domingo, fevereiro 04, 2007

Entrevista fake com J.D. Salinger

Uma das raríssimas imagens de J.D. Salinger, tirada logo após o fim de nessa entrevista.
Reparem que ele tá tentando me bater.


Há três anos a Folha preparava um número apenas com escritores inintrevistáveis, como Dalton Trevisan, Pynchon, entre outros. A mim coube a tarefa de entrevistar nada menos que J.D. Salinger, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio". O resultado está ai:



São Paulo, domingo, 25 de abril de 2004


EXCLUSIVO E FICTÍCIO

Professor de reclusão


J.D. SALINGER, O AUTOR DE "O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO", ANUNCIA UMA SURPRESA PARA 2005 E DIZ QUE TALVEZ NUNCA DEVESSE TER PUBLICADO SEUS TEXTOS

Rodrigo Garcia Lopes
especial para a Folha

A princípio seria uma missão impossível. Afinal, o homem está recluso desde 1953, quando o sucesso mundial de "O Apanhador no Campo de Centeio" (1950) o levou para o exílio na casa no alto de uma colina, em Cornish, no Estado de New Hampshire. Trata-se do único livro de fato importante de sua obra e que, vira e mexe, volta a ser "cult", como seu misterioso autor, J.D. Salinger, 85. Talvez essa nova onda de interesse se dê, agora, pelo trauma pós-11 de Setembro e a sensação de viver num mundo menos seguro. Ou por termos uma geração de jovens cansados de guerra e de mentiras. Talvez exista um pouco de Holden Caulfield (personagem principal do romance) em todo jovem. Afinal, o protagonista do seu famoso livro era um adolescente problemático vivendo nos anos hipócritas e caretas do pós-guerra.
O contato com "o maior recluso da literatura americana", eu sabia, requereria um processo lento e delicado. Ele foi feito por meio de uma professora da Universidade de Nova York que trabalha para a agente literária de Salinger. Minha amiga me preveniu, dizendo que dificilmente ele responderia a meu pedido, mas não custava tentar, já que nos últimos tempos ele andava mais acessível, pelo menos por e-mail. Arrisquei. Meu e-mail foi enviado a sua agente, que se encarregou de passá-lo a Salinger. Dois meses depois, veio o sinal positivo.
No primeiro dos dois rápidos e-mails trocados antes da entrevista, sempre intermediados pela agente, apresentei-me como escritor e jornalista brasileiro que havia sido incumbido de tentar uma entrevista com ele, a primeira para o Brasil. Pedi desculpas pela invasão e disse que tentaria ser o mais breve e direto possível. Argumentei que no Brasil ele possuía uma legião de fãs que não sabiam de sua histórica animosidade com a imprensa e jornalistas americanos. Disse que respeitava sua reclusão e que a considerava um ato heróico em tempos de celebridades.
Salinger escreveu que, por eu ter sido educado e pouco insistente, ele abriria uma exceção. Disse que eu o havia "pego num bom dia" e que responderia a dez perguntas curtas, "desde que não tomassem mais de 20 minutos". Preferiu que eu enviasse cada pergunta e ele fosse respondendo uma a uma. Também deixou claro que esta seria "a primeira e última entrevista concedida a um país de língua espanhola" [sic].

Por que a resistência em dar declarações?
SALINGER: Não nasci pra falar em público, e as pessoas não entendem isso. Isso me mata. As pessoas acham que, só porque escrevi um livro, eu necessariamente tenha que ser uma pessoa falante ou que isso me qualifique automaticamente como orador. A verdade é que eu sou... bem, não quero que se aproximem de mim. Odeio dar entrevistas, como você sabe, embora esteja abrindo uma exceção para o público brasileiro. A verdade é que tenho halitose, por isso não quero que as pessoas cheguem perto de mim. É para o bem delas. Odeio, por exemplo, quando estou fazendo compras no shopping e alguém olha para mim e diz: "Você não é o J.D. Salinger?". Tenho vontade de fazer uma besteira.

Sim, entendo. Que procedimento o senhor costuma adotar nessas abordagens?
Nenhum. Viro as costas. Outro dia fingi que era surdo-mudo, antes de encarar o sujeito e sair da loja. Sabe que funciona? Pode parecer ridículo, mas foi a maneira que encontrei para evitar esse papo-furado estúpido dessa gente inútil. Acho que o mundo seria um lugar bem melhor para se viver se as pessoas tomassem conta de seus próprios assuntos. Tento proteger o que restou da minha privacidade. Quando as pessoas perdem o respeito comigo, seja quem for, para mim está acabado.

Mas, no caso de alguém precisar entrar em contato com o senhor ou o contrário, qual é o procedimento adequado?
Hoje em dia? E-mail. Se alguém quiser me dizer alguma coisa, escreva três linhas e me envie por meio de minha agente. Não há nada que não possa ser comunicado em três linhas, como os haicaístas e budistas sabem muito bem.

O senhor falou do público brasileiro. Há algo que o senhor conheça de nossa literatura? Também poderia mencionar autores americanos que considera importantes?
Por incrível que possa parecer, sim. Mas, para ser sincero, li muito pouco. O fato de eu não saber espanhol limita muito. Sou eremita, mas não sou desinformado... Li "Bras Cubas Latest Remembrances" (acho que é este o título) quando era jovem e também não ponho minha mão no fogo quanto à qualidade da tradução. Do pouco que acompanho de seu país ou que amigos brasileiros de Cornish comentam comigo por algum motivo, gosto de Rubem Fonseca, José Agrappino de Paula [sic], Hilda Hills [sic] e Dalton Trevisan (que conheci na tradução alemã). Entre os americanos, meus preferidos são Laura Riding, Emily Dickinson e Thomas Pynchon.

E o episódio de um site da internet que o senhor fechou por trazer uma centena e meia de citações de seu romance. O senhor não acha que foi uma atitude exagerada?
O problema é muito simples: não abro mão de meus direitos autorais. Não vou ficar alimentando o bolso desses elementos. O problema é que minha propriedade, minhas histórias foram roubadas. Alguém foi lá e roubou. Não é justo. Você não gostaria que eu fosse na sua casa, pegasse seu casaco preferido e caísse fora. É assim que me sinto em relação a isso.

Foi o que aconteceu também quando o senhor entrou com um processo contra a edição não-autorizada dos seus contos ["The Complete Uncollected Short Stories of J.D. Salinger"]?
Exato. Escrevi aquilo faz muito tempo. Nunca tive intenção de publicar aqueles contos e fiquei muito irritado com aquele episódio. O episódio daquela biografia, em que usaram minhas cartas, também me irritou muito. Como você sabe, ganhei as duas causas. Aqueles contos, para mim, já estavam mortos e enterrados. Foram feitos num tempo em que eu estava começando a escrever e precisava desesperadamente publicar. Não estou tentando esconder as fraquezas do meu trabalho, como insinuaram alguns. Simplesmente acho que m... não se publica.

Não que seja minha opinião, mas o que pensa quando críticos escrevem que o senhor é apenas "um recluso querendo atenção", como Robert Neill no "The New York Times" de novembro passado?
Esses imbecis não têm nenhum respeito, são uns estúpidos. Depois dizem que não tenho motivos para preferir me isolar. Vejo toda a estupidez do mundo pela TV e cada vez fico mais apavorado com o que estou assistindo, principalmente agora. Escritores precisam de solidão para poder escrever.

O senhor poderia adiantar algum projeto ou novo livro para os milhares de leitores brasileiros que cultuam sua obra?
Não sei. O que posso dizer é que escrevo todo dia, passo longas horas trabalhando. Tenho um quarto cheio de escritos. Se não publico, é por opção. Também não penso em lançar livros depois de morrer. Mas diria que vocês terão uma surpresa em 2005.

Não é um paradoxo um escritor evitar publicar? Não é exatamente o que todo autor mais deseja no mundo?
Como escreveu Emily Dickinson, "publicar é leiloar a alma humana". Adoro, amo escrever. Mas só para mim. Publicar é uma coisa perversa demais. Veja o que aconteceu no meu caso. Não tenho mais paz desde 1950. Acho que seria um homem mais feliz se nunca tivesse publicado nada. Não publicar me dá uma indescritível paz de espírito, uma sensação de bem-estar. Também recuso-me a dar autógrafos. Quem tem que dar autógrafo são atores e celebridades da mídia. O autógrafo de um escritor, se ele tiver algum caráter, deveria ser sua própria obra.

Sim, mas seu livro teve tanto impacto... Num trecho, Holden afirma que um livro é bom "quando a gente fica querendo ser um grande amigo do autor, para telefonar para ele quando der vontade". O senhor se arrepende de ter escrito isso?
Acho que o senhor não está me entendendo. Vou repetir pela última vez: escrevo para mim e quero que me deixem só. Quero ser deixado totalmente em paz para fazer minha obra. Não existe mais Holden Caulfield. Por que você não vai ler o livro de novo? Está tudo lá.

Gostaria de saber sua opinião sobre o livro de Joyce Maynard sobre os 11 anos que conviveu com o senhor ["Abandonada no Campo de Centeio", Geração Editorial].
Não, agora chega. Eram dez perguntas, isso precisa parar. Já respondi o que tínhamos combinado. Você está começando a ficar inconveniente.



Um comentário:

denny yang disse...

Caro Rodrigo,

Lembro que li esse artigo - que encontrei por acaso, agora - no caderno Mais! da Folha... e na época eu havia acreditado que você realmente havia entrevistado o escritor que tanto admiro...!
Por sinal, como se faz para colaborar na revista Coyote, com textos de ficção^[