domingo, março 04, 2007

ENTREVISTA com Rodrigo Garcia Lopes



Esta entrevista saiu no jornal curitibano Rascunho, em 2004. Foi feita pelo Márcio Renato dos Santos. Divirtam-se:



Você já tem uma considerável trajetória poética, tanto como autor como tradutor. Imagino que já rotularam a sua poesia, talvez mais de uma vez, e talvez ainda de maneira como você talvez não tenha gostado. Então: como você define a poesia que você fez e faz?


Rotular é fácil, não é? É a lógica de nossa era mercadológica e superficial aplicada na literatura. Ali, “pós-beats”, na fileira à esquerda, “pós-concretos”, no fundo “cabralinos”, atrás, “geração 90” etc. É uma maneira que críticos e poetas preguiçosos e desatualizados encontram quando não sabem definir ou não entendem o que lêem, pessoas que têm uma idéia pré-concebida do que seja “poesia”. Para mim, poesia é, acima de tudo, a arte da linguagem. E acredito que ela também é muitas outras coisas, como visão de mundo, magia, ritual. Mas poesia, sobretudo, significa liberdade. Então, se a poesia é a arte da linguagem, ela é a arte da liberdade. Acho que a principal marca de minha poesia, de Solarium, passando por visibilia, Polivox, minha incursão pela música & poesia com o cd Polivox ao inédito Nômada, é a contínua experimentação e curiosidade com novas formas-conteúdos. É uma poesia vitalista e também preocupada em dizer, e que também tenta o tempo todo incluir o leitor na experiência poética. Acho uma pobreza de visão muito grande condenar a experimentação poética, como fazem Ivan Junqueira e outros reacionários por aí, acompanhado de um papo elitista e burguês de que poesia não é acessível à maioria dos mortais. Pois eu diria exatamente o contrário: a de que, sem o leitor, o poema não é nada. Poesia, como a entendo, é sempre uma experiência com/na/de linguagem. É mais do que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências. O que seria da poesia e sua expansão lingüística e perceptiva se não fosse um Blake, um Oswald, um Pound, um Lorca, um Joyce, um Augusto dos Anjos, ou um Whitman, que chamou suas Folhas de Relva de “uma experiência de linguagem”? Por isso, acho que ser contra o experimentalismo na literatura revela um conservadorismo cada vez mais em voga É o velho medo do novo. É uma crítica desatualizada, e que costuma ser resquício de um discurso ressentido contra, por exemplo, o Concretismo paulista, cujas lições alguns poetas de minha geração já absorveram e superaram há tempos. Na verdade, acho que esse pessoal mais conservador não foi capaz nem mesmo de entender a intervenção cultural da poesia concreta. Com todas as falhas e dogmatismos que possa ter, o concretismo provocou uma mudança importante nos nossos modos de ver e discutir poesia. Foi um avanço, não um retrocesso. Retrocesso é querer atrasar o relógio da poesia. O fato é que há toda uma caretice e canalhice de volta por aí. Acho que os que querem policiar os escritores e poetas que estão escrevendo hoje deveriam antes mostrar suas armas: suas obras. Ou pelo menos instrumentos críticos mais informados, mais abertos, menos ressentidos, mais atualizados. Também estou notando que, de repente, voltamos ao tempo em que mostrar medalhas e prêmios conquistados era o mais importante. Há um desejo de entrar pra academia que chega a ser impressionante! Hoje parece que a pose virou mais importante que a poesia. Mais que ficar nessa demonstração de vaidade e egoísmo, o poeta deveria estar mais interessado em compartilhar o ato de criação com o leitor. Poesia, ainda mais no momento atual, é algo importante demais pra deixar nas mãos de poetas acadêmicos, críticos ignorantes e poetas de gabinete. Poesia é um instrumento de visão, de resistência à imbecilidade, à superficialidade e à violência. A linguagem não pode continuar sendo entendida no sentido de palavras mortas encarceradas em dicionários ou em cristaleiras, sendo usadas para descrever belos sentimentos inspirados ou como seu autor é inteligente. Ela deve, sim, estar sempre experimentando novas formas e modos de dizer, de tocar no nervo da vida. Os poetas ganhariam muito se seguissem o velho conselho de Bashô: “Evite as trilhas batidas. Você verá coisas nunca vistas”.


Solarium apresenta uma porção de possibilidades poéticas em um mesmo livro. Ele traz um olhar "curioso" sobre as coisas. Fale sobre as formas que você usou em seu primeiro livro.


“Um mundo de cada vez”, como diria Thoreau. Não acho que minha poesia é um vale-tudo. Sempre procurei dialogar com outras tradições, além da brasileira. E, mesmo dentro da brasileira, o diálogo com uma “outra tradição”, menos apolínea e mais dionisíaca, que começa em Gregório de Mattos, passa por Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, chegando a Murilo Mendes, Jorge de Lima, Piva, Wally Salomão e Leminski. Minha escrita sempre dialogou com outras artes e discursos além da poesia. Miles Davis, Murilo Mendes, Chico Buarque, Picasso, o cinema, as viagens, por exemplo, foram talvez mais importantes para minha formação quanto ter lido Drummond, Bandeira ou Machado de Assis. No tempo que me foi dado viver, acho simplesmente minha poesia encara de frente a situação em que nos encontramos hoje diante da linguagem e do mundo. Não dá pra fazer de conta que ele não existe. Nossa vida é costurada de mini-narrativas o tempo todo, e temos um passado exuberante de formas praticadas, do paralelismo hebraico às possibilidades do hipertexto, dos cantos indígenas à Internet, à nossa disposição. É a mesma coisa de preferir voar de asas coladas com cera quando você tem um caça invisível. Essa questão de gêneros já deveria ter sido superada há muito tempo: o que existe é escrita poética. Cada poema é irrepetível e, se não for, desconfio que algo muito estranho esteja acontecendo com o poeta. O poeta não pode se conformar com uma forma, com um decoro poético. Claro que não existem “modos corretos de escrever”. Ele deve ser um inconformista e nunca ter medo de errar. Aplico para alguns poetas o mesmo que teria acontecido com João Gilberto, cujo gato teria se suicidado da janela do apartamento depois de três dias ouvindo João tocar o mesmo acorde. Gosto da idéia de uma poesia que seja uma metamorfose ambulante. Cada poema meu, pelo menos assim pretendo, é uma nova aventura. Não gosto de poetas que, depois de achar um “estilo”, ficam repetindo-o o resto da vida. Se poesia não for a liberdade total da linguagem, então não é nada. Fecho com Laura Riding, quando ela escreve: “Quais as razões da poesia — as razões para escrever poemas, e para ler poemas? A resposta da física seria: uma tremenda compulsão de superar uma tremenda inércia”.

Em termos de visão, acho que minha iluminação se deu aos 18 anos, em 1984-85, quando viajei, morei e trabalhei na Europa. Vivi intensamente a experiência do estrangeiro, a condição de estar de passagem por tudo, vivendo entre encontros fugazes, acasos, e paisagens eternas. Os diários e leituras de viagem também afetaram isso, junto com a música que eu vinha ouvindo. Depois eu teria outras experiências no “estrangeiro”, ou mesmo aqui, mas a mais marcante foi ali. Eu não sabia, então, das coisas que somos capazes de fazer, do poder das coisas serem cinema. Pela primeira vez vi a vida como um filme em que somos o diretor, o protagonista e o narrador, bastando estar de olhos abertos, e o Zen veio junto. Foi uma descoberta maravilhosa. Essa situação inusitada aguçou uma necessidade vital de registrar isso, e o modo pelo qual eu poderia tocar essa realidade, e seu impacto sobre minha consciência com mais intensidade, era por meio das palavras. Eu podia usar as palavras como uma câmera, como um instrumento musical, ou como um passaporte para a dimensão do “aqui e agora”, ou ainda para registrar o fenômeno que o neurologista Antonio Damazio chama de “a sensação do que acontece”, ou seja, nossa própria consciência em movimento. Podia usar as palavras para causar surpresa e prazer em mim e em quem lesse. Ser é ser percebido, escreveu Berkeley. Acredito que construímos a natureza enquanto a percebemos. Meus livros todos tocam nessa questão do olhar para dentro e para fora, simultaneamente.


Como você avalia sua própria produção de Solarium pra cá? A música entrou ainda mais na sua veia poética? O que mudou na sua poesia de lá pra cá?

O que escrevo hoje dialoga com tudo o que escrevi antes. Mas sempre segui a dica que Pound deu para um jovem poeta uma vez: curiosidade. A música sempre esteve presente, e acho que o fato de estar ouvindo música enquanto escrevia os poemas de Solarium acabou entrando nos poemas. Música é poesia pura e sem palavras, e às vezes tento captar as formas como uma frase ou tema se desenrola, numa lógica rapsódica ou improvisacional que me influenciou. Nos anos em que morei em Floripa havia a constante presença do mar e da natureza, seus sons, e talvez essa exuberância natural e meu isolamento físico fez com que eu fosse mais lacônico e meditativo em visibilia. A experiência do disco foi importante, pois me levou para a rua, para um território novo, além de me forçar a assumir minha relação com a canção brasileira. Já o livro Polivox explora exatamente o que o título propõe.


De uns tempos pra cá surgiram algumas publicações culturais espalhadas pelo território brasileiro que estão ampliando a possibilidade de atuação de quem pensa, discute e produz cultura de uma maneira mais profunda do que nos suplementos dos jornais diários. A Coyote, e você é um dos editores da revista, é um desses espaços. Como você avalia a performance da Coyote?


Acho ótimo, quanto mais revistas, sites e editoras dedicadas à literatura brasileira de qualidade, melhor. Na Coyote somos três editores, Ademir Assunção, Marcos Losnak e eu. O projeto gráfico, um dos elementos que dão a diferença da revista, é do Marcos Losnak e Joca Terron. Acho que a Coyote, já no seu terceiro ano, já se firmou como uma referência cultural. Tentamos fazer a nossa parte para minorar um problema flagrante na realidade do país hoje: a dificuldade, por parte do leitor comum, de acesso à produção e reflexão de artistas e escritores brasileiros e estrangeiros, principalmente contemporâneos. Ela é feita em Londrina, norte do Paraná, e financiada pelo Programa de Incentivo à Cultura da prefeitura de lá, com distribuição nacional pela Iluminuras (iluminuras@iluminuras.com.br). Já publicamos gente de diversas partes do Paraná, do Brasil e do mundo: argentinos, franceses, peruanos, chilenos, cubanos, norte-americanos, da República Dominicana, Egito, Coréia, Eslovênia... A ênfase da revista está, creio, na sua ousadia e abertura. É uma revista de criação, de reflexão. Seu perfil editorial está nos textos e autores que publica. 200 exemplares vão para as escolas da rede pública, escolas da periferia e bibliotecas rurais. Cerca de 700 são enviados a jornalistas, formadores de opinião, escritores, artistas, fundações e editoras do Brasil e exterior. Editar a Coyote tem sido um trabalho real de intervenção cultural, pois não só estamos revelando autores (prosadores, poetas, artistas) inéditos, pertencentes a grupos ou estilos diferentes, como aproximando o leitor com o que está sendo discutido e pensado em outros países.


Sobre o presente: E a poesia brasileira contemporânea? O que você tem a dizer?


Estamos num momento bem melhor que nos anos 80 e 90, tanto na prosa quanto na poesia. Não há equívocos. É óbvio. Muitos poetas e escritores promissores dos anos 90 estão tinindo ou chegando perto disso. Nessas décadas essas mentes estavam fervilhando e escrevendo, e os resultados estão por aí. A poesia e a prosa brasileira hoje têm um time de peso, bem variado, com várias linhas de força. O único problema é nossa língua que, apesar de maravilhosa, é o português. A situação também está melhor porque, de lá pra cá, aconteceram revoluções como a Internet e o computador, que mudou nossa relação com o texto, e entre nós mesmos. Hoje temos muito mais editoras pequenas e corajosas, em todo o país, investindo em poesia brasileira contemporânea, como a Nankin, Setteletras, Ateliê, Letras Contemporâneas, Travessa dos Editores, Atrito Art Editorial, Azougue, Lamparina... Seria impensável, antes, como fazemos na Coyote, entrevistar um poeta ou crítico americano por e-mail. Ou contatar um escritor cubano ou uma artista chilena pelos quais a revista se interessou. Ou discutir e editar todo o material on-line, se quisermos. Hoje você pode colocar seus poemas lado a lado com traduções para o inglês e o espanhol e ser lido por, potencialmente, milhares de pessoas. Ou colaborar numa revista eletrônica internacional. Especificamente na poesia, a situação melhorou porque saímos (?) daquele clima de guerra fria entre as duas panelas literárias hegemônicas, dois discursos sobre poesia conflitantes: o marginal carioca + discípulos do modernismo de 22 versus a Poesia Concreta. Ficava só nisso. Hoje há muito mais vozes, correntes, visões. Antes, se o sujeito quisesse, ele conseguia esconder informações, uma literatura, um autor, um assunto. Lembro de ter de caçar em bibliotecas fajutas um texto do Ginsberg em inglês e que eu estava desesperado para traduzir. Hoje isso não existe mais. Por isso mesmo é que me espanto com o repertório limitado, a falta de visão e curiosidade de parte dos poetas e escritores atuais. Muitos ainda têm uma visão da palavra como algo transparente, como se fossem apenas “janelas” para o mundo ficcional ou “a realidade”. Não seria mais fácil investir em cinema? Do outro lado da moeda, alguns poetas, mesmo quando supostamente parecem estar investindo numa poesia que “privilegia a materialidade da linguagem”, ainda produzem resultados vacilantes, com uma subjetividade muito rasa e desinteressante. Hoje temos muito mais pessoas escrevendo poesia do que provavelmente lendo. Esse é um risco, dela ser lida apenas pelos poetas ou candidatos a poetas. Só que hoje temos espaços que não existiam antes. Isso está provocando efeitos muito loucos no sistema literário brasileiro, vamos dizer assim. Nem tudo vai ficar dessa enxurrada de poetas e escritores que estão aparecendo, é claro. Mas se temos 5.000 editoras hoje, e pelo menos 12 revistas literárias de qualidade, divulgando, refletindo, publicando e revelando autores, além dos sites e blogs, é porque algum fenômeno, alguma coisa boa aconteceu. Algo que tenho observado em parte da poesia brasileira que tem sido publicada e em antologias recentes é que ela, com felizes exceções, está muito contida, chata, livresca, pedante, literária demais. Tem uma poesia conservadora, que não me interessa. Poetas jovens que escrevem como velhos, como se estivéssemos nos bons tempos do século 19, nos idos áureos da Semana de 22 ou mesmo na era concretista, como se nada tivesse acontecido depois.

Poesia do tipo:


Nas fímbrias dos furibundos vagalhões

Sois a Carrara da pele imaculada

Nos grotões onde repousa minha erma puberdade

Lembro-me de meu pai...


Ou destilações de Bandeira:


Quando eu era menino

Olhava com os olhos tristes para a velha samambaia...

Da janela do quarto, que dava para a Consolação,

e onde eu bebia café

Via o gatinho doente na varanda do vizinho

do lado de um pires vazio.


Como escreveu o poeta William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve no contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Por outro lado, muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas (geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente). Para mim, esses poemas também escondem, sob uma pretensa “concisão”, uma falta danada do que dizer.

Poemas do tipo (estou inventando agora):


A avenca, à

janela

embora (caligramas),

outra

paisagem pousa

na palavra


glamífera.


Ou ainda:


O gato, quer dizer,

(embora nem tanto)

pisa pé,

ante pé (pétala)


enfim, quase um

triciclo quebrado,


búgulo pistilo, que

edulcorasse

por sobre o vermelho

(como num quadro de


Bacon), mas


a luz do poste

na testa, que,

aprés midi,


talvez, sei lá


etc.

Quando não temos diluições pioradas de um Manoel de Barros (também estou inventando agora), como:


Quando chove a barriga da formiga horizonta a tarde.

A lesma é versada em pedra de jardim.

A perna quando puxa tubarão não tem orelha.

E a manhã estruma na canga do poente.


Acho estes tipos de poesia chatas pra caramba. Concisão, em poesia, não deve ser tanto uma questão de quantidade, mas de qualidade de dizer. Esses “procedimentos”, “fraturas” e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço. Afinal, poesia tem que dizer alguma coisa. Talvez no Brasil a própria poesia, enquanto discurso ou anti-discurso, esteja em crise. Talvez por ser um terreno valorativamente mais indefinível e movediço, infelizmente a poesia se presta a todo tipo de picaretagem e bobagem. Na narrativa é mais difícil: fica claro quando o cara sabe ou não contar uma história, que é o objetivo. Veja bem, cada um escreve como bem entender. Só estou dizendo que poemas como esses costumam me proporcionar, como leitor, viagens muito curtas e rasas.

2 comentários:

sandro ornellas disse...

Pô, Rodrigo, gosto de sua poesia. E estou também gostando de ler suas entrevistas. Valeu.

Estúdio Realidade disse...

valeu, sandro, grande abraço