quarta-feira, janeiro 10, 2007

SATORI USO, O FILME

Em 1985, depois de um ano on the road pela Europa, e enquanto editava a página Leitura da Folha de Londrina, quis publicar meus novos poemas, então inspirados no zen budismo e influenciados pelo haiku. Como achei anti-ético publicar meus poemas numa página que eu mesmo editava, achei a solução de inventar um poeta japonês que teria imigrado para Assaí, cidade perto de Londrina, nos anos 50, depois de ter vindo do Japão, ter convivido com os beats na California, e depois de perder toda a sua obra na viagem de navio para o Brasil. Ele acaba recebendo um convite da família Akiro para trabalhar no sítio da família em Assaí até ser descoberto como o grande poeta japonês desaparecido e de ser assediado por poetas que vinham a seu encontro em seu sítio.
Inventei toda uma biografia para Satori Uso (falso brilhante, ou iluminação mentirosa) e o personagem acabou dando muito o que falar. Na página indicava que eu havia traduzido os poemas para o japonês junto com uma tradutora japonesa também inexistente. Lembro que no curso de Jornalismo da UEL fui elogiado pelo meu trabalho de "investigação jornalística" por uma professora até o hoje dramaturgo Paulo de Moraes cair na gargalhada e entregar tudo. O problema é que por um bom tempo passaram a duvidar de qualquer poeta novo que eu apresentasse.
Depois publiquei mais poemas sob a persona do Uso em Polivox (de 2001) e ele passou a cada vez mais adquirir vida própria. Alguns anos atrás passei a bola para o Rodrigo Grota, que se animou a fazer um filme sobre o poeta inexistente. Fizemos juntos o roteiro e o filme acaba de ficar pronto, em 35 milímetros. Tive a honra de ser uma das 30 pessoas que viram a pré-estréia em Londrina, em fim de dezembro. Ficou uma beleza. E minha indicação do escritor e historiador Rogério Ivano para o papel-título foi feliz. Agora o diretor vai inscrever o filme em festivais nacionais e internacionais. Longa vida ao Satori Uso. E já começam a sair as primeiras críticas.

SATORI USO PASSOU POR AQUI
por PAULO BRIGUET

Um curta-metragem – e um grande filme. Assim pode ser definido Satori Uso, do cineasta Rodrigo Grota. Produzido pela Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina), o filme estréia em março. A reportagem do JL teve acesso a uma cópia do curta. É imperdível. Com 15 minutos de duração, Satori Uso conta a história de um poeta japonês que teria vivido em Londrina nos anos 50.
Ele publicou somente um livro durante a vida, quando ainda morava no Japão; em 1986, o poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes escreveu uma nota biográfica sobre Satori, acompanhada da tradução de alguns poemas do autor, conhecido por sua obsessão com as sombras da existência. O narrador de Satori Uso é o cineasta americano Jim Kleist (1941-1992), famoso por jamais ter concluído um filme em toda sua carreira. Nasceu em 7 de maio de 1941, na mesma semana em que era lançado o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Íntimo dos escritores da geração beat – como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs –, Kleist interessou-se pela obra de Satori e chegou a fazer algumas filmagens em Londrina, em 1967.
Os dois Rodrigos – Grota e Garcia Lopes – assinam a quatro mãos o roteiro do filme. A estrela principal é Satine, musa de Satori Uso, vivida pela atriz e modelo paulistana Caren Utino. O poeta é interpretado pelo historiador londrinense Rogério Ivano. Ambos se saem muito bem na tela. Grota acertou em cheio ao convidar Carlos Ebert para a direção de fotografia de Satori Uso. O filme tem toda exuberância do trabalho anterior de Grota (Londrina em três movimentos), com a diferença de que há uma história para contar – ainda não uma trama, mas um enredo e uma atmosfera bastante convincentes. “Procurei fazer um filme que falasse aos sentimentos das pessoas”, diz Grota. Pelo visto, conseguiu.
A maioria das cenas do curta-metragem é feita em preto e branco, com exceção dos trechos em que são exibidos os poemas do protagonista. Em vários momentos, o filme lembra as telas do pintor americano Edward Hopper. “Imaginei cenas como se Hopper pintasse em preto e branco”, comenta Grota. As cenas coloridas, com especial ênfase às belezas naturais do Norte do Paraná, lembram os últimos filmes do mestre japonês Akira Kurosawa. A escolha da trilha sonora dificilmente poderia ter sido melhor: Johann Sebastian Bach, Bill Evans e Astor Piazzolla.Além das telas de Hopper e da música de Bach, Grota conta que encontrou inspiração para escrever e filmar Satori Uso em obras como o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, e o filme Touro indomável, de Martin Scorsese.Ao contrário do que muitos imaginam, está provado: Satori Uso e Jim Kleist existem.

5 comentários:

Ana Ramiro disse...

Parabéns e vida longa ao Satori Uso. Sucesso!

plinio disse...

oi meu caro rodrigo, com prazer, descobri hoje o seu blog e dou logo de cara com quem, Satori Uso um contemporaneo do Lewis Changer, não sei se vc vai lembrar de uma antiquissima conversa nossa no café poesia nos anos 90, mas eu lembrei. Aproveito e te dou um endereço www.dinossaurodoamazonas.com.br
depoi me conte o que achou
um abraço
Plinio

ana rüsche disse...

que história fantástica!

entre meus amigos tb criamos personagens, mas são sempre meio avacalhados, nada assim tão sério.

puxa, quero muito ver o filme. deu até coçeira.

beijinhos

Estúdio Realidade disse...

valeu, ana, um abraço

Estúdio Realidade disse...

legal,ana, aguarde o filme, logo deve ser exibido em algum festicval de curtas em sampa,
abraço
rodrigo