quarta-feira, junho 11, 2008

COYOTE NO ESTADÃO

A intervenção artística na insensível realidade
Coyote, de Londrina, volta à carga lançando duas edições
Francisco Quinteiro Pires

Depois de comemorar 5 anos de existência na primavera do ano passado, a Coyote, revista de literatura e arte, de Londrina (PR), volta à carga em dois números: o 16 (edição de verão) e o 17 (edição de outono). Ambas têm 52 páginas e custam R$ 10. Podem ser compradas em livrarias. Mais informações no www.iluminuras.com.br ou no revistacoyote@uol.com.br. Os quatro editores da publicação - Ademir Assunção, Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes - acreditam que a poesia, a literatura e a arte como um todo não perdem a faculdade de causar abalos sísmicos na realidade. O poder de intervir no mundo está ligado à linha editorial da Coyote. O negócio é expandir horizontes ou comprometer a falta deles. Essa intervenção no real pode ser notada nas duas primeiras páginas da Coyote 17 que trazem uma afirmação do escritor mexicano Enrique Vila-Matas, autor de Bartleby e Companhia, valiosa como uma carta de intenções. 'Todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno, por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita. A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo, cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais absoluta indiferença.' A passagem do tempo, e o modo como é notada, também aparece na abertura da Coyote 16 que reproduz o ponto de vista de Alan Lightman, romancista e físico norte-americano, autor de Os Sonhos de Einstein. 'Muitos não acreditam que o tempo mecânico exista. Usam relógios de pulso apenas como ornamento ou como cortesia para com aqueles que acreditam ser instrumentos de medição de tempo um bom presente. Em suas casas eles não têm relógios. No lugar deles, ouvem a batida dos seus corações.' Luta-se na Coyote contra a indiferença e o esfriamento do coração dos homens. Os destaques da Coyote 16 são um ensaio de Jerusa Pires Ferreira sobre o poeta canadense Robert Melançon, chamado Os Signo e A Vida, e a entrevista com o quadrinista paulista Marcatti, autor de Glaucomix, feita por Ademir Assunção. Autora de Fausto no Horizonte e tradutora, Jerusa nota como esse escritor de língua francesa é capaz, a partir dos aspectos locais, de se inserir tanto na tradição como na modernidade, criando verdadeiras paisagens no papel em branco. Há a tradução de alguns poemas de Melançon pela ensaísta. Na entrevista O Bizarro Método da Podridão, Francisco de Assis Marcatti Jr., referência dos quadrinhos underground e chamado de George Bataille das HQs no Brasil, revela seus gostos e seu método disciplinado de criar: ele se baseia em gráficos e esquemas matemáticos para escrever suas histórias diariamente pela manhã. Quem vê seus traços pode imaginar a reverência a Robert Crumb ou Charles Bukowski, mas suas influências são Gilbert Shelton, Hunt Emerson, Wolinski, Ionesco, Sartre, Henry Miller.
Uma série de poesias, traduzidas por Rodrigo Garcia Lopes, do chileno Roberto Bolaño marca a edição de outono da Coyote. Como em Auto-Retrato Aos Vinte Anos, em que os quatro primeiros versos revelam algo sobre o estilo literário de Bolaño: 'Eu fui embora, tomei meu caminho e nunca soube/ até onde poderia me levar; Fui cheio de medo,/ meu estômago revirou e a cabeça zumbia:/ acho que era o ar frio dos mortos.' É de Garcia Lopes também a entrevista com o poeta romeno Andrei Codrescu, hoje radicado nos EUA, depois de fugir do stalinismo, e onde bebeu na fonte da contracultura, que até hoje o estimula no caminho da subversão.

Um comentário:

erly welton disse...

Meu caro amigo Rodrigo, Jairo Pereira, aquele poeta que escreve mais do que pensa e sente, e eu, estamos programando para dia 20 de junho (agora) um manifesto poético (leitura com música) e produção de um jornal de poesia. O local: Capelli Bar, em Curitiba, a partir das 21 horas. E estamos convidando você com a sua talentosa presença. O manifesto é, na verdade, uma dor de cotovelo dos poetas sem editora. Se puder, venha!!!