quarta-feira, dezembro 09, 2009

MATÉRIA SOBRE TRADUTORES PARANAENSES NA GAZETA DO POVO

LITERATURA

Outras palavras

Tradutores paranaenses conquistam espaço no mercado editorial, concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro

Publicado em 07/12/2009 | MÁRCIO RENATO DOS SANTOS

Curitiba, já faz tempo, é apontada como uma cidade literária. Mais que isso: o Paraná é um estado com tradição e presença no mapa da literatura brasileira. Escritores como Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Do mingos Pellegrini e Miguel San ches Neto têm os seus livros publicados por editoras de repercussão nacional.

Mas os paranaenses também se fazem presentes no circuito literário nacional devido a uma outra atividade: a tradução.

Caetano Waldrigues Galindo é um tradutor que, em anos recentes, passou a ser solicitado por editoras paulistanas. Para a Companhia das Letras, uma das mais importantes casas editoriais brasileiras, ele traduziu (este ano) Hotel Mundo, de Ali Smith. A pedido da Companhia, traduz, neste momento, Vício Inerente, de Thomas Pynchon e, em parceria com o curitibano Christian Schwartz, realiza a tradução de letras de Lou Reed para um futuro livro.

Galindo, Schwartz e outros tradutores paranaenses (ou radicados no Paraná) vertem ao português textos de ficção que estão, a cada dois meses, na revista Arte & Letra: Estórias, publicação curitibana apontada como uma vitrine para tradutores (além disso, a revista também publica originais, inclusive de autores brasileiros).

Existiria um movimento ou grupo de tradutores em Curitiba, no Paraná? Galindo responde, e a resposta é compartilhada por outros tradutores consultados pela Gazeta do Povo: “Na boa, isso é meio que um negócio solitário mesmo. Eu e o Christian, agora, trabalhando juntos (no projeto do Lou Reed), andamos trocando umas ideias. Mas em geral acho que a empresa (a tradução) é isolada.”

Um exemplo poético

A trajetória do londrinense Rodrigo Garcia Lopes exemplifica uma possibilidade para quem pretende ser tradutor no Brasil. Hoje com 44 anos, ele começou a traduzir no mesmo momento em que começou a escrever poesia, em 1982, com 17 anos. Nas páginas do extinto suplemento Leitura, da Folha de Londrina, ele (em parceria com Maurício de Arruda Mendonça) assinou uma tradução para fragmentos de Uivo, de Allen Ginsberg.

Desde então, traduziu mais de 200 poemas, de 200 autores, o que daria um livro (projeto que ele não descarta de vir a ser realizado). Lopes, seguindo uma su gestão do poeta Ezra Pound, optou pela tradução como uma maneira de aprender a escrever poesia. Já publicou seis livros, dois deles muito badalados: Fo lhas de Relva, de Walt Whitman, e Ariel, de Sylvia Plath (em parceria com Maria Cristina Lenz de Macedo).

Ele acredita que um tradutor tem de ser, simultaneamente, um leitor e um escritor, opinião compartilhada por outros profissionais. “Afinal, o tradutor tem de conhecer, e entender, os dois idiomas, de onde ‘saiu’ e para ‘onde’ irá o texto”, diz. O poeta e tradutor acrescenta que o tradutor não pode impor a sua própria voz, mas também não deve se esconder demais. “Na tradução, não se deve ‘trair’ de mais, nem de menos”, afirma.

Uma arte refinada

Roberto Mugiatti, curitibano ra dicado no Rio de Janeiro, cita uma frase de Paulo Henriques Britto (renomado tradutor) a respeito do ofício: “A gente só lê bem um livro se está fazendo a tradução.” A afirmação aponta para uma questão importante: o tradutor precisa ler atentamente a obra que está traduzindo, leitura essa que inclui contextualização histórica do período em que o texto original foi escrito (para evitar, por exemplo, equívocos a respeito de expressões coloquiais). Muggiati já traduziu mais de 60 livros, entre os quais alguns de John Fante, como Per gunte ao Pó, que anteriormente havia sido traduzido por outro curitibano, o poeta Paulo Leminski.

Leminski é considerado um tradutor ousado. Ele traduziu livros de John Lennon e Samuel Beckett, e costumava praticar a transcriação (uma espécie de recriação do texto original). Cae tano Galindo acredita que a tradução, de maneira geral, é um jogo que envolve a criatividade. “Ler uma tradução é ouvir uma história contada pela segunda vez, por outra pessoa. É ler o mesmo livro, escrito de novo, por outro escritor (o tradutor)”, afirma.

Natural

A tradutora Márcia de Carvalho Saliba observa que a boa tradução é aquela que soa natural, que não deixa o eco do idioma original. “A tradução ruim, ao contrário, me lembra a cada linha, a cada palavra, que o texto não foi escrito em português”, argumenta. Sandra Stroparo, que acaba de traduzir Viagem Em Volta do Meu Quarto, de Xavier de Maistre, projeto encomendado por uma empresa curitibana, mas viabilizado pela Hedra (SP), diz algo que é vital para os tradutores: “É o mercado, a demanda das editoras, que define (a atividade de um tradutor)”.

2 comentários:

Claudia Silva disse...

Muito legal! parabéns! e bacana a homenagem pro Mário. Beijo!

Claudia Silva disse...

Muito legal! Parabéns! E bacana a homenagem para o Mário. Beijo!