sábado, fevereiro 02, 2008

"M"


Este poema foi escrito em Londres, quando vivi lá, no século passado (1984 e 85, para ser exato), no bairro Shepherd's Bush, e no filme Disque M Para Matar, do Hitchcock, cineasta que adoro. De tarde e começo da noite trabalhava como ilegal (ajudante de cozinha e lixeiro) num restaurante francês do lado da Ópera, em Covent Garden. E de noite ficava bebendo uísque, conversando com meus colegas de apê e escrevendo. Bons tempos. Tudo parecia um filme. O poema tem um clima de história de detetive e um tom de urgência que gosto muito. Para quem não conhece, saiu no livro Solarium (editora Iluminuras, em 1994). Divirtam-se:


“M”


1


Improvisação pessoal.

Essa noite sou um jazzman

com dentes de ouro & swing

pra raiar o dia.

Troco a mobília de dentro, só,

pra ver como ficamos.

Táxis negros dão rasantes

sobre suicidas.

Sou apenas um fantasma clandestino

procurando o que beber

nessa noite fria.

Amo a lua, submisso,

embrulhado num lençol chinês.

Spyder-man tecendo

essa novela de personagens

tão confusas.

Desarrumo tudo.

Paciente,

espero os ilustres convidados que, eu sei,

não vão chegar.


2


Descendo pels escadas de emergência

do maior edifício do mundo.

Escuro.

A idiota que eu amo está lá em cima,

dormindo, suando frio,

morrendo um pouco. Pego o fone.

O silêncio com seu cínico sorriso.

Não importa: minhas mãos

negras, negras,

tremem como coelhos.

Digo: “É mesmo impossível sentir frio

Com esses cobertores alemães”.

Kris quebrou a perna,

o indiano da quitanda teve um filho

o resto são arrependimentos

terríveis de serem sentidos”.

(Mas me amarro nos mastros

de alguém que é um naufrágio.

Destroços de ondas que a corrente leva,

Orgulhosa).


3


Misteriosas vozes escapam

do esgoto.

Bêbados brigam por uísque.

Ratos fogem, nojo.

Um rádio toca Vivaldi.

O casal ao lado espanca-se,

em silêncio.

Tomado pelo pânico

tropeço em gatos amarelos

perdido em minha própria obsessão.


4


Ouço passos apressados

A mil degraus.

Vem subindo alguém,

Como uma febre, alguém que se quer muito.

A Loucura arromba a porta.

Revira os olhos. Vasculha a sala.

Vidraças, aos gritos, se atiram lá de cima.

Com um canivete enterrado nas costas

Ainda disco o último número.




Rodrigo Garcia Lopes


De Solarium (Iluminuras, 1994)


4 comentários:

Anônimo disse...

Roderick, gosto muito desse poema, um de meus favoritos do belo Solarium. O abraço do

Claudio Daniel

Estúdio Realidade disse...

Valeu, Claudio,
um abraço,
Rodrigo

Micha disse...

Tão cru e na veia...tão londres. Belissimo, conseguistes tecer uma teia que da prazer em se enroscar e la ficar. Cheers!

Micha disse...

Tão cru e na veia...tão londres. Belissimo, conseguistes tecer uma teia que da prazer em se enroscar e la ficar. Cheers!