uma recepção retumbante, em que foi elogiada por William Carlos Williams, Auden e até (com reservas) por Yeats, Riding abandonou a poesia por quase 30 anos.
Laura havia chegado a um impasse. Para ela, há um conflito entre a forma e o conteúdo da poesia. O artifício da linguagem literária teria deixado de expressar o dizer verdadeiro, o objetivo final da arte poética. Ou, como diz ela, "a verdade começa onde a poesia termina".
Riding é uma figura curiosíssima e polêmica. Filha de um militante bolchevique judeu (que aspirava para ela a condição de uma Rosa Luxemburgo ianque), decidiu para o desgosto do pai tornar-se poeta. Um dos fundadores do "New Criticism", Allan Tate, descobriu-a em 1924. Seu primeiro livro foi publicado pela editora de Leonard e Virginia Woolf. Muito mais tarde, Paul Auster dirá: "Nenhum escritor exigiu mais das palavras do que Laura Riding".
É preciso entender a atitude de Laura dentro do contexto histórico. Os modernistas procuraram aproximar a arte da vida. Muitas vezes, quando ela fala da "verdade" (da "primeva insonoridade da verdade"), está referindo-se ao que acreditava ser o mister poético, o de atingir a pulsão real da existência por meio das palavras. "Desde o começo, a poesia para mim era território da vida, não da literatura", escreveu.
No auge da carreira, em 1938, após publicar "Collected Poems", renega a poesia e muda-se com o novo marido, Schuyler Jackson, para uma fazenda da Flórida, onde se dedica ao comércio de frutas. Nos anos de 1960, Tate diz ter ouvido que Laura estava "em algum lugar lá embaixo na Flórida cultivando laranjas".
Não deve estranhar o fato de a judia Riding ter renunciado à literatura no início da Segunda Guerra Mundial, antecipando-se à máxima de Theodor Adorno de que "escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie"."), está referindo-se ao que acreditava ser o mister poético, o de atingir a pulsão real da existência por meio das palavras. "Desde o começo, a poesia para mim era território da vida, não da literatura", escreveu.
N ão deve estranhar o fato de a judia Riding ter renunciado à literatura no início da Segunda Guerra Mundial, antecipando-se à máxima de Theodor Adorno de que "escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie".

Doces bárbaros

"Bárbaros" pode ser a forma de muitos considerarem os tempos em que foi composto "O Navegante", quando as tribos dos anglos e dos saxões lutavam contra constantes ataques dos viquingues escandinavos. O poema pode ser visto como um longo lamento de um marinheiro, isolado no mar, dividido entre o anseio pela liberdade e os confortos da aldeia, entre a vida efêmera e a morte certa ("... uma entre três coisas // pesam na balança/antes da hora fatal // doença, velhice/ou ódio-de-espada").
Segundo Jorge Luis Borges, que traduziu o poema para o espanhol, a subjetividade lírica de "O Navegante" anuncia poemas de Arthur Rimbaud e de Walt Whitman. No posfácio da edição brasileira, Garcia Lopes observa que muitos "temas caros a toda poesia inglesa posterior estréiam em grande estilo em "O Navegante'".
Ele gastou dois anos para verter os 125 versos do poema. Antes, o que tínhamos era uma tradução de Augusto de Campos, baseada na versão inglesa de Pound. Lopes precisou aprender anglo-saxão e enfrentar algumas peculiaridades desse tipo de poesia, que não se baseia em estrofes e rimas, mas na aliteração, no ritmo sincopado e em compostos expressivos chamados de "kennings" ("estrada-da-baleia", por exemplo, quer dizer "mar").
"Gosto de aventura e tenho uma eterna curiosidade por poesia antiga, tanto quanto moderna", confessa Garcia Lopes à Folha. "Tive como ferramenta indispensável uma versão em hipertexto, literal e completa, do poema; e acesso a dezenas de outras traduções de apoio. Estou seguro quanto ao resultado, tanto que o livro é bilíngüe."
O tradutor acredita que a poesia de "O Navegante" e a de Laura Riding têm em comum a "investigação do consciente, da identidade, da mente que acerta contas consigo mesma". Laura, que nunca deu pelota para o peso da tradição, mas valoriza a eterna contemporaneidade da obra de arte, concordaria.

***
O NAVEGANTE. Autor: anônimo. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes. Editora: Lamparina. Quanto: R$ 25 (80 págs.).
MINDSCAPES. Autora: Laura Riding. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes. Editora: Iluminuras. Quanto: R$ 42 (256 págs.).
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2512200411.htm



quarta-feira, julho 06, 2016

Canções do Estúdio Realidade: Recepção e Alguma Critica






Canções do Estúdio Realidade é um disco maravilhoso, que escutei nas estradas da Paraíba, a caminho do sertão e me deu muita alegria e sensações variadas.
CHICO CÉSAR, músico e compositor

Refinar o pop a partir da experiência literária não é um sonho novo. Rodrigo Garcia Lopes faz curioso percurso em seu segundo disco. Aqui, se dá o inverso: é a leveza do pop que impulsiona uma trama poética sutil [...] Uma natural familiaridade costura as harmonias do poeta, que nos leva, pelo som, a um território antigo e novo ao mesmo tempo.
JOTABÊ MEDEIROS, crítico de música, O Estado de S. Paulo

Em 12 faixas com letras de veio poético, o artista tece uma ode à canção com arranjos melodiosos e que tomam forma híbrida de jazz e MPB, acentuada pela formação da banda, que tem baixo acústico, piano, bateria e violão. [...] Garcia Lopes também foi próximo de Paulo Leminski (1944-1989), outro que desarranjou as fronteiras entre música e poesia, e de quem musicou versos.
RODRIGO LEVINO, Folha de São Paulo.

Tendo a palavra como base, o compositor e poeta se lança em trilhas sonoras ambiciosas e variadas -- por jazz, funk, afoxé -- sempre valorizando as harmonias. O resultado oscila entre canções exatas e (bons) poemas.
LEONARDO LICHOTE, crítico de música, O Globo.

Doze anos depois da estreia em disco, o paranaense Rodrigo Garcia Lopes volta a lançar um álbum musical. No ótimo Canções do Estúdio Realidade, o poeta, compositor e tradutor visita a canção popular com desenvoltura, explorando as características específicas do gênero sem cair na armadilha de fazer mera poesia musicada.
ROGER LERINA, crítico de música, Zero Hora.

Rodrigo Garcia Lopes, autor de Polivox, é mesmo um cara de muitas vozes. Vozes dele, vozes de outros. Não é toda a hora que se encontra gente múltipla assim, que escreve poesia e ensaios, faz entrevistas, toca violão, compõe, canta...Tudo bem feito, claro. Para o público em geral, ávido de cultura, uma personalidade criativa e livre dessas por perto, nesta época de especializações, de nichos de mercado, de repetições e limitações, é motivo para comemorar.
VITOR RAMIL, músico, cantor, compositor e escritor.

Grande esmero, produção caprichada mesmo. Prestei atenção em tudo, com um destaque especial às linhas de baixo, voz e a equalização das vozes, mixagem, os arranjos...tudo muito bem feito. Parabéns. Muito interessante pra mim ouvir um disco bem diferente do que faço, mas igualmente trabalhado e ambicioso. Fiquei contente de conhecer seu trabalho musical. Aliás, todos os instrumentos soam bem. Parabéns mesmo, e sabe, adorei a sua versão pra música Nobody does it better. Não só o arranjo é ótimo, como a sua voz soa deliciosa.
MARINA LIMA, cantora e compositora.

Lírico, moderno, cinematográfico e com um "livrinho" que faz jus ao disco. Muito bom! Arrojado, cheio de experiências com versos e com maneiras de dizer. Também gostei dos arranjos, bastante adequados ao projeto. Uma bela exploração sinestésica da realidade.
LUIZ TATIT, músico, compositor e teórico de música brasileira.

Abrir o disco Canções do Estúdio Realidade é empreender uma viagem ao um bom tempo da música. Um tempo que resiste na memória e no coração de uma bela canção. Entrar no estúdio realidade é como entrar num livro, num bom livro.
LUIZ CLAUDIO OLIVEIRA, crítico de música, Gazeta do Povo.

Em Canções do Estúdio Realidade não há duas faixas parecidas, com Rodrigo demonstrando uma tremenda versatilidade, cantando balada, blues, funk, jazz, rock, rap e canções de sua autoria com autenticidade. As letras falam da condição humana (ex, ‘Quaderna’) e da vida no mundo moderno (ex, a sobrecarga sensorial em ‘New York’). Todas as canções são em português, com exceção da bela balada ‘Butterfly’, escrita em inglês. [parceria com Neuza Pinheiro]. Sua incrivelmente bela interpretação de ‘Nobody does it Better’ [aqui na sua própria versão em português, Ninguém Melhor que Ela] é o melhor tratamento que a composição já recebeu. Seu estilo violonístico e a progressão de acordes em ‘Quaderna’ traz à mente o violonista Guinga. O funk-rap ‘New York’ evoca a Farofa Carioca. Os arranjos, a maioria de André Siqueira, são luminosos (ex. ‘Cerejas’). Os músicos são esplêndidos (por exemplo, a deliciosa introdução de baixo de Gabriel Zara e o solo e acompanhamento pianístico de Mateus Gonsales em ‘Iluminações [parceria com Bernardo Pellegrini], só para dar dois exemplos. Tudo combinando com a qualidade do livro suntuoso de 36 páginas [por Marcos Losnak e Beto] com evocativas fotos coloridas [por Elisabete Ghisleni]. Rodrigo Garcia Lopes assaltou o Estúdio Realidade e trouxe para nós tesouros musicais e poéticos”
RANDY MORSE – produtor norte-americano, em seu site de música brasileira “The Best of Brazil”

Abertas as portas do Estúdio Realidade o que logo se descortina é a cena paranaense de cidades como Londrina e Curitiba, lugares pródigos em poesia e literatura onde a música popular cada vez mais se faz notar. Quem conhece só o Rodrigo Garcia Lopes vindo da poesia, da intensa atividade intelectual e editorial, vai descobri-lo agora cheio de desenvoltura com seu violão em meio às névoas musicais das óperas de araucárias e arames. São quatro as estações do ano, quatro as linhas do campo, mas a vida é só uma. Rodrigo quer retomar o universo e nos levar com ele. Por que não?
VITOR RAMIL, cantor, músico, compositor e escritor

É muito difícil a gente decifrar o que pretende um autor quando lança um trabalho. Apenas podemos conjecturar, intuir, ler nas entrelinhas coisas que não sabemos de verdade, imaginações. Como o próprio autor, que pensa saber o que pretende, e a cada vez que se aproxima da obra, descobre essa vertigem (traduzida por uma supressão da qualidade crítica tão fundamental para um criador, a severidade de julgamento) que o faz oscilar acompanhando os movimentos daquilo que não sabemos, mas fizemos. Então falamos de coisas técnicas, da fluidez dos arranjos, da elegância da interpretação, da competência instrumental, e logo vamos nos perdendo nos adjetivos. Este CD de Rodrigo Garcia Lopes, que carrega o sinuoso título de Canções do Estúdio Realidade, lembra sonhos de juventude, quimeras de uma possível aproximação com a poesia, com a divindade, com o vinho da existência, com a uva da metáfora sufi, a fonte. Como diria um zen budista: a imersão na realidade. Que coisa mais bem feita!

ARRIGO BARNABÉ, compositor e músico

quinta-feira, março 03, 2016

MR. PARADISE, de Rodrigo Garcia Lopes (Em Solarium, 1994)



MR. PARADISE


mr. paradise sai às ruas com
suas invisíveis roupas antes

aparentemente distraído agora
abaixa-se e toca uma

folha (qualquer coisa) vermelha
pensando ser outono ou tudo

aquilo que pensamos en-
quanto borboletas brincam

entre punks e turistas ELA
sorri como um céu sem nuvens

(sob um chapéu pensante
de abas quilométricas)

e a gente começa a segui-la
enquanto humildemente acena para

jardineiros & floristas



________





Londres, Soho, 12 de junho de 1984
De "Solarium"  (editora Iluminuras, 1994)

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

"OUTRAS PRAIAS", de Rodrigo Garcia Lopes


         


      OUTRAS PRAIAS



1



O ar do verão vibrava como imitação
que os dedos do maestro regiam, Além,
(uma outra palavra para Adeus)
E sua ausência imediata, que são próprias
das coisas consideradas fora de seus centros;

Náufragas, como ilhas dispersas circundadas
por tanta Luz, e o mar hibernando o surf
das manobras rápidas, radicais, engolindo praias,
prises e personas
Uma tontura que persiste após
o estrondo doce do amor, antes e agora dobrando-se no Tempo

Tudo a caminho, tudo rápida passagem, impressões,
a textura da areia, seixos
ao redor do sexo que é tudo e que sustém em linguagem
Viva, a linguagem das marés e dos exercícios estratégicos do vento
que uiva às coisas e nomeia lagoas e dunas, uma gíria imaginária

O mar da página de jornal, gaivotas
bicando lâmpadas à procura de águas vivas, quebrando-se
Cristais,
& uma visão do vórtex do vir-a-ser distraindo
as cores excessivas, todo ornamento inútil, recolhidas em
fotografias dinâmicas, e que se revelam lentamente em suas
ausências em fuga, como nós, aos pés destas pedras, refletindo-nos
na mudança desse poço, em sua condição.

O que vemos daqui são gestos que querem o além
o reflexo de erras nunca vistas,
brisas nunca sentidas, uma viagem
sem volta a territórios livres, como nômades detidos
no meio de uma tempestade obsessiva. O que
carregamos são espelhos que refletem sempre
o diferente, enquanto nós, eu e você
mudamos juntos. Nuvens
dissipam-se em doces fragmentos, sentidos acenam
do outro lado da baía, onde estivemos
Há alguns instantes que ficaram

Misturados com a lembrança do instante diferenciado,
um ideograma na fumaça do cigarro, o haicai mais simples
recolhido num vazio que vibra, diz, e muda.
Um brilho secreto, isso o mar também nos traz
sem cobrança alguma
e além do privado e do profundo jaz
o não dito, o absurdo de calar, o conferido:
penínsulas e abraços

de mar, studio marinho. E o modo como ele
endereça suas maresias a nós mudos e humanos
com seu estilo que no fim revela ser apenas
a mancha do mar em sua blusa, uma blueprint, um sim.




2



O Agora voava, deixando nossas respostas
sem pergunta alguma.
Acabamos nos cruzando, a caminho da estação
onde nada se detém, na luz que grita atrás das montanhas,
No som de nossas vozes e olhares assustados
como sempre
Sílabas apagando beijos como a maré faz com nossas pegadas
recolhendo
Apenas o silêncio, o silêncio.
Registros de amanheceres sendo
Eternamente abertos para agentes secretos
Até que a página se vire como onda

Deixando paisagens no retrovisor
Longe de qualquer ideal de transparência ou nostalgia.

Linhas que nada são a não ser a trajetória das gaivotas
Deliciadas com as horas que ainda restam antes do pouso.
Primeiro dia de sol, a casa está vazia.
Tesouras repousam quietas ao lado de
Gencianas. Nova Geografia. A cena
Está quase completa, viva nos músculos que apanham rápido
um clichê qualquer no ar, uma sombra. A voz, cada vez mais,
Se estilhaçava, ficando assim impossível dizer
Quem falava ou soprava o vento
no stylus das árvores rabiscando um céu
que não era bem assim
O que se queria dizer, um espaço implodido a cada passo
Dentro do corpo onde a natureza sopra seu processo
As sentenças do mesmo rio nunca o mesmo rio
Códigos nascidos sem qualquer charme, e a gravidade
De tudo o que prossegue, indestrutível, viagem.



3



Aqui o céu é fino feito papel.

Regras se dissolvem como uma velha palavra na boca
velha manhã com um gosto de folhas secas na boca
Muito viva vívida doce e muito viva
distribuindo seu teatro, lírica barata, seu Gesamtkuntswerk,
nos telhados onde pássaros respiram, quietos,
sendo observados por gatos negros e cantados obsessivamente por
Cigarras. Invadem o verão. A indistinta voz que distribui
sons secos pela estação dos sustos, para além de si, desejo
De um presente acelerado como as ondas deste
doce Desterro,
O modo vazio e pleno como o olhar
faz
de tanta luz
o ar vibrar

Nos sentimos Oceanus, Pan, nos sentimos mais humanos
& sacamos
parte da hera tomando a janela onde pouco ou nada é dito
Apenas sentido, o limite de um "ouvir-se dizer"
que já não diz, reprisa
Velhas cenas de um teatro previsível.
Apenas o espectador mudou no fim de tudo
E as estações se amontoam num canto do céu esperando
Um milagre, uma confortável
Invisibilidade, que não tem nada a ver com
O excesso desse sol depois de três dias de chuva
Três úmidas palavras sussurradas e conduzidas como o vento faz

Às nuvens, nada necessariamente difícil ou vazio
gruda à pele, livre
De qualquer engodo, assinatura, assunto.
Horas e horas de vidro, sentenças sem nome flutuam
no manso ar do verão do interior e suas diferenças
Vêm à tona, enfim, o que nos deixa ao menos
uma chance para ouvir uma chuva invisível
atrás da porta pela qual acabamos de passar.




Rodrigo Garcia Lopes (em Solarium, 1994, editora Iluminuras)