"Storm the Reality Studio, and retake the universe" ("Assaltem o Estúdio Realidade, e retomem o universo") WILLIAM S. BURROUGHS
sábado, setembro 28, 2013
terça-feira, setembro 24, 2013
terça-feira, setembro 10, 2013
NOTURNO (poema de Rodrigo Garcia Lopes)
imagem: warren harold
A gente nunca sabe
saber a mente sempre
intui que seja breve
mesmo que seja a chave
enquanto a mesma febre
conclame à alma acabe
e assim a gente lembre
que negra é a cor da neve
Rodrigo Garcia Lopes.
Poema de "Estúdio Realidade" (7 Letras, 2013)
domingo, setembro 08, 2013
PASTORAL (Poema de Rodrigo Garcia Lopes / Em Estúdio Realidade / 7 Letras 2013)
PASTORAL
A eficiência empresarial e o gerenciamento de produtos têm sido umas
das marcas de nosso empreendimento.
Você deve estar brincando.
Reflexos de carros se espreguiçam como gritos.
Mesmo?
Pelo menos uma chance de que nuvens nos distraiam e deem as caras com
uma contraproposta plausível para a ampla variedade de profecias.
“Os viajantes não têm pressa de entregar as encomendas”.
Eixo peixe fonte luz reflexo
pixel.
O arvoredo bêbado de cor.
“Por rios digitais celulares bipam madrigais”.
Apesar da silhueta de seu ombro se definir, enfim, entre sonho e
devir.
Então de novo a janela, surpresa, natureza-morta.
E havia o vento, subentendido, um figurante.
A ação estava concentrada em detectar detalhes.
Em Solombra aprendera a arte das sombras.
Quanto aos jornais, notícias velhas como uma tela de plasma, absorviam
a morte pelos quatro cantos da Rede Sky.
Antenas da roça enferrujam, ideogramas dormindo na luz outonal.
Púrpura até que é uma, mas primeiro você precisa saber do solitário
sabor.
Onde o olho pousa é sempre um deus, um dia, ou dois.
Direitos reservados com antecedência para atividades ilícitas.
Você está certo, a ilusão
do ponto de fuga retardou
o surgimento de novos paradigmas. Mas
arquitetos chineses
não desistem jamais de sonhar
suas borboletas estruturas.
Aurora de sangue, um default nas mãos do mundo
Enquanto signos piscam de premonição, já ausentes de
Deus ou de qualquer textura. Neste lugar
nomes desertam
do mesmo modo como a água sequestra
as árvores nas margens, percebe?
E ainda é domingo.
Pastoral de Outono (François Boucher)
quarta-feira, setembro 04, 2013
RIME (poema de Rodrigo Garcia Lopes)
RIME
You are
the music while the music lasts.
T.S. Eliot
Nessa linguagem lenta eu
tatuo
Nada e tudo o que não suo:
Não solitude, mas um duo.
E não é banal o que
persegue essa rima
Que ecoa, pássaros, no ouvido da fala.
Não está na sala, mas um andar acima.
Irmã do ritmo, nunca fuja de mim,
Eu a quero surpreendendo sempre
E acontecendo mesmo onde não existe.
Reitera sua verdade, música do pensamento,
Revela pelo milagre do deslumbramento
E não fica só um só momento.
Se você é incapaz de
ouvi-la, e se
Juntas não formarem acordes deve ser
Porque não a traz dentro de você.
É isso: ela é um acorde,
Um beijo de coisas, a tarde
Traduzindo-se em jade.
Como rimam ao se repetirem
Lua e lago, ou os olhos de quem
Nos mira agora, de amor refém.
Você não pode perder.
Isso ecoa simples até não poder.
Quando for ver já está pensando você.
Rodrigo Garcia Lopes.
Poema do livro "Estúdio Realidade", 7 Letras, 2013.
terça-feira, agosto 20, 2013
ESTÚDIO REALIDADE NO SITE DA REVISTA CULT
Realidade fabricada
Rodrigo Garcia Lopes lança seu novo livro de poesias, “Estúdio, realidade”, no Espaço Revista CULT

"Estúdio, realidade" é o mais recente livro de poesias de Rodrigo Garcia Lopes
Desde 2004, quando publicou Nômada, o poeta Rodrigo Garcia Lopes não lançava um novo livro de poesia. Passou os últimos sete anos trabalhando em O Trovador, romance policial de fundo histórico que se passa em 1936, durante a colonização do norte do Paraná, seu estado de origem. Sentia que havia esgotado tudo o que tinha a dizer, em termos de linguagem poética. Em meio ao processo de construção do enredo e das personagens do seu primeiro romance, Rodrigo produzia alguns poemas, em ritmo desacelerado. “Estava esperando ter uma produção vigorosa e que também tivesse algo a dizer”, conta.
Tais poemas estão reunidos no livro Estúdio, realidade, lançado ontem (19/08), no Espaço Revista CULT. Além de poeta, Rodrigo também é músico, compositor, jornalista e tradutor – e, em certa medida, todos esses ofícios influenciam seu trabalho poético. Aos 11 anos começou a arranhar o violão e aos 14 já escrevia suas próprias canções. Em 2001, lançou o álbum Polivox, uma mistura de canções, poemas falados e trilha sonora. “Nessa época eu me aborreci um pouco, porque os músicos diziam que eu tinha lançado um trabalho de poesia e os poetas diziam que eu tinha lançado um trabalho musical. A ideia era justamente romper com essas barreiras”, admite. “Prometi para mim que o próximo disco que eu lançasse teria a palavra ‘canções’ no titulo.”
Junto ao livro Estúdio, Realidade, Rodrigo cumpriu a promessa ao lançar o disco Canções do estúdio realidade, mas apesar da aparente semelhança, ele afirma serem trabalhos distintos. No livro, dividido em quatro partes, seus poemas surgem em diferentes estilos, formas e linguagens. Há haicais, poemas narrativos, fragmentados, filosóficos.
Entre algumas xícaras de café, ele conversou com a reportagem da CULT sobre seu novo livro.
CULT – O nome do livro, Estúdio, realidade, faz referência ao escritor norte-americano William S. Burroughs. De onde vem essa relação e por que ela nomeia o livro?
Rodrigo Garcia Lopes - Essa é uma expressão que o William Burroughs usa em três romances mais experimentais: “Assaltem o estúdio realidade e retomem o universo”. Essa frase aparece várias vezes nos livros dele. Dentro da sua ficção, o estúdio realidade é uma espécie de lugar onde a realidade é fabricada, não se sabe muito bem o que é ficção e o que é, de fato, realidade. Na verdade, é uma crítica à manipulação dos meios de comunicação de massa, antevendo os dias de hoje. Dei esse título ao meu blog, em 2007. Uso Estúdio, realidade como se fosse uma metáfora para o mundo que vivemos hoje. É o planeta todo. Vivemos num grande estúdio realidade onde as relações estão cada vez mais complexas, com a tecnologia, a velocidade, a informação, os meios de comunicação de massa. Acho que o termo dá a ideia da complexidade do mundo. Estúdio realidade também é o lugar em que o poeta fabrica, usa a realidade para fabricar novas realidades.
É como se você tentasse desconstruir a realidade para construí-la por meio da poesia?
Isso mesmo. A poesia tem esse poder transfigurador da realidade através da linguagem e acho que tem um pouco de crítica ao mundo. Em vários poemas eu toco nessa questão da simultaneidade das coisas; da natureza e da cultura cada vez mais distantes. Há poemas em que eu revisito o gênero pastoral num ambiente completamente tecnológico, com o discurso da publicidade. A poesia incorpora o fato de que somos inundados por vários discursos o tempo todo. As mesmas palavras que a gente faz poesia são as palavras que a publicidade usa para vender, para informar, para distorcer. Trabalhamos com a matéria suja, que é a palavra, suja de história. No livro, há menção a vários lugares ao mesmo tempo. Ele joga com a ubiquidade, com o fato de que hoje você pode, virtualmente, estar em vários lugares ao mesmo tempo; com a velocidade de informação. Tentei incorporar tudo isso na poesia que estou fazendo.
A própria estrutura do livro reflete um pouco isso, não é? Ela se divide em “Estúdio realidade”, “Vórtex”, “Pensagens” e “Quarto Escuro”. Como essa divisão foi pensada?
Sempre dividi meus livros em seções. É uma maneira que eu achei de organizá-los melhor. Sempre pensei os livros assim – talvez por influência da música -, como se fossem quatro movimentos de uma mesma obra musical. Tentei agrupar, em cada seção, poemas que dialogam entre si ou que tem uma pegada em comum. A primeira parte tem poemas mais fragmentados, que refletem o estúdio realidade, a simultaneidade da descontinuidade do mundo atual. Na “Vórtex”, há poemas de vários estilos poéticos: haicai, oriki (que é uma forma de poema oferenda africano), alba (que vem da tradição provençal). Tem poema com rima que remete ao Dante, poemas que remetem à poesia oriental. Nessa parte há poemas com várias poéticas diferentes. Em “Pensagens” há os poemas mais filosóficos, maior preocupação com a consciência, investiga mais a percepção, a relação da palavra com a realidade. São poemas mais meditativos. A quarta parte, que é “O quarto fechado” – e o quarto fechado dentro do gênero policial é uma espécie de enigma -, eu concentro os poemas que foram influenciados pela minha experiência escrevendo um romance policial, seja na forma de poemas mais narrativos, que contam algum tipo de mistério, ou poemas que tem alguma coisa de investigação. Há também um apêndice, que são 24 aforismos sobre poesia, uma maneira de refletir sobre o próprio ato de escrever.
Essas estruturas que compõem o livro são bem diferentes entre si. Você já disse que algo que você tenta combater desde o início da sua carreira é a ideia de coesão, de unidade. Esse livro também acaba seguindo essa forma…
Desde que comecei a escrever nunca fui um poeta de um estilo só. Há poetas que têm uma pegada, um tipo de escrita e linguagem que são mais ou menos estáveis. Eu sempre fui um franco atirador. Sempre gostei de pesquisar todos os tipos de poetas de outros tempos e, por ser tradutor, traduzi muita gente de diferentes tradições poéticas, algo que acabei incorporando na minha própria poesia. Acho que a poesia é um espaço da liberdade de linguagem supremo. Nós temos um passado riquíssimo de formas poéticas que devem ser revisitadas, refeitas e repensadas para o contexto atual. Nunca abri mão da multiplicidade. Há um livro meu que se chama Polivox, que são várias vozes. Nunca acreditei na ideia do poeta como um sujeito único, fixo. Ele se metamorfoseia a cada poema que escreve. Nunca tentei engessar a minha voz poética num estilo só. Talvez essa diversidade toda acabe sendo uma marca do meu estilo. Sempre quis que o leitor passasse de um poema para o outro e se perguntasse se o mesmo poeta tinha escrito os dois. Queria surpreender o leitor dando a ele uma série de possibilidades de poéticas que o “eu” pode assumir na escrita. Essa acaba sendo a minha forma de dar unidade. Essa multiplicidade toda também não deixa de ser típica da pós-modernidade, das múltiplas influências, do apelo nostálgico de revisitar algumas formas antigas. No livro, há um poema em provençal. Há coisas bem antigas – mas, muitas vezes, jogadas num contexto bem contemporâneo. E esse atrito me interessa bastante.
Você também é músico e compositor. Como essas atividades interferem no seu trabalho poético? Tem como separar o músico do poeta?
Para mim, está ficando cada vez mais difícil de escrever poesia. Com o tempo você vai ficando mais rigoroso. Eu sempre fui um leitor crítico de mim mesmo. A música é mais complicada ainda, pois exige não só a linguagem verbal, mas a linguagem musical. Costumo dizer que a composição é uma simbiose entre voz, música e palavra. Envolve uma alquimia bem mais complexa do que a escrita de um poema. Fazer uma canção é muito mais difícil que escrever um poema, porque ela sai com muito mais trabalho, demora muito mais tempo e produzo num número muito menor do que gostaria. Mas desde que eu comecei a escrever, a música teve um papel muito grande. Quando eu era adolescente escrevia ouvindo jazz, música clássica. Sempre fui apaixonado pela música popular brasileira e seria até natural que, escrevendo poesia, em algum momento eu fosse cair na composição – até porque essa proximidade dos poetas com o universo da música é uma tradição da cultura brasileira.
E quais são os seus próximos projetos – na música e na literatura?
Estou esperando o lançamento do meu romance, O Trovador, que sai no começo de 2014. Continuo fazendo shows de divulgação do CD – acabei de fazer Curitiba, Rio, interior de São Paulo. Também estou começando outro livro, que se chama Experiências Extraordinárias, um livro de poemas.
Estúdio, realidadeRodrigo Garcia Lopes
Editora 7Letras
136 págs. – R$ 35,00
quarta-feira, agosto 14, 2013
Rodrigo Garcia Lopes lança disco e livro no Litercultura
Evento
O poeta e compositor Rodrigo Garcia Lopes lança seu novo álbum, Canções do Estúdio Realidade nesta sexta, às 22 horas, no Wonka Bar. O lançamento faz parte da programação do festival literário Litercultura, que acontece até este domingo (18). Lopes interpreta as 12 canções do disco acompanhado pelo baterista curitibano Marcelo Chytchy.
Rodrigo Garcia Lopes lança disco e livro no Litercultura
O lançamento faz parte da programação do
festival literário, que acontece na cidade até este domingo. Leia a
entrevista com o poeta
Sandro Moser
O poeta e compositor Rodrigo Garcia Lopes lança seu novo álbum, Canções do Estúdio Realidade nesta sexta, às 22 horas, no Wonka Bar. O lançamento faz parte da programação do festival literário Litercultura, que acontece até este domingo (18). Lopes interpreta as 12 canções do disco acompanhado pelo baterista curitibano Marcelo Chytchy.
No evento, Lopes também estará autografando seu novo livro de poemas, Estúdio Realidade
(7Letras), o primeiro desde 2004. O termo “estúdio realidade”, que
Lopes pega emprestado de Willian S. Burroughs, autor americano que é uma
de suas maiores influências, "é uma metáfora para o mundo veloz e
complexo em que vivemos hoje".
A respeito do disco é possível ler a resenha feita pela coluna acordes Locais da Gazeta aqui
http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=1359355&tit=Cancoes-do-Estudio-Realidade--Rodrigo-Garcia-Lopes
http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=1359355&tit=Cancoes-do-Estudio-Realidade--Rodrigo-Garcia-Lopes
Já o livro é dividido em quatro partes: "Estúdio Realidade",
"Vórtex", "Pensagens" e "Quarto Escuro". A primeira parte, que dá nome
ao livro, é para o autor "uma resposta a um bordão comum no cenário
brasileiro literário atual, com críticos e jornalistas apontando para
uma suposta irrelevância e banalidade da poesia brasileira hoje e sua
incapacidade de dialogar com o agora, de estar sintonizada com o mundo
globalizado que nos rodeia, sendo incapaz de re-significar o mundo à
nossa volta”.
Ele diz que prefere pensar na linha do que diz a crítica de poesia
Marjorie Perloff: "O poeta hoje escreve com a consciência de que seu
meio está saturado de informações e de mídias".
Para Garcia Lopes, a noção de poesia como algo "natural" e como a confissão de um "eu lírico" está sendo explodida em obras que interagem e refletem com o novo ambiente tecnológico da cultura: uma cultura hipermidiática e televisiva, de computadores, internet e redes de informação, onde a fala é constantemente minada e vulgarizada em talk shows ou pelo discurso da publicidade, numa explosão de discursos. O desafio da poesia é justamente o de re-significar, através da palavra, o mundo à nossa volta.
Para Garcia Lopes, a noção de poesia como algo "natural" e como a confissão de um "eu lírico" está sendo explodida em obras que interagem e refletem com o novo ambiente tecnológico da cultura: uma cultura hipermidiática e televisiva, de computadores, internet e redes de informação, onde a fala é constantemente minada e vulgarizada em talk shows ou pelo discurso da publicidade, numa explosão de discursos. O desafio da poesia é justamente o de re-significar, através da palavra, o mundo à nossa volta.
Leia a entrevista com o poeta:
O livro é dividido em quatro partes radicalmente diferentes entre si. Você quis deliberadamente exercitar essas formas e influências diversas?
Sempre trabalhei em seções nos livros de poesia, desde Solarium. É uma forma de organizar os poemas, de dar uma organicidade que sugira movimentos de uma obra musical, por exemplo. Quanto à presença de formas diversas, é algo espontâneo. Como diria o poeta Robert Creeley, num poema, forma é nada mais que a extensão do conteúdo. Gosto de pensar no poema como um campo aberto de possibilidades discursivas. Cada um solicita uma forma específica, e o poeta não pode não aproveitar as amplas possibilidades e poéticas à disposição nos arquivos da sensibilidade humana, das mais variadas tradições, do soneto ao hipertexto. Também há espaço para o lirismo, para uma revisitação criativa da rima, para o humor, para temas basilares da poesia de todos os tempos.
O livro é dividido em quatro partes radicalmente diferentes entre si. Você quis deliberadamente exercitar essas formas e influências diversas?
Sempre trabalhei em seções nos livros de poesia, desde Solarium. É uma forma de organizar os poemas, de dar uma organicidade que sugira movimentos de uma obra musical, por exemplo. Quanto à presença de formas diversas, é algo espontâneo. Como diria o poeta Robert Creeley, num poema, forma é nada mais que a extensão do conteúdo. Gosto de pensar no poema como um campo aberto de possibilidades discursivas. Cada um solicita uma forma específica, e o poeta não pode não aproveitar as amplas possibilidades e poéticas à disposição nos arquivos da sensibilidade humana, das mais variadas tradições, do soneto ao hipertexto. Também há espaço para o lirismo, para uma revisitação criativa da rima, para o humor, para temas basilares da poesia de todos os tempos.
Esses experimentos são a praia onde você fica mais à vontade?
Nunca encarei a poesia como uma “zona de conforto”, por isso nunca me apeguei a um único “estilo”. Prefiro ver poemas menos sobre experiências do que como experiências. Talvez o gênero que mais me inibia era o romance, o que enfrentei com a escrita do policial "O Trovador", de 450 páginas, e que me tomou vários anos de trabalho.
Nunca encarei a poesia como uma “zona de conforto”, por isso nunca me apeguei a um único “estilo”. Prefiro ver poemas menos sobre experiências do que como experiências. Talvez o gênero que mais me inibia era o romance, o que enfrentei com a escrita do policial "O Trovador", de 450 páginas, e que me tomou vários anos de trabalho.
O título, "Estúdio Realidade", é referência a Burroughs, que você entrevistou nos anos 1990. O que quer dizer esse conceito?
Ele é um dos grandes escritores do século 20, e foi uma influência, como foram muitos e muitos outros, como Pound, Eliot, Pessoa, Bashô, Rimbaud, Drummond, Stevens, Cabral. O Burroughs eu entrevistei em 92, em sua casa no Kansas, e minha dissertação de mestrado no Arizona foi sobre sua obra. O termo “estúdio realidade”, que eu empresto de um termo dele, pra mim é uma metáfora para o mundo veloz e complexo em que vivemos hoje.
Ele é um dos grandes escritores do século 20, e foi uma influência, como foram muitos e muitos outros, como Pound, Eliot, Pessoa, Bashô, Rimbaud, Drummond, Stevens, Cabral. O Burroughs eu entrevistei em 92, em sua casa no Kansas, e minha dissertação de mestrado no Arizona foi sobre sua obra. O termo “estúdio realidade”, que eu empresto de um termo dele, pra mim é uma metáfora para o mundo veloz e complexo em que vivemos hoje.
Falando nisso, você tem uma referência estética pesada da cultura
americana. Hoje parece estar na moda denegri-la. Como você vê isso?
Eu acho a cultura americana, como a brasileira, riquíssima. A música, a literatura, o cinema... Como a nossa, ela também tem graves defeitos.
Eu acho a cultura americana, como a brasileira, riquíssima. A música, a literatura, o cinema... Como a nossa, ela também tem graves defeitos.
O capítulo "Vórtex" me pareceu uma espécie de tributo pago a você
mesmo, às horas de estudo sobre formas de poema e as linguagens que você
pesquisou até academicamente. É isso?
Sim. Acho que não importa a forma que se pratique para um determinado poema, o importante é nunca perder o foco na função poética da linguagem, como diria Jakobson, em busca de novos dizeres, da surpresa, na poesia como arte da linguagem verbal, usando, para fazer poesia, as mesmas palavras que são usadas hoje para manipular, mentir, enganar, vender, violentar. É, sobretudo, a capacidade crítica na busca do estranhamento ao chamado “mundo real” que a linguagem poética, com sua outra lógica e seu poder de criar e combinar estruturas de linguagem, pode cumprir seu papel de ser intérprete de uma época, de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido, e de provocar uma re-sensibilização no leitor.
Sim. Acho que não importa a forma que se pratique para um determinado poema, o importante é nunca perder o foco na função poética da linguagem, como diria Jakobson, em busca de novos dizeres, da surpresa, na poesia como arte da linguagem verbal, usando, para fazer poesia, as mesmas palavras que são usadas hoje para manipular, mentir, enganar, vender, violentar. É, sobretudo, a capacidade crítica na busca do estranhamento ao chamado “mundo real” que a linguagem poética, com sua outra lógica e seu poder de criar e combinar estruturas de linguagem, pode cumprir seu papel de ser intérprete de uma época, de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido, e de provocar uma re-sensibilização no leitor.
As "Pensagens" são textos metafísicos, reflexivos, "borgeanos", com
símbolos escondidos e remissões a lugares do passado. O que faz a tua
cabeça em filosofia?
Teve uma época em que lia mais filosofia. Li os pré-socráticos, depois autores como Schopenhauer e Nietzsche na adolescência e vieram outros como Emerson, Wittgenstein, Foucault, Deleuze, o Zen... Nessa parte estão poemas que tentam incorporar aquilo que o neurologista António Damásio chamou de “a consciência da consciência”. Acredito que a percepção é um aspecto importante da minha poesia.
Teve uma época em que lia mais filosofia. Li os pré-socráticos, depois autores como Schopenhauer e Nietzsche na adolescência e vieram outros como Emerson, Wittgenstein, Foucault, Deleuze, o Zen... Nessa parte estão poemas que tentam incorporar aquilo que o neurologista António Damásio chamou de “a consciência da consciência”. Acredito que a percepção é um aspecto importante da minha poesia.
A última parte, "Quarto Escuro", é uma mistura meio blues, meio noir
da prosa barata (no melhor sentido). Você é fã desa pulp fiction? Há
poesia nessas sarjetas?
A escrita do romance acabou gerando os poemas que concentrei nessa seção, como "Romance Policial", "Os Cães Detetives", "História de Mistério". Para mim, em alguns aspectos, o gênero policial é o que mais se aproxima da poesia. A tarefa do tradutor também tem muito de investigação policial. Essas analogias me fascinam, e eu as pus em prática no romance, que será publicado no ano que vem.
A escrita do romance acabou gerando os poemas que concentrei nessa seção, como "Romance Policial", "Os Cães Detetives", "História de Mistério". Para mim, em alguns aspectos, o gênero policial é o que mais se aproxima da poesia. A tarefa do tradutor também tem muito de investigação policial. Essas analogias me fascinam, e eu as pus em prática no romance, que será publicado no ano que vem.
A poesia do Paraná, da tua geração, no eixo Curitiba-Londrina, tem
recebido reconhecimento nacional. Há uma identidade entre esses autores?
Acho que a poesia paranaense possui várias identidades. Se você pegar a obra de um Mário Bortolotto e a colocar ao lado de uma Josely Vianna Baptista, você vai entender o que quero dizer. Ou então a poesia de um Marcos Losnak com a de um Marcos Prado. O importante é que seja uma produção de qualidade.
Acho que a poesia paranaense possui várias identidades. Se você pegar a obra de um Mário Bortolotto e a colocar ao lado de uma Josely Vianna Baptista, você vai entender o que quero dizer. Ou então a poesia de um Marcos Losnak com a de um Marcos Prado. O importante é que seja uma produção de qualidade.
domingo, agosto 11, 2013
Entrevista para Claufe Rodrigues (Globonews Literatura)
Entrevista para Claufe Rodrigues (Globonews Literatura)
http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/todos-os-videos/v/poeta-rodrigo-garcia-lopes-fala-sobre-seus-novos-trabalhos/2748600/
terça-feira, julho 30, 2013
No Zero Hora: Entrevista com Rodrigo Garcia Lopes
A caneta é o violão30/07/2013 | 17h05
O poeta e compositor Rodrigo Garcia Lopes lança novo álbum
No ótimo "Canções do Estúdio Realidade", o poeta, compositor e tradutor visita a canção popular com desenvoltura

Foto: Elisabete Ghislen / Divulgação
Doze anos depois da estreia em disco, o paranaense Rodrigo Garcia Lopes volta a lançar um álbum musical. No ótimo Canções do Estúdio Realidade, o poeta, compositor e tradutor visita a canção popular com desenvoltura, explorando as características específicas do gênero sem cair na armadilha de fazer mera poesia musicada.
– Sobre a velha celeuma se letra de canção é poema: se uma canção se sustentar no papel, é poema. Se um poema não se sustentar cantado, não é uma canção. Como poeta brasileiro, não pude me furtar à tentação da canção, como diz Luiz Tatit. O violão, que toco desde os 11 anos, é minha caneta para compor canções – diz Garcia Lopes em entrevista a ZH.
Com arranjos e direção musical de André Siqueira, o álbum reúne 12 composições do autor, além de parcerias com Neuza Pinheiro (Butterfly), Bernardo Pellegrini(Iluminações) e Paulo Leminski (Adeus).
– Conheci Leminski aos 18 anos, e a experiência me marcou profundamente. Ele tinha uma contundência e "o que dizer em poesia" que é rara hoje em dia, num meio poético e literário onde sobra pose e falta poesia – afirma.
No disco, Garcia Lopes canta e toca violão, acompanhado de banda, e os temas ecoam estilos como jazz, funk, rap, blues, MPB e música instrumental. Um destaque éNinguém Melhor que Ela, deliciosa versão jazzística de Nobody Does It Better, tema do filme 0007 – O Espião que me Amava, celebrizado na voz de Carly Simon.
– Foi uma batalha conseguir gravar minha versão, e o próprio maestro (o compositor americano Marvin Hamlisch) ouviu-a e aprovou com a tradução literal e a gravação final que enviei, o que me deixou feliz.
Outra referência cinematográfica é a labiríntica Vertigem (Um Corpo que Cai), que lembra a música de Bernard Herrmann, o compositor predileto de Alfred Hitchcock. Já o título Canções do Estúdio Realidade é uma citação ao bordão "Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo", utilizado por William S. Burroughs em algumas de suas obras – Garcia Lopes entrevistou o escritor americano em 1992, e os romances experimentais do ícone da literatura beat foram tema de sua tese de mestrado na Arizona State University.
– Não sou um compositor prolífico como gostaria de ser. Se não tiver o que dizer num poema ou numa canção, não faço – justifica Garcia Lopes, explicando a razão para tanta demora entre Polivox (2001) e o novo disco.
Confira entrevista com Rodrigo Garcia Lopes:
Zero Hora _ Quais são as diferenças entre compor canção e escrever poesia? O que é mais difícil: musicar um poema ou criar uma música original?
Rodrigo Garcia Lopes _ Muitas diferenças. Pra começar, vejo a canção como uma simbiose entre voz, música e palavra. Envolve duas artes que nem sempre funcionam juntas, mas que nasceram juntas. Sobre a velha celeuma sobre se letra de canção é poema: se uma canção se sustentar no papel, é poema. Se um poema não se sustentar cantado, não é uma canção. Acho que, como poeta brasileiro, eu não pude me furtar à tentação da canção, como diz o Luiz Tatit. É algo natural pra mim. O violão, que toco desde os 11 anos, é minha caneta para compor canções.
ZH _ Por que tanto tempo entre a estreia em disco com Polivox e esse disco?
Garcia Lopes _ Porque não sou um compositor prolífico como gostaria de ser. A arte tem o tempo dela para acontecer. Eu acredito em trabalho autoral na música. Se eu não tiver o que dizer num poema ou numa canção, não faço. Por outro lado, se sinto que compor poesia vai ficando cada vez mais difícil, uma canção, muito mais. Espero que isso mude.
ZH _ O título Canções do Estúdio Realidade é uma referência a William S. Burroughs, escritor que você entrevistou. Explique um pouco esse conceito-referência _ e também sua relação com esse ícone beat.
Garcia Lopes _ Entrevistei Burroughs em 1992 e seus romances experimentais foram tema de minha tese de mestrado na Arizona State University. "Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo" aparece como exortação ou bordão nos romances cut-up dele, surge como uma crítica ou antevisão deste nosso mundo complexo, televigiado e onde os meios de comunicação de massa cada vez mais borram o que é ficção de realidade. Eu aproprio o termo de Burroughs como uma metáfora para os tempos em que vivemos. São as canções deste nosso estúdio realidade.
ZH _ Uma das melhores faixas do disco é uma versão do clássico romântico Nobody Does It Better, celebrizada na voz de Carly Simon. A ideia era mostrar que um artista de formação literária como você também pode curtir e circular com desenvoltura pelo universo pop?
Garcia Lopes _ Foi uma batalha conseguir gravar minha versão, e o próprio maestro (o compositor americano Marvin Hamlisch) ouviu-a e aprovou com a tradução literal e a gravação final que enviei, o que me deixou feliz. Tenho um problema com a palavra "pop", porque ela passa a ideia de algo superficial, de algo que não fica, de bolha de sabão, POP!, sabe, e acho que vem daí a sugestão do termo, se não me engano. E eu já quero que meus poemas e canções, todos, se possível, ou alguns, fiquem. Se conseguirem difusão entre o máximo de pessoas, melhor. Hoje nossa Idade Mídia possibilita isso. Vivemos uma saturação de poesia e de música que nos pede uma curiosidade de um aventureiro entrando numa densa floresta. Por outro lado, nunca curti a ideia da poesia como torre de marfim. E acho, sim, que a poesia tem que comunicar. Nem que seja, e isto já basta, poesia como "arte da linguagem", nosso habitat comum enquanto humanos, uma necessidade estética da consciência, como diria Macedonio Fernandez. E o leitor e o ouvinte têm que sair da inércia em que se encontram.
ZH _ Outra referência evidente da cultura popular em sua obra está na canção Vertigem (Um Corpo que Cai). Explique esse fascínio pelo filme de Alfred Hitchcock.
Garcia Lopes _ Acho o cinema rico como gatilho para poemas, canções, cenas, diálogos, o que for. Tudo é, de alguma forma, adaptação. Um processo. Poemas podem virar canções que podem virar filmes, cada vez mais estamos vivendo isso. Escrevendo esse romance policial isso ficou ainda mais claro pra mim. Hitchcock é o mestre do suspense, e, embora tenha uma mininarrativa embutida ali, ela dialoga ao mesmo tempo com o poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens.
ZH _ Em Canções do Estúdio Realidade, a qualidade e a variedade musicais merecem tanta atenção quanto as letras e os poemas. Comente esse aspecto do seu trabalho.
Garcia Lopes _ É, isso foi pensado também. Não bastava a qualidade poética, que é obrigação minha, como poeta. Eu queria que o disco expressasse também meu trabalho de composição ao violão, assumir sem frescura a coisa do intérprete, que expressasse meu diálogo musical e aprendizado com mestres que me fizeram a cabeça e o coração. Há um cuidado especial com os arranjos do André Siqueira, que respeitou bastante as canções tal qual foram compostas. O resultado final do disco é um processo coletivo, mais de 13 músicos partciparam, e isso também o diferencia de um poema. O disco reflete uma polifonia e busca por uma multiplicidade de registros que acredito marcar a poesia que publiquei, e nem poderia ser diferente, pois sempre fui eclético em meus gostos musicais, com predileção pelo jazz, pela canção brasileira, pelos ritmos negros, pela coisa espanhola, talvez. Cada poema e cada letra de canção pede uma irmã ou irmão. No disco tem balada folk, jazz, blues, mas tem também afoxé, e algo de música erudita, funk (mas não o carioca). Acho que com esse trabalho quis dar meu depoimento pessoal sobre as possibilidades aindas abertas da canção brasileira, vistas sob o ponto de vista de um cantautor, ou seja, de um poeta que interpreta suas próprias canções.
ZH _ Paulo Leminski é lembrado na parceria em Adeus. Fale um pouco sobre a importância do poeta em seu trabalho.
Garcia Lopes _ Leminski é referência importante não só para mim, mas para inúmeros poetas de minha geração. Eu o conheci aos 18 anos, e a experiência me marcou profundamente. Ele tinha uma contundência e "o que dizer em poesia" que é rara hoje em dia, num meio poético e literário onde sobra pose e falta poesia. Acho que está hoje gozando hoje do prestígio merecido, apesar do pessoal que não gosta do Polaco.
ZH _ Quais são seus próximos projetos musicais e literários?
Garcia Lopes _ Por ora, divulgar o livro de poemas que acabo de lançar pela 7Letras, do Rio, Estúdio Realidade, que é meu primeiro livro de poemas desde 2004. E aguardo a publicação do meu primeiro romance policial, O Trovador, que me consumiu nos últimos anos. E estou começando a trabalhar num novo projeto, um livro de poemas que vai se chamar Experiências Extraordinárias.
ZH _ Você tem planos de apresentar o show desse disco aqui em Porto Alegre?
Garcia Lopes _ Estou louco para fazer um show em Porto Alegre. Toda vez que fui, fui muito bem recebido. Estou tentando há alguns meses levar o show, já vi várias possibilidades, mas não está sendo fácil. Talvez seja um trabalho muito específico. Não acho. Eu gostaria muito de tocar em Porto Alegre, cidade que admiro e onde tenho vários amigos. E também porque o maior compositor da minha geração, Vitor Ramil, meu amigo, é gaúcho.
Canções do Estúdio Realidade
CD, Tratore
12 músicas, R$ 29,90 média
Cotação: 4, de 5 estrelas
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