"Storm the Reality Studio, and retake the universe" ("Assaltem o Estúdio Realidade, e retomem o universo") WILLIAM S. BURROUGHS
terça-feira, dezembro 30, 2008
sexta-feira, dezembro 19, 2008
A LUME SPENTO
Colhe com seus olhos a fumaça que insinua
ao penetrar — sendo incenso e silêncio —
sua mente em meio ao tráfego intenso
da manhã, relumbre em suas mãos nuas.
Daqui das margens desse sonho
ideogramas de formas obscuras
reescrevem seus gestos num bazar estranho
sem saber ao certo o que procura:
Se meus olhos, opacos, entre bijuterias
baratas que você arremessou
(como quem dedilha um sol menor ou
a linha acesa de minhas artérias)
Mas sem querer você abre, de leve,
as persianas e invade uma sutil
reminiscência do que nunca existiu
(Ou, como seu rosto, foi tão breve).
Rodrigo Garcia Lopes (Nômada, 2004)
terça-feira, dezembro 16, 2008
PEDRA DE TOQUE (poesia brasileira - entrevistas)
domingo, dezembro 14, 2008
CIDADES (de Arthur Rimbaud: tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)
CIDADES
Que cidades! É um povo para o qual foram montados Apalaches e Líbanos de sonho! Chalés de cristal e madeira deslizam sobre trilhos e polias invisíveis. Crateras ancestrais circundadas de colossos e palmeiras de cobre rugem melodiosamente dentro dos fogos. As festas do amor badalam nos canais suspensos atrás dos chalés. Matilhas de sinos gritam nas gargantas. Associações de cantores gigantes chegam em trajes e adereços cintilantes como a luz nos cimos. Sobre as plataformas, em meio a precipícios, os Rolands buzinam sua bravura. Sobre as passarelas do abismo e os tetos dos albergues, o arder do céu hasteia os mastros. O colapso das apoteoses concentra os campos das alturas onde centaurinas seráficas evoluem entre as avalanches. Acima do nível das mais altas cristas, um mar atormentado pelo eterno nascimento de Vênus, repleto de frotas orfeônicas e do murmúrio de pérolas e conchas preciosas, — às vezes o mar se escurece com brilhos mortais. Nas encostas, safras de flores imensas bramem como nossas armas e taças. Cortejo de Mabs em robes russos, opalinas, trepam nas ravinas. E lá em cima, as patas nas sarças e cascatas, cervos sugam os seios de Diana. bacantes de subúrbio soluçam e a lua queima e uiva. Vênus penetra nas cavernas de ferreiros e eremitas. Torres de sinos cantam as idéias das pessoas. A música desconhecida escapa dos castelos de osso. Todas as lendas evoluem e élans invadem os burgos. O paraíso de tempestades despedaça. Selvagens dançam sem cessar a festa da noite.
E, uma hora, desci na agitação de um bulevar em Bagdá onde companhias cantaram a alegria do trabalho novo, sob uma brisa espessa, circulando sem poder iludir os fantasmas fabulosos dos montes, onde se devia reencontrar.
Que braços bons, que hora adorável vão me devolver essa religião de onde vêm meus sonos e meus movimentos mais sutis?
ARTHUR RIMBAUD
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça
Em Illuminations (Editora Iluminuras, 1994)
sexta-feira, dezembro 12, 2008
OLHA
Meu amigo e irmão Maurício Arruda Mendonça (com quem traduzi Sylvia Plath e Rimbaud), é o autor dessa pérola de poema. Ele é um de meus poetas favoritos, embora escreva pouco (poesia) e infelizmente não seja mais conhecido. Este poema virou uma musica de arrepiar nas mãos do Bernardo Pellegrini.OLHA
olha : eu ando louco à procura
de um olhar que como o seu
me acalme um pouco
e eu possa chamar poema
salto de cervo
lua de outono
olha : a parede se descasca
poeira em tudo o que fica
pense um pouco
cinza de cigarro
tubo de caneta
não foi assim
que eu te ensinei a mentir
tenho febre
algum tipo de dor
mas ainda que eu erre
olha : velocidade é uma fissura
da juventude
solidão é um método maluco de saber
quem está dentro de você
quando a cidade inteira
te odeia mas
entre almas de jeans
você segue
olha : nada na neblina
além de borboletas transando
estátuas se mexendo
pessoas que se esqueceram de sorrir
e você vai se matando
de tanto dizer sim
mas
olha : a chuva fina no asfalto
:
a sua pele sobre o meu corpo
pra sempre
MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA
Em Eu Caminhava Assim Tão Distraído (Setteletras)
Poema musicado por Bernado Pellegrini no CD Dinamite Pura.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
CIDADE (Arthur Rimbaud: trad: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)

Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, — Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.
ARTHUR RIMBAUD
(Em Illuminations)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)
quarta-feira, dezembro 10, 2008
PENSAMENTO DO DIA (LEONARD COHEN)
"Poetry is just the evidence of life. If your life is burning well, poetry is just the ash.”
LEONARD COHEN
LUCIFER POETICS GROUP EM THE FANZINE
Os poemas c:/polivox.doc e América # 3 aparecem aqui na brilhante tradução de Chris Daniels.
AQUI:
segunda-feira, dezembro 08, 2008
A MUSA CHAPADA
sexta-feira, dezembro 05, 2008
SALDO (Arthur Rimbaud, trad. Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)
Vende-se o que os Judeus não venderam, o que nem a nobreza nem o crime
provaram, o que o amor maldito e a honestidade infernal das massas ignoram;
o que nem a ciência nem o tempo reconhecem;
As vozes restauradas, o despertar fraterno de todas as energias corais e
orquestrais e suas aplicações instantâneas; ocasião única de liberar nossos
sentidos!
Vende-se Corpos sem preço, de qualquer raça, de qualquer mundo, de
qualquer sexo, de qualquer descendência! Riquezas brotando a cada passo!
Saldo de diamantes sem controle!
Vende-se anarquia para as massas; satisfação irreprimível para amadores
superiores; morte atroz para os fiéis e os amantes!
Vende-se casas e migrações, esportes, magias e comfortos perfeitos, e o ruído,
o movimento e o futuro que eles fazem!
Vende-se aplicações de cálculo e saltos inauditos de harmonia. Achados e
termos sem suspeita, entrega imediata,
Impulso insensato e infinito aos esplendores invisíveis, às delícias insensíveis,
— e seus segredos enlouquecedores para cada vício — e uma alegria
assustadora para a multidão.
Vende-se Corpos, vozes, a inquestionável opulência imensa, que nunca será
vendida. Os vendedores têm muitos estoques para liquidar! Os viajantes não
precisam ter pressa para entregar as encomendas!
ARTHUR RIMBAUD
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. (Em Iluminuras: Gravuras Coloridas, Iluminuras 1994)
quinta-feira, dezembro 04, 2008
terça-feira, dezembro 02, 2008
Dickinsoncampos
Interrupções são bem-vindas, dizia Cage.
Bem, desde que o sentido, já ruína, deixe
Estabelecer seu ruído como um feixe
Que cruze o ar como um reflexo e beije
A mente à deriva, cansada de viagem.
Ele foi e voltou, nunca viu nem sabe
Da lua nova rangendo seus dentes de sabre,
Do silêncio que, cuidadoso, se abre
Para que a nata do vácuo nos consagre.
domingo, novembro 30, 2008
IN A SILENT WAY
para Miles Davis
folhas soltas
idéias-folhas
poucas
nessa sala
a fumaça
vaza
embaça
a vidraça
dessa quase manhã
um silêncio
se instala
na casa vazia
na varanda
só a mais solta
idéia de vazio
(concha onde
pérola alguma
se esconde)
ao invés -
dias e dias se passam
sem nenhuma
mais completa
idéia de vazio:
um sol pousa
desliza, rebrilha
em cada folha
Rodrigo Garcia Lopes (em Polivox, 2001)
quinta-feira, novembro 27, 2008
O TIGRE (fábula de Franz Kafka)
O TIGRE
Certa vez um tigre foi trazido a Burson, célebre domador de animais, para que ele desse sua opinião sobre a possibilidade de se domesticar o animal. A pequena jaula com o tigre foi empurrada até a jaula de treinamento, que tinha as dimensões de uma sala pública; ficava dentro de uma imensa tenda de acampamento bem longe da cidade. Os assistentes se retiraram: Burson sempre queria estar completamente só com o animal no primeiro encontro. O tigre deitava imóvel, tendo acabado de ser bem alimentado. Ele bocejou um pouco, olhou com olhos cansados para seus novos arredores, e imediatamente adormeceu.
FRANZ KAFKA
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
segunda-feira, novembro 24, 2008
SUTILEZAS, ESCURIDÃO E SILÊNCIOS
Edição integral de Ariel, de Sylvia Plath, mostra uma poeta a debater-se entre a vida e a morte
Vilma Costa • Rio de Janeiro – RJ
Ariel
Sylvia Plath}
Trad.: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo
Verus
209 págs.
Ariel, de Sylvia Plath, edição restaurada e bilíngüe com manuscritos originais, pretende trazer a público a leitura desses poemas sob nova perspectiva. Foi editado pela primeira vez em 1965, pelo poeta Ted Hughes, marido de Sylvia, omitindo alguns poemas e acrescentado outros, segundo seus próprios critérios de seleção, contrariando a proposta de organização deixada pela autora ao suicidar-se em 1963. Em 2004, por iniciativa da filha do casal, Frieda Hughes, é publicada uma nova edição revisada, desta vez dentro da proposta inicial.
O novo volume inclui textos datilografados e revisados pela autora, em inglês, com a correspondente tradução, manuscritos e originais, através dos quais é possível se ter uma visão mais próxima desse rico e complexo processo de criação poética. Traz também um anexo de notas, no qual são apresentados cada poema, data de produção e alguns comentários com a intenção de facilitar a leitura.
Fato é que, por mais que se persiga o objetivo de uma leitura textual isenta de impressionismos biográficos, a vida tumultuada e a morte trágica e precoce da poeta pairam como fantasmas a cada virada de página, constituindo-se num fio de leitura, que durante muito tempo assumiu destaque, para não se falar em predominância de enfoque. Além disso, é inegável que a popularidade e o sucesso no mercado editorial, no primeiro momento, devem-se muito a isso.
Em uma cena do filme Sylvia (2003), de Christine Jeffs, Sylvia e Ted passeiam num lago azul discutindo poesia. Ted enfatiza a necessidade de uma temática clara e definida para a realização de cada poema, Silvia não se posiciona, como se isso não lhe preocupasse. Ted insiste: "- Você é o tema". O sujeito confessional e dilacerado está no centro da discussão de toda sua poética, registra suas dores, confessa suas fragilidades, mas não pára por aí. Racionaliza e reelabora essa matéria-prima quando busca uma forma em versos, imagens, sons, cores, lágrimas, gritos, sangue e, compulsivamente, lança-se como flecha em obstinada busca.
Neste sentido, vida e morte entrelaçam-se, mais como problema que como tema, tanto nos textos da poeta, quanto nos outros que vêm sendo produzidos a partir daí, sob diferentes linguagem, desde as variadas leituras críticas, passando pela narrativa cinematográfica, até a ficção contemporânea. Exemplificando esta última, Adriana Lunardi, no conto Victoria do seu livro Vésperas (2002), faz referência à autora de Ariel, através de um personagem, cidadão comum londrino, que reflete sobre a vida ao saber da morte de Sylvia pelos jornais: "Além dos muitos poemas, relata o jornal, Sylvia Plath deixa dois filhos, uma menina e um menino, ainda pequenos. É fácil imaginar que essas crianças logo irão crescer e alcançar a idade que a mãe tinha quando morreu". Acrescenta, ainda: "em determinado ponto, serão mais velhos do que ela e passarão a enxergá-la com olhos de pais, de pessoas que experimentaram as dores e os impulsos que Sylvia não resistiu, e finalmente a entenderão, apesar de tudo". Pode ter sido isso que mobilizou a filha Frieda no empenho de publicação. Pode ser isso tudo apenas ficção. Mas seja lá o que for, possibilita-nos hoje o resgate de uma escrita primorosamente elaborada, apesar de tudo, ou, principalmente por tudo.
Ariel, o poema que dá título ao livro, tem um caráter hermético, tenso, que sugere decifração, mas cheio de obstáculos para tal, como muitos outros poemas do livro. Revela-se, entretanto, com uma gama infinita de possibilidades pela força que é empreendida numa dicção alada e sintética. Ritmo e imagens constroem o essencial para estabelecer sentidos provisórios e muitas vezes precários: "Estase no escuro./ E um fluir azul sem substância/ De rochedos e distâncias". Nas Notas, os organizadores tentam esclarecer: "Escrito no dia do aniversário da poeta (27/10/62). Na peça A tempestade, de Shakespeare, Ariel é o nome do Espírito do Ar; significa ‘leão de Deus', em hebraico; e é também o nome do cavalo que a poeta costumava cavalgar quando morava em Devon". A nota é mais ilustrativa do que esclarecedora. Apesar da força de cada palavra e expressão, estas não designam propriamente o que parecem designar. Neste poema, as palavras precipitam-se em saltos, num fluir sem substância, como o sujeito lírico que parece entregue a essa fluidez e, num determinado ponto, projeta-se indo em frente, sem pretensão de controle absoluto para onde, mas assumindo a direção: "E eu sou a flecha.// Orvalho que voa/ Suicida, e de uma vez avança/ Contra o olho.// Vermelho, caldeirão da manhã".
Ana Cristina Cesar, em um ensaio sobre tradução, comenta: "No poema de Plath a linguagem é algo com valor absoluto. A poeta encontra as palavras no caminho. As palavras são o outro lado da realidade, ingovernáveis, ásperas. Será por isso que elas não designam, não colaboram com o autor nem obedecem a ele?" Ou seja, citando a própria Plath, a linguagem é "um signo puro, que deixou de designar as coisas". Pelo menos é essa a proposta de toda uma modernidade, cujo fazer poético é antes de tudo laboratório de experimentação da arte e seus artifícios. O paradoxo que tem que ser enfrentado pelos leitores, em especial, pelos tradutores, é como trabalhar neste sentido. Ou seja, considerando a linguagem como um outro lado da realidade, ingovernável e áspera, como talhá-la e submetê-la à forma e ao conteúdo da expressão escrita? A escolha de cada palavra, sua posição no texto, a linguagem numa nova língua são como as rasuras de um poema, que já foram e continuarão sendo feitas, sempre como novas escritas, reescritas. Neste sentido, "tradução é traição". E sob esse ponto de vista, esta edição bilíngüe abre muitos leques de questionamentos e leituras. Num trecho desse poema, por exemplo: "Nigger-eye/ Barries cast dark/ Hooks", podemos comparar o trabalho dos poetas tradutores (sim, pois é preciso ser poeta para transitar nos meandros dessas traduções e traições), Rodrigo Garcia Lopes ("Olhinegras/ "Bagas lançam escuros/ Ganchos -") e Ana Cristina César ("Sementes, /De olhos negros lançam escuros/ Anzóis...") ao traduzirem o mesmo texto, fazem diferentes escolhas tanto vocabulares, quanto fonéticas e semânticas. Reinventam, portanto, através da tradução um novo poema.
Na leitura do poema Lady Lazarus, o fio biográfico é bem definido: "Tentei outra vez./ Um ano em cada dez/ Eu dou um jeito". As tentativas de suicídio desse sujeito lírico se esboçam através de imagens associadas à ressurreição. Esse jogo envolve tanto a referência bíblica de Lázaro, como a alusão aos mitos pagãos de Fênix, que renasce das cinzas, ou Dionísio, que se recompõe sempre após cada morte. "Saída das cinzas/ Me levanto com meu cabelo ruivo/ E devoro homens como ar." Em outro trecho, também do desespero parte-se para a racionalidade: "É o teatral/ Regresso em plena luz do sol/ Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito/ Aflito e brutal:". O apelo para a dramaticidade trágica vem carregada da convicção da vitória da vida sobre a morte, mesmo que em linguagem teatral, performática. Tudo é arte, artifício, representação, até o suicídio definitivo, que matou a mulher, garantiu a vida e a imortalidade da poeta, "saída das cinzas". Afinal, "morrer é uma arte como tudo mais".
Em A lua e o teixo, estes dois elementos vão se construindo enquanto imagens opostas que se complementam entre luz e sombra, barulhos e silêncios e um sujeito lírico impotente em busca de expressão, um corpo que como espectro se movimenta. "A lua não tem porta. É uma face em seu pleno direito/ Branca como o nós dos dedos, terrivelmente incomodada./ Arrasta o mar atrás de si como um crime sujo; está quieta,/ A boca aberta em total desespero. Moro aqui." Enquanto isso: "O teixo aponta para o alto. Tem forma gótica//... E a mensagem do teixo é escuridão - escuridão e silêncio". Como a vida, a obra de Sylvia Plath é permeada de sutilezas, escuridão e silêncios, cuja personagem principal é a própria linguagem, ou melhor, a impotência desta em falar da existência, suas paixões, redenções e desesperos.
(Jornal Rascunho, novembo de 2009)
domingo, novembro 23, 2008
RESSURREIÇÃO (POEMA DE ROBERTO BOLAÑO traduzido por Rodrigo Garcia Lopes)

A poesia penetra no sonho
como um mergulhador num lago.
A poesia, mais corajosa que ninguém,
penetra e cai
feito chumbo
num lago infinito como o Lago Ness
ou turvo e nefasto como o lago Balatón.
Contemple-a lá do fundo:
um mergulhador
inocente
coberto com as penas
da vontade.
A poesia penetra no sonho
como um mergulhador morto
no olho de Deus.
ROBERTO BOLAÑO
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
terça-feira, novembro 18, 2008
Poema de Wislawa Szymborska na COYOTE 18

O TERRORISTA, ELE OBSERVA
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar.
Alguns de sair.
O terrorista já cruzou para o outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo
e a vista, bom, é como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele cara mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
Aquele mais alto entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa com uma fita verde no cabelo.
Só que o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se foi tola de entrar ou não
vai se saber quando os carregarem para fora.
Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e faltando dez segundos para as treze e vinte
volta para buscar a droga das luvas que perdeu.
São treze e vinte.
O tempo, como ele voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.
Wislawa Szymborska
Tradução: Regina Przybycien
segunda-feira, novembro 17, 2008
MULHER DA MULTIDÃO (música de Rodrigo Garcia Lopes)
Esta é a música que abre o meu CD Polivox (Independente, 2001).
MULHER DA MULTIDÃO (Rodrigo Garcia Lopes)
Você me toca
como quem
troca de roupa
você me provoca
e troça
dessa minha doce
distração
pra que tanta pressa
você
mulher da multidão
(nem adianta vir você
implicar comigo
porque eu já bem sei
qual o motivo)
Rodrigo Garcia Lopes: violão, voz, vozes e efeitos
Sidney Giovenazzi: violão solo, baixo e teclados
domingo, novembro 16, 2008
COYOTE 18 NO SITE CRONÓPIOS + TRADUÇÕES DE HAIKAIS DE KEROUAC

O portal Cronópios destaca o novo número da revista e publica haikais de JACK KEROAUC que não saíram no número 18 da revista, traduzidos por mim, aqui:
http://www.cronopios.com.br/site/lancamentos.asp?id=3652
de O LIVRO DOS HAIKUS
Jack Kerouac (Estados Unidos)
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
Na cadeira
Decidi chamar o Haiku
Pelo nome de Pop
In the chair / I decided to call Haiku / By the name of Pop
Crepúsculo – pássaro
na cerca
Meu contemporâneo
Dusk—the bird / on the fence / A contemporary of mine
Esses pássaros sentados
lá fora na cerca —
Todos vão morrer.
Those birds sitting/ out there on the fence —/They´re all going to die.
Noite perfeita de lua
arruinada
Por brigas de família
Perfect moonlit night/marred/ By family squabbles
Grilos – gritam
por chuva –
Mais uma?
The crickets—crying/ for rain—/ Again?
Os gatos, de cara
com alguma coisa nova,
Olhando na mesma direção
The housecats, amazed/ at something new,/ Looking in the same direction
Lavando o rosto
com a neve
Sob a Ursa Menor
Washing my face/ with snow/ Beneath the Little Dipper
Perfeito círculo redondo
a lua
No centro do céu
Perfect circle round/ the moon/ In the center of the sky
Em toda parte além
da Verdade,
Azul do espaço vazio
Everywhere beyond/ the Truth,/ Empty space blue
O pássaro voou
e a distância ficou imensa-
mente branca
Bird was gone/ and distance grew/ Immensely white
O mosquito, tão
sozinho quanto eu
Nessa casa vazia
The fly, just as/ lonesome as I am/ In this empty house
JACK KEROUAC
TRADUÇÃO: RODRIGO GARCIA LOPES

