domingo, setembro 02, 2007

MEDUSA, de Sylvia Plath

“Medusa” (escrito em 28 de outubro de 1962) é um complexo poema de Sylvia Plath. O poema se desenvolve e avança -- como um organismo vivo -- através de intrincadas metáforas, ao modo da poesia metafísica inglesa (como em Donne). Primeiro, a “Medusa” do título pode se aplicar, simultaneamente à Medusa da mitologia grega (a bela mulher que, por ter ofendido a deusa Atena, foi transformada por esta num monstro com cabelos de serpente e face tão horrível que transformava em pedra todos que a olhassem diretamente. Perseu foi capaz de cortar a cabeça da Medusa sem olhar diretamente para ela, vendo-a através do reflexo em seu escudo); à medusa marinha: água-viva, "forma livre-natante e pelágica de alguns cnidários, caracterizada pelo corpo gelatinoso, que lembra um sino ou um guarda-chuva, com tentáculos na margem, lado convexo voltado para cima e boca localizada no centro da superfície côncava inferior" (Dicionário Houaiss); à sua mãe, Aurelia Plath, que veio dos Estados Unidos para visitá-la na Inglaterra, no auge da crise do seu casamento com Ted Hughes. Curiosamente, Aurelia aurita é um tipo de água-viva (a da foto abaixo). A habilidade de manipular três metáforas ao mesmo tempo, durante o poema, e sem perder a bronca, sua técnica de fusões metafóricas, fica evidente. É um exemplo de Plath em seu auge, em seus rituais xamânicos, em sua excentricidade e raiva, em sua poesia que parece às vezes uma espécie de exorcismo lapidado.


MEDUSA


Longe dessa península de bocais pétreos,

Olhos revirados por varetas brancas,

Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,

Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,

Lente de piedades,


Seus parasitas

Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,

Empurrando como corações,

Estigmas vermelhos bem no centro,

Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.


Arrastando seus cabelos de Jesus.

Escapei, me pergunto?

Minha mente sopra até você

Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,

Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.


Em todo caso, você está sempre ali,

Respiração trêmula no fim da minha linha,

Curva d’água pulando

Em meu caniço, ofuscante e agradecida,

Tocando e sugando.


Não chamei você.

Não chamei você mesmo.

No entanto, no entanto

Você veio a vapor em minha direção,

Obesa e vermelha, uma placenta


Paralisando amantes impetuososos.

Luz de naja

Espremendo o hálito das rubras campânulas

Da fúcsia. Sem poder respirar,

Morta e sem dinheiro,


Superexposta, como num raio-x.

Quem você pensa que é?

Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?

Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,

Garrafa aonde vivo,


Vaticano espectral.

O sal quente me mata de enjôo.

Imaturos como eunucos, seus desejos

Sibilam para meus pecados.

Fora, fora, coleante tentáculo!


Não há mais nada entre nós.




SYLVIA PLATH

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo (do livro Ariel, a sair pela Verus Editora)

2 comentários:

josé guilherme fidelis disse...

rodrigo, admiro teu trabalho desde um dia que comprei a tua tradução do Rimbaud lá na Lido, em Londrina. eu devia ter uns treze anos, e desde então só te vi crescendo, cara. parabéns mesmo. curto as tuas traduções, e recentemente li umas tuas dos poemas do paul auster, no periódico et cetera. sou formado em letras e faço faculdade de cinema aqui em curitiba.

se tiver um tempo, dá uma olhada no meu blog, tem uns escritos que estou postando lá.

http://artificcional.blogspot.com/

abraço, zé guilherme.

Estúdio Realidade disse...

vou conferir seu blog, zé guilherme, um abraço!