quinta-feira, setembro 17, 2020

Primeira leitura de "O Enigma das Ondas (lançamento Editora Iluminuras), por Ronald polito e Jardel Dias Cavalcanti

NO DIGESTIVO CULTURAL: Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes Jardel Dias Cavalcanti
COLUNAS Terça-feira, 29/9/2020 Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes Jardel Dias Cavalcanti + de 100 Acessos Este texto, escrito a quatro mãos por Jardel D. Cavalcanti e Ronald Polito, que trata de O enigma das ondas, novo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, publicado pela Iluminuras, quer ser uma conversa, um diálogo, não uma resenha. Não busca ser sistemático, prefere ser seletivo, fragmentar. Poderia ser estendido, mas é sua intenção a incompletude, a lacuna, o segmento. É um modo de deixar a palavra em aberto, como nos poemas de Rodrigo Garcia Lopes. Ronald, creio que em boa parte do livro do Rodrigo há uma tensão entre uma prosa que se quer poética e uma prosa que é de fato poema. Essa tensão é comum na poesia moderna, inclusive, creio que a domina de canto a canto. Não é um problema, já que o que se quer nessa prosa poética é captar o pré-poético de uma situação e jogá-lo na onda do poético. Veja-se o caso do poema “Aéreo reverso”, onde a palavra “surfista” e o próprio ato de surfar apresentam uma relação comum. Fazer a palavra surfista surfar talvez seja o objetivo máximo do poema. Para tanto, o poeta precisa dos elementos prosaicos da aventura do surfista para desencadear as relações possíveis entre palavra e ação. O ritmo próprio da ação de surfar vai fazer o poema ganhar também um ritmo parecido com o da prancha sobre as ondas. E é como se a palavra surfista reaparecesse em movimento próprio como que surfando também, como podemos ver nos versos seguintes: “A palavra surfista ressurge do spray da casa de vidro/ rasga a muralha esmeralda/ em uma manobra/ clássica/ corta por dentro/ Uma vez mais/ atinge o lábio da onda/ e voa.” Uma tentação seria Rodrigo ter colocado os versos na página no formato de um “S perfeito”, movimento pelo qual a palavra surfista escala a onda do poema. O interesse por fazer o sentido residir no próprio processo da experiência da criação nesse poema faz com que os versos possam sustentar uma densidade ornamental na página em branco, não sendo acometidos por um adormecimento dos significados. Por isso, a transposição da força e do dinamismo da narração do ato de surfar avança em direção a uma “esvoaçante” elaboração de imagens. Daí o recurso a meios rítmicos e cadências não prosaicas. Aqui o tom, a velocidade e a entonação são exigências para se quebrar o prosaísmo do poema. Isso acontece porque a cadência do poema controla nossa leitura, nos retirando imediatamente da veleidade da prosa e nos jogando nos interstícios do poema. Jardel, outros poemas do livro buscam realizar o que você anotou, fazer com que a disposição das palavras (“fazer a palavra surfista surfar”) materialize a ideia, quando forma é conteúdo, o que é o cerne da arte. “Sextina: o Dia da Marmota”, por exemplo, é uma bela solução formal para materializar a paralisação do tempo. Creio que não é o caso de prosseguir essa enumeração, temos mais questões a abordar. Outro aspecto que me parece particularmente bem realizado é o jogo entre a dicção e a forma “cultas”, por um lado, e, digamos, a oralidade, as palavras comuns da fala cotidiana, o aparentemente não poético, por outro, como na “Sextina” já citada, reunindo, a um só tempo, o traço que você salientou e o que estou abordando agora. Isso abre uma série de considerações. Podemos pensar no quanto a poesia beat impregna a obra de Rodrigo ao longo de sua trajetória. Podemos ainda anotar como ele é um dos melhores leitores de Leminski entre nós, sem ser epígono. E talvez principalmente como ele soube digerir o pop, a poesia marginal etc. sem se reduzir a esse figurino estrito em que tantos incorrem no Brasil. Isso porque, em contrapartida, Rodrigo é um poeta de formação erudita e ele não abre mão disso. Ainda bem. O trato com as formas fixas, metros, rimas, presente desde seu primeiro livro e exacerbado neste que está lançando, a prática da tradução de textos de tradições variadas, tudo isso cria exigências próprias, obriga o poeta a não fazer concessões, poesia fácil, palatável e adolescente, fricotes de classes médias. E exige que o leitor vá além da diversão rumo aos problemas que uma poética deve encerrar. Entre tantos exemplos, o “Short Cuts: epigramas”, retomando a grande tradição latina, Catulo, Marcial, utiliza uma forma canônica para disparar dardos no alvo contra a poesia fácil e engraçadinha, a política mesquinha, a realidade aterradora desse país, o mundo literário e suas questiúnculas, a culminar em um “Epitáfio” autocrítico. Ronald, bem corretas suas observações. É um livro grande, com interesses diversos na criação dos poemas. Voltarei a insistir na tensão dentro do livro entre os elementos de natureza poética e os de natureza prosaica. Veja-se, por exemplo, poemas como “Selvageria” e “Últimas notícias”. São uma espécie de poema-noticiário-denúncia, que envolve a realidade, elencando problemas de natureza política bastante referenciais ao contexto atual. Os poemas não avançam para uma dicção menos objetiva, encadeando-se como trechos do noticiário que ouvimos todos os dias pelas mídias contemporâneas. A poesia não sofre o atropelo da realidade, ela apenas mapeia suas complicações, padecendo de uma insuficiência formal e sendo, por isso, pura comunicação. O poder de duplicar a realidade torna dócil o poema. Se a apresentação abrupta dos problemas sociais nos perturba, o papel da poesia difere da comunicação do choque no sentido de que precisa ter mais do que eficácia. Para quem gosta de poesia, a falsidade eloquente vale mais do que a supérflua realidade dos fatos. Diferente de poemas como “Solstício”, cuja matéria-prima poética pode nos lembrar Rimbaud (amplamente traduzido por Rodrigo), pela formalidade do impulso de fazer poesia através de um aglutinar de imagens. Ou o poema “Uma rápida visita”, muito próximo da dicção de Sylvia Plath (também traduzida por Rodrigo), onde, “o inesperado faz-nos esquecer o lugar-comum”. Ainda podemos citar o poema “Dreamscape”, onde a realidade é obscura, não mapeada, mas temos o seu efeito presente, como podemos ver nos primeiros versos: “Ir além de mim/ Num tapa// A tal realidade alterada/ Não está em nenhum mapa// Tão nublado agora/ Que poderia ser noite”. O que se segue no poema é uma espécie de pesadelo onde o real se apresenta como surreal. Outro poema – aliás, um dos grandes poemas do livro -, onde a realidade da guerra se apresenta totalmente, sem precisar estar descritivamente ali, é “Polônia, 1945”. Além desses poemas, há evidentemente outros muito bem realizados que poderíamos citar. Polônia, 1945 Apanhando lenha na linha do horizonte vejo ponto negro. Homem atravessando campo nevado e sem som. Por um minuto pensei ser meu pai voltando para mim. Jardel, concordo com você. Os trabalhos de Rodrigo que são uma espécie de “poema-noticiário-denúncia” ecoam inumeráveis tentativas de outros poetas no Brasil contemporâneo. A lista seria enorme. E nenhum desses poetas consegue realizar formalmente uma transfiguração do que nos cerca. Os noticiários de todo dia conseguem ir muito além de qualquer frase chocante que alguém possa elaborar. A realidade atropela a linguagem. É impossível épater, impressionar, chocar, espantar tentando duplicar o horror, os meios teriam de ser outros e eu não sei quais são, tenho apenas vagas ideias sobre isso. Observo, ainda, que Rodrigo já havia trabalhado essa perspectiva em livros anteriores, como Nômada e Experiências extraordinárias, sem alcançar melhores resultados. Onde ele inova e realiza muito bons poemas é quando se dedica a temas que tocam na relação entre o homem e a natureza. Como no caso das ondas que intitulam seu novo livro. Aqui também ela está dando desenvolvimento a algo que cruza boa parte de seus livros. Leiam-se os excelentes poemas sobre o mar, a praia e as ondas em Visibilia, que ocupam ali um lugar bem central. Nos outros livros, ainda que talvez mais discretamente, a presença do mar e das ondas também se efetua. Mas no livro novo ela adquire uma significação maior, mais decisiva, com diversos poemas, chegando até à écfrase bem realizada de um quadro de Edwad Hopper, Ground swell. O último poema do livro, não por acaso, é a culminância dessa investigação, é o “fecho de ouro” do trabalho. E nele podemos rever o aspecto que você inicialmente abordou. “O enigma das ondas” é abordado pela formalização de cada estrofe pensada como uma onda, quando a forma materializa a ideia. A sucessão dessas ondas desemboca, ao final, na constatação maior, a última frase da última estrofe: “A língua que falam é a nossa”. Resolvido o enigma? Claro que não, pelo contrário, a língua alcança a consciência de sua ignorância de si e do mundo, repondo o mistério que somos nós e a realidade. Isto é muito bom e ilumina, retroativamente, todas as dúvidas de que o livro está repleto. E sem oferecer respostas, o que seria um “erro”, uma pretensão inadmissível. Há ainda, Ronald, uma coisa que me chama a atenção na poesia de Rodrigo, ou mais especificamente nesse livro, que é a presença de um “espírito haikai ou epigramático”, não só nos pequenos poemas, mas também em alguns dos maiores. Por vezes, dentro de um longo poema alguns dos versos se individualizam para além da totalidade do poema e se anunciam como se estivessem livres do entorno, realizando aquela “percepção momentânea autossuficiente” exigida no haikai. Para essa operação não é necessário que se trabalhe no formato clássico do haikai, mas dentro do seu espírito. Veja-se, por exemplo, o caso de “Manhã em Olímpia”. Poderíamos enumerar vários outros casos, mas por falta de espaço aqui deixemos que o leitor abra as suas “portas da percepção” para esse fato. Jardel, queria ainda salientar um pequeno aglomerado de poemas, entre os mais interessantes, que enfoca as co-ocorrências da história, da arte e da natureza, de uma parte, e as possibilidades do eu, de outra. “Breve história da solidão”, abordando milênios de nossas tentativas de fixar a memória da experiência humana das mais diversas formas, conflui para a consciência de que existimos precisamente pela assunção dessas frágeis tentativas de registrarmos quem somos. O terror da temporalidade, assim, torna-se uma potência em aberto, a depender do que faremos dela, com ela. Termino comentando um poema que me agradou particularmente: “Paisagem”. Ele amarra diversos aspectos aqui abordados: a natureza, a arte, o eu. Seu minimalismo oriental repõe com plasticidade a “teoria das pinceladas incompletas”, quando realidade, sua transfiguração pela arte e as tentativas de registro das experiências do eu poético, tudo parece se desvanecer. As poucas palavras e o silêncios entre as estrofes realizam inconicamente a típica sugestão de um nanquim chinês. Não exatamente o “tudo névoa nada”, de Haroldo de Campos. Estamos um pouco antes disto, há ainda uma imagem, mesmo que esbranquiçada. Ronald, essa “imagem esbranquiçada” sobre a qual você se referiu talvez seja fruto da crença do poeta de que a realidade só pode ser apresentada com perfis infinitos, que só apareçam acidentalmente e que estão em mudança constante. Tais perfis estão sempre devorados pela luz, a luz das destruições que hoje brilham mais que o sol sobre as ondas.

quarta-feira, setembro 16, 2020

Matéria "O Enigma das Ondas" (Iluminuras, Folha de Londrina)

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quarta-feira, setembro 09, 2020

"O ENIGMA DAS ONDAS", de Rodrigo Garcia Lopes, lançamento Editora Iluminuras

 

O enigma das ondas

Rodrigo Garcia Lopes

 









152 páginas | 15,5x22,5

ISBN: 978-6-555-19048-9

R$: 53,00

Já em pré-venda na loja virtual da Editora Iluminuras com 40% de desconto:

https://www.editorailuminuras.com.br/o-enigma-das-ondas

 

O enigma das ondas é o sétimo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, um dos mais instigantes e inquietos poetas brasileiros que vem, desde os anos 80, construindo uma sólida carreira literária, com vários títulos publicados por esta casa editorial.

Rodrigo Garcia Lopes traduziu Epigramas, de Marcial, O navegante (anônimo anglo-saxão), Rimbaud, Whitman, Apollinaire, tendo apresentado as obras de Laura Riding e Sylvia Plath ao leitor brasileiro. Também lançou um livro de entrevistas com personalidades da arte e da cultura norte-americanas, um romance policial, dois álbuns de canções e coeditou por doze anos a revista Coyote, publicando poetas e prosadores brasileiros e do exterior.

O enigma das ondas revela um poeta em plena maturidade, que reacende a força e a relevância da poesia, mostrando que ela pode explorar em profundidade, e em registros múltiplos, a realidade contemporânea e a existência. Em 91 peças, o volume traz poemas líricos, políticos, críticos, satíricos e reflexivos.

Seus poemas enfrentam o mundo esteticamente e exibem uma urgência vital em nossos tempos turbulentos, como em “Selvageria”: “No fim o desembargador era o chefão de uma milícia assassina / E o incêndio na favela celebrado com fuzis e buzinas. / Mais cadáveres encontrados na lama da barragem / E o coronel torturador ganha mais uma homenagem [...]”. Ou momentos líricos como “Na praia, junho”: [...] os olhos bordejando as ilhas distantes / antes mastigaram o nevoeiro / nossos corpos satisfeitos e ainda quentes / lendo as pistas que os detetives noturnos não seguiram / os pés imprimindo em sua passagem / a sensação de uma vida acontecendo / limpa como a areia após a onda”.

Poesia como investigação, aventura da palavra, forma de conhecimento do mundo.

Pela abrangência de questões, pelo esmero estético, O enigma das ondas é um momento alto da poesia brasileira recente.

 

Samuel Leon

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Lançamento: "Uma Espécie de Cinema"

UMA ESPÉCIE DE CINEMA - ANTOLOGIA DE POEMAS PORTUGUESES E BRASILEIROS
172 páginas
Editora Raquel.

"Os organizadores dessa antologia selecionaram criteriosamente 50 poemas brasileiros e 50 poemas portugueses, a fim de discutir sobre a presença temática e estrutural do cinema. Alguns dos textos selecionados valorizam o fluxo das imagens e processos de montagem que determinam um vínculo com o cinema. Entretanto, a relação entre poesia contemporânea e cinema não se esgota nesse tipo de articulação, como também demonstram outros textos ao longo da coleção nos quais são, sobretudo visíveis as articulações temáticas e os processos ecfrásticos que retomam sequências fílmicas específicas".

Organizada por Celia Pedrosa, Franklin Alves Dassie, Joana Matos Frias, Luciana Di Leone, Luís Miguel Queirós e Rosa Martelo.

Eu participo com o poema "Cinco movimentos de câmera", de Nômada (2005).
]Mais informações: oficina@oficinaraquel.com
Link para ao livro na Oficina Raquel:

domingo, junho 23, 2019

Show em São Paulo - Rodrigo Garcia Lopes, Rafael Calegari, Neno Moura (27/6/Sesc Paulista)

Alô, amigos de SÃO PAULO (SP)


DIA 27 de junho, SESC PAULISTA (Av Paulista 119).

Estaremos apresentando meu repertório autoral e inéditas


21hs


Entrada franca
Rodrigo Garcia Lopes (voz, violão)

Rafael Calegarri (baixo)

Neno Moura (bateria)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Roteiro Literário - Paulo Leminski (entrevista para Folha de Londrina)


Entrevista sobre "Roteiro Literário - Paulo Leminski" na Folha de Londrina

Entrevista para Marcos Losnak sobre "Roteiro Literário - Paulo Leminski", na Folha de Londrina de hoje, no link:
https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/leminski-o-habitante-da-linguagem-1024495.html

Mais informações: (41) 3223-4951 ou bbppgeral@bpp.prgov.br

terça-feira, janeiro 15, 2019

Lançamento: "Roteiro Literário - Paulo Leminski", de Rodrigo Garcia Lopes



     A Biblioteca Pública do Paraná acaba de publicar o Roteiro Literário — Paulo Leminski, de Rodrigo Garcia Lopes. Editado pelo selo Biblioteca Paraná, o livro traz um ensaio, dividido em três partes, em que Rodrigo Garcia Lopes analisa a trajetória pessoal e artística de Paulo Leminski (1944-1989), curitibano que se dedicou, entre outras atividades culturais, à tradução, prosa literária, ensaio, canção popular e, sobretudo, à poesia.
     Fotos de Eduardo Macarios e Dico Kremer ilustram a relação de Leminski com a cidade de Curitiba. Com 180 páginas, o título está no acervo da Biblioteca, vai ser encaminhado para bibliotecas e entidades culturais e já está disponível para aquisição na BPP. Mais informações: (41) 3221-4994.
     No texto de apresentação, Luci Collin destaca que Rodrigo Garcia Lopes conta como Leminski viveu e reproduziu a “agoridade” absoluta do mundo atual, além de analisar a poética leminskiana, “marcada pelo rigor e delírio da escrita”. Luci não deixa de observar que Lopes também investiga de que maneira Leminski absorveu Curitiba em sua obra, “e como Curitiba foi absorvendo a obra de seu poeta maior”.
     Rodrigo Garcia Lopes é doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Traduziu textos de Rimbaud, Marcial, Sylvia Plath e Walt Whitman. É autor, entre outros títulos, do romance O Trovador (2014) e do livro de poemas Experiências Extraordinárias (2015).
     
                     A COLEÇÃO 

     O diretor da Biblioteca Pública do Paraná, Rogério Pereira, explica que o projeto Roteiro Literário tem a finalidade de divulgar, para públicos variados, incluindo as gerações recentes, a literatura paranaense contemporânea. “Há um número expressivo de vozes literárias no Paraná, muitas vezes com ressonância apenas entre escritores, estudiosos e amigos do autor. Para ampliar a difusão de nossa literatura, decidimos fazer esse projeto, que, além de analisar vida e obra, também apresenta os locais frequentados pelo homenageado”, diz Pereira.
      Na coleção Roteiro Literário, um autor escreve um ensaio sobre a vida e a obra de um escritor paranaense já falecido. A obra também traz um ensaio fotográfico com endereços e espaços frequentados pelo homenageado.
       O primeiro título da coleção, publicado em 2017, foi sobre Jamil Snege (1939-2003), escrito por Miguel Sanches Neto. Já o segundo volume, lançado em novembro deste ano, é uma obra sobre Helena Kolody (1912-2004), de autoria de Luísa Cristina dos Santos Fontes. Este Roteiro sobre Leminski, de Rodrigo Garcia Lopes, é o terceiro título da série.

MAIS INFORMAÇÕES:
bppgeral@bpp.pr.gov.br
e
41 3221-4951

SERVIÇO: Roteiro Literário — Paulo Leminski, de Rodrigo Garcia Lopes.
180 páginas, publicado pelo Selo Biblioteca Paraná.
R$ 20

NOVA ANTOLOGIA, "POEMAS" RESGATA MÚSICA DA LINGUAGEM DE T.S. ELIOT, por Rodrigo Garcia Lopes





Minha matéria na "Ilustrada" da Folha de S. Paulo, sobre o livro "Poemas", de T.S. ELIOT, na tradução de Caetano Galindo.
NOVA ANTOLOGIA, "POEMAS" RESGATA MÚSICA DA LINGUAGEM DE T.S. ELIOT
Tradução de Caetano Galindo mostra cuidado com efeitos sonoros do original

RODRIGO GARCIA LOPES

T. S. Eliot (1888-1965) dominou a cena poética de língua inglesa e se firmou como um dos grandes poetas do século 20. Foi crítico, dramaturgo e editor de influência, autor de um poema longo que é um marco literário: “A Terra Devastada” (1922).
A Europa ainda recolhia os cacos e os mortos da Primeira Guerra quando apareceu o poema desnorteante de Eliot. Nada mais natural, para captar o espírito dos tempos, que seu poema também fosse despedaçado, apocalíptico.
Neste que é talvez o mais célebre poema do século passado ele rompia com as convenções do verso e oferecia ao leitor uma colagem dramática, descontínua. Deslocando o “eu lírico” de sua centralidade, o poema vinha saturado de citações, alusões literárias, históricas, mitológicas, esboços de cenas e personagens, referências ao cotidiano londrino e à cultura popular.
A obra-prima da maturidade, “Quatro Quartetos” (1943), é um belíssimo poema meditativo sobre o tempo e a consciência, com as ideias sendo desenvolvidas ao modo da música.
Eliot já teve sua poesia completa bem traduzida no Brasil, por Ivan Junqueira (em 1981 e 2004). Uma nova e ótima tradução acaba de sair: “Poemas”, por Caetano Galindo. Em edição bilíngue, traz toda a obra poética eliotiana publicada em livro.
Autores da estatura do Prêmio Nobel de Literatura de 1948 precisam ser revisitados, afirma Galindo. “Eliot é relevante porque disse coisas importantes demais (o diagnóstico daquele desespero do entre-guerras, a poderosíssima síntese de espiritualidade ocidental e oriental). E disse de maneiras mais do que interessantes, com uma poesia sonora, vigorosa e encantadora demais”, defende.
O paranaense encarou “Ulysses”, de James Joyce, a poesia de Paul Auster e Bob Dylan, a prosa de David Foster Wallace, mas considera esta a tradução mais difícil que realizou.
Ele demorou um ano e meio na tarefa: “A dificuldade veio das especificidades dos versos e, também, do peso da responsabilidade. Eu travei. Passei meses procrastinando, porque no fundo estava morrendo de medo de entregar uma tradução que, eu sabia, pode estar sendo esmiuçada daqui a décadas. Poesia é literatura endovenosa. As pessoas vão (espero) se apropriar visceralmente desses versos. E eu queria fazer bem, ajudar o nosso amigo Eliot com esses novos leitores. E o peso da tarefa me assustou um pouco”, admite.
Valeu a pena. Eliot surge menos empolado, sisudo e mais conciso do que na versão de Junqueira. Quase sempre as decisões do tradutor são acertadas e criativas. Mostra cuidado não só com o aspecto semântico, mas com os efeitos sonoros do original (rimas, ritmos, aliterações, assonâncias etc.), escassos em outras traduções. É na recuperação da música da poesia de Eliot que reside o maior mérito do livro. Em revelar que o mestre do verso livre era capaz de uma grande variedade de ritmos e registros: do erudito ao coloquial, do solene ao conversacional, do meditativo ao bem-humorado (como nos versos travessos de “O Livro dos Gatos Sensatos do Velho Gambá”).
“A grande chave do verso livre de Eliot”, para Galindo, “é essa tensão com um metro ´fantasma´. Ele vive borboleteando à roda de um padrão, de que se desvia das maneiras mais variadas. Tensionando a (ir)regularidade. É como certa música atonal não dodecafônica (para usar um exemplo mais ou menos contemporâneo, pensar em Bartók, que ele admirava), definida pela luta com um padrão que nunca se impõe de verdade. E tende a ser igual com a rima. Ele quase-rima, ele aproxima, ele rima de fato, tudo ao mesmo tempo”.
A nova tradução mostra que seu autor ouviu atentamente o conselho de Eliot: “Nenhum verso é livre para quem quer fazer um bom trabalho”.

POEMAS
Preço R$ 89,90 (448 págs.)
Autor T. S. Eliot
Editora Companhia das Letras
Tradução Caetano W. Galindo

Um tradutor no centro de “O trovador”, de Rodrigo Garcia Lopes


Um tradutor no centro de “O trovador”, de Rodrigo Garcia Lopes
Jornal Rascunho, dezembro de 2018


     Em O trovador, de Rodrigo Garcia Lopes, vemos um tradutor no papel de protagonista. Já escrevi em outras ocasiões, neste mesmo espaço, sobre tradutores como protagonistas em romances. Lembro-me dos livros A tradutora, de Cristovão Tezza, e Travesuras de la niña mala, de Mario Vargas Llosa.
     O trovador não é uma obra sobre tradução, claro. Tampouco há grandes reflexões sobre o ofício tradutório. Ainda assim, a tradução permeia o romance de fora a fora.
     No livro de Garcia Lopes, o tradutor é o escocês Adam Blake, funcionário da companhia britânica de colonização de terras Paraná Plantations. A tradução que nos interessa é a de uma antiga trova escrita em provençal.
     Blake vê na velha trova a chave do mistério que tenta decifrar — uma série de assassinatos na Londrina da década de 1930. Blake revira o texto do avesso. Pesquisa. Visita bibliotecas. Consulta especialistas. Demora-se na reflexão, em meio às desventuras do romance. Busca o “sentido misterioso” dos versos provençais.
     O protagonista, como todo tradutor, enfrenta os obstáculos clássicos que qualquer texto impõe àquele que quer decifrá-lo, incluindo, entre outros, a distância temporal e a ausência do autor. Em entrevista com o padre Helmut Braun, um dos especialistas, Blake manifesta sua aflição — sentimento talvez comum a todo tradutor: “Há algumas palavras que não entendo. Preciso saber mais sobre a vida desse trovador. Queria mergulhar no universo e no tempo dele, para ser fiel a seu espírito e melhor traduzi-lo”.
É a busca da fidelidade por meio do estudo não apenas do texto, mas do autor e de sua circunstância. Blake fazia um trabalho louvável, digno dos melhores da raça.
    O padre, por sua vez, confessa ter suas próprias teorias sobre tradução: “acredito que não há nada que não seja traduzível. Esse é meu credo. Minha primeira paixão foi a filologia, os meandros e caminhos que percorrem os sentidos de uma palavra, a história de sua existência através dos tempos”.
Nota-se a complementação entre o esforço de Blake no sentido de compreender o trovador e seu tempo, de um lado; e, de outro, o conselho do padre sobre como enfrentar as palavras, o texto e seus sentidos esquivos.
A tradução tem seus mistérios. Também tem seus meandros e suas exigências em termos de denodo e tarimba, entre outras qualidades.
     Adam Blake era obstinado. A trova era difícil. Nela havia uma palavra de sentido especialmente obscuro, naquele contexto: noigandres — “palavra considerada o locus classicus para a intradutibilidade da canção dos trovadores”. Não apenas seu sentido era obscuro. Sua grafia cambiante lhe enevoava a própria forma: “a palavra aparece em pelo menos sete variantes diferentes”.
     Blake trabalha duro. Monta e desmonta a palavra. Sonda seu sentido mais profundo: “anagramas mais perfeitos são aqueles que funcionam como tradução, comentário ou reflexão sobre a palavra escolhida. É um jogo em que a palavra faz gerar cópias dela mesma, mas em novas combinações e sentidos”.
     São muitas as combinações possíveis. E cada uma delas gera nova profusão de sentidos. Vicissitudes da tradução, empecilhos para todo tradutor. O texto nem sempre é feito para ser fácil.
A pesquisa é longa, mas frutífera. Blake encontra enfim uma boa pista. Acha a chave. Bastaram olhos e cérebro para ler e traduzir. ler e traduzir.

EDUARDO FERREIRA

É tradutor, diplomata e jornalista. Vive em Brasília (DF).


sábado, abril 21, 2018



Editora lança no país 1ª antologia de poeta sueco que venceu o Nobel

Volume destaca fase de haikus de Tomas Tranströmer, que favorece imagens precisas e metáforas
                                 
RODRIGO GARCIA LOPES

       Após um longo inverno, finalmente o poeta sueco Tomas Tranströmer (1931-2015) tem pela primeira vez um livro publicado no Brasil.
       Não será desta vez que o leitor brasileiro terá acesso à poesia completa do Prêmio Nobel de Literatura de 2011, densa, mas relativamente modesta em termos de quantidade.
      Traduzido para mais de 60 línguas, é um poeta de poetas, tendo influenciado a obra de outros ganhadores do Nobel como Seamus Heaney, Joseph Brodsky e Derek Walcott.
      Não é uma antologia ampla, como anuncia a editora, que promete ainda publicar toda a sua obra. Com exceção de "Prelúdio", que abre o livro de estreia (em 1954), a seleção passa ao largo dos seis livros de poesia exuberantes que Tranströmer escreveu nos anos 1950, 60 e parte dos 70.
      Depois de uma prosa curta inédita, vem "Mares do Leste" (1974). É seu épico pessoal. Longo poema narrativo, é tecido por fragmentos do diário de bordo do avô piloto de barco, memórias familiares, paisagens do "maravilhoso labirinto de ilhas e água" do Mar Báltico, cuja presença é marcante em sua poesia.
     "Quando tinha neblina densa: velocidade reduzida, vista quase cega. Do invisível surgia a ponta, um único passo e tudo era proximidade. / Estrondo de um sinal a cada dois minutos. Os olhos liam direto o invisível. / (Ele tinha o labirinto na cabeça?)"
      A seleção dá preferência ao último Tranströmer, aos dois volumes que publicou depois de um AVC em 1990, que paralisou o lado direito do corpo e afetou severamente sua capacidade de falar, escrever e ler.
      É quando o sueco volta a escrever haikus. Para quem gosta do gênero, um prato cheio: há 64 deles no livro. Um desafio para a tradutora foi respeitar a divisão silábica (três versos de 5-7-5), o que sacrificou um pouco a clareza e entendimento de algumas peças. Mas há bons achados: "O fogo, azul / levanta do asfalto / como mendigo". Ou ainda: "Fugiu – foi preso / e tinha bolsos cheios / de cogumelos".

    Sua poesia segue os preceitos do imagismo, favorecendo metáforas e símiles surpreendentes. "Como uma borboleta rajada fica invisível no chão / o demônio se mistura com o jornal aberto". O poeta, que trabalhou anos como psicólogo, reelabora de modo muito particular o surrealismo.

      Muitos poemas borram as fronteiras entre consciente e inconsciente, ser humano e natureza, sonho e realidade. Tema recorrente em sua obra e que aparece já nos versos iniciais de "Prelúdio": "Acordar é saltar de sonhos com paraquedas. / Livre do turbilhão opressivo, o viajante / naufraga na zona verde da manhã".
      Para Tranströmer, poemas são "exercícios de meditação ativa", como declarou certa vez. "Eles querem nos acordar, não nos pôr para dormir." Introspectiva e enigmática, sua poesia atinge este objetivo, numa espécie particular de realismo mágico.

RODRIGO GARCIA LOPES  ESCRITOR, É AUTOR DE ‘O TROVADOR’, ALÉM DE TRADUTOR E COMPOSITOR

MARES DO LESTE E OUTROS POEMAS
Preço R$ 49 (232 págs.)
Autor Tomas Tranströmer
Editora Âyiné
Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback

segunda-feira, março 26, 2018

Resenha de "Epigramas", de Marcial (Ateliê Editorial) na Folha de S. Paulo

CRÍTICA  LIVROS

Tradução de 'Epigramas' recupera humor do romano Marcial

Obra é antologia com 219 dos 1.561 epigramas que nos chegaram
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GUILHERME GONTIJO FLORES


EPIGRAMAS
·        Preço R$ 82 (220 págs.)
·        Autor Marco Valério Marcial
·        Editora Ateliê Editorial
·        Tradução Rodrigo Garcia Lopes



     A poesia de Marco Valério Marcial (c. 38-104 d.C.), uma das figuras mais importantes da literatura romana, vem recebendo bastante atenção. Quatro tradutores acadêmicos têm realizado um trabalho híbrido de estudo acurado e tradução poética anotada.
     João Angelo Oliva Neto, Alexandre Agnolon, Robson Tadeu Cesila e Fábio Paifer Cairolli são os latinistas que desenvolveram a maior parte desses trabalhos nos últimos dez anos.
     Apesar desses trabalhos excepcionais, a vivacidade da poesia de Marcial demanda um duplo trabalho tradutório com abordagens complementares: por um lado, o estudo que explique como funcionam suas piadas, alusões literárias, construções poéticas etc.; por outro, a recriação poética mais livre desses efeitos.
    Uma obra que chegou há pouco às livrarias promete ser uma reinvenção de Marcial na poesia brasileira. Trata-se de "Epigramas", com tradução do poeta e romancista Rodrigo Garcia Lopes, numa antologia com 219 dos 1.561 epigramas que nos chegaram.
     O novo trabalho, mesmo que inventivo, dá sequência ao projeto tradutório de Décio Pignatari, em "31 Poetas, 214 Poemas".
     Pignatari já havia traduzido 58 epigramas de Marcial com registro mais popular, retomada de rimas e outros jogos formais que fazem o humor e a concisão dos epigramas ganharem vida em roupagem mais próxima da poesia marginal e do poema-minuto de Oswald de Andrade.
     O resultado agora são poemas luminosos, como: "Você é um velho, é o que Taís repete. / Ninguém é velho pra receber boquete." (Livro 4, 50).
     Ou: "Sempre diz, Póstumo, vou viver amanhã. / Me diga: esse amanhã, quando ele chega? / Por onde ele anda, Póstumo?, está muito longe? / Em Parta ou na Armênia ele se esconde? / O amanhã já é mais velho que Nestor e Príamo. / Quanto custa um amanhã?, me conte. / Vai viver amanhã, Póstumo? Hoje já era. / Sábio daquele que viveu-o ontem." (Livro 5, 58)
Além da tradução, o volume tem notas e posfácio do próprio Garcia Lopes, que auxiliam o leitor interessado.
    Há algumas imprecisões técnicas, até na adaptação dos nomes romanos para o português; mas são falhas menores e perdoáveis diante da importância da tradução.
     Belíssima é também a edição. A capa é solta em duas partes, de modo que cada um dos 12 livros de Marcial pode ser lido como volume separado, que, ao fim, é novamente reunido ao todo e preso com duas fitas elásticas.
     Assim, mesmo na antologia, o leitor pode ter a experiência de dividir temporalmente a produção do poeta em pequenos fascículos.

GUILHERME GONTIJO FLORES é professor de língua e literatura latinas na Universidade Federal do Paraná e tradutor de “Fragmentos Completos: Safo” (ed. 34).