sábado, junho 14, 2014

Londrinense é semifinalista do prêmio Telecom

Londrinense é semifinalista do prêmio Telecom

Escritor Rodrigo Garcia Lopes concorre ao Prêmio Portugal Telecom na categoria poesia com o livro ‘Estúdio Realidade’

Elisabete Ghisleni/Divulgação
"Acho que os prêmios são importantes, deveríamos ter muitos outros, junto com outras iniciativas para promover o acesso aos livros e à leitura", diz Rodrigo Garcia Lopes
Reprodução
Livro contém 97 poemas
 
      Um das premiações de maior prestígio no País e reconhecida pelo seu rigor técnico, o Prêmio Portugal Telecom anunciou semana passada 64 autores semifinalistas em três categorias: romance, conto/crônica e poesia. Dentre eles, o escritor londrinense Rodrigo Garcia Lopes, na categoria poesia, com o livro "Estúdio Realidade". Outros quatro autores que não são paranaenses, mas moram no Estado e possuem uma forte atuação cultural no Paraná, também foram contemplados: Cristovão Tezza ("Um Operário de Férias" - categoria conto/crônica), que foi vencedor em 2008 com o romance autobiográfico "O Filho Eterno"; Rogério Pereira ("Na Escuridão, Amanhã" - categoria romance); Luís Henrique Pellanda ("Asa de Sereia" - categoria crônica) e Guilherme Gontijo Flores ("Brasa Enganosa" - categoria poesia). A seleção dos quatro finalistas de cada categoria será anunciada em setembro.
     Indicado para o prêmio Jabuti em 2004 e 2005 pelo livro de poesia "Nômada" e pela tradução de "Folhas de Relva", respectivamente, o escritor Rodrigo Garcia Lopes está animado com mais essa indicação. "É um páreo duro na categoria, com poetas que admiro, como Armando Freitas Filho. É meu primeiro livro de poesia em quase dez anos, tempo em que me dediquei a traduções, ao romance 'O Trovador', ao CD Canções do Estúdio Realidade, a aulas e outros projetos", conta o escritor, que é semifinalista juntamente com outros 21 candidatos na mesma categoria.

        Com 97 poemas e um apêndice com aforismas sobre poesia, além de um resumo da experiência do autor com a poesia, "Estúdio Realidade" mostra um trabalho vigoroso de experimentações intertextuais, polifônicas e polissêmicas, com variedade de estilos, formas, dicções e ritmos. Sobre a possibilidade desse tipo de premiação incentivar a literatura, Lopes é taxativo: "Acho que os prêmios são importantes, deveríamos ter muitos outros, junto com outras iniciativas para promover o acesso aos livros e à leitura, num País que tem índices alarmantes de analfabetismo funcional".Lopes também tece críticas ao tipo de poesia que está predominando na atualidade. "A verdade é que, sendo a arte da linguagem, a poesia é a arte da liberdade. A arte de escrever nos mais variados estilos, dicções, formatos. No caso da poesia hoje, o que vejo é há muita poesia 'fofa', sem vivência, bem superficial. É prosa cortada em linhas travestida de poesia, sem qualquer preocupação com a função poética", avalia.

      Atualmente, Lopes está preparando o lançamento do seu primeiro romance, "O Trovador" (Record). Trata-se de uma história de detetive com trama complexa, com influência do romance americano e inglês dos anos 30, e que se passa em Londrina, Inglaterra e Escócia, em 1936, tendo a colonização de Londrina como pano de fundo.

      Em dez anos de existência, receberam o Prêmio Portugal Telecom 32 obras de 12 editoras, sendo 18 romances, oito de contos e seis de poesia. Além do prêmio de R$ 50 mil por categoria, um dos três escritores vencedores irá receber o Grande Prêmio, também no mesmo valor.
Ana Paula Nascimento
Reportagem Local

quarta-feira, junho 11, 2014

LUNAGENS (poema de Rodrigo Garcia Lopes)



LUNAGENS
 

A lua é um D, você não vê?
Sobretudo quando míngua.
Ou quando enrola a língua,
E vira um cílio prata, um C,
Que no céu costuma se perder.
Mas, repare, como a mais antiga
TV, toda cheia de si, agora é um O.




LOPES, Rodrigo Garcia. Estúdio realidade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013

terça-feira, junho 03, 2014

Resenha de "Estúdio Realidade" por Luiz Guilherme Barbosa (Rascunho, junho de 2013)

O crime do poema: Estúdio realidade, de Rodrigo Garcia Lopes

Luiz Guilherme Barbosa
Rio de Janeiro

Estúdio realidade
Rodrigo Garcia Lopes
Editora 7Letras
132 páginas

     junho 2014 / Ensaios e Resenhas / O crime do poema

O crime do poema

Versos de “Estúdio realidade” utilizam dualidades e referências em prol da reflexão

Há no livro de Rodrigo Garcia Lopes, Estúdio realidade, uma quarta e última seção de poemas, “Quarto fechado”, em que são recorrentes narrativas, situações ou imagens do submundo do crime e da investigação policial, proliferando-se quartos escuros, detetives e criminosos, corpos e testemunhas, thrillers, histórias de mistério e romance policial. Seção já destacada pelo poema que a integra e se reproduz na contracapa do livro, Quarto escuro, cujo primeiro verso lembra o título da obra: “O detetive avança pela desordem do estúdio”. A desordem do estúdio realidade vence, silenciosa, os esforços do detetive, e com ironia evoca, talvez, o repetido discurso crítico sobre os livros de Rodrigo, expresso pelo autor em depoimento no Memorial da América Latina, em 2002:
Sempre me incomodei com algumas críticas em relação ao meu trabalho, recriminando-me pela “falta de unidade” nos meus livros. Isso me irritou profundamente, porque não gosto de poetas que se aferram a um determinado “estilo” como um cão a seu osso. Há aí o risco da autoimitação: ficar refém de uma fórmula que deu certo, repetir um “estilo” que dá unidade e coesão aos poemas.
O campo semântico das narrativas policiais parece duplicar a relação entre o poema e o leitor, ainda mais que no texto que encerra o livro, 24 aforismos sobre poesia, o escritor se impõe como desafio “não cair numa metalinguagem barata”. Não se trata, portanto, de alegorias da leitura.
No caso de Quarto escuro, a desordem do espaço íntimo e pouco nítido compõe uma cena muda, em que, no entanto, a presença das coisas (mobília, folhas, telefone) angustia um detetive que pisa em falso: “A mobília está calada como testemunha./ Lá fora folhas se reviram, se estudam.// O telefone calado como um caramujo”. Mesmo assim o crime está prestes a se desvendar: sabemos que o criminoso está por perto, e a composição das estrofes em tercetos e períodos longos, em tom elevado, encaminha a narrativa para uma suposta revelação, uma viagem ou visão que extrapola a realidade. O detetive toma uma decisão surpreendente, parece que repete o gesto das coisas de se virarem sobre si próprias, como a espiral do caramujo: “O detetive deita e cai num sono profundo./ E a carta o tempo todo sobre o criado-mudo”.
O cenário aparentemente de crime vira de imediato o espaço íntimo do detetive, que investiga o próprio quarto, no qual, mesmo depois de um ano de trabalho, “todas as pistas/ Deram em becos sem saída e luto”. A carta roubada segue sobre o móvel que a emudece, o criado-mudo, ainda que esteja à vista o tempo todo. E o quarto é ele próprio uma biblioteca, “pequena floresta” cujo “verde é um código secreto”. As evidências do crime não se ocultam, mas, por algum motivo, talvez pelo sono ou pela exaustão do detetive, não se deixam ler. O crime não se soluciona. Possivelmente porque, como afirma o poema Quarto fechado (whodunit): “O criminoso era o poeta”.
Reconfiguração do mundo
Há uma poética formulada neste poema de Estúdio realidade que elabora à sua maneira a obra de Rodrigo Garcia Lopes. O corpo ainda pulsante, delirante do poema ganha sobrevida com o olhar do autor, a quem procura, e do leitor, testemunha do crime. O texto poético, em estado crítico, sob risco de morte, respira com a ajuda de aparelhos de leitura, dos quais depende sua sobrevivência. Ler é respirar, ou, conforme a gaga ou sufocada formulação de Adília Lopes: Aspirar ar. E os aparelhos de leitura, enquanto aparelhos respiradores, conectam-nos ao texto, injetam-lhe oxigênio; em troca, recebemos um gás poluente, expirado, substância escura que constitui a “matéria mental, entre palavra e mundo”, que define o espaço habitado pela poesia segundo Rodrigo.

Se o homem for um erro da natureza, a poesia será a sua errância. Seu espaço instável, “entre estar mudo e ser mundo”, é necessariamente espaço fundado pela violência, na medida em que, por um lado, arranca a mudez à fala, e por outro, arranca o mundo à linguagem. O mundo cortado em palavras que desafiam o silêncio trabalha, na poesia de Estúdio realidade, pela construção tanto de imagens cujo efeito é a desrealização do mundo (“Ninguém jamais descobriu/ Se o céu é um tipo de demência”) quanto daquelas cujo efeito é a proliferação do mundo (“Nesse exato momento nasce uma floresta em seus pés, Sibéria.// Meu nome é Multidão. Isso quer dizer que sou mais do que a soma das singularidades.// Exóticos esses óculos”).
O mesmo que vale para a referência ao mundo vale para a referência ao texto. Os poemas desenham um vasto campo de referências mais ou menos explícitas e surpreendentes, que volta e meia atuam em prol da reflexão do leitor sobre a leitura do poema, como na suposta alusão ao linguista Ferdinand de Saussure e sua concepção da palavra: “Um relâmpago é flagrado por seus ecos. Santo súbito.// Signo, sussure”. Assim é que a matéria mental inscreve o poema — e com ele o poeta e o leitor — numa aventura cognitiva que consiste na reconfiguração do mundo tensionado pelos limites dos sentidos da palavra.
Como tal aventura é, por definição, uma viagem ao desconhecido (conforme o poeta Maiakóvski afirmou diante do fiscal de rendas), de nada servem as fórmulas estilísticas ou os métodos de leitura. Ao incorporar sistematicamente à obra o mecanismo interno do dissenso, como o fizera Drummond na abertura contraditória de A rosa do povo, ao instituir esse mecanismo como procedimento de composição, de leitura, e como posicionamento no campo da poesia, Rodrigo Garcia Lopes atua por ampliar o desenho da poesia brasileira, cuja narrativa cisma em se polarizar historicamente contra a suposta “geleia geral” que configura essa cultura.
A força deste posicionamento se encontra, por um lado, numa maior abertura às tradições poéticas do mundo, ao desassociar poesia e literatura à construção da identidade nacional, e assim revalorizar os cânones nacionais constantemente e os poetas com obras de diversa orientação estética, independentemente de suas vinculações a vertentes ou tradições específicas da poesia. Por outro, no abarcamento das formas de poesia compreendidas negativamente, ou melhor, incompreendidas, já que se definem como enigma. O aforismo 16 do texto de Garcia Lopes que encerra Estúdio realidade é contundente e esclarecedor nesse ponto:
Como numa história de detetive, o poema, hoje, é um enigma. Seu crime começa já nas primeiras palavras. O poema nada mais é que uma seção de correlatos do sentido suspensos entre pistas falsas, frustrações de expectativas, que apontam inequivocamente para sua própria aparição & desaparição. O nome dessa luta invisível é o sentido.
Whodunit?
O poema em “situação de sítio”, para lembrar aqui a expressão da professora Iumna Maria Simon ao ler a poesia de Claudia Roquette-Pinto, refere-se, no caso de Garcia Lopes, a outra instância que não a referência. O sentido de que ele é capaz ao operar a composição de imagens, música e pensamento na sua feitura, é a marca de estranhamento (“whodunit?”) por meio do qual, enquanto matéria mental, o realismo literário pergunta: de onde vem, no Brasil ou em qualquer outra palavra que nomeie um lugar habitável, de onde vem essa linguagem não mais muda, ainda não mundo? Contra o tédio dos que procuram o Brasil ou a si próprio nos livros de poemas, o poeta convida: “Antes de ler meus poemas, gostaria de dizer que a poesia é uma espécie de vício irrecusável”.
LUIZ GUILHERME BARBOSA É especialista em literatura. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Rodrigo Garcia Lopes nasceu em Londrina (PR). É poeta, compositor, jornalista e tradutor. Edita a revista Coyote, e publicou cinco livros de poesia, entre eles Polivox (2001) e Nômada (2004).


PRIVATE EYE

Um ano
Procurando
Tudo

Meus óculos
Sobre o criado-
Mudo

segunda-feira, junho 02, 2014

Estúdio Realidade / Portugal Telecom

Meu livro Estúdio realidade (7Letras, 2013) está entre os 22 semifinalistas
na categoria Poesia do Prêmio Portugal Telecom de 2014. A lista completa está aqui:​


terça-feira, maio 27, 2014

Novo Site: Rodrigo Garcia Lopes

Conheça meu sítio, onde plantamos e cultivamos poemas, canções, videoclipes, traduções e outras coisas:

http://rgarcialopes.wix.com/site

sexta-feira, abril 25, 2014

ENQUANTO VOCÊ LÊ ISTO (poema de Rodrigo Garcia Lopes)






ENQUANTO VOCÊ LÊ ISTO, 
a música da chuva machucando os prédios, os hibiscos,
um caramujo se retrai sob uma gota súbita,
a mente caminhando na ponta dos dedos, pisando na luz
de tantos gestos, a imagem
de um beijo contínuo feito de ar de imprevisto,
a paisagem abre-se como num grande teatro,
páginas da água reverberam no jardim de inverno, sempre outras,
a mulher que sumiu dentro do livro, sem história,
lento passatempo, o sonho dentro
do livro (desaparece quando aberto),
anagramas na fumaça do incenso,
a sombra serena na grama esmeralda,
este secreto canto, duplicado num espelho,
sem mais, nem menos,
enquanto você lê isto.




Rodrigo Garcia Lopes (em Estúdio Realidade, 7Letras, 2013)

sexta-feira, março 07, 2014

Canções do Estúdio Realidade no SESC Prainha/Floripa

Dia 9. Domingo. SESC Prainha / Florianópolis / 20 horas / Grátis

Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão)
Neno Moura (bateria)


Para o público em geral, ávido de cultura, uma personalidade criativa e livre dessas por perto, nesta época de especializações, de nichos de mercado, de repetições e limitações, é motivo para comemorar.
VITOR RAMIL

No ótimo Canções do Estúdio Realidade, o poeta, compositor e tradutor visita a canção popular com desenvoltura, explorando as características específicas do gênero sem cair na armadilha de fazer mera poesia musicada.
ROGER LERINA, Zero Hora.

Este CD de Rodrigo Garcia Lopes, que carrega o sinuoso título de Canções do Estúdio Realidade, lembra sonhos de juventude, quimeras de uma possível aproximação com a poesia, com a divindade, com o vinho da existência, com a uva da metáfora sufi, a fonte. Como diria um zen budista: a imersão na realidade. Que coisa mais bem feita!
ARRIGO BARNABÉ

foto: Elisabete Ghisleni

segunda-feira, março 03, 2014

"Estúdio Realidade": Resenha de José Castello

 

José Castello

 /

Rodrigo, o desconfiado

Publicado em 02/03/2014 |
A chave para ler Estúdio Realidade, novo e desafiador livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, talvez esteja em uma epígrafe tomada de empréstimo ao argentino Macedônio Fernández, que abre o poema “Em Aberto Mistério”. Diz Macedônio: “A realidade trabalha em aberto mistério”. Todo o livro de Rodrigo é uma interrogação a respeito da realidade, vista — como assinala Antonio Cícero na apresentação — “como um estúdio”. Lembra-nos Cícero: “Um estúdio consiste numa unidade de produção em que um filme, um disco, um DVD, um game etc, é realizado”. Também a realidade não é algo dado, mas fruto de uma fabricação. É arbitrária, é inventada e é artifício.
     A realidade vista como um laboratório, contra a qual a poesia se levanta. “Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências”, escreve Rodrigo em um dos 24 fortes aforismos com que fecha seu livro. Uma poesia, portanto, que não se empenhe em refletir a realidade, mas, ao contrário, em produzir contrarrealidades, que a ela se oponham para desmascarar sua alma artificial. Em outro aforismo, comparando a poesia com a prosa, o poeta nos diz: “A prosa parece se traduzir em ser vidro transparente, enquanto a poesia revela manchas de mão no vidro, trincas, poeira, as imperfeições da superfície”. A realidade quer ser impecável, funcional, prática. A poesia, ao contrário, busca as fendas, falhas e fragilidades que a constituem. Sai à procura da imperfeição.
     A realidade é, antes de tudo, cópia, efeito e séries produtivas. “O dia é um plágio”, Rodrigo escreve. O poeta não se interessa pelas regras, modelos, vantagens, aplicações. Investe, em vez disso, nas sombras do real — e a palavra “sombra” percorre, de ponta a ponta, o livro de Rodrigo. Nossa época, hiper-realista, caracteriza-se, justamente, por um excesso de realidade. “Inauguramos outra época,/ De espelhismos, superfícies./ Tautologias. Isto é isto./ Não de batalhas ganhas,/ mas de chamadas perdidas”. Em contrapartida, ele nos apresenta uma ética para o poeta: “Mas uma mente nunca se entrega”. A realidade é uma espécie de prisão de luxo: confortável, prática, produtiva, ela retém, no entanto, aqueles aspectos frágeis do humano por que só um poeta se interessa. Além da realidade, a natureza — que é desordem, caos e arbítrio — resiste. “Alguém se esqueceu de desligar/ a máquina do mar”, diz.
      A realidade, o poeta nos sugere, é na verdade o lugar da desconfiança. Aquele lugar que “trabalha em aberto mistério” (Fernández) e cujas chaves se perderam para sempre. Escreve Rodrigo, o desconfiado: “Nem tudo tem sido, como se tem ouvido,/ a mesma coisa desde o começo/ dos tempos. Não estou convencido./ Se há algo que não muda, desconheço”. Lamenta-se em outro poema: “Mentiras, mentiras./ O mundo é um parque de mentiras”. A função da poesia seria, assim, a de desmascaramento. Puxar o lenço que encobre o rosto da realidade e que lhe dá feições perfeitas. Penetrar na grande turbulência que sob ele se esconde. A realidade, ele nos diz, é como um sono. Pensar é o mesmo que acordar. Só que o poeta não pensa com citações de cartilhas e manuais de instrução, mas inventando os seus próprios guias.
      Como crer em ideias comuns como as do presente e do agora? “E é quase tarde para ser agora”, Rodrigo nos adverte, sugerindo o quanto são falhos e precários nossos mecanismos de controle do tempo. Mais que produtora de sentido — algo que ajude a explicar a realidade —, a poesia produz uma música que a envolve e a suporta. “Estar dentro da música,/ Passagem onde se quer ficar”. A ideia da passagem aqui é muito importante: como já disse o filósofo, a poesia é um caminho que não leva a parte alguma. Portanto, só leva a si mesmo. “Meu lugar é onde não estou”, conclui Rodrigo, enfatizando a escrita poética como um não lugar. Apenas um espaço “entre”. Território escorregadio, que coloca em xeque os lugares sólidos e implacáveis de nossa realidade humana. Ao poeta, resta a fugacidade do agora. Diz: “O agora conquistado/ e perdido nas dobras do instante”. Resta um fio, que não sabe de onde vem, e tampouco aonde o levará. Uma dobra, zona obscura: uma sombra mais uma vez.
      O poeta se apega, assim, à fúria do instante, que é sempre inquieto e indefinido. Ele nos diz em um brevíssimo texto em prosa: “Objetivo: captar a luz antes de virar azul, sentido antes de virar destino, miosótis da íris, foto transfigurada que se revela no instante de seu clique”. A poesia persegue o breve instante, enquanto a realidade se alimenta dos grandes segmentos e das grandes certezas. “A poesia é uma/ estratégia de super-/ vivência”, ele resume. Viver além das condições padronizadas da vida, saltar à frente — ou que seja para trás, rumo às origens —, mas nunca aceitar aquilo que é dado.
Vista como Rodrigo nos propõe, a poesia não é para qualquer um: exige esforço, liberdade interior, coragem. Antes de ser um objeto, é algo que o homem traz dentro de si, ou não. “Se você é incapaz de ouvi-la, e se/ Juntas não formarem acordes deve ser/ Porque não a traz dentro de você”. Exige disponibilidade interior para pensar além do pensamento e habitar além do mundo banal. Afirma-se aqui seu caráter nômade. “Língua, estranha viagem/ por paraísos perdidos, esperamos/ Sendas, cantilenas/ de templos escondidos”. O poeta, em consequência, não tem um lar — ou poeta não é. O poeta é um viajante, que desconhece o sentido de sua aventura e faz da própria aventura seu sentido. Assim descreve sua peregrinação: “Entro no centro secreto/ onde a máquina Enigma secreta/ vozes/ em línguas desconhecidas,/ Saliva negra da escrita,/ Cifras quase mudas”. Versos em que reconhece a grande proximidade existente entre poesia e silêncio.
     A poesia, portanto, não é um objeto, mas um processo e uma experiência. Está no vigésimo aforismo: “Produto e processo, num poema têm que ser pensados juntos. O que e como são siameses. Esmero excessivo desvirtua o palácio da sabedoria”. O poema não é um lugar plácido e confortável a que se chega para, enfim, gozar da serenidade. “O poema nasce enquanto o procuramos”.

terça-feira, fevereiro 25, 2014

RESENHA DE "ESTÚDIO REALIDADE", POR JOSÉ CASTELLO, NO GLOBO

O crítico e escritor José Castello escreveu uma resenha do meu livro Estúdio Realidade no caderno Prosa e verso, de O Globo, no último sábado. 
 clique na imagem para ampliar.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

"Hiperconeções: realidade expandida" em e-book.

Hiperconexões : Realidade Expandida, a primeira antologia de poemas sobre o pós-humano da literatura brasileira editada por Luiz Bras, agora em e-book:

Entrevista com Marjorie Perloff (por Rodrigo Garcia Lopes)


Uma entrevista com a crítica de poesia Marjorie Perloff, feita no começo dos anos 90, publicada em meu livro "Vozes & Visões" (Iluminuras, 1996) e no site Popbox, de Elson Fróes:

sexta-feira, janeiro 31, 2014

WILLIAM BURROUGHS, 100 ANOS


Início do conteúdo

Poeta narra encontro com William Burroughs

A entrevista de duas horas de Rodrigo Garcia Lopes com o escritor

31 de janeiro de 2014 | 19h 30

Rodrigo Garcia Lopes - Especial para Estado

      Começo dos anos 90. Eu fazia mestrado na Arizona State University e descobri que a instituição tinha adquirido uma coleção especial de William Burroughs. Foi então que decidi focar minha dissertação em sua obra. Em minha escrita, os cut-ups (técnica de colagem textual) não foram tão importantes quanto sua percepção e visão, embora tenha feito alguns poemas (C:polivox.doc) e experimentos poéticos com eles. “Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo” é uma frase que aparece em Nova Express (1964) e inspirou o título de meu livro de poemas Estúdio Realidade e do CD Canções do Estúdio Realidade (ambos de 2013). A expressão “estúdio realidade”, como eu a leio, traz embutida a ideia da realidade, em nossa Idade Mídia, como algo cada vez mais fabricado e manipulado, sobretudo pelos meios de comunicação de massa e pela internet. Ao mesmo tempo, serve de metáfora para o mundo atual. Os escritores, segundo Burroughs, teriam o poder de desescrever o filme da realidade, de criticar e desconstruir suas estruturas.
       Em março de 1991 contatei James Grauerholz, agente literário e amigo de Burroughs, e no dia 13 de maio fui para Lawrence, Kansas, em uma região de frequentes tornados. Apesar de ter me preparado para o encontro, estava ansioso. O “cosmonauta do espaço interior” e membro fundador da geração beat morava em uma casa com árvores frondosas. No número 1927 da Learnard Avenue ele escrevera suas últimas obras, como a trilogia composta por Cities of the Red Night, The Place of Dead Roads, The Western Land, além de My Education: a Book of Dreams, diário de sonhos publicado em 96. Quando eu e James chegamos, Burroughs já nos esperava na pequena varanda. Trajava camisa marrom, calça jeans e um elegante chapéu fedora.
      Foi uma entrevista longa, de mais de duas horas. Ele estava vivendo uma vida bem tranquila, diferente do fim dos anos 70, em Nova York, quando a heroína o fisgara novamente. Fazia tratamento de manutenção com metadona. Escrevia todos os dias. Os convites para leituras, exposições de arte, gravações e participações em filmes e discos haviam aumentado. David Cronenberg havia acabado de filmar seu livro mais conhecido, Almoço Nu (no Brasil, Mistérios e Paixões), e ele estava animado com o resultado.
    Embora a saúde não fosse mais a mesma (havia sofrido uma cirurgia cardíaca uns meses antes), estava mais lúcido do que nunca ao falar de seus temas favoritos, como o vício como metáfora e a palavra como vírus. “Desde o começo eu tenho estado mais preocupado, enquanto escritor, com o vício em si mesmo (seja a drogas, sexo, dinheiro, poder) como um modelo de controle, e com a decadência suprema dos potenciais biológicos da humanidade, pervertidos pela estupidez e pela malícia desumanas.” Sobre o futuro da literatura, disse, entre goles de Coca-Cola (com vodca, como fui descobrir quase no fim da entrevista): “Não acredito que outras tecnologias e artes serão capazes de substituir a literatura. As pessoas vão continuar lendo. Há coisas que você não consegue numa tela ou num filme. Com um livro as pessoas podem sentar-se em qualquer lugar e é como se um filme estivesse passando em suas cabeças”. Sua voz era metálica, monocórdia, arrastada. As palavras eram pontuadas com um leve repuxar de canto de boca. Por toda parte, gatos, uma de suas paixões e tema de O Gato por Dentro (1986). Remetendo aos egípcios, via gatos como companheiros psíquicos, familiares.
    Burroughs situou sua obra dentro da antiga tradição picaresca, de Petrônio, Cervantes, Rabelais. Escrevia em vários estilos, que iam da ficção científica ao romance policial (na tradição hard-boiled de Raymond Chandler e Dashiel Hammet), do western ao diário de viagem. Satirista genial, visionário, Burroughs foi um dos escritores do século 20 que mais levou adiante o “desregramento gradual e racional de todos os sentidos” proposto por Rimbaud. Depois da trilogia cut-up, composta por Soft Machine, The Ticket that Exploded e Nova Express, onde desconstruía o romance tradicional, nos anos 80 e 90, Burroughs voltou a uma forma narrativa mais linear, sem nunca abandonar seu projeto literário e político de questionar as estruturas da realidade. “Talvez o conceito mais básico da minha escrita seja o credo num universo mágico, num universo de muitos deuses, frequentemente em conflito.”
    Burroughs foi educado, bem-humorado, paciente e atencioso, desmontando a imagem que eu fazia dele. No fim, tiramos algumas fotos e ele ainda me presenteou com uma de suas pinturas. Comentou que acabara de voltar de uma visita à casa de Whitley Strieber, autor de Comunhão: Uma História Real, e estava fascinado com o tema da abdução alienígena. No entanto, ficara desapontado por não ter tido nenhum contato com eles. Eu já não poderia dizer a mesma coisa. 

RODRIGO GARCIA LOPES É POETA, COMPOSITOR,JORNALISTA, AUTOR DE ESTÚDIO REALIDADE (7 LETRAS)


Veja também: link Mostra de fotos em Londres joga luzes sobre estilo e método de Burroughs  

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Entrevista de Rodrigo Garcia Lopes para Claudio Portella (jornal Cândido)

Entrevista | Rodrigo Garcia Lopes

Rodrigo Garcia Lopes em dose tripla

Com novo CD e coletânea de poemas, Rodrigo Garcia Lopes aguarda a publicação de O trovador, um romance policial que se passa no Norte do Paraná e que marca sua estreia na prosa


Cláudio Portella


Foto: Jaqueline Sasano

William Burroughs, um dos principais nomes da geração beat, sempre foi uma referência para o escritor paranaense Rodrigo Garcia Lopes. Em 2013, o autor de Almoço nu volta a inspirar Garcia Lopes em sua nova empreitada: seu mais recente livro de poemas, Estúdio realidade, bem como o álbum Canções do estúdio realidade, tiveram seus títulos nomeados a partir de uma frase de Burroughs que aparece em seu livro Nova express, (“Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo”). “A expressão, como a leio, traz embutida a ideia da realidade, em nossa Idade Mídia, como algo cada vez mais fabricado e manipulado, sobretudo pelos meios de comunicação de massa”, explica Garcia Lopes em entrevista ao Cândido.
O poeta londrinense ainda fala sobre sua primeira experiência na prosa, com O trovador, romance policial que tem como pano de fundo o Norte do Paraná. “Foi uma grande aventura escrever este romance. Pesquisei muito a história da colonização do norte do Paraná em bibliotecas daqui e dos Estados Unidos, em museus e em sites”, explica Garcia Lopes, que ainda fala sobre as canções de seu novo CD e da cena literária brasileira contemporânea.


O título (Estúdio realidade) do seu novo livro de poesia, bem como do seu novo CD (Canções do estúdio realidade), foram cunhados de um livro de William Burroughs. A capa do livro traz uma foto do escritor americano tirada por você. Em que medida a obra de Burroughs influenciou a sua criação?
É, aquela foto foi curiosa, nós criamos juntos. O livro sai em maio pela 7Letras, do Rio. Minha dissertação de Mestrado, na Arizona State University, foi sobre os romances de Burroughs, filosofia da linguagem, intertextualidade, entre outras questões. Os cut-ups [técnica de colagem utilizada por Burroughs] foram importantes, eu mesmo fiz alguns experimentos poéticos com isso. “Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo” é uma frase que pinta no livro Nova express (1964). A expressão, como a leio, traz embutida a ideia da realidade, em nossa Idade Mídia, como algo cada vez mais fabricado e manipulado, sobretudo pelos meios de comunicação de massa. O livro dá continuidade a uma característica comum no meu trabalho: o sentido crítico, a busca pelo inusitado e pela surpresa, por diálogos com diversas tradições literárias, pela pesquisa de novos dizeres, além da exploração e práticas poéticas diversas, que vão de formas ancestrais de poesia (como a poesia visual) até o hipertexto contemporâneo. O título também sinaliza a poesia enquanto artifício, com o poder de questionar essa “realidade”, bem como o de construir e inventar outras. Acho que a poesia pode cumprir seu papel de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido, de provocar uma re-sensibilização.

Sua poesia tem uma forte pegada pop. O que, em alguns momentos, lembra o poeta Paulo Leminski. Mas noto que apesar da sua levada pop, o arremate é quase sempre visceral, como se você estivesse aprofundando o que o Leminski não queria, ou não teve tempo de trazer para a poética. É isso? Fale sobre a sua poesia, como ela se processa?
Em que sentido, “pop”? Eu não gosto dessa designação. Pra mim, passa a ideia daquilo que não fica, de algo descartável, superficial. Vejo muita gente usando o termo, inclusive poetas jovens. Aliás, hoje parece haver muita pose e pouca poesia. Também acho que dizer que a poesia de X lembra a de Z desmerece a singularidade de cada poeta. Qual a semelhança entre uma maçã e uma laranja? Nós somos em boa parte um arquivo vivo de todas as leituras e experiências que afetaram nossa sensibilidade. Eu tenho afinidade com muitos poetas, minha poesia tenta dialogar com todo um passado. E um presente também, é claro. Leminski foi importante, mas muitos outros (e não só escritores) também foram.

Quando você esteve com Burroughs ele lhe disse que achava que a maioria dos poetas eram essencialmente prosadores preguiçosos. Você acha mesmo que isso se encaixa à perfeição na poesia brasileira atual? Eu acho que a poesia mais interessante que se tem feito no Brasil nos últimos anos é justamente essa, e que ela não tem uma relação direta com a prosa longa, talvez com a crônica. Bem, o que você realmente pensa sobre isso?
Eu concordo com o que o Burroughs me disse naquela entrevista. Muitos poemas que leio hoje em dia são apenas prosa cortada em linhas, arbitrariamente, e raramente linguagem em versos. Eu discordo de você que a poesia mais interessante tem sido nessa linha, embora eu ache que o atrelamento a uma certa ideia de “materialidade da linguagem”, a uma ideia de “concisão”, além do poema curto, no Brasil das últimas décadas, impediu ou inibiu a criação de poemas mais longos, de fôlego e visões amplas, como encontramos com frequência na poesia norte-americana, na sul-americana ou mesmo entre nós (Jorge de Lima me vem à mente).

burroughs
Rodrigo Garcia Lopes e o escritor beat William Burroughs, uma das grandes influências do poeta londrinense.

O livro de poesia Estúdio realidade tem uma parte (Quarto Fechado) onde os poemas giram em torno de elementos que constituem o romance policial. Você acaba de concluir seu primeiro romance policial, O trovador. O seu anseio em escrever uma história de mistério era uterino? Provém do mesmo útero dos poemas policiais? No caso, Burroughs tinha razão, os poemas policiais foram uma preliminar enquanto criava coragem para escrever o romance?

Sempre fui apaixonado pela história da colonização do Norte do Paraná. Embora eu lesse romances policiais, é uma paixão ou “vício”, como diz W. H. Auden, mais recente. Fui escrevendo os poemas “policiais” enquanto escrevia o romance. Fazendo paralelos entre a operação poética e a investigação. Dos gêneros narrativos, acho que o policial é o que mais se aproxima da poesia, pelo menos para mim. Lembre que Poe, o pai do romance policial, em Filosofia da composição, parte de um poema (“O corvo”) para explicar o procedimento construtivo “de trás para frente” que é característico de uma boa história policial.

Em O trovador, a imprensa britânica Paraná Plantations, loteia as terras férteis do Norte do Paraná. A história também se passa na Londrina de 1936. Como foi recriar e reconstituir a região do Norte do Paraná dos anos 1930? Você fez pesquisas históricas, quais as suas fontes?

Foi uma grande aventura escrever este romance. Pesquisei muito a história da colonização do norte do Paraná em bibliotecas daqui e dos Estados Unidos, em museus, em sites específicos. A biografia de Lord Lovat foi importante, jornais como o Paraná-Norte, e muitas, muitas fotografias antigas. Fiz consultas em arquivos físicos e online, leitura de bibliografia específica ao tema e ao período histórico (o contexto mundial e brasileiro nos anos 1930, por exemplo). A colonização é o pano de fundo do livro, e uma página bem pouco conhecida na nossa história e menos ainda explorada pela literatura brasileira. Depois da fase de levantamento histórico, perfil dos personagens principais e planejamento da obra, veio a escrita propriamente dita. Um romance policial de qualidade (que tenha trama bem construída e interessante, cenário original, personagens multidimensionais, pistas inteligentes, detetive cativante e vilões memoráveis) requer bastante trabalho, planejamento e pensamento crítico. O mais importante, neste gênero, pra mim, além do protagonista, é a trama, a intriga, que no caso de O trovador é bem complexa. Foi o que deu mais trabalho, além da reconstituição de época. Repleto de ação, suspense e reviravoltas, e sem perder seu foco principal, que é a investigação.

Quais são seus autores preferidos no romance policial e o que acha do que se está produzindo hoje do gênero no Brasil?

Poderia citar muitos, mas os preferidos são Conan Doyle, Agatha Christie, Josephine Tey, P.D. James, na Inglaterra. Na França, Simenon. Nos EUA, Dashiel Hammet, Raymond Chandler, Ross Mcdonald, Michael Connelly, Scott Smith e Dennis Lehane são meus favoritos. Há uma safra de escandinavos muito boa. No Brasil, citaria Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Marçal Aquino (em alguns livros). Embora a situação tenha melhorado nos últimos anos, o policial brasileiro ainda tem pouca tradição no nosso sistema literário e encontra resistência por parte da crítica, ora considerado como subliteratura ou mera literatura de entretenimento. Acho que o gênero permite levantar importantes reflexões históricas e questões de identidade, moral, corrupção política, relações internacionais, colonialismo, propondo, ao mesmo tempo, uma reescrita da história.

Foram alguns anos para escrever O trovador, como foi sua rotina de trabalho no romance durante esse período?
É normal que seja um trabalho demorado. Depois que vi uma entrevista do Lehane dizendo que o primeiro romance dele levou 3, 4 anos, fiquei mais tranquilo. Por tratar-se de um romance de mistério e investigação que emprega fatos históricos e personalidades reais, pra conseguir a necessária verossimilhança literária foi vital investir tempo integral para escrevê-lo. Em 2009 fui contemplado com uma bolsa Funarte de Criação Literária, e isso foi fundamental, me deu o tempo para me dedicar exclusivamente ao projeto. Seguia uma rotina diária de trabalho. Os primeiros meses foram de pesquisa histórica, contextualização sócio-política do período, leituras de relatórios da companhia em jornais brasileiros e britânicos. Depois veio o plano de enredo, as caracterizações dos personagens, e um primeiro esboço para os capítulos que continham os pontos-chaves e viradas na trama. Também li muitos livros sobre a técnica de escrever um romance policial que me foram muito úteis. Por exemplo, eu estava empacado na parte 2, que sempre é a mais extensa e complicada. Um dos livros aconselhava que, se isso acontecer, esqueça tudo e escreva a cena do confronto final entre detetive e criminoso. Foi o que fiz. Eu, que nunca bebo para escrever, comprei duas garrafas de vinho tinto e voltei para meu refúgio em Floripa. E funcionou. Com a cena-chave delineada, fui escrevendo alguns capítulos de trás pra frente, tendo em vista aonde a ação iria desembocar.

Recentemente você lançou Canções do estúdio realidade, seu segundo CD após 12 anos do lançamento de sua estreia, com Polivox (2001). O que mudou do primeiro trabalho para este?
Ele está todo disponível no site. Em Polivox eu poderia ter feito um disco de poesia sonora, ou apenas de poesia falada. Naquele trabalho a intenção era reunir canções e poemas escritos até aquele momento, criar um território híbrido, onde música e poesia — como as pegadas de um pássaro na areia — fossem indissociáveis (como sempre foram, dos rapsodos gregos aos rappers). Lá, os poemas recebiam três tratamentos básicos: 1) Musicados e transformados em outra coisa: canções; 2) Sob a forma de poetrilhas ou salas sonoras (aguçando uma viagem sonora com o texto); 3) Lidos no seco, explorando o som da linguagem em si. O disco novo adensa as experiências musicais iniciadas no Polivox, mas com foco apenas na canção. O trabalho explora, em 12 faixas, formas possíveis de compor canções hoje em dia. As canções se tornam campos de possibilidades poético-musicais. Além da coisa da composição, neste disco assumo com mais amadurecimento o lado intérprete, e também o violão, que estrutura minhas canções.

Neste novo CD, em que pese os diálogos com variados ritmos musicais, há uma unidade muito forte em quase todas as músicas. Essa unidade foi procurada ou tem relação mais direta com o timbre da sua voz, a poesia, o violão de nylon, o diálogo com o cinema, etc?

Bem, minha voz e violão são o centro e a base dos arranjos. Eu estruturo as canções de um jeito que as intenções de outros instrumentos já ficam audíveis ali (como o baixo, principalmente). Conversei muito com o André Siqueira sobre a sonoridade que queríamos no disco. Essa unidade foi conseguida graças a ele, um multi-instrumentista de Londrina, que escreveu 10 dos 12 arranjos.

Na canção “New York”, talvez a que mais se diferencie do CD, em determinado momento você entoa um New York, New York... É uma “brincadeira” com a famosa canção imortalizada por Frank Sinatra?
“New York” é um rap com levada funk (não o carioca!). É a única (com exceção da primeira parte de “Fugaz”) que é em canto-falado. Sim, a música faz uma citação de Sinatra entre a primeira e a segunda parte. Acabamos de gravar o clipe desta música, dirigido pelo Anderson Craveiro. Vai ficar bonito.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

RESENHA DE "ESTÚDIO REALIDADE (7 Letras) no VALOR ECONÔMICO



A natureza da linguagem em Garcia Lopes

Por Heitor Ferraz | Para o Valor

     Não deixa de ser interessante que um dos temas caros ao romantismo - o da contemplação da natureza e a fusão do eu lírico com toda essa verdura estilizada - continue tendo, nos tempos de hoje, o mesmo apelo. No entanto, não podemos nos apegar à superfície dos poemas, e cabe perceber que essa natureza contemporânea já nos chega problematizada pela própria linguagem: é uma natureza inventada pela linguagem e ao mesmo tempo questionada por ela e sobre ela. É como se o poeta retirasse de suas observações uma imagem e, num segundo seguinte, já questionasse a validade dessa imagem.
     A questão é complexa, não há dúvida. Mas ela está presente no recente livro "Estúdio Realidade", do poeta paranaense Rodrigo Garcia Lopes, uma das vozes representativas da poesia brasileira surgida nos anos 1990. Há em Garcia Lopes desde o princípio, em "Solarium", de 1994, uma preocupação com a diversidade formal. Mas já absorvida pela ideia da "poesia pós-utópica", de Haroldo de Campos, com "a pluralização das poéticas possíveis". Havia uma procura da expressão que desse conta dos embaralhamentos da vida contemporânea. Nesse sentido, sua poesia trilhou o inusitado caminho da variação formal e da polifonia, cada poema exigindo uma maneira própria de se apresentar na página.
     Mas se há um tema bastante recorrente em sua poesia é o da natureza, como motivo de reflexão e criação de novas imagens e questionamentos. Como já havia em "Nômada", de 2004, essa paisagem descrita pelo poeta é uma espécie de fruto do pensamento (como ele mesmo diz num dos "24 aforismos sobre poesia", no fim de seu novo livro: "Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiência, e sim escrita como experiência"). Essa tem sido a sua procura obsessiva: uma expressão que case imagem e pensamento, por meio de uma linguagem que se questione o tempo inteiro, pois ciente de seus desgastes. Como já dizia a crítica Maria Esther Maciel, o poeta "faz do deserto a sua paisagem".
      Ele não procura a natureza em si, mas os seus ecos, pois em seu estúdio a realidade não é um objeto a ser flagrado diretamente. Ele deve ser captado pelas bordas, pelas imagens que proporciona, como se pode ler em "No Estúdio Realidade", que abre o livro: "Uma relâmpago é flagrado por seus ecos. Santo súbito". Em outro fragmento lê-se: "A pedra comunica seu sonho de estar sobre o ar da paisagem na parede. O espelho, uma perda".
     Em "Notícias do Mundo", por exemplo, os versos parecem relatos curtos, quase títulos estilizados de jornais ("Águas muezins no vale das sombras/ África agoniza/ Iraque se debate/ Índia se indigna/ Impérios definham/ Morro em guerra fratricida" etc.). A certa altura, o poeta anota, irritado: "Mentiras, mentiras". E ao fim, diz: "E, no entanto, eu aqui/ à sombra de um pensamento/ de um amor que seja um lugar,/ um lugar como um pensamento./ Mas isto é ir muito longe:/ Isto é acordar".
      "Estúdio Realidade", cujo título é tomado de um romance de William Burroughs, é um bonito livro, mas exige do leitor uma paciência de detetive (alguns poemas tratam diretamente do assunto). Ele lança pistas e despistes. Cabe ao leitor decifrá-los, não diretamente, mas pelos ecos que criam.

"Estúdio Realidade"
Rodrigo Garcia Lopes 7Letras 136 págs., R$ 35,00 / AA+

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco


NO SITE DA RPC TV


08/01/2014 14h52 - Atualizado em 08/01/2014 14h52

Descubra o Paraná: Conheça o poeta do primeiro vídeo da campanha

Rodrigo Garcia Lopes criou poema sobre a beleza das imagens do time-lapse

Por Redação RPC TV
Rodrigo Garcia Lopes contribuiu com versos à campanha Descubra o Paraná (Foto: Reprodução/Redes sociais)Rodrigo Garcia Lopes contribuiu com versos à campanha Descubra o Paraná (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Rodrigo Garcia Lopes foi incumbido de criar uma das frases que encerram um dos vídeos da campanha Descubra o Paraná, que apresenta o Pico Paraná em vídeos de time-lapse. Sobre essa coisa de ser um autor por encomenda, tão distante da zona de conforto de quem espera a inspiração vir para criar, Rodrigo comenta que a experiência é válida: "É um desafio. Um exercício. Serve para você testar e ver quão afiado está o corte".
O autor contribuiu com a campanha com os versos:
"como
em alguns segundos
chamar de pouco
o que é tanto?"

Sobre a criação dessas linhas, Rodrigo explica o processo, que contou com inúmeras sessões dos vídeos da campanha: "Assisti aos vídeos diversas vezes, em períodos diferentes do dia, com e sem a trilha sonora. Tudo para me inspirar na hora de criar", explica. Rodrigo conta também que, desde o princípio, se sentiu inclinado a adotar a solução do haikai, forma poética japonesa que prima pelos versos rápidos, curtos e cheios de significados.
"Entre as sugestões que eu enviei, havia versões com essa cara de haikai", conta. O texto escolhido, no entanto, foge ao padrão poético japonês, mas encerra outras questões também interessantes sobre a inspiração e o processo criativo do autor. "Na versão escolhida, eu brinquei com a própria tarefa de se reduzir muito tempo em apenas 30 segundos, que é o que o vídeo faz", diz.
Sobre as demais versões, Rodrigo lembra de uma em que ele procurou falar daquilo que as imagens lhe diziam. "Numa das versões, eu associei o pico a uma ilha negra, e as nuvens a um mar branco. Noutra sugestão, falava da velocidade das nuvens e das estrelas, e da montanha ali, sempre parada", revela.
Novos projetos
Além da participação na campanha, o escritor fala sobre as perspectivas para 2014. "No começo do ano, lanço um romance policial", conta. O livro, batizado de "O Trovador", se passa em 1936 em Londrina, Inglaterra e Escócia e usa o processo de colonização britânica do norte do Paraná no enredo e é o fruto de oito anos de trabalho do autor. Além do livro, Rodrigo, que também compõe e canta, pretende intensificar o calendário de shows de seu último disco, "Canções do Estúdio Realidade". Músicas desse álbum, inclusive, fizeram parte da trilha sonora da série Os 7 Pecados, exibida pelo Casos e Causos em 2013.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Resenha de "Stolarskais", na Folha de hoje


Crítica poesia

Humor ácido domina versos breves postados no Instagram

'Stolarskais' reúne 113 haicais do designer André Stolarski, morto em agosto

RODRIGO GARCIA LOPES 
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Stolarskais" reúne 113 poemas do designer paulistano André Stolarski, morto aos 43 anos em agosto.

O haicai é a forma mais breve de poesia do planeta e encara o desafio de dizer o máximo com o mínimo de palavras (e ganhar o leitor por ippon --um golpe perfeito nas artes marciais japonesas).

Stolarski procura seguir a divisão em três linhas (de 5-7-5 sílabas). É uma convenção básica do gênero, com a qual brinca em "Promoção: use/ De-zes-se-te-sí-la-bas'/ Leve mais cinco".

Revela influências de autores como Millôr Fernandes, Oswald de Andrade (em sua ênfase no poema-piada) e de Paulo Leminski.

Stolarski ironiza sua prática textual, em tempos em que tudo, até o haicai, corre o risco de virar fast-food: "Abri franquia:/ Delivery de haicai/ Noite e dia".

O falso "espontaneísmo" do haicai é uma armadilha e nem sempre funciona. Há momentos para centelhas: "Na rede, ao léu/ Repousam meus sonhos/ Sob a fronha do céu" (apesar do pronome pessoal parecer excessivo). Em outros, consegue ser lapidar: "Vai a vida/ Destino preciso/ Via indefinida".

INSTAGRAM

Originalmente, os poemas foram postados no Instagram durante o período em que o autor tratava um câncer.

Neste contexto, parece difícil para o autor conseguir se afastar de todo do "eu", manter a objetividade e o estado de mu-ga ("não eu") que é inseparável do haicai genuíno.

Apesar da presença do humor, muitas vezes ácido, a morte é presença sutil ou evidente em 25 das peças.

RODRIGO GARCIA LOPES é poeta, compositor e tradutor, autor de "Estúdio Realidade" (7Letras, 2013)

STOLARSKAIS

AUTOR André Stolarski
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 49,90 (224 págs.)
AVALIAÇÃO regular