quarta-feira, março 21, 2007

PALAVRAS REAIS DE UM POETA INEXISTENTE

(na Folha de hoje)


Curta-metragem aborda a possível trajetória de Satori Uso, personagem que saiu da imaginação do escritor londrinense Rodrigo Garcia Lopes

Divulgação

A atriz Caren Utino interpreta Satine, a musa de Satori: personagens imaginários dão suporte poético à narrativa do filme
César Augusto

Rodrigo Grota, diretor e co-roteirista, criou um ''documentário'' sobre a breve passagem do poeta japonês em Londrina, na década de 50: cruzamento de metalinguagens
Reprodução

''Foto'' de Satori Uso, cujos poemas e haicais chamou a atenção de gente ilustre como Paulo Leminski
Satori Uso teve seus poemas traduzidos para o português na extinta coluna ''Leitura'' da Folha de Londrina, em 1 de setembro de 1985, pelo escritor Rodrigo Garcia Lopes. Tamanha foi a repercussão do poeta com seus haicais que incitou, até, curiosidade e comentários elogiosos de Paulo Leminski. Mas em uma mesa de bar, Garcia Lopes revelou ao cineasta Rodrigo Grota, então repórter de cultura do mesmo jornal, que Satori era figura ficcional. Nascia a primeira fagulha para o filme ''Satori Uso'', que será exibido pela primeira vez ao público no próximo sábado em Londrina.

O curta foi rodado em Londrina e Assaí entre 5 e 12 de março de 2006, com produção da ONG Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina) e patrocínio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura), no valor de R$ 100 mil. De acordo com Grota, que assina a direção, co-produção executiva, e divide o roteiro com Garcia Lopes, é a primeira vez que a Kinoarte produz em 35 mm. ''No final a gente tinha seis horas de imagens, que foi reduzida a 25 minutos. Destes 25, cortamos até chegar aos 17 minutos. Foi bem difícil tirar algumas cenas, já que muitas delas eram boas'', justificou.

A essência criativa do ''documentário'' sobre a fugaz passagem do poeta japonês pela Londrina dos anos 50 é edificada através da ótica do cineasta americano Jim Kleist. Uma dupla-metalinguagem, já que a história do alter ego Satori Uso foi conduzida pelo personagem fictício, no caso, Jim Kleist. Parece complicado? ''É um falso documentário feito sobre um poeta que nunca existiu, dirigido por um cineasta que também nunca existiu'', simplificou.

Segundo Grota, o curta apresenta trechos de um filme inacabado de Kleist, intitulado ''Isolation'', que teria sido rodado em Londrina em 1967, ocasião em que o cineasta americano esteve no Brasil. ''Jim Kleist idealizou um filme como resposta visual à trajetória de Satori'', lembrou. Aliás, é o próprio Kleist quem narra a história, na voz de José de Aguiar, diretor de arte.

Estrelado por Rogério Ivano (Satori) e Caren utino (Satine), o curta é conduzido pelo romance entre os dois. ''Para o tratamento do roteiro, nós utilizamos a intervenção de dois elementos novos: a Satine e o Jim Kleist. Eu estava buscando uma peça de desintegração, já que o Satori não apresentava conflitos dramáticos. Então surgiu a idéia da musa do poeta, e o desejo que foi se intensificando aos poucos'', lembrou.

Em 2001, Rodrigo Garcia Lopes publicou em seu livro ''Polivox'' (Azougue Editorial) com um capítulo dedicado aos 15 haicais do alter ego japonês.

''Satori Uso'' incia a série de três curtas sobre a a Londrina dos anos 50, considerada por Grota a ''Trilogia do Esquecimento''. O segundo filme será inspirado na passagem do jazzman americano Booker Pittman pela cidade, e será rodado em agosto deste ano, também com produção da Kinoarte e Prefeitura de Londrina. ''O terceiro filme eu ainda não posso revelar quem será o personagem, mas os três irão dialogar entre si'', disse.

Satori existiu? Talvez sim...

Um personagem permeado de riquezas interiores que se revela através de um silêncio quase desconcertante. Satori Uso também teve uma dinâmica de vida como qualquer pessoa: nasceu, cresceu, se apaixonou e se decepcionou. Mas, longe de ser banalizado, carregava um abismo dentro de si.

Dizem que teve apenas um livro publicado em vida, antes de desembarcar no Brasil. O poeta teria nascido 2 de outubro de 1945 e migrado para o Brasil em 1975. Antes disso, passou alguns anos no mosteiro zen budista e depois virou hippie. Após perder quase toda sua obras durante a viagem (entre peças nô, haicais lisérgicos e um esquisito romance), fora parar no sítio de um amigo em Assaí. Nos últimos anos de vida, Satori passava o tempo todo em meditação profunda, quase não falava e se tornou obcecado pela decoberta da linguagem com a qual poderia conversar com as estrelas.

Tanta verossimilhança se distancia ainda mais da abstração ao vê-lo em cena no curta-metragem. A natureza, a sombra, a música, a solidão, a sombra, a descoberta, a pena da caneta, a sombra, os discos, o amor, enfim, a sombra. Satori fugia da luz, então só poderiam encontrá-lo no escuro. Satori e aproximava da luz apenas quando perto de Satine, seu ensejo contínuo, mesmo com o fim. Uma história linear, não simples, mas que apresenta confluência de roteiro, trilha sonora, fotografia e direção. Familiaridade.

Fica a nítida sensação de que meus avós poderiam ter conhecido Satori. Pensando bem, acho que eles já comentaram a respeito desse poeta quando eu era pequena... (L.O.)

Serviço

- Lançamento do curta-metragem ''Satori Uso'', de Rodrigo Grota. No Cine Com-Tour. Sábado, às 20h30. Entrada franca. Na mesma sessão, serão exibidos os curtas ''Londrina em Três Movimentos'' e ''O Quinto Postulado''.

Liliana Onozato

terça-feira, março 20, 2007

Broadway, março de 2006

domingo, março 18, 2007

TRAILER de "SATORI USO"




O filme "
Satori Uso", de Rodrigo Grota (35 mm), baseado na vida e obra do poeta japonês homônimo (1925-1985), já tem trailer:



Ele deve estrear por estes dias e participar de festivais de curtas no Brasil e exterior. Um belo e delicado trabalho de Rodrigo Grota.



terça-feira, março 06, 2007

GRANDES MOMENTOS DO PENSAMENTO FILOSÓFICO DE GEORGE BUSH


"Eu creio que nos dirigimos de modo irreversível no sentido de mais liberdade e democracia - mas isso pode mudar."

*

“Eu fiz bons julgamentos no passado. Eu fiz bons julgamentos no futuro.”
*
“Muitas das nossas importações vêm de fora".

*

“O futuro será melhor amanhã.”
*

“O Holocausto foi um período obsceno da história de nossa nação. Quero dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi neste século.”

*

“Não é a poluição que ameaça o ambiente, são as impurezas do ar e da água”.

*

Tenho o cuidado de preservar o poder executivo não só para mim, mas também para os meus predecessores".

*

“Comprometemo-nos a trabalhar com ambas as partes para levar o nível de terror a um nível aceitável para ambas as partes”.

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“Sei que em Washington há muitas ambições. É natural. Mas espero que os ambiciosos percebam que é mais fácil triunfar com um êxito do que com um fracasso”.

*
“Nós queremos que qualquer pessoa que possa arranjar um trabalho seja capaz de arranjar um trabalho”.

*

“Um dos denominadores comuns que achei é que as expectativas surgem sempre em torno do que se espera”.

*

“O sistema de educação pública é um dos fundamentos da nossa democracia. Afinal, é onde as crianças da América aprendem a ser cidadãos responsáveis, e aprendem as habilidades necessárias para tirar vantagem da nossa fantástica sociedade oportunista”.

*

“Marte essencialmente está na mesma órbita que nós. Está quase à mesma distância do Sol, o que é importante. Já vimos imagens dos canais, cremos, e da água. Se há água há oxigênio e se há oxigênio podemos respirar”.

*

"O gás natural é hemisférico. Gosto de lhe chamar hemisférico por natureza, porque é o produto que podemos encontrar nas nossas vizinhanças".


"Pessoas que são realmente estranhas podem assumir posições-chave e provocar um tremendo impacto na história"

*

“Sei que os seres humanos e os peixes poderão coexistir em paz”.

*

“Já é tempo de a raça humana entrar no sistema solar”.



ANGELI É DEMAIS

Este cartum foi tungado do blog Espelunca, do meu amigo Pinduca, mais conhecido como Ademir Assunção (link aí embaixo).

Angeli, sempre certeiro, genial:

domingo, março 04, 2007

ENTREVISTA com Rodrigo Garcia Lopes



Esta entrevista saiu no jornal curitibano Rascunho, em 2004. Foi feita pelo Márcio Renato dos Santos. Divirtam-se:



Você já tem uma considerável trajetória poética, tanto como autor como tradutor. Imagino que já rotularam a sua poesia, talvez mais de uma vez, e talvez ainda de maneira como você talvez não tenha gostado. Então: como você define a poesia que você fez e faz?


Rotular é fácil, não é? É a lógica de nossa era mercadológica e superficial aplicada na literatura. Ali, “pós-beats”, na fileira à esquerda, “pós-concretos”, no fundo “cabralinos”, atrás, “geração 90” etc. É uma maneira que críticos e poetas preguiçosos e desatualizados encontram quando não sabem definir ou não entendem o que lêem, pessoas que têm uma idéia pré-concebida do que seja “poesia”. Para mim, poesia é, acima de tudo, a arte da linguagem. E acredito que ela também é muitas outras coisas, como visão de mundo, magia, ritual. Mas poesia, sobretudo, significa liberdade. Então, se a poesia é a arte da linguagem, ela é a arte da liberdade. Acho que a principal marca de minha poesia, de Solarium, passando por visibilia, Polivox, minha incursão pela música & poesia com o cd Polivox ao inédito Nômada, é a contínua experimentação e curiosidade com novas formas-conteúdos. É uma poesia vitalista e também preocupada em dizer, e que também tenta o tempo todo incluir o leitor na experiência poética. Acho uma pobreza de visão muito grande condenar a experimentação poética, como fazem Ivan Junqueira e outros reacionários por aí, acompanhado de um papo elitista e burguês de que poesia não é acessível à maioria dos mortais. Pois eu diria exatamente o contrário: a de que, sem o leitor, o poema não é nada. Poesia, como a entendo, é sempre uma experiência com/na/de linguagem. É mais do que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências. O que seria da poesia e sua expansão lingüística e perceptiva se não fosse um Blake, um Oswald, um Pound, um Lorca, um Joyce, um Augusto dos Anjos, ou um Whitman, que chamou suas Folhas de Relva de “uma experiência de linguagem”? Por isso, acho que ser contra o experimentalismo na literatura revela um conservadorismo cada vez mais em voga É o velho medo do novo. É uma crítica desatualizada, e que costuma ser resquício de um discurso ressentido contra, por exemplo, o Concretismo paulista, cujas lições alguns poetas de minha geração já absorveram e superaram há tempos. Na verdade, acho que esse pessoal mais conservador não foi capaz nem mesmo de entender a intervenção cultural da poesia concreta. Com todas as falhas e dogmatismos que possa ter, o concretismo provocou uma mudança importante nos nossos modos de ver e discutir poesia. Foi um avanço, não um retrocesso. Retrocesso é querer atrasar o relógio da poesia. O fato é que há toda uma caretice e canalhice de volta por aí. Acho que os que querem policiar os escritores e poetas que estão escrevendo hoje deveriam antes mostrar suas armas: suas obras. Ou pelo menos instrumentos críticos mais informados, mais abertos, menos ressentidos, mais atualizados. Também estou notando que, de repente, voltamos ao tempo em que mostrar medalhas e prêmios conquistados era o mais importante. Há um desejo de entrar pra academia que chega a ser impressionante! Hoje parece que a pose virou mais importante que a poesia. Mais que ficar nessa demonstração de vaidade e egoísmo, o poeta deveria estar mais interessado em compartilhar o ato de criação com o leitor. Poesia, ainda mais no momento atual, é algo importante demais pra deixar nas mãos de poetas acadêmicos, críticos ignorantes e poetas de gabinete. Poesia é um instrumento de visão, de resistência à imbecilidade, à superficialidade e à violência. A linguagem não pode continuar sendo entendida no sentido de palavras mortas encarceradas em dicionários ou em cristaleiras, sendo usadas para descrever belos sentimentos inspirados ou como seu autor é inteligente. Ela deve, sim, estar sempre experimentando novas formas e modos de dizer, de tocar no nervo da vida. Os poetas ganhariam muito se seguissem o velho conselho de Bashô: “Evite as trilhas batidas. Você verá coisas nunca vistas”.


Solarium apresenta uma porção de possibilidades poéticas em um mesmo livro. Ele traz um olhar "curioso" sobre as coisas. Fale sobre as formas que você usou em seu primeiro livro.


“Um mundo de cada vez”, como diria Thoreau. Não acho que minha poesia é um vale-tudo. Sempre procurei dialogar com outras tradições, além da brasileira. E, mesmo dentro da brasileira, o diálogo com uma “outra tradição”, menos apolínea e mais dionisíaca, que começa em Gregório de Mattos, passa por Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, chegando a Murilo Mendes, Jorge de Lima, Piva, Wally Salomão e Leminski. Minha escrita sempre dialogou com outras artes e discursos além da poesia. Miles Davis, Murilo Mendes, Chico Buarque, Picasso, o cinema, as viagens, por exemplo, foram talvez mais importantes para minha formação quanto ter lido Drummond, Bandeira ou Machado de Assis. No tempo que me foi dado viver, acho simplesmente minha poesia encara de frente a situação em que nos encontramos hoje diante da linguagem e do mundo. Não dá pra fazer de conta que ele não existe. Nossa vida é costurada de mini-narrativas o tempo todo, e temos um passado exuberante de formas praticadas, do paralelismo hebraico às possibilidades do hipertexto, dos cantos indígenas à Internet, à nossa disposição. É a mesma coisa de preferir voar de asas coladas com cera quando você tem um caça invisível. Essa questão de gêneros já deveria ter sido superada há muito tempo: o que existe é escrita poética. Cada poema é irrepetível e, se não for, desconfio que algo muito estranho esteja acontecendo com o poeta. O poeta não pode se conformar com uma forma, com um decoro poético. Claro que não existem “modos corretos de escrever”. Ele deve ser um inconformista e nunca ter medo de errar. Aplico para alguns poetas o mesmo que teria acontecido com João Gilberto, cujo gato teria se suicidado da janela do apartamento depois de três dias ouvindo João tocar o mesmo acorde. Gosto da idéia de uma poesia que seja uma metamorfose ambulante. Cada poema meu, pelo menos assim pretendo, é uma nova aventura. Não gosto de poetas que, depois de achar um “estilo”, ficam repetindo-o o resto da vida. Se poesia não for a liberdade total da linguagem, então não é nada. Fecho com Laura Riding, quando ela escreve: “Quais as razões da poesia — as razões para escrever poemas, e para ler poemas? A resposta da física seria: uma tremenda compulsão de superar uma tremenda inércia”.

Em termos de visão, acho que minha iluminação se deu aos 18 anos, em 1984-85, quando viajei, morei e trabalhei na Europa. Vivi intensamente a experiência do estrangeiro, a condição de estar de passagem por tudo, vivendo entre encontros fugazes, acasos, e paisagens eternas. Os diários e leituras de viagem também afetaram isso, junto com a música que eu vinha ouvindo. Depois eu teria outras experiências no “estrangeiro”, ou mesmo aqui, mas a mais marcante foi ali. Eu não sabia, então, das coisas que somos capazes de fazer, do poder das coisas serem cinema. Pela primeira vez vi a vida como um filme em que somos o diretor, o protagonista e o narrador, bastando estar de olhos abertos, e o Zen veio junto. Foi uma descoberta maravilhosa. Essa situação inusitada aguçou uma necessidade vital de registrar isso, e o modo pelo qual eu poderia tocar essa realidade, e seu impacto sobre minha consciência com mais intensidade, era por meio das palavras. Eu podia usar as palavras como uma câmera, como um instrumento musical, ou como um passaporte para a dimensão do “aqui e agora”, ou ainda para registrar o fenômeno que o neurologista Antonio Damazio chama de “a sensação do que acontece”, ou seja, nossa própria consciência em movimento. Podia usar as palavras para causar surpresa e prazer em mim e em quem lesse. Ser é ser percebido, escreveu Berkeley. Acredito que construímos a natureza enquanto a percebemos. Meus livros todos tocam nessa questão do olhar para dentro e para fora, simultaneamente.


Como você avalia sua própria produção de Solarium pra cá? A música entrou ainda mais na sua veia poética? O que mudou na sua poesia de lá pra cá?

O que escrevo hoje dialoga com tudo o que escrevi antes. Mas sempre segui a dica que Pound deu para um jovem poeta uma vez: curiosidade. A música sempre esteve presente, e acho que o fato de estar ouvindo música enquanto escrevia os poemas de Solarium acabou entrando nos poemas. Música é poesia pura e sem palavras, e às vezes tento captar as formas como uma frase ou tema se desenrola, numa lógica rapsódica ou improvisacional que me influenciou. Nos anos em que morei em Floripa havia a constante presença do mar e da natureza, seus sons, e talvez essa exuberância natural e meu isolamento físico fez com que eu fosse mais lacônico e meditativo em visibilia. A experiência do disco foi importante, pois me levou para a rua, para um território novo, além de me forçar a assumir minha relação com a canção brasileira. Já o livro Polivox explora exatamente o que o título propõe.


De uns tempos pra cá surgiram algumas publicações culturais espalhadas pelo território brasileiro que estão ampliando a possibilidade de atuação de quem pensa, discute e produz cultura de uma maneira mais profunda do que nos suplementos dos jornais diários. A Coyote, e você é um dos editores da revista, é um desses espaços. Como você avalia a performance da Coyote?


Acho ótimo, quanto mais revistas, sites e editoras dedicadas à literatura brasileira de qualidade, melhor. Na Coyote somos três editores, Ademir Assunção, Marcos Losnak e eu. O projeto gráfico, um dos elementos que dão a diferença da revista, é do Marcos Losnak e Joca Terron. Acho que a Coyote, já no seu terceiro ano, já se firmou como uma referência cultural. Tentamos fazer a nossa parte para minorar um problema flagrante na realidade do país hoje: a dificuldade, por parte do leitor comum, de acesso à produção e reflexão de artistas e escritores brasileiros e estrangeiros, principalmente contemporâneos. Ela é feita em Londrina, norte do Paraná, e financiada pelo Programa de Incentivo à Cultura da prefeitura de lá, com distribuição nacional pela Iluminuras (iluminuras@iluminuras.com.br). Já publicamos gente de diversas partes do Paraná, do Brasil e do mundo: argentinos, franceses, peruanos, chilenos, cubanos, norte-americanos, da República Dominicana, Egito, Coréia, Eslovênia... A ênfase da revista está, creio, na sua ousadia e abertura. É uma revista de criação, de reflexão. Seu perfil editorial está nos textos e autores que publica. 200 exemplares vão para as escolas da rede pública, escolas da periferia e bibliotecas rurais. Cerca de 700 são enviados a jornalistas, formadores de opinião, escritores, artistas, fundações e editoras do Brasil e exterior. Editar a Coyote tem sido um trabalho real de intervenção cultural, pois não só estamos revelando autores (prosadores, poetas, artistas) inéditos, pertencentes a grupos ou estilos diferentes, como aproximando o leitor com o que está sendo discutido e pensado em outros países.


Sobre o presente: E a poesia brasileira contemporânea? O que você tem a dizer?


Estamos num momento bem melhor que nos anos 80 e 90, tanto na prosa quanto na poesia. Não há equívocos. É óbvio. Muitos poetas e escritores promissores dos anos 90 estão tinindo ou chegando perto disso. Nessas décadas essas mentes estavam fervilhando e escrevendo, e os resultados estão por aí. A poesia e a prosa brasileira hoje têm um time de peso, bem variado, com várias linhas de força. O único problema é nossa língua que, apesar de maravilhosa, é o português. A situação também está melhor porque, de lá pra cá, aconteceram revoluções como a Internet e o computador, que mudou nossa relação com o texto, e entre nós mesmos. Hoje temos muito mais editoras pequenas e corajosas, em todo o país, investindo em poesia brasileira contemporânea, como a Nankin, Setteletras, Ateliê, Letras Contemporâneas, Travessa dos Editores, Atrito Art Editorial, Azougue, Lamparina... Seria impensável, antes, como fazemos na Coyote, entrevistar um poeta ou crítico americano por e-mail. Ou contatar um escritor cubano ou uma artista chilena pelos quais a revista se interessou. Ou discutir e editar todo o material on-line, se quisermos. Hoje você pode colocar seus poemas lado a lado com traduções para o inglês e o espanhol e ser lido por, potencialmente, milhares de pessoas. Ou colaborar numa revista eletrônica internacional. Especificamente na poesia, a situação melhorou porque saímos (?) daquele clima de guerra fria entre as duas panelas literárias hegemônicas, dois discursos sobre poesia conflitantes: o marginal carioca + discípulos do modernismo de 22 versus a Poesia Concreta. Ficava só nisso. Hoje há muito mais vozes, correntes, visões. Antes, se o sujeito quisesse, ele conseguia esconder informações, uma literatura, um autor, um assunto. Lembro de ter de caçar em bibliotecas fajutas um texto do Ginsberg em inglês e que eu estava desesperado para traduzir. Hoje isso não existe mais. Por isso mesmo é que me espanto com o repertório limitado, a falta de visão e curiosidade de parte dos poetas e escritores atuais. Muitos ainda têm uma visão da palavra como algo transparente, como se fossem apenas “janelas” para o mundo ficcional ou “a realidade”. Não seria mais fácil investir em cinema? Do outro lado da moeda, alguns poetas, mesmo quando supostamente parecem estar investindo numa poesia que “privilegia a materialidade da linguagem”, ainda produzem resultados vacilantes, com uma subjetividade muito rasa e desinteressante. Hoje temos muito mais pessoas escrevendo poesia do que provavelmente lendo. Esse é um risco, dela ser lida apenas pelos poetas ou candidatos a poetas. Só que hoje temos espaços que não existiam antes. Isso está provocando efeitos muito loucos no sistema literário brasileiro, vamos dizer assim. Nem tudo vai ficar dessa enxurrada de poetas e escritores que estão aparecendo, é claro. Mas se temos 5.000 editoras hoje, e pelo menos 12 revistas literárias de qualidade, divulgando, refletindo, publicando e revelando autores, além dos sites e blogs, é porque algum fenômeno, alguma coisa boa aconteceu. Algo que tenho observado em parte da poesia brasileira que tem sido publicada e em antologias recentes é que ela, com felizes exceções, está muito contida, chata, livresca, pedante, literária demais. Tem uma poesia conservadora, que não me interessa. Poetas jovens que escrevem como velhos, como se estivéssemos nos bons tempos do século 19, nos idos áureos da Semana de 22 ou mesmo na era concretista, como se nada tivesse acontecido depois.

Poesia do tipo:


Nas fímbrias dos furibundos vagalhões

Sois a Carrara da pele imaculada

Nos grotões onde repousa minha erma puberdade

Lembro-me de meu pai...


Ou destilações de Bandeira:


Quando eu era menino

Olhava com os olhos tristes para a velha samambaia...

Da janela do quarto, que dava para a Consolação,

e onde eu bebia café

Via o gatinho doente na varanda do vizinho

do lado de um pires vazio.


Como escreveu o poeta William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve no contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Por outro lado, muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas (geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente). Para mim, esses poemas também escondem, sob uma pretensa “concisão”, uma falta danada do que dizer.

Poemas do tipo (estou inventando agora):


A avenca, à

janela

embora (caligramas),

outra

paisagem pousa

na palavra


glamífera.


Ou ainda:


O gato, quer dizer,

(embora nem tanto)

pisa pé,

ante pé (pétala)


enfim, quase um

triciclo quebrado,


búgulo pistilo, que

edulcorasse

por sobre o vermelho

(como num quadro de


Bacon), mas


a luz do poste

na testa, que,

aprés midi,


talvez, sei lá


etc.

Quando não temos diluições pioradas de um Manoel de Barros (também estou inventando agora), como:


Quando chove a barriga da formiga horizonta a tarde.

A lesma é versada em pedra de jardim.

A perna quando puxa tubarão não tem orelha.

E a manhã estruma na canga do poente.


Acho estes tipos de poesia chatas pra caramba. Concisão, em poesia, não deve ser tanto uma questão de quantidade, mas de qualidade de dizer. Esses “procedimentos”, “fraturas” e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço. Afinal, poesia tem que dizer alguma coisa. Talvez no Brasil a própria poesia, enquanto discurso ou anti-discurso, esteja em crise. Talvez por ser um terreno valorativamente mais indefinível e movediço, infelizmente a poesia se presta a todo tipo de picaretagem e bobagem. Na narrativa é mais difícil: fica claro quando o cara sabe ou não contar uma história, que é o objetivo. Veja bem, cada um escreve como bem entender. Só estou dizendo que poemas como esses costumam me proporcionar, como leitor, viagens muito curtas e rasas.

quinta-feira, março 01, 2007

O DIA EM QUE MORREU LADY DAY, de FRANK O'HARA


A cantora Billie Holiday, na última sessão de gravação, 1959




O DIA EM QUE MORREU LADY DAY




Meio-dia e 20 em Nova Iorque sexta-feira

três dias depois do dia da Bastilha, é,

estamos em 1959 e vou engraxar os sapatos

pois às 4 e 19 salto do trem em Easthampton

às 7 e 15 e então direto pro jantar

e nem sei quem são os que vão me alimentar


Subo a rua abafada onde começa a bater sol

como um hamburger peço um maltado e compro

um exemplar horrível da ESCRITA DO NOVO MUNDO pra ver

o que os poetas em Gana andam aprontando

Vou pro banco

e dona Stillwagon (seu nome é Linda ouvi dizer)

nem checa meu saldo pela primeira vez na vida

e na GOLDEN GRIFFIN descolo um livrinho do Verlaine

pra Patsy com desenhos de Bonnard embora pense

é no Hesíodo, trad. por Richmond Lattimore ou

na nova peça de Brendan Behan ou no Lês Nègres

do Genet, mas não, fico mesmo com o Verlaine

depois de praticamente cochilar de tanta indecisão


e pro Mike é só passar no PARK LANE

e pedir uma garrafa de Strega e daí

volto por onde vim até a Sexta Avenida

e a tabacaria no teatro Ziegfeld e ao acaso

peço um maço de Gauloises e um de

Picayunes, e o NEW YORK POST estampa a face dela


e estou suando um monte agora e lembrando

de mim no FIVE SPOT encostado na porta do banheiro

ela sussurrando uma canção junto ao teclado

pro Mal Waldron e eu e todo mundo ficou sem ar





Tradução: Rodrigo Garcia Lopes



The Day Lady Died



It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don't know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly
NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn't even look up my balance for once in her life
and in the
GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan's new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don't, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the
PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a
NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the
5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing



Frank O'Hara


O título faz um trocadilho com “died” (morreu) e Lady Day, apelido da cantora Billie Holiday, homenageada nesta elegia.

A menção a Behan, que morreu, jovem, de tanto beber, anuncia a morte de Billie por overdose, encontrada num cais em NY.

John: americanismo para banheiro, lavatório

Mal Waldron (1926-2002), pianista de jazz e compositor que acompanhou Billie de 57 até 59.



versus quer dizer retorno, virada,

pois o arado sempre precisava

retornar ao chegar ao fim

do sulco, da linha e seu nada

no fim da jornada e seus trabalhos

como os dedos anônimos semeiam

na água, na página, pontos-

instantes em fluxo

que sulcam a terra nova

para olhos futuros.


sábado, fevereiro 24, 2007

4 POEMAS DE JIM MORRISON




Um homem varre folhas

e as amontoa, em pilhas, no quintal

& se apóia em seu rastelo &

queima tudo.

O perfume enche a floresta

crianças param & atentam para

o perfume que um dia

vai virar nostalgia.



______________________________



Explosão de pássaros

Aurora

Sol acaricia os muros

Um velho sai do Cassino

Um jovem lendo pára

A caminho de um jardim



___________________________________




O Medo é uma varanda onde ventos

escorregam pelo Norte

Um rosto na Janela que

vira uma folha

Águia intuindo seu desastre

Mas pairando com charme sobre

Um coelho brilhando na noite.



_______________________



Essa é minha floresta


Essa é minha floresta

mar de arames.

Esse bando de visão

é minha chama.

Essas árvores são pessoas,

os engenheiros.

Uma tribo de caipiras

em seu domingo de folga.


Deuses -- os diretores,

Câmeras, centauros

gregos na grua,

deslizando c/ graça

silenciosa e móvel.


Em minha direção --

um palhaço saltitante

No imenso olho do

Sol.


Grande perigo ali,

dobra de coxa.

O dedo vingador --

senhor.



JIM MORRISON

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quarta-feira, fevereiro 21, 2007



"O passado é um país estrangeiro. Lá eles fazem as coisas de um jeito diferente".

J.B. Priestley

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O poeta Thadeu Wojciechowski , de Curitiba, fez uma versão im-pa-gá-vel da minha tradução do poema RELATO VERDADEIRO DE UMA CONVERSA COM O SOL EM FIRE ISLAND, do Frank O'Hara, postada ontem.

Tá no link dele lá embaixo, Polaco da Barreirinha.

Pra fazer sentido, leia primeiro a tradução minha do Frank e depois a tradução da tradução feita pelo Thadeu.

Depois vêm uns bostas falar de "tradução criativa".


Grande!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

RELATO VERDADEIRO DE UMA CONVERSA COM O SOL EM FIRE ISLAND (poema de FRANK O'HARA)

FRANK O'HARA (1926-1966) é um dos grandes poetas americanos do século 20. Um dos membros da chamada New York School of Poetry, (ao lado de nomes como John Ashbery e Kenneth Koch), recebeu influência da música contemporânea (estudou música e chegou a pensar em ser pianista profissional), das artes plásticas (foi crítico de arte, curador do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e amigo de William De Kooning, Jasper Johns, Andy Warhol, Larry Rivers e Jackson Pollock, entre outros).

Era comum Frank escrever poemas em bares, em festas, no metrô, em restaurantes, a caminho do trabalho, onde lhe desse na telha. Tinha uma enorme facilidade para escrever poesia. E escreveu muito. O título de seu livro mais famoso resume sua estética: Lunch Poems (algo como Poemas da Hora do Almoço).

A história deste poema que traduzimos aqui é peculiar.

Depois de sua morte, o amigo e poeta Kenneth Koch foi até a casa de O´Hara e encontrou, entre suas coisas, inédito, este que é um de seus poemas mais belos e famosos. É um de meus poemas preferidos também.

“Relato Verdadeiro de Uma Conversa com o Sol em Fire Island” dialoga com o famoso poema de um de seus poetas favoritos, Maiakovski (ver tradução dos irmãos Campos e Boris Schnaidermann em Poesia Russa Moderna (Perspectiva).

Ironicamente, o poema foi escrito oito anos antes de sua morte perto da praia onde, em 24 de julho de 1966, perto do nascer do sol, ele seria atropelado por um buggy. O nome da praia? Fire Island. Tinha 40 anos.





RELATO VERDADEIRO DE UMA CONVERSA COM O SOL EM FIRE ISLAND



O Sol me acordou esta manhã em alto
E bom som, "Ei! Há quinze minutos
estou tentando te acordar.
Não seja grosso, você é só o segundo poeta
Que escolhi pra falar tão pessoalmente
então
por que você não é mais atencioso? Se eu pudesse
te queimar pela janela eu te faria
levantar. Não posso ficar na área
O dia todo".
"Desculpa, sol, fiquei
acordado até tarde falando com Hal".

"Quando acordei o Maiakóvski ele foi
bem mais pontual", disse o Sol
com petulância. "A maioria das pessoas
já acordam querendo ver se vou
dar o ar da minha graça".
Tentei
me desculpar "Senti sua falta, ontem".
"Ah, está melhorando", o Sol falou. "Achei
que você não viria aqui fora" "Você deve
estar pensando porque cheguei juntinho assim"?
"É", eu disse, já começando a ficar todo quente
pensando se ele não estaria metendo fogo em mim
no fim das contas.
"Sendo franco, ô cara, queria dizer que
gosto da sua poesia. Vejo um monte
de coisas por aí e você até que não é mal. Pode não ser
a coisa mais importante sobre a terra, mas
você é diferente. Agora, já ouvi as pessoas dizerem
que você é maluco, eles sendo excessivamente
tranqüilos pro meu gosto, e outros poetas loucos te acham
um chato reaça. Eu não.

Continue mandando ver.

Faça como eu e não dê bola. Você vai perceber
que as pessoas sempre reclamam
do clima, sempre está quente ou frio
demais, escuro ou claro demais, dias
curtos ou longos demais.
Se você fica sem aparecer um dia
já acham que você é preguiçoso ou já morreu.
Continue nesse pique, eu curto.

E não se preocupe com sua linhagem
poética ou natural. O Sol brilha sobre
a selva, tá ligado?, sobre a tundra,
o mar, o gueto. Onde estivesse você
eu já sabia e via você se movendo. Estava te esperando
pra começar a trabalhar.


E agora que você

está tirando os dias pra si, digamos,
mesmo que ninguém te leia a não ser eu,
não precisa ficar deprimido. Nem todo mundo
é capaz de olhar pra cima, nem mesmo pra mim. Machuca
Os olhos deles".
"Ai ai, Sol, estou tão agradecido!"
"Não há de quê e lembre-se que estou de olho. Pra mim é
mais fácil conversar daqui de
fora. Não sou obrigado a deslizar entre os prédios
até seu ouvido.
Sei do seu amor por Manhattan, mas
você devia olhar pra mim mais vezes.
E
sempre abrace as coisas, pessoas a terra céu
estrelas, como eu, livremente e com
um conveniente senso de espaço. Essa é sua
inclinação, conhecida no céu
e que você seguiria até o inferno, se
preciso, o que eu duvido.


Talvez nos falemos
na África, que eu também gosto
especialmente. Agora volte e durma,
Frank, e que eu possa deixar de despedida
um poeminha nessa sua cabeça".

"Sol, não vai não!", eu acordei
enfim. "Não, preciso ir, eles estão
me chamando".
"Eles quem?"
O Sol se ergueu e disse "Um

dia desses você vai saber. Estão te chamando
também" . Sombrio, o sol se levantou, e adormeci.



Tradução: RODRIGO GARCIA LOPES


A True Account of Talking to the Sun at Fire Island

Frank O'Hara


The Sun woke me this morning loud
and clear, saying "Hey! I've been
trying to wake you up for fifteen
minutes. Don't be so rude, you are
only the second poet I've ever chosen
to speak to personally
so why
aren't you more attentive? If I could
burn you through the window I would
to wake you up. I can't hang around
here all day."
"Sorry, Sun, I stayed
up late last night talking to Hal."

"When I woke up Mayakovsky he was
a lot more prompt" the Sun said
petulantly. "Most people are up
already waiting to see if I'm going
to put in an appearance."
I tried
to apologize "I missed you yesterday."
"That's better" he said. "I didn't
know you'd come out." "You may be wondering why I've come so close?"
"Yes" I said beginning to feel hot
and wondering if maybe he wasn't burning me
anyway.
"Frankly I wanted to tell you
I like your poetry. I see a lot
on my rounds and you're okay. You may
not be the greatest thing on earth, but
you're different. Now, I've heard some
say you're crazy, they being excessively
calm themselves to my mind, and other
crazy poets think that you're a boring
reactionary. Not me.
Just keep on
like I do and pay no attention. You'll
find that some people always will
complain about the atmosphere,
either too hot
or too cold too bright or too dark, days
too short or too long.
If you don't appear
at all one day they think you're lazy
or dead. Just keep right on, I like it.

And don't worry about your lineage
poetic or natural. The Sun shines on
the jungle, you know, on the tundra
the sea, the ghetto. Wherever you were
I knew it and saw you moving. I was waiting
for you to get to work.

And now that you
are making your own days, so to speak,
even if no one reads you but me
you won't be depressed. Not
everyone can look up, even at me. It
hurts their eyes."
"Oh Sun, I'm so grateful to you!"

"Thanks and remember I'm watching. It's
easier for me to speak to you out
here. I don't have to slide down
between buildings to get your ear.
I know you love Manhattan, but
you ought to look up more often.
And
always embrace things, people earth
sky stars, as I do, freely and with
the appropriate sense of space. That
is your inclination, known in the heavens
and you should follow it to hell, if
necessary, which I doubt.
Maybe we'll
speak again in Africa, of which I too
am specially fond. Go back to sleep now
Frank, and I may leave a tiny poem
in that brain of yours as my farewell."

"Sun, don't go!" I was awake
at last. "No, go I must, they're calling
me."
"Who are they?"
Rising he said "Some
day you'll know. They're calling to you
too." Darkly he rose, and then I slept.