terça-feira, agosto 21, 2012

ENTREVISTA NA FOLHA: LONDRIX 2012 + COYOTE 10 ANOS

A versão na íntegra da entrevista feita com o excelente Rafaerl Ceribelli, da Folha de Londrina:


GUERRILHA LITERAL


A Revista Coyote completa 10 anos e a oitava edição do Festival Literário de Londrina começa nesta segunda. Mas o que mudou e o que ainda não passa de rascunho no cenário literário londrinense?

Rafael Ceribelli / Reportagem Local

Separadas por apenas alguns dias, duas datas marcantes para o cenário literário londrinense sublinharam esta semana de agosto. De um lado, a revista literária Coyote assoprou velhinhas em seu aniversário de dez anos, colocando a cereja do bolo em uma edição recheada com a seleção especial de contos e traduções inéditas, com destaque para um dossiê do jornalista e escritor João Antônio (1937-1996), ilustrado por fotos exclusivas de Elvira Alegre. De outro lado, estamos na véspera da oitava edição do Londrix (Festival Literário de Londrina), que é destaque dentro do circuito alternativo e que, este ano, conta com a participação de nomes reconhecidos nacionalmente como Arrigo Barnabé, Marcelino Freire, Paulo Lins e Domingos Pellegrini. 
"É uma luta. Uma batalha. As pessoas podem até achar que é fácil, mas é bastante complicado organizar tudo isto", desabafa Rodrigo Garcia Lopes, relembrando das dificuldades que envolvem a produção de eventos e produtos como estes, que fogem à regra de mercado. Reconhecido nacionalmente como escritor, jornalista, tradutor, e compositor, Garcia Lopes sempre esteve envolvido no cenário cultural da cidade; no meio das letras, é co-fundador e editor da Coyote junto com os jornalistas e escritores Marcos Losnak e Ademir Assunção. Também participou da fundação do Londrix, em companhia de Losnak, da editora Christine Viana e a jornalista Denise Gentil. 
Fazendo parte ativa na lapidação - parágrafo à parágrafo - de um novo capítulo para a literatura na cidade de Londrina, Rodrigo Garcia Lopes conta, em um bate-papo exclusivo com a Folha, sobre seus sentimentos acerca do cenário cultural na cidade, seu orgulho pelos dez anos de Coyote, sua expectativa pela edição deste ano do Londrix e sua decepção com a nova geração de 'leitores'. 


Folha de Londrina - Primeiro, qual o significado deste aniversário para você? Como é o sentimento de completar dez anos em frente à uma revista literária independente e de prestígio nacional?
Rodrigo Garcia Lopes - Acho que ninguém imaginava chegar a tanto. É complicado, porque todos os anos precisamos contar com o apoio do Promic e nossas vidas, dos editores, mudaram muito durante estes anos. Nós não sobrevivemos da revista. Longe disso. Muitas vezes eu, o Losnak e o Ademir estamos com outros projetos, então a filtragem dos textos é feita nas horas vagas, e exige bastante esforço para nos reunirmos pessoalmente e fechar uma edição da revista.

- Parece que, depois de dez anos, continua sendo um trabalho desafiante…
Apesar de ter 52 páginas, fechar ela dá um trabalhinho, viu? (risos) Além da parte da seleção e de filtragem, ainda procuramos decidir de forma unânime texto a texto, foto a foto. Às vezes é uma novela, especialmente porque seguimos um critério de seleção bem alto: existe uma discussão de valores, de estética. É uma delícia e uma tortura, tudo ao mesmo tempo. Várias vezes já pensamos em jogar a toalha, mesmo porque não temos estrutura suficiente para produzir uma revista deste nível, e mesmo assim conseguimos. É um trabalho de guerrilha cultural. A efemeridade sempre foi a marca de revistas literárias no Brasil, desde os anos 70. Eram revistas de curta duração, que não conseguiam uma perenidade. Manter um projeto marginal deste, publicado por tanto tempo, não é fácil.

- A revista conseguiu ser estruturada e sobrevive com o apoio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). Sem este suporte, o projeto seria inviável? 
Inviável. Com certeza. A gente sempre gosta de ressaltar isso, porque somos bastante cobrados, especialmente por lidar com dinheiro público, sempre é preciso ter transparência. O Promic é o que faz a revista ser possível. Além disso, a revista só existe pela nossa persistência. Muitas vezes entramos em crise. Muito deste caminho ainda existe porque os três editores são teimosos como mulas. A nossa persistência é em atuar nesta área, que tem este caráter de inconformismo, que não privilegia o mercado livreiro e nem faz política literária. Ao lado do texto de um iniciante, está um texto de alguém famoso como Marcelino Freire, Gilberto Nobre. Nós não publicamos nomes. Nós publicamos textos. 

- Pelo reconhecimento que a publicação alcançou nesses anos, muitos consideram um privilégio ser publicado pela Coyote. Você sente essa gratidão por parte dos autores?
Super, eu fico até impressionado, porque é uma coisa que muitas vezes a gente acaba não se tocando. É muito legal perceber como esta publicação é importante para os escritores, e como que a Coyote acabou se transformando em uma referência de qualidade e valor literário. Nós tentamos ter muito rigor em tudo que é publicado. Além disso, nós já publicamos na Coyote cerca de 40 nomes de Londrina, com trabalhos de escritores, poetas, ensaistas acadêmicos, fotógrafos, cartunistas, dramaturgos. Temos clara a obrigação em ter, toda edição da revista, um ou dois autores locais, para a publicação adquirir uma identidade e manter uma relação direta com a produção na cidade. 

- Essa postura é, em parte, o que também confere um respeito maior pela revista? 
Sim, acho que as pessoas sabem disto. Pode até existir quem declare que a Coyote é uma panela. Mas vai olhar de perto para ver: todas as correntes estão representadas, todas as tendências estão representadas. Temos publicações de pessoas de todos os estados brasileiros. Não podemos ser acusados de sermos uma panela. Acho que um imenso caldeirão seria o mais apropriado. A questão sempre envolve a qualidade do texto, e é uma revista democrática, eclética, e isto é o que confere respeito à ela. Posso dizer o seguinte: se algum dia um extraterrestre chegar no planeta e conseguir encontrar a coleção completa destes dez anos de Coyote, ele vai ter um bom retrato do que aconteceu na literatura e na arte nacional e internacional durante os anos 2000. É um documento de tudo que estava sendo criado, pensado e discutido naquele momento. 

- Em que ponto é que a história da Coyote se entrelaça com a criação do Londrix?
Eu e o Losnak tínhamos a ideia de fazer um festival literário, que não necessariamente fosse uma extensão da revista, mas que se ligasse à revista de alguma forma. Com presença de pessoas debatendo, um evento deste tipo… E a Chris (Viana, editora do Festival) também tinha a ideia de fazer um projeto neste sentido. Nós resolvemos, depois de uma sugestão do Bernardo [Pellegrini, Secretário da Cultura na época] unir forças e iniciar um projeto conjunto. Lembro que a primeira edição foi bem na raça, mas o festival já tinha um perfil marcado. Eu me afastei da curadoria, mas este ano fui chamado para ajudar novamente.

-- É possível afirmar que, assim como a Coyote é uma revista de criação, o Londrix também busca um aspecto diferenciado de outros festivais literários?
Acho que o ponto em que as pessoas mostram seus processos criativos e suas obras lendo, cantando ou dançando. Muita gente acha que a literatura está só nos livros. Isto é um erro. A literatura acontece em várias ocasiões que estão fora do livro: em shows de poesia, leituras públicas, debates e conversas sobre a literatura. A literatura salta para fora das páginas, do suporte do livro. Este ano, o Festival dá um enfoque especial para essa diversidade. Por exemplo, nesta edição vamos organizar uma mesa só de "Performance", mostrando como a poesia pode ser interpretada em cena, no palco, na rua, ou transformada em filme. Eu estou super feliz com a programação do Festival este ano.

--- Você acredita que falta, no público, a percepção da literatura como algo mais abrangente?
Toda vez que se fala de literatura, se fala de livros. É um erro. Claro que existe a procupação em cultivar mais leitura, mas este fio sempre bate ali, no mercado livreiro e nos interesses dessa indústria. Dentro de um Festival, existem muitos outros temas para serem discutidos; da qualidade do jornalismo cultural à questão da mídia como vendedora de produtos. O que interessa em um evento desses é a experiência de criação, de formação literária e artística. O Londrix busca proporcionar um contato diferenciado com a literatura. O contato de um Brasil que não é o mesmo das Olimpíadas, e que nem faz parte do "Sonho Brasileiro" ou do "Brazilian American Way of Life", onde todos se enganam achando que aqui é primeiro mundo. 

-- Quais são, em sua opinião, os principais desafios e objetivos do Londrix este ano?
O desafio principal é atrair público, porque está difícil. O público universitário, antigamente, era o ideal para este tipo de evento. Eles eram as cabeças pensantes da sociedade, os rebeldes, os inconformistas, quem saía na rua, o padrão de crítica e critério da sociedade. Infelizmente, hoje sentimos um desinteresse muito grande dos estudantes em geral para este tipo de evento. Dai você começa a pensar que Londrina tem 240 duplas de sertanejo 'universitário', e pensa também que a palavra 'universitário' já caiu em um outro sentido. Ou seja, o cara prefere ir em uma balada sertaneja do que ir em um festival literário. Em minha opinião, isto tudo passa por uma questão maior, uma questão de mercado. Nisto é que estão transformando a nossa música, no que estão transformando a literatura: em coisas que não são propriamente arte. São produtos voltados para o mercado, para o sucesso imediato e efêmero. Este aspecto também será discutido dentro do Londrix.

--Você acredita que o conformismo intelectual aumentou nos últimos anos?
Acho que aumentou sim, bastante. Isto é, além da 'caretização' geral: ficamos mais caretas, mais repressores, mais autoritários, mais policialescos. Está tudo muito politicamente correto, e os debates já não abrem tanto espaço para a reflexão. É tudo oito ou oitenta. Isto ocorre em todos os setores, e não só na cultura. Nosso objetivo é tirar as pessoas da inércia à que elas estão acostumadas, para se alimentarem de outras informações. Instigar principalmente os jovens leitores. Acho que se conseguirmos isso com o Londrix, ainda existe esperança.

--Onde você imagina que a Coyote e o Londrix estejam, daqui a dez anos?
Putz. Já foi difícil imaginar que chegaríamos até aqui, sabe? Que o Londrix estaria na oitava edição e a Coyote no décimo ano. Não tenho a menor ideia (pensativo). Sei que a Coyote, com certeza, já vai ter um site até lá (risos). E acho que a tendência do Londrix é não crescer muito, não virar algo megalomaníaco, mas ter mais investimentos, mais apoio popular para poder fazer dele um evento que aconteça, de uma certa forma, durante o ano todo. Isto pode ser feito através de ações simples, que vão desde a divulgação de autores ou maior participação das mídias, com oficinas literárias e eventos pontuais, voltados para a comunidade. Observamos nestes últimos anos uma explosão de festivais: agora tem o Flip, o Flop, o Flup (risos) e os mais antigos, como o de Porto Alegre e o de Passo Fundo. O lance é o seguinte, precisamos fazer um Festival com a nossa cara, com a nossa identidade, com nossa história e de nosso próprio modo. Afirmar a identidade do Londrix está sendo o maior desafio ao longo de todos estes anos.

segunda-feira, agosto 20, 2012

GUERRILHA LITERÁRIA



Guerrilha literária

A Revista Coyote completa 10 anos e a oitava edição do Festival Literário de Londrina começa nesta segunda. Mas o que mudou e o que ainda é rascunho no cenário literário londrinense?
Renata Cabrera
Rodrigo Garcia Lopes: ''Nosso objetivo é tirar as pessoas da inércia para se alimentarem de outras informações. Instigar principalmente os jovens leitores''
Separadas por apenas alguns dias, duas datas marcantes para o cenário cultural londrinense sublinharam esta semana de agosto. De um lado, a revista literária Coyote, que completa dez anos, com uma edição recheada com a seleção especial de contos e traduções inéditas, com destaque para um dossiê do jornalista e escritor João Antônio (1937-1996). De outro lado, estamos na véspera da oitava edição do Londrix (Festival Literário de Londrina), que é destaque no circuito alternativo e que, este ano, conta com a participação de nomes reconhecidos em todo País, como Arrigo Barnabé, Marcelino Freire, Paulo Lins e Domingos Pellegrini. A organização é de Christine Vianna. A curadoria deste ano foi feita por Samantha Abreu, Marcos Losnak e Lopes.

''É uma luta. Uma batalha. As pessoas podem achar que é fácil, mas é bastante complicado organizar tudo isto'', desabafa Rodrigo Garcia Lopes, relembrando das dificuldades que envolvem a produção de eventos e produtos que fogem à regra de mercado. Reconhecido nacionalmente como escritor, jornalista, tradutor e compositor, Garcia Lopes sempre esteve envolvido no cenário cultural da cidade; no meio das letras, é co-fundador e editor da Coyote, junto com os jornalistas e escritores Marcos Losnak e Ademir Assunção. Também participou da fundação do Londrix, em companhia de Losnak, da editora Christine Viana e da jornalista Denise Gentil. 

Fazendo parte ativa na lapidação de um novo capítulo para a literatura na cidade de Londrina, Rodrigo Garcia Lopes fala, em um bate-papo exclusivo com a FOLHA, sobre o cenário cultural na cidade. 

Qual o significado deste aniversário para você? Como é o sentimento de completar dez anos à frente de uma revista literária independente e de prestígio nacional? 

Acho que ninguém imaginava chegar a tanto. É complicado, porque todos os anos precisamos contar com o apoio do Promic e nossas vidas, dos três editores, mudaram muito durante estes anos. Não sobrevivemos da revista. Longe disso. Muitas vezes eu, o Losnak e o Ademir estamos com outros projetos, então a filtragem dos textos é feita nas horas vagas, e exige bastante esforço para nos reunirmos pessoalmente e fecharmos uma edição da revista. 

Parece que, depois de dez anos, continua sendo um trabalho desafiante... 

Apesar de ter 52 páginas, fechá-la dá um trabalhinho, viu? (risos) Além da parte da seleção e de filtragem, ainda procuramos decidir de forma unânime texto a texto, foto a foto. É um trabalho de 'guerrilha' cultural. A efemeridade sempre foi a marca de revistas literárias no Brasil, desde os anos 70. Eram revistas de curta duração, que não conseguiam uma perenidade. Manter um projeto marginal deste, sendo publicado por tanto tempo, não é fácil. 

A revista conseguiu ser estruturada e sobrevive com o apoio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). Sem este suporte, o projeto seria inviável? 

Inviável, com certeza. A gente sempre gosta de ressaltar isso, até porque somos bastante cobrados. E, especialmente por lidar com dinheiro público, é preciso ter transparência. O Promic é o que faz a revista ser possível, além da nossa persistência que consiste na satisfação em atuar dentro de uma área que tem este caráter de inconformismo, que não privilegia o mercado livreiro e que não faz política literária. Ao lado do texto de um iniciante, está um texto de alguém famoso como Marcelino Freire, Gilberto Nobre. Nós não publicamos nomes. Nós publicamos textos. 

Pelo reconhecimento que a publicação alcançou nesses anos, muitos consideram um privilégio ser publicado pela Coyote. Você sente essa gratidão por parte dos autores? 

É muito legal perceber como esta publicação é importante para os escritores, e como que a Coyote acabou se transformando em uma referência de qualidade e valor literário. Tentamos ter muito rigor em tudo que é publicado. Além disso, nós já publicamos na Coyote cerca de 40 nomes de Londrina, com trabalhos de escritores, poetas, ensaistas acadêmicos, fotógrafos, cartunistas, dramaturgos. 

É possível afirmar que, assim como a Coyote é uma revista de criação, o Londrix também busca um aspecto diferenciado de outros festivais literários? 

Muita gente acha que a literatura está só nos livros. Isto é um erro. A literatura acontece em várias ocasiões que estão fora do livro: em shows de poesia, leituras públicas, debates e conversas sobre a literatura, que é a proposta do Londrix. A literatura salta para fora das páginas, do suporte do livro. Este ano, o Festival dá um enfoque especial para essa diversidade. Como a mesa só de ''Perfomance'', que mostrará como a poesia pode ser interpretada em cena, no palco, na rua, ou transformada em filme. 

Você acredita que falta, no público, a percepção da literatura como algo mais abrangente?

Toda vez que se fala de literatura, se fala de livros. É um erro. Claro que existe a procupação em cultivar mais leitura, mas este fio sempre bate ali, no mercado livreiro e nos interesses dessa indústria. Dentro de um Festival, existem outros temas para serem discutidos; da qualidade do jornalismo cultural à questão da mídia como vendedora de produtos. O que interessa em um evento desses é a experiência de criação, de formação literária e artística. O Londrix busca proporcionar um contato diferenciado com a literatura. O contato de um Brasil que não é o mesmo das Olimpíadas, e que nem faz parte do ''Sonho Brasileiro'' ou do ''Brazilian American Way of Life'', onde todos se enganam achando que aqui é primeiro mundo. 

Quais são, em sua opinião, os principais desafios e objetivos do Londrix este ano? 

O desafio principal é atrair público, porque está difícil. O público universitário, antigamente, era o ideal para este tipo de evento. Eles eram as cabeças pensantes, os rebeldes, os inconformistas, o padrão de crítica e critério da sociedade. Infelizmente, hoje sentimos um desinteresse muito grande dos estudantes em geral para este tipo de evento. Daí você começa a pensar que Londrina tem '240 duplas' de sertanejo 'universitário', e pensa também que a palavra 'universitário' já caiu em um outro sentido. O cara prefere ir em uma balada sertaneja do que ir em um festival literário. Em minha opinião, isto tudo passa por uma questão maior, uma questão de mercado. Nisto é que estão transformando a nossa música, a literatura: em coisas que não são propriamente arte. São produtos voltados para o mercado, que visam o sucesso imediato e efêmero. Este aspecto também será discutido no Londrix. 

Você acredita que o conformismo intelectual aumentou nos últimos anos? 

Acho que aumentou sim, bastante. Isto é, além da 'caretização' geral: ficamos mais caretas, mais repressores, mais autoritários, mais policialescos. Está tudo muito politicamente correto, e os debates já não abrem tanto espaço para a reflexão. Isto ocorre em todos os setores, e não só na cultura. Nosso objetivo é tirar as pessoas da inércia à que elas estão acostumadas para se alimentarem de outras informações. Instigar principalmente os jovens leitores. Acho que se conseguirmos isso com os mais novos, ainda existe esperança.
Rafael Ceribelli 
Reportagem Local

quarta-feira, agosto 01, 2012

LANÇAMENTO DA COYOTE 24 EM CURITIBA


Revista londrinense chega ao número 24 e faz lançamento neste sábado, em Curitiba

       Neste sábado, dia 4 (às 11 da manhã, na livraria do SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, com entrada franca), a revista de arte e literatura Coyote faz o lançamento nacional de seu número 24, que comemora dez anos de existência. Para celebrar a marca, os editores convidaram alguns escritores curitibanos ou radicados em Curitiba (como Luci Collin, Paulo Sandrini, Monica Berger, Luiz Felipe Leprevost, Mario Domingues, Andréia Carvalho, entre outros), para lerem seus textos e traduções publicados na revista. Os próximos lançamentos serão em São Paulo, durante o I Simpósio de Ação Poética, no dia 14 de agosto (Casa das Rosas), e em Londrina, durante o Festival Literário de Londrina – Londrix, no dia 21 de agosto. 
      Pelas páginas da Coyote já passaram mais de 340 colaboradores: de escritores a fotógrafos, de artistas artistas gráficos a tradutores, de ensaístas a artistas em geral do Paraná e de vários estados brasileiros e de outros países. Sempre com uma linguagem gráfica ousada e material inédito, patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) de Londrina, nestes dez anos Coyote firmou-se como "uma das mais importantes revistas literárias do país" (Folha de S. Paulo). 
      Coyote tem aberto espaço para novos autores do Paraná, do país e do exterior, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a leitura, a reflexão e a criação literária, sempre farejando a fatia mais radical da literatura brasileira e internacional – radical na linguagem e nas abordagens. Os editores, os escritores e jornalistas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção, capricharam na edição de aniversário, que começou a ser fechada no início do ano. O destaque do número 24 é um dossiê com o escritor João Antônio (1937-1996), com fotos de Elvira Alegre e um delicioso texto do escritor paulistano sobre sua curta passagem por Londrina em 1975, quando morou na cidade e uniu-se a um time de feras do jornalismo nacional para fazer o jornal Panorama. Como escreve o escritor e historiador Tony Hara em seu ensaio introdutório sobre o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço e Ô Copacabana!: “Muito se fala sobre o sumiço de João Antônio da atual cena literária. Apesar de participar ativamente da grande imprensa e da imprensa nanica, de mais de 10 livros publicados e de três Jabutis nas costas, João Antônio ainda é, como dizia Jaguar, o mais conhecido entre os escritores desconhecidos”. 
       O número apresenta contos inéditos de Amilcar Bettega,  Paulino Júnior e Alberto Lins Caldas e poemas de Andréia Carvalho, Ikaro Maxx, Artur Gomes e Adriana Versiani dos Anjos.
      Viviane de Santana Paulo apresenta em primeira mão os poemas pungentes do alemão Jan Wagner (1971). Os tradutores Guilherme Gontijo Flores e Mario Domingues traduzem do latim a poesia elegíaca do romano Propércio (50-45 AC - 15 DC), pouco conhecida no Brasil. O número traz como editorial o poema “Ao Coiote”, de Jorge Luis Borges, traduzido do espanhol pela poeta e tradutora Josely Vianna Baptista. A poesia do quadrinista e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky (1929), traduzida por Vinícius Lima, também é um dos destaques da nova edição. 
     O fotógrafo Orlando Azevedo assina a capa e o ensaio fotográfico do número. Na contracapa, Beto assina o cartum bem-humorado de aniversário da revista.

O que: Lançamento da  revista Coyote número 24, com leituras de escritores curitibanos e radicados em Curitiba publicados nos dez anos da revista.
Onde: Paço da Liberdade / SESC Paraná. Praça Generoso Marques 189, Centro, Curitiba. Fone 189 Telefone: (41) 3234 4200. 
http://www.sescpr.com.br/ 

COYOTE 24 // 52 páginas  // R$ 10,00. Uma publicação da Kan Editora. Editores: Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção. Vendas em livrarias de todo o país, com distribuição pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA

segunda-feira, julho 16, 2012

Poemas no Rascunho (Curitiba)


Saíram poemas inéditos no jornal Rascunho, de Curitiba. 
Do livro Estúdio Realidade
Aqui:


Um deles é este aqui: 


A ÚLTIMA VIAGEM


Pisou na praia
pela primeira vez
em séculos 
Gaivotas o vigiavam.
Olor de algas.
O vento salino, ardente e Sul.
Odisseu desceu
da balsa murmurando
alguma coisa para si
num dialeto quase extinto.
Arrumou os remos, poucos peixes,
sob a música de um alto-falante
contra um por de sol salmão.
Depois, viu as lâmpadas frouxas
piscando nas casas do povoado.
Maresia de maconha alcançou suas narinas.
Funk.
Risadas altas.
Nenhum pescador o reconheceu.
Penélope nunca existira.
Aquela não era sua lenda.
Ítaca nunca existira.
Odisseu virou-se para a praia sem história
e nada disse:
acendeu um cigarro e contemplou
o azul escuro absurdo do mar noturno
contra as linhas brancas incansáveis
da arrebentação.



Rodrigo Garcia Lopes

Poemas na Revista do SESC-SP

Saíram poemas meus na revista do SESC deste mês: Aqui:

terça-feira, junho 26, 2012

NESTA SEXTA, EM SÃO PAULO


**Bate-papo e pocket show com Rodrigo Garcia Lopes**
Estação Caneca. Rua Frei Caneca, 384 - Consolação - Centro

às 19 horas: o bate-papo com Mario Bortolotto
às 23:30: o pocket show
Rodrigo Garcia Lopes (voz e violão)
Ricardo Lopes Garcia (percussão)

Dentro da programação dos 30 anos do grupo Cemitério de Automóveis.
GRATUITO. Pegar senha 1 hora antes na bilheteria do Teatro. Sujeito à lotação da sala – 50 lugares.
Programação completa aqui:
http://www.cemiteriodeautomoveis.com.br/mobile.htm

segunda-feira, abril 16, 2012

Poema inedito


ECLESIASTES

Você bate na mesma tecla, repete
aquele surrado clichê: não há nada
de novo sob o sol. Mas quem garante
que isto é real, não um conto de fada?

Nem tudo tem sido, como se tem ouvido,
a mesma coisa desde o começo
dos tempos. Não estou convencido.
Se há algo que não muda, desconheço.

Nem sempre o vento é sul, nem todo rio
segue pro mar. O que está acontecendo agora,
por exemplo, não era pra acontecer. Ora,
você nunca viu este filme. Fica frio:                                                                   
Não há nada de novo sob o sol
só para o sol, que é sempre o mesmo.
Esta é a verdade toda, não se dissol-
ve numa rima ou pensamento a esmo.

Aqui embaixo, tudo muda, todo dia:
a moda, o medo, e mesmo a luz do sol
passa dias assim, arredia, e me arrepia
pensar que é diferente. Olha só:

Pare de ficar repetindo isso. Acorda. Mete
em sua cabeça de uma vez por todas:
nenhum sol se põe a oeste. E este
poema, eu sei, nem ele existe. É foda.




Rodrigo Garcia Lopes

terça-feira, abril 10, 2012

Dois poemas de Estúdio Realidade no caderno Ilustríssima - Folha de S. Paulo

Domingo a Folha de São Paulo publicou dois poemas inéditos (que saem em agosto pela editora Iluminuras ) no caderno Ilustríssima. Estes dois fazem parte da última seção do livro Estúdio Realidade, chamada "Quarto Fechado".





Índice geral São Paulo, domingo, 08 de abril de 2012Ilustrissima
Ilustrissima
Texto Anterior | Índice | Comunicar Erros
Imaginação
PROSA, POESIA E TRADUÇÃO RODRIGO GARCIA LOPES


ROMANCE POLICIAL


A lanterna da lua banhava o morto.
No rosto do detetive, nenhum sopro
A não ser o ar pesado do mangue, o corpo
Caído, espesso sangue, e o pouco
Dito pelo policial com cara de mau
Que agora segurava um castiçal
Interrogando a loira de olhos negros
Que trabalhava para um restaurante grego
Da grana e dos bilhetes estranhos no porta-luvas,
Do estranho esgar de sorriso, do sangue em sua luva.
E antes que a canção no rádio acabe
Ele diz: "Para salvá-la, só um milagre".
Nas mãos, a carta rasgada ao meio, garrafa de uísque
Pela metade. Mas ainda é cedo para que ele se arrisque.
Nada ficou claro nos depoimentos, de como essa sereia
Foi encontrada pela estrada à lua cheia:
"Do que não se pode falar, deve se calar",
Ela disse, bem no momento dele virar
E ser beijado por seus lábios fatais.
A lua aumentava seus cristais.
Seguiu-se um minuto de silêncio
E os grilos pontuavam um indício. Ela disse:
"As pistas estão em toda parte, em seu diário,
No dia dezesseis em vermelho no calendário".
Enquanto o detetive revistava a lua
A loira derramou uma poção branca na sua
Garrafinha de uísque. "Nessa profissão, é preciso jeito
Para resolver este quase crime perfeito".
Ela não dizia nada, ou quase nada, só o olhava
Sabendo que a verdade estava em cada palavra.
A esta altura, tudo parecia bem nítido
E agora ele a forçava a beber o líquido.




QUARTO ESCURO


O detetive avança pela desordem do estúdio.
A mobília está calada como testemunha.
Lá fora folhas se reviram, se estudam.

O telefone calado como um caramujo.
Um ano depois e todas as pistas
Deram em becos sem saída e luto.

"Nada disso está acontecendo, escuto
meus próprios passos sobre o escuro.
Dois gatos negros transando num muro."

E o criminoso ali perto,
pronto para revelar quase tudo.
E na pequena floresta da biblioteca

O verde é um código secreto.
O detetive deita e cai num sono profundo.
E a carta o tempo todo sobre o criado-mudo.
 


RODRIGO GARCIA LOPES
 
SOBRE OS POEMAS Os dois poemas aqui publicados fazem parte da coletânea "Estúdio Realidade", que Rodrigo Garcia Lopes lançará no segundo semestre, pela Iluminuras. O autor prepara também o lançamento de seu primeiro romance policial.

sábado, abril 07, 2012

ENTREVISTA SOBRE A REVISTA COYOTE - BLOG DE JOSÉLIA AGUIAR

Livros Etc

por Josélia Aguiar

Perfil Josélia Aguiar é jornalista especializada na cobertura de livros
Leia mais

Revistas literárias: Coyote faz dez anos

O número 23 da Coyote começou a circular faz poucas semanas, e Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes já preparam o próximo, bastante especial, pois será o do décimo aniversário dessa revista que criaram em Londrina, no Paraná, para publicar literatura e arte. A caminho, uma das novidades que chega com a data redonda é o site, antigo projeto.
Desde que fiz este post aqui, sobre o número 200 da Paris Review, prometi iniciar série sobre publicações literárias no país  –para ler mais sobre essa revista histórica e até hoje influente, com seus 59 anos, vá por aqui, aonde encontra íntegra da entrevista do colega Fábio Victor com o editor atual, Lorin Stein, que saiu na “Ilustrada” sábado passado.
O blog vai mapear tanto os títulos de teor artístico-literário, como a Coyote, quanto os mais voltados à crítica literária, como Rascunho, os de humanidades, como a Novos Estudos Cebrap, e os literário-digitais, como a Errática.
Quem respondeu sobre a Coyote para o blog foi o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes,  que publicou há pouco ”Nômada” (Lamparina) e lança em agosto “Estúdio Realidade” (Iluminuras). A edição da Coyote, média de duas por ano, tem 52 páginas, custa R$ 10 e é distribuída pela editora Iluminuras –vá por aqui. No número atual, o dossiê dedicado a Moacyr Scliar, inéditos de Beatriz Bracher e a fotografia de Mara Tkotz são alguns dos destaques. 
Como nasceu a Coyote? “De um velho sonho que Marcos Losnak, Ademir Assunção e eu tínhamos de fazer uma revista de literatura e arte, ainda quando cursávamos jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Na época, começo dos anos 1980, fiz com Marcos Losnak e outros amigos os fanzines Hã e K’AN, com a participação do Ademir a partir do terceiro número. Nos anos 1990, eu e Ademir fomos editores da revista Medusa, de Curitiba, com Eliana Borges e Ricardo Corona. A Coyote surgiu em 2002, editada em Londrina. Só existe graças à nossa teimosia e ao Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) da prefeitura local. É este importante programa público que garante os custos mínimos para a impressão e circulação da revista.”
Vocês seguiram algum modelo de revista literária? “Não creio que seguimos nenhum modelo. Buscamos, sim, criar nossa própria linguagem, sobretudo no aspecto gráfico, que é um dos diferenciais, marca registrada da Coyote. Claro que muitas revistas passaram por nossas mãos, sobretudo as de invenção. Somos bastante fiéis ao projeto gráfico e editorial desde o primeiro número. Buscamos sempre a fatia mais radical da literatura brasileira e internacional. Radical na linguagem e nas abordagens.”
Quem é o seu leitor?  “Os interessados em literatura, poesia e arte são potenciais leitores. Temos bastante feedback de artistas, escritores, poetas, jornalistas, formadores de opinião e leitores em geral. O difícil é fazer a revista chegar até eles. Alguns editores confessaram terem conhecido na Coyote autores inéditos que eles depois publicaram. É distribuída para todo o país, apenas em livrarias, mas todos sabem como são grandes as dificuldades de distribuição no Brasil. Além disso, tínhamos uma mala direta bastante grande no começo, até internacional, mas diminuiu pelo preço dos correios, limitando-se apenas ao essencial: bibliotecas públicas e universitárias, alguns críticos e autores.”
A parceria com a editora Iluminuras ajuda a distribuir a revista? “A parceria com a Iluminuras ajuda bastante na distribuição. Todos aqueles que fazem revistas independentes sabem que o maior nó é a distribuição. Muitas livrarias se recusam a vender a revista, sabe-se lá o motivo. Certamente porque não dá tanto lucro quanto um best-seller. Mas há leitores interessados em todos os cantos do país. Quando o mercado só se interessa por lucros estratosféricos, publicações como a Coyote acabam prejudicadas. Vamos resolver este problema com vendas diretas pela internet.”
 O que é mais difícil ao fazer uma publicação literária no país?O mais difícil é manter a longevidade que a Coyote conseguiu. Historicamente, no Brasil, revistas literárias não passam do quinto número. Nós estamos completando dez anos em 2012, com 24 números lançados. Poderíamos ter lançado quase o dobro, se trabalhássemos com condições um pouquinho melhores. Ao longo dos anos, nos inscrevemos em vários editais e nunca conseguimos absolutamente nada, exceto o apoio do Promic, de Londrina. O último edital do qual participamos foi um do Ministério da Cultura para revistas culturais. Perdemos para a Rolling Stones e  Speak-Up. Fidelidade dos leitores, nós temos. Colaboradores também não nos faltam: há ótimos poetas, escritores, fotógrafos, artistas e tradutores em atividade no país, sempre dispostos a divulgar material inédito. A revista tem um enorme prestígio. O que não temos é dinheiro para fazê-la crescer.”  
Existe algum novo projeto, algo relacionado a internet em vista? “Estamos trabalhando na edição de aniversário. Uma década, para uma revista literária, é um marco histórico. Também estamos pesquisando com webdesigners a criação, finalmente, do site da Coyote. Queremos oferecer todos os números anteriores, criar uma versão online da revista e desenvolver um sistema de vendas diretas para aqueles que quiserem a edição impressa. Muita gente nos pergunta: mas como a revista não tem um site ainda? A resposta é: porque cada um dos editores faz uma porção de outras coisas. Nenhum deles sobrevive da revista. Ao contrário: não ganhamos um tostão. Fazemos por pura teimosia e amor à arte, para usar um velho clichê, azul e desbotado.”
Algum número foi particularmente marcante na trajetória da Coyote? “Os números são todos marcantes. Fazemos a revista com muito critério, zelo e capricho. Mas, se fosse mencionar alguns, destacaria os dossiês, com entrevistas inéditas, de Paulo Leminski, Roberto Piva, Marjorie Perloff, Eugen Bavcar, Moacyr Scliar, os textos inéditos de Daniel Wallace,  Domingos Pellegrini, Pedro Juan Gutierrez, João Gilberto Noll, Sebastião Nunes e Wilson Bueno, ou ainda a tradução de poetas nômades do Oriente Médio. Mas, sobretudo, a revelação de vários autores novos, que, em seguida, foram publicados por editoras, como João Filho, Jorge Cardoso e Nilo Oliveira. Esta é uma filosofia da Coyote que seguimos à risca: ao lado de inéditos de autores já consagrados, publicamos sempre autores novos e até totalmente desconhecidos. Brasileiros ou estrangeiros. Não queremos chover no molhado. Um dos elogios mais caros a nós, e que ouvimos com frequência, é: ‘mais uma vez vocês estão publicando autores de que nunca ouvi falar’.”
Existe uma tradição de revista literária no Paraná como um todo, não?Somos de Londrina, não Curitiba, mas tanto os “coxas brancas” (apelido dos curitibanos, por causa do frio e do time da capital) quanto os “pés vermelhos” (o dos londrinenses, devido à cor da terra) têm rica tradição, desde os simbolistas, de revistas, periódicos e páginas literárias. Em Londrina, houve o jornal Panorama, uma experiência jornalística maravilhosa que trouxe escritores e jornalistas de peso à cidade nos anos 1970, como João Antônio, Narciso Kalili, Myltainho, e formou toda uma geração de excelentes profissionais aqui. O Caderno 2 da “Folha de Londrina” era muito lido nos anos 1980, formador de leitor e de opinião. A página dominical “Leitura”, que foi editada por Domingos Pellegrini Jr., Nelson Capucho, Nilson Monteiro e pelo Ademir, antes de mim, era bastante lida e discutida, não só aqui, mas em vários outros pontos do país. Poetas e escritores nacionais, como Carlos Drummond de Andrade, Boris Schnaiderman, Waly Salomão, Paulo Leminski e muitos outros se manifestavam entusiasticamente sobre a qualidade e a ousadia. Guardamos até hoje bilhetes e cartas deles. Publicávamos inéditos de autores locais, paranaenses e brasileiros, e traduções de Rimbaud, Allen Ginsberg, Ezra Pound.
A tradição em Curitiba também é grande. “Em Curitiba, houve a revista Joaquim, editada pelo Dalton Trevisan nos anos 1950. Depois a página Letras e Artes nos 1960, feita por Silvio Back, a Pólo Inventiva e a Raposa nos 1970, por Reynaldo Jardim e Paulo Leminski, entre outros, e o jornal Nicolau, nos 1980, editado por Wilson Bueno, no qual trabalhei também. Nos anos 90 e 2000 existiram outras revistas literárias como Medusa, Oroboro, Etecetera, que não circulam mais. E existe ainda o jornal Rascunho, mais de crítica literária, mas que também pública inéditos de autores brasileiros e estrangeiros. Não sei o motivo pelo qual o Paraná, comparado a outros estados, tem uma trajetória robusta e instigante em termos de publicações literárias. Valeria um estudo sobre isso.” 

segunda-feira, abril 02, 2012

NOTÍCIAS DO MUNDO - poema de rodrigo garcia lopes



NOTÍCIAS DO MUNDO


Águas muezins no vale das sombras
África agoniza
Iraque se debate
Índia se indigna
Impérios definham
Morro em guerra fratricida
Irã se ira
Um terrorista que se aterroriza
Palestinos palestram
Arábia se ouriça
Europa se gripa.
Mentiras, mentiras.
O mundo é um parque de mentiras.
Diplomacia
Na mão de ignorantes
Nada vale, vale nada.
Barbárie é o nome
Dessas notícias.
Mundo implodindo
Rumo à extinção
Não atenção ao ser, mas atentados ao ser,
Mundo confluindo
Para uma desaparição
Onde, quem ficar, se der, vai ver.
E, no entanto, eu aqui
à sombra de um pensamento
de um amor que seja um lugar,
um lugar como um pensamento.
Mas isto é ir muito longe:
Isto é acordar.




Rodrigo Garcia Lopes
Poema inédito do livro Estúdio Realidade, a sair no segundo semestre pela Editora Iluminuras

quinta-feira, março 29, 2012

RODRIGO GARCIA LOPES EM SHOW E OFICINA NO SESC ARAÇATUBA


Rodrigo Garcia Lopes: Foto de Elisabete Ghisleni (março de 2012)

SHOW CANÇÕES DO ESTÚDIO REALIDADE

 Amanhã,  às 20:30, no Teatro Paulo Alcides Jorge, em Araçatuba, Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão) se apresenta ao lado de André Siqueira (violão, baixo, guitarra). No repertório de "Canções do eEstúdio Realidade" músicas compostas por Lopes nos últimos anos e que farão parte do CD homônimo que ele lança em maio. Num mesmo contexto, o show apresenta a diversidade sonora e riqueza poética, ao explorar a relação entre som e sentido, palavra, música e voz, abrigando linguagens e universos que vão da MPB ao blues, da música trovadoresca ao jazz, do reggae à balada folk, do rap ao funk.

OFICINA DE CRIAÇÃO POÉTICA

No sábado, das 14h às 18h, na Secretaria de Cultura de Araçatuba, o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes introduz os participantes à poesia, ao gosto pela leitura, bem como estimula a sensibilidade e percepção poéticas e desenvolve habilidades de escrita dirigidas para a criação poética e textual. Inscrições pelo telefone (18) 3608-5400.



quinta-feira, março 15, 2012

Show no SESC São Carlos (com Rodrigo Garcia Lopes e André Siqueira)



Amanhã Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão), André Siqueira (violão, baixo, guitarra) apresentam o show "Canções do Estúdio Realidade" no SESC SÃO Carlos (SP), às 20 horas. O show traz no repertório canções de Garcia Lopes e parcerias que estarão no disco homônimo que ele lança em abril deste ano.

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO
local: SESC - Convivência interna
Av. Comendador Alfredo Maffei, 700
Jd. Gibertoni - São Carlos/SP
cep: 17.560-649
20h

sexta-feira, março 02, 2012

PALAVRAS (poema de Sylvia Plath traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)

 

PALAVRAS


Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho --

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.



SYLVIA PLATH
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça
Em Sylvia Plath: Poemas (Iluminuras, 1990)

UMA PAIXÃO PELOS LIVROS (Conto policial de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)


           
Uma Paixão pelos Livros

Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça
                                   
                                                                      
       Nenhuma manhã mais cinza do que esta sobre o lago de Lucerna. Estou no deque de um café, e escrevo neste diário de capa florida que acabo de comprar. Pena. Em poucos minutos toda a beleza dos Alpes se apagará de meus olhos. Acabei de ingerir a última cápsula. Mesmo assim, aspirando o ar dessas montanhas cujos topos são páginas em branco gigantescas, estou em paz com minha consciência e meu sangue.
           Mal posso crer que há dois dias estava em São Paulo, fugindo para o aeroporto internacional de Guarulhos.  Mal posso crer que acertei contas com um senhor chamado Jayme de León. Agora todos sabem que, por trás da máscara de bibliófilo e benemérito, se escondia um homem vil, ambicioso e capaz de matar para atingir seu objetivo: formar a maior coleção particular de livros raros da América Latina. Agora que minha hora se aproxima, quero registrar neste diário a verdade de como tudo aconteceu.
                                                                        1.

Fui uma menina cercada por uma floresta de livros. Olhando para o alto, estantes eram montanhas de papel que ameaçavam degelar a qualquer instante. Quase não via minha mãe. Ela vivia trancada no quarto de sua melancolia. Meu jovem pai, Giorgos Xenakis, era um amante dos livros e um dos maiores colecionadores do Brasil. Depois do divórcio de meus pais, nossa biblioteca encheu-se de luz. Filha única, meus dias eram povoados por histórias fantásticas e personagens enigmáticos. Eu e papai vivíamos solitários num mundo a parte. Organizávamos os livros interminavelmente, numa tranquila rotina quebrada apenas pela visita dos compradores. Era uma legião. Eu os odiava.
            O senhor Jayme de León era um dos mais assíduos frequentadores de nossa casa no Jardim Europa. Meu pai o admirava. Não raras vezes eu os flagrava conversando sobre livros e mulheres. Recordo-me bem de sua figura esguia, seus olhos azul-Van Gogh devorando cada centímetro de meu corpo em flor. Como tudo aconteceu? Eu tinha apenas 13 anos. Numa noite de maio de 1990, o senhor de León veio à nossa mansão para tentar convencer papai – mais uma vez – a vender-lhe os 12 volumes de As Mil e Uma Noites, na célebre tradução de Antoine Galland, publicados entre 1704 e 1717.
            Eu estava em meu quarto no andar superior. Ouvi vozes ríspidas e tive medo. De repente, silêncio. Chamei por meu pai. Não houve resposta. Então o o encontrei caído com a cabeça arrebentada sobre uma poça de sangue. Na porta que dava para a rua, vi o olhar atônito que Jayme de León me lançou antes de fugir. Numa das estantes, um vazio. A coleção de Galland havia sido roubada. Mas o que o criminoso não sabia era que Giorgos havia esquecido em meu quarto, quanto veio ler para mim na cama, o último tomo de As Mil e Uma Noites. O mesmo que apertei contra meu peito quando ouvi os gritos de horror.
          A dor e o choque da perda de meu pai provocaram lacunas em minha memória. A família me enviou para um colégio interno na Suíça. Mais tarde, já mulher feita, voltei para o Rio e me especializei em restauração de livros na Biblioteca Nacional. Três anos depois, quando já era uma profissional destacada em minha área, recebi um convite irrecusável: o de trabalhar na restauração de um importante arquivo particular em São Paulo. O Instituto ***, um dos acervos particulares mais fascinantes do país, era um caixote cinza na Rua Monte Alegre, próximo da casa onde morou o poeta Haroldo de Campos. Por fora, face austera. Por dentro, o luxo de um palácio demonstrava a riqueza de seu proprietário. O salário era bom. Nossa equipe era formada por seis mulheres.
No Instituto *** ocupávamos mesas compridas e trabalhávamos com nossos jalecos e luvas brancas. Nos dias iniciais me extasiei com primeiras edições que fariam a alegria de qualquer alfarrabista. A grande biblioteca era composta de vinte mil títulos. Edições raras de Hans Staden, Jean de Léry, Machado de Assis, Guimarães Rosa e incontáveis manuscritos. Nas horas do café nos perguntávamos quando, afinal, o rico colecionador apareceria para avaliar nosso trabalho.
            Certa tarde de inverno, eu preparava os livros do século 17 que iriam seguir para um leilão da Sothebys, quando uma colega chamou-me a atenção para uma descoberta que fizera ao resgatar os livros de uma estante que havia caído. Senti uma fria onda de arrepios quando meus olhos se depararam com a familiar lombada azul puída de As Mil e Uma Noites, de Galland. Uma coleção que valeria, segundo minha colega, um milhão de dólares. Valeria, não fosse por um detalhe, ela disse: a ausência do último volume. Abri um dos livros e corri meus dedos à página 13, onde senti, no canto inferior esquerdo, as letras G e X em alto relevo. Senti uma forte náusea. Foi assim que me vi dentro da biblioteca roubada de Jayme de León. Foi assim que me deparei com a coleção que havia sido arrancada de meu pai, na última página de sua vida.                                
      
                                                                      2.

       Fomos surpreendidas num final de tarde com a chegada de León ao Instituto ***. Os leilões europeus haviam sido lucrativos, sobretudo a venda dos manuscritos de Stephen Zweig conseguidos juntos à coleção do uruguaio Dubuffet. De León queria cumprimentar sua nova equipe. Logo no primeiro encontro seus olhos azuis folhearam meu rosto, meus cabelos cautelosamente tingidos de negro. Convidou a todas para uma ceia. Uma vez no restaurante, evitei seus olhos colocando meus óculos de grau. Em nenhum momento ele suspeitou de mim. Eu já havia mudado meu sobrenome legalmente para Brand, da parte de minha mãe suíça.  Pouco tempo depois, ele me convidou para jantar sozinha num restaurante grego. Aos sessenta anos, de León ainda era um homem atraente. Limitei ao máximo informações sobre minha vida particular e meu passado. Durante nossas conversas, tal qual uma Sherazade, eu deleitava o colecionador com minhas histórias e conhecimentos sobre livros antigos e o mercado livreiro, minha facilidade com línguas. Ele passou a me visitar todas as tardes no Instituto ***. No décimo-primeiro encontro, Jayme confessou que estava louco por mim.

                                                                            3.

Foi então que iniciei a segunda parte de meu plano. Apagar da existência o senhor Jayme de León, página por página.
Não contarei como, anonimamente, destruí seu casamento em poucos meses, enviando fotos dele com todas as garotas do Instituto ***, inclusive eu mesma; não contarei como, em sua embriaguez, o fiz confessar seus muitos crimes e os gravei como prova e enviei à polícia. Não contarei como ele teve de se desfazer de seus livros mais valiosos para pagar a divisão dos bens, dívidas e advogados. Apenas contarei que, numa noite, eu o levei ao mais escuro dos corredores de sua biblioteca.
            Foi fácil. Atraí sua cobiça contando que ele possuía um último tesouro que poderia salvar o Instituto ***. Sua salvação estava bem ali, ao alcance de suas mãos. Foi assim que esperei que ele ficasse exatamente onde eu queria, diante da gigantesca muralha de livros que ficava no fim do corredor. De León, agora pálida sombra decadente, me perguntou o motivo de tanto mistério. Eu me virei e apontei para uma antiga coleção. Ele deu um sorriso, reconhecendo os volumes de As Mil e Uma Noites, acariciou as lombadas, balançando a cabeça. Comentou que, por faltar o último volume, aquilo lhe custara uma bagatela. Quando seus olhos se voltaram para mim, empalideceram ao verem surgir, em minha mão trêmula, o último volume perdido de sua coleção. Então lhe revelei quem eu era. Sua face crispou.
            E a última coisa de que me lembro, antes de entrar naquele avião, são os sons horríveis de seus ossos sendo esmagados por uma avalanche de centenas de volumes.
* * *
          Redijo estas linhas porque sei que ninguém acreditará em minha história. Os jornais brasileiros mataram minha reputação, dizendo que eu seria a assassina de meu próprio pai, e que o crime teria sido testemunhado pelo livreiro Jayme de León há exatos vinte anos. Isto é completamente inverídico. Eu, Sonya Xenakis, amava meu pai.


Rodrigo Garcia Lopes, tradutor, músico, autor de Nômada, visibilia, entre outros 12 títulos. Maurício Arruda Mendonça, poeta e dramaturgo.