domingo, outubro 12, 2008

CARTA-OCEANO, de Apollinaire

























A POESIA VISUAL DE “CARTA-OCEANO” E DOS CALIGRAMAS


A realização mais ousada do livro
Caligramas, de Guillaume Apollinaire, em termos de composição, é “Lettre-Ocean” (publicado na Soirées de Paris em 15 de juho 1914). O poema foi concebido duas páginas abertas de um livro, como Mallarmé faz em “Um Lance de Dados”. Este poema inclusive se destaca dos demais caligramas, pois aqui as formas e objetos são mais abstratos e esquemáticos do que em poemas como os conhecidos “Chove” ou “Fonte”, que imitam de modo inequívoco o objeto a que se referem. Aqui os recursos visuais tendem à abstração e à ambiguidade: os dois blocos ondulados que separam o espaço do poema podem ser interpretados como o Oceano Atlântico (que o separa do irmão, no México) ou a ondas herzianas. Já os dois verdadeiros mandalas que ocupam a parte inferior e o centro da segunda página podem ser lidos como uma referência à roda gigante instalada no começo do século próximo à torre Eiffel, aos círculos da pintura orfista de Delaunay, a um molho de chaves (que é aludido em uma das linhas que compõe seus raios), a um disco fonográfico com suas ranhuras, ao sol e, finalmente, a torre Eiffel e sua antena de TSF emitindo transmissões de linguagem.


Como indica o título, o poema é apresentado como uma carta (carta-oceano sendo uma transmissão que se fazia de navios em alto mar para o continente, sendo usada, por exemplo, durante o naufrágio do Titanic, em 1912). Se há um tema aqui, pode-se dizer que são as novas formas de comunicação e seu impacto na percepção e na vida das pessoas. Neste poema, Apollinaire ambiciona reproduzir, ao modo simultaneísta, as barreiras vencidas pelo advento dos novos meios de comunicação (a telegrafia sem fio, o rádio, o fonógrafo, o telefone, o cinema). O gatilho do poema é a troca de mensagens e correspondências entre ele em Paris e seu irmão Albert, que estava no México. O primeiro passo é decidir por onde começar a leitura, pois se ele se apresenta simutaneamente ao nosso olhar. Primeiro, somos apresentados a “ilhas de linguagem” que desorientam nossos padrões de leitura. Lugares geográficos são indicados apenas de passagem, como alusões a eventos históricos (o terremoto em Nice, OS MAYAS, ou a revolução Mexicana).
Os blocos de ondas que dividem simetricamente a peça figuram tanto o mar que o separa de seu irmão Albert como também as ondas hertzianas que os une no ato comunicativo. Segue-se uma colagem de fragmentos de dois cartões postais. Na parte de baixo da primeira página, um forma circular nos chama a atenção: difícil decidir se ele se remete a um mandala, à forma de um molho de chaves (“Já vi milhares de chaves”, lemos num fragmento). Talvez isso tudo ao mesmo tempo, mas, principalmente quando consideramos o segundo mandala, na página direita, percebemos que os raios representam a “informação” que escapam da antena da TSF (sigla para “telegrafia sem fio” e que aparece, em fonte bem maior e em bold, entre os dois círculos, talvez também figurando a torre).
Constatamos, então, que os dois raios do círculo são formados de fragmentos de conversa (“na Tunísia você funda um jornal”) fragmentos de anúncios de jornal (“[pro]prietário de 5 ou 6 im [óveis]….”), comandos de um policial (“todo mundo circulando”), relatos de experiências sexuais (“Jaques foi um tesão”), cantadas, pequenas confissões ilicitas (“viajei de graça com minha garota”), vaias populares (“BÚÚÚ aos camponeses”), confissões etílicas ( “acordei às 2 da manhã e já bebi uma garrafa de mouton”), refrões de vendedores de sorvete (“À la créme a...") ou de um menu de restaurante, anúncios de embarque de trem (“passageiros embarcando para Chateau”), mensagens urgentes (“Páre motorista”, “o cabograma constitua em duas palavras EM segurança/A SALVO”), fragmentos de slogans políticos ("Vida longa ao Rei”) ou religiosos ( “Abaixo os padres”, “EVIVAOPAPA”), ruídos de ônibus, sirenes, interjeições, e até mesmo os ruídos que “os sapatos novos do poeta” fazem pelas ruas de Paris (descritos em letras maiúsculas e sugeridos pela repetição dos passos através da onomatopéia “cri”). Este último som também pode sugerir os ruídos da agulha saltando nos sulcos do “disco”, uma novidade na época.
Apollinaire se inspira no fato da poderosa antena ter sido instalada no alto da torre Eiffel há pouco tempo, sendo usado por militares e também como padrão de medição do tempo e para emitir mensagens militares, sinais, de rádio, fazendo dela o “centro” ou “umbigo” do mundo (outro caligrama possível). A torre aqui é transformada numa verdadeira Torre de Babel modernista. O que temos é um oceano de linguagem mas é impossível determinar sua origem. Os dois círculos também podem estar figurando a torre e a roda gigante instalada em suas proximidades na época, e que se tornou tema de ínumeros fotógrafos e pintores.
Como se não bastasse, “Carta-Oceano” ainda nos guarda uma última surpresa, pois exatamente no centro da mandala temos a informação de nossa localização verdadeira: “a 300 metros de altura” (a altura da torre Eiffel). Só então percebemos, para nossa surpresa, que a tomada proposta da torre Eiffel e seus raios não é lateral, mas
de cima para baixo, como uma visao aérea: a torre Eiffel vista de cima, a emitir e receber mensagens do mundo e do ambiente urbano ao redor.
Embora ele mesmo reconhecesse que um poema, ao contrário da pintura, nao é eminentemente espacial (como a pintura ou o cinema, por exemplo) e sim temporal (lemos de fonema a fonema, de palavra em palavra) Apollinaire nos desafia, em poemas como este, a repensar a relação entre palavra e imagem, aparência e real, tempo e espaço. “Carta-Oceano” pode ser vista como uma síntese de alguns procedimentos de sua poesia, sendo uma mistura de caligrama,
poema-pintura e poema-conversação. O poema, enfim, é dotado de uma rica textura textual e ainda hoje desafia nossos hábitos de leitura.




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