quinta-feira, janeiro 10, 2008

BEATS, 50


A última reunião da beat generation, diante da antológica livraria City Lights, em San Francisco, 1965. Na primeira fileira, da esquerda para direita: Robert LaVigne, Shig Murao, Larry Fagin, Leland Meyezove (deitado), Lew Welch, Peter Orlovsky. Segunda fileira: David Meltzer, Michael McClure, Allen Ginsberg, Daniel Langton, Steve (amigo de Ginsberg), Richard Brautigan, Gary Goodrow, Nemi Frost. Última fileira: Stella Levy, Lawrence Ferlinghetti.

O porre que revolucionou a literatura americana


Há meio século, um bando de “malucos” se juntou para tomar um porre e revolucionar a literatura americana. Ficaram conhecidos por beatniks e viraram a cultura e a literatura norte-americanas pelo avesso


Por Rodrigo Garcia Lopes*


Na noite de 7 de outubro de 1955 um grupo de poetas jovens e rebeldes — de saco cheio das promessas oferecidas pelo way of life americano, do moralismo hipócrita e dos valores literários tradicionais — se reúne na Six Gallery, em São Francisco. O que seria só uma leitura de poemas numa galeria de arte acabou significando o ponto de partida do mais importante movimento literário e comportamental do pós-guerra. Primeira grande oposição cultural nos EUA, o fenômeno beat criticava as normas sociais e literárias do país e pretendia ser um estilo de vida.


A geração beat [termo cunhado pelo escritor Jack Kerouac em 1948 e que traz os significados de geração exausta, de beatitude e, pela aproximação com o jazz, de pulsação rítmica] estava louca para levar às últimas conseqüências a união entre arte e vida. Naquela noite, incentivado pelos gritos de VAI! de Kerouac [que se encarregou de deixar todo mundo bêbado de vinho barato], Allen Ginsberg leu pela primeira vez seu antológico poema "Uivo" para uma platéia de cerca de 150 pessoas. Todas, claro, em estado de transe. Outros nomes lendários como Gary Snyder, Philip Whalen, Phillip Lamantia e Michael McClure também leram seus poemas.


Para marcar o meio século da beat generation, a Azougue [www.azougue.com.br] acaba de lançar duas preciosas coletâneas de poemas e ensaios: Re-Habitar [320 págs., R$ 46], do poeta, zen-budista e ecologista Gary Snyder, e A Nova Visão – de Blake aos Beats [288 págs., R$ 42], de McClure. Já a L&PM — que ficou célebre nos anos 80 com seus lançamentos de livros de William Burroughs, Ginsberg, Neal Cassady e Carl Solomon — publica em agosto os diários de Kerouac, Windblown World, inéditos no Brasil.

Michael McClure, Mr. Bob Dylan e Allen Ginsberg

O recital da Six Gallery foi apenas o aperitivo para o que viria depois. Lawrence Ferlinghetti, outro poeta fundamental e dono da lendária editora City Lights, foi parar na cadeia por obscenidade pela publicação de Uivo, de Ginsberg. O resultado foi um processo ridículo que só contribuiu para transformar o escritor e a geração beat em celebridades da noite para o dia. O livro virou um best-seller, abrindo caminho para outras obras-chave do movimento, como On the Road, de Kerouac, e Naked Lunch, de Burroughs. O fato é que ninguém poderia imaginar que os poetas reunidos naquela noite histórica acabariam virando a cultura e a literatura norte-americana pelo avesso, abrindo espaço para novas experimentações artísticas e liderando boa parte da rebeldia, da política e do comportamento das décadas seguintes. A garotada ainda tem muito que aprender com esses velhinhos.


*Rodrigo Garcia Lopes é tradutor, poeta e ensaísta. Autor de Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje [editora Iluminuras] entre outros

Texto publicado na revista TRIP em 2005

Um comentário:

reuben! disse...

tem um ensaio do leminski sobre os beats que termina assim: jamais vai faltar amor pra esses poetas. abraço!