Como foi que o camelo ganhou sua corcova e Como foi que a baleia ganhou uma grade na boca, contos de Rudyard Kipling.
Cartas de Berlim, por Simone Homem de Mello.
Zunái, Revista de Poesia e Debates: www.revistazunai.com.br Editores: Claudio Daniel e Rodrigo de Souza Leão. Webmaster: Ana Peluso. Onde encontrar: no ciberespaço. Preço: inconcebível. Inefável.
Verus Editora lança no Brasil edição restaurada e bilíngüe, com manuscritos originais
A Verus Editora lança no Brasil a inédita edição restaurada e bilíngüe de Ariel, de Sylvia Plath, com o fac-símile dos manuscritos exatamente como ela os deixou antes de morrer, em fevereiro de 1963, recuperados por sua filha, Frieda Hughes. Traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo, o livro inaugura a coleção Verus Poesis, que trará ao Brasil obras de poetas já consagrados mundialmente. Ariel é considerado um dos mais profundos e reveladores livros de Sylvia Plath. A maioria dos poemas foram escritos em 1962, ano em que a poeta viveu um surto criativo, estabelecendo-a como uma das principais poetas norte-americanas do século 20.
Além da reprodução dos manuscritos da autora, o livro traz notas aos poemas e também inclui os rascunhos completos do poema-título, “Ariel”, oferecendo ao leitor a oportunidade de acompanhar o processo criativo da poeta. Traz também um á introdução, por Rodrigo Garcia Lopes, e um prefácio, escrito pela filha. Esta publicação possibilita uma reavaliação do legado de Sylvia Plath à luz de seu trabalho original.
Ariel é a principal coleção de poemas de Plath. Foi publicado postumamente, em 1965, por Ted Hughes, ex-marido de Sylvia, que excluiu 13 dos 40 poemas, acrescentando outros 13, mudando a ordem e descaracterizando sua obra.
Plath foi canonizada nas décadas de 70 e 80 pelas feministas, que usaram sua obra para suscitar polêmicas. Quando esse fanatismo passou, pôde-se perceber que sua poesia era realmente única, dotada de um misterioso jorro de eloqüência poética, num equilíbrio entre técnica e emoção. Com esta publicação, o que se pretende é jogar luz sobre seus poemas extraordinários, mostrando que Plath era uma uma artista da palavra em período integral, mais que meramente a poeta “suicidada pela sociedade”. Estes versos ficaram como prova definitiva de sua genialidade poética – de uma escritora exímia, que foi capaz de criar, como poucos, música com a linguagem.
Sylvia Plath conseguiu transformar em poesia tanto assuntos particulares como eventos históricos trágicos. Seus poemas evidenciam as dores de uma vida traumática, marcada pela morte do pai, pelo perfeccionismo e pela competição literária, além da parceria com o marido poeta, sendo a prova do talento dessa poeta que soube unir técnica e emoção, criando uma obra já considerada clássica.
Sobre a autora
Sylvia Plath nasceu em Boston (EUA) em 1932. Graduou-se pelo Smith College em 1955 e ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Cambridge, onde conheceu o poeta Ted Hughes, com quem veio a se casar e a ter dois filhos. Esse casamento tempestuoso e traumático, além do temperamento feroz e conflituoso de Sylvia Plath, vão dar origem aos poemas de seu principal livro, Ariel, e também levá-la a cometer suicídio em 1963, em Londres. Sua obra inclui os livros de poesia The Colossus, Crossing the Water, Winter Trees e The Collected Poems, o qual ganhou o Prêmio Pulitzer, além do romance autobiográfico A redoma de vidro.
Ariel
Sylvia Plath
209 páginas
14 x 21 cm
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo
O carioca Paulo Henriques Britto é, na minha opinião e na de muita gente também, um dos principais poetas e tradutores brasileiros. Gosto muito deste poema, em clima de história de suspense:
Até segunda ordem
(10 de outubro)
Até segunda ordem estão suspensas todas as autorizações de férias, viagens, tratamentos e licenças. É hora de pensar em coisas sérias. Deve chegar mais um carregamento até o dia quinze, dezesseis no máximo. Fui lá em Sacramento, mas não deu pra encontrar com o tal inglês - será que alguém errou o codinome? Confere aí com quem organizou o negócio todo. Bem, amanhã a gente se fala, que agora a fome está apertando. (Ah, o padre adorou o canivete suíço de Taiwan.)
(9 de novembro)
Tudo resolvido. O campo de pouso até que é razoável. Mas o tal de Carlão, hein, vou te contar. É nervoso, não sei; parece que sofre de mal de Parkinson, ou coisa que o valha. Mas isso é o de menos. O pior é que o "Almirante" desde terça tomou chá de sumiço. Não sei que fim levou; é preocupante. Chegou a encomenda de Lisboa. O número de 318. A senha: "O olho esquerdo de Camões não vale uma epopéia."(Essa é boa!) Não agüento mais ter que jantar biscoito. No mais, tudo bem. Aguardo instruções.
(21 de dezembro)
Sim, recebi a carta do João. Só que o seu telefonema da sexta já havia alterado a situação completamente. É, o Bento é uma besta, mas você, também... Nessas horas é que se vê que falta faz um profissional. Você nunca vai ser como era o Alex. Mas deixa isso pra lá. O principal é que o negócio está de pé, ainda. O que não pode é pôr tudo a perder a essa altura do campeonato. Não diga nada, nada à dona Arminda. Toma cuidado. Conto com você. Aguarde o nosso próximo contato.
(12 de janeiro)
Por que ninguém me deu um aviso? Pra quê que serve essa porra de bip? Assim não dá. Que falta de juízo, de... de... sei lá! Eu lá em Arembipe dando duro, e vocês aí de pândega! O deputado, é claro, virou bicho, e não vai mais ajudar lá na alfândega. Meses de esforço jogados no lixo! E agora? E o alvará do "Três Irmãos"? E os dez mil dólares do Mr. Walloughby? Não vou nem falar com o doutor Felipe. Vocês que agüentem o tranco. Eu lavo as mãos. Se alguém me perguntar, eu tenho um álibi perfeito: "Eu estava lá em Arembipe".
(19 de janeiro)
Até esta chegar às suas mãos eu já devo ter cruzado a fronteira. Entregue por favor aos meus irmãos os livros da segunda prateleira, e àquela moça — a dos "quatorze dígitos" — o embrulho que ficou com o teu amigo. Eu lavei com cuidado o disco rígido. Os disquetes back-up estão comigo. Até mais. Heroísmo não é a minha. A barra pesou. Desculpe o mau jeito. Levei tudo que coube na viatura, mas deixei um revólver na cozinha, com uma bala. Destrua este soneto imediatamente após a leitura.
“Medusa” (escrito em 28 de outubro de 1962) é um complexo poema de Sylvia Plath. O poema se desenvolve e avança -- como um organismo vivo -- através de intrincadas metáforas, ao modo da poesia metafísica inglesa (como em Donne). Primeiro, a “Medusa” do título pode se aplicar, simultaneamente à Medusa da mitologia grega (a bela mulher que, por ter ofendido a deusa Atena, foi transformada por esta num monstro com cabelos de serpente e face tão horrível que transformava em pedra todos que a olhassem diretamente. Perseu foi capaz de cortar a cabeça da Medusa sem olhar diretamente para ela, vendo-a através do reflexo em seu escudo); à medusa marinha: água-viva, "forma livre-natante e pelágica de alguns cnidários, caracterizada pelo corpo gelatinoso, que lembra um sino ou um guarda-chuva, com tentáculos na margem, lado convexo voltado para cima e boca localizada no centro da superfície côncava inferior" (Dicionário Houaiss); à sua mãe, Aurelia Plath, que veio dos Estados Unidos para visitá-la na Inglaterra, no auge da crise do seu casamento com Ted Hughes. Curiosamente, Aurelia aurita é um tipo de água-viva (a da foto abaixo). A habilidade de manipular três metáforas ao mesmo tempo, durante o poema, e sem perder a bronca, sua técnica de fusões metafóricas, fica evidente. É um exemplo de Plath em seu auge, em seus rituais xamânicos, em sua excentricidade e raiva, em sua poesia que parece às vezes uma espécie de exorcismo lapidado.
MEDUSA
Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,
Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.
Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.
Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.
Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta
Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,
Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,
Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!
Não há mais nada entre nós.
SYLVIA PLATH
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo (do livro Ariel, a sair pela Verus Editora)
Curta de Londrina foi o único ganhador fora de uma capital
Publicada em 30/08/2007 às 18h46m
Christina Fuscaldo - O Globo Online
RIO - Com um tema nada voltado para adolescentes, o diretor Rodrigo Grota, de 27 anos, levou dois kikitos em Gramado por "Satori Uso", entre eles "Prêmio da Crítica". O filme fala sobre sentimentos do poeta Satori Uso, personagem que teria passado por Londrina na década de 50, segundo Rodrigo Garcia Lopes, poeta que o inventou na década de 80. Rodado em câmera HDV, o curta levou vantagem ao ganhar o prêmio pela "Fotografia".
- Concorremos com vários filmes rodados em 35mm e ganhamos fotografia. É por isso que não quero filmar em película... No formato digital, você abre mais o leque de possibilidades - conta Rodrigo Grota.
"Satori Uso" foi o único curta de uma cidade que não é capital premiado no festival. O filme de Londrina (PR) estará em cartaz dentro da mostra competitiva do Festival do Rio, que começa em setembro. Acumulados em seu currículo, Rodrigo Grota tinha três outros curtas, "Londrina em três movimentos" e "Inimigo público nº1" e "O quinto postulado". O paranaense está finalizando "Booker Pittman", que, junto com "Satori Uso", fará parte da "Trilogia do esquecimento".
- Minha idéia é fazer filmes sobre três personagens dos anos 50. O segundo é o Booker Pittman, o pai da cantora Eliana Pittman, que fez muito sucesso nos anos 50. O filme conta a história da passagem dele por Londrina, na época em que ele tocava em puteiros de luxo. O terceiro, "Pausa para a neblina" será sobre o fotógrafo Haruo Ohara, que fez 11 mil fotos de Londrina na década de 40.
Os outros consagrados no Festival de Cinema de Gramado foram Marcos DeBrito por "O.D Overdose Digital" (melhor ator para Francisco Gaspar), Silvera e Beto Carminatti por "Balada do vampiro" (kikitos de diretor de arte e música). Os traillers de grande parte dos curtas-metragens estão disponíveis no Youtube.
Única foto conhecida de Satori Uso (Autor desconhecido).
Quando você diz, em japonês, "Uso, uso, uso yo!", você está dizendo "É mentira, mentira, mentira!"USO literalmente significa "mentira", "falsidade", "fake". Quando você diz "USO!", você quer dizer "Não acredito!", "É inacreditável! " etc.
Jotabê Medeiros escreveu matéria no Estadão de hoje sobre a gênese do personagem.
O POETA INEXISTENTE QUE CRIOU VIDA
Sucesso do curta "Satori Uso" revela que a estratégia do heterônimo, cultuada por Pessoa e Borges, está se reinventando
JOTABÊ MEDEIROS
A poesia dele toca o espectador. Sua figura arredia, do tipo que busca a invisibilidade, também emociona. Mas há um porém: ele não existe, nunca existiu. O poeta japonês Satori Uso, no entanto, tem feito sucesso como protagonista de um filme de 17 minutos, cujo ponto de partida é Satori Uso, filme feito por Jim Kleist, um cineasta americano que também não existiu.
Satori Uso, o personagem, foi criado pelo escritor Rodrigo Garcia Lopes em 1985, quando ele editava uma página literária dominical no jornal Folha de Londrina. ''Eu acabara de voltar da Europa, estava muito influenciado pelo zen-budismo e pela poesia oriental. Eu queria muito publicar esses novos poemas, que pareciam refletir uma outra personalidade. Como achei que seria antiético publicar na página que eu mesmo editava, resolvi criar um heterônimo'', conta Rodrigo, que há um ano e meio leciona literatura na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, nos Estados Unidos.
Em japonês, satori quer dizer iluminação, e uso é mentira, mentiroso. Satori Uso seria então uma falsa iluminação. ''Londrina é uma cidade de grande colônia japonesa, por isso me pareceu verossímil, um lugar onde temos inclusive reuniões de grupos de haicais. Muita gente da colônia o procura até hoje. Folheando um livro de uma artista plástica nipo-brasileira, achei uma foto em preto-e-branco de um velhinho de boina tomando missô. Olhei e pensei: eis o Satori Uso!''.
A página foi publicada uma semana depois da ''morte'' de Satori Uso (1925-1985). Ou seja, o poeta já nasceu morto. O escritor Paulo Leminski, quando leu aquilo, ligou para Garcia Lopes de Curitiba para pedir informações. ''Mas como você me escondeu isso? Eu preciso saber de tudo!''''. Rodrigo se desmascarou: ''Leminski, o Satori Uso não existe". Leminski deu uma gargalhada: ''Melhor ainda!''
Rodrigo Garcia criou uma biografia e uma personalidade para o autor. "Entre outras coisas, ele teria participado da vanguarda japonesa e imigrado para a Califórnia no fim dos anos 50, onde virou amigo dos beats e mergulhou no jazz e na cultura americana. Daí ele recebeu um convite da família Akiro para imigrar para o Brasil. Na viagem de navio perdeu toda sua obra. Passou a ser uma pessoa calada e cada vez mais misteriosa, um poeta das sombras. Escrevia seus haikais em tiras de papel que ele jogava imediatamente após escrevê-los. Os discípulos iam literalmente apanhando seus poemas pelo chão''.
Há um ano, o cineasta Rodrigo Grota, fascinado pelo personagem, resolveu fazer um filme. Garcia Lopes, além de ceder o personagem e seus poemas, foi co-autor do roteiro e indicou o ator, o escritor Rogério Ivano, que materializaria uma figura que só existia na sua cabeça. Ele considera que não há nada de tão novo na invenção de heterônimos, personas poéticas e literárias. ''Na época em que criei o poeta no jornal, também havia a intenção de mexer com o conceito de 'verdade' jornalística, e isso acabou desaguando num documentário fake. Satori habita um terreno movediço entre ficção e verdade, além da questão da autoria. É uma faca de dois gumes para quem inventa um personagem''.
A figura de um poeta japonês de escrita erudita perdido nos campos do Norte do Paraná é familiar a quem é da região. É célebre o rigor do fotógrafo-agricultor Haruo Ohara (1909-1999), cujas fotos chegaram ao Masp.
Satori é dessa linhagem. ''Um apaixonado pela vida, pela linguagem, e as marcas do zen-budismo: o culto ao silêncio, à natureza, o humor, a aceitação das coisas como são. A capacidade de encarar a dor e as perdas com humor, com leveza, às vezes até com certo sarcasmo'', diz Garcia Lopes. ''Como diria Flaubert, Satori Uso sou eu. Assumi com tanta veemência este heterônimo, que certos poemas que escrevo já designo como autoria de Satori Uso, como se eles pertencessem ao personagem''.
POEMA FILMADO: Melhor curta do recente Festival de Gramado, Satori Uso ganhou prêmios da crítica e o de aquisição do Canal Brasil, mas foi contemplado pelo júri oficial só com o prêmio de fotografia.
Não que a fotografia de Carlos Ebert não seja fundamental no conceito do filme (além de ser muito bem resolvida, do ponto de vista técnico e artístico). É que Satori Uso merecia mais - o Kikito de melhor filme, que o júri outorgou a Alphaville 2007. No mínimo, o prêmio de direção.
Para falar sobre Satori Uso, talvez seja interessante recorrer a autores que certamente estão no centro das referências de cinéfilo do jovem diretor paranaense Rodrigo Grota. Ele viu, sem sombra de dúvida, Zelig, de Woody Allen, e Verdades e Mentiras, de Orson Welles (e François Reichenbach). O segundo, em especial, baseado na obra do falsificador Elmyr de Hory, tinha tudo a ver com a falsificação de Satori Uso.
O filme sobre um poeta que nunca existiu é assinado por um documentarista imaginário, Jim Kleist. Nenhum dos dois existe, mas Rodrigo Grota, com base nas investigações descritas na reportagem acima, criou o correspondente cinematográfico do poeta, este cineasta para o qual inventou uma filmografia e um estilo.
Jim Kleist nunca concluiu um filme. Satori Uso visava a sombra e o silêncio. Como contar a história de um homem que não quer aparecer? Satori é revelado por meio de Kleist e de Satine, sua musa, cujo nome é a uma homenagem a Nicole Kidman de Moulin Rouge, de Baz Luhrmann.
Esplendidamente escrito, filmado, fotografado e dirigido, Satori Uso concentra toda uma aula de cinema (e arte e vida) em 17 minutos. Este grau de sofisticação não é muito freqüente no cinema brasileiro de qualquer formato.
"O crítico Luiz Carlos Merten escreveu no Estadão que Satori Uso, curta do londrinense Rodrigo Grota, com roteiro dele e de Rodrigo Garcia Lopes, foi o melhor filme do Festival de Gramado deste ano. Disse mais: que é um dos 11 filmes imperdíveis do Festival Internacional de Curtas de São Paulo.
Eu me lembro bem da gênese da lenda Satori Uso. Em 1985 Rodrigo Garcia Lopes publicou uma página na Folha de Londrina com poemas e breve trajetória deste misterioso poeta japonês que teria migrado para o Brasil rumo aos cafezais de Londrina. A página teve grande repercussão. Todo mundo ficou intrigado na cidade, principalmente a colônia japonesa. Ninguém jamais ouvira falar de Uso.
Nem poderia. O poeta jamais existiu. Os poemas eram do próprio Rodrigo. Ele inventou toda a história, como um Borges pé-vermelho.
Vinte e dois anos depois, Uso continua repercutindo, agora com o filme de Rodrigo Grota. Que vai ser exibido amanhã (quinta-feira, 30), às 18 horas, no Centro Cultural São Paulo.
Numa entrevista publicada ontem no Jornal de Londrina, Rodrigo parodiou a famosa frase de Flaubert sobre Madame Bovary. Nesses termos: 'Satori Uso sou eu'."
Curta londrinense também será exibido em Barcelona e em Recife
O curta-metragem londrinense Satori Uso, uma produção da Kinoarte com direção de Rodrigo Grota, foi selecionado para o Festival do Rio 2007. A nona edição do festival, que vai de 20 de setembro a 4 de outubro, vai exibir mais de 300 filmes espalhados por cerca de 20 salas de cinema.
Satori Uso também foi selecionado para o Festival Brasil No Ar, que acontece em Barcelona, na Espanha, no mês de setembro. O filme será exibido dentro da "Muestra de Cine" no dia 28 de setembro no Espaço Maumau. Mariana Soares Ribeiro e Leonardo Delai Lucas, integrantes da equipe do filme, irão apresentar o curta neste festival.
Na próxima segunda, dia 3 de setembro, Satori Uso será exibido em Recife, dentro da mostra paralela do 18o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo promovida na capital pernambucana. Em São Paulo, o filme londrinense foi o representante brasileiro em uma sessão especial do festival na qual foram exibidos filmes do Uruguai, Chile e México. Satori Uso foi o representante brasileiro na discussão sobre o atual cinema latino-americano. Após a exibição dos filmes, houve um debate com os diretores.
Satori Uso é uma realização da Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina) com patrocínio da Prefeitura de Londrina via Promic – Programa Municipal de Incentivo à Cultura. Inspirado na obra de Rodrigo Garcia Lopes, o filme é um falso documentário sobre um poeta que nunca existiu, sob a óptica de um cineasta imaginário. Estrelado por Rogério Ivano e Caren Utino, Satori Uso é o primeiro episódio de uma série de três filmes sobre a Londrina dos anos 50.
Mais informações:
55 43 3323 8739 (Espaço Kinoarte)
55 43 9902 2669 (Bruno Gehring – produtor do filme)
O jornalista Paulo Briguet publicou hoje matéria sobre o lançamento do livro Ariel, de Sylvia Plath, pela Verus Editora, na Bienal do Livro do Rio, em setembro:
O ESPELHO FIEL DE SYLVIA
Edição original do livro de poemas Ariel, de Sylvia Plath, será publicado em setembro, com tradução assinada por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo
Paulo Briguet
A história da poesia está repleta de autores que morrem tragicamente: Alexander Pushkin, Hart Crane, Vladimir Maiakovski, Paul Celan, Anne Sexton, Mário Faustino, Ana Cristina Cesar... A lista poderia encher esta página.
A poeta norte-americana Sylvia Plath morreu em 11 de fevereiro de 1963. Suicidou-se com gás de cozinha. Tinha apenas 30 anos. Em vida publicou a coletânea de poemas The colossus (1960) e o romance The bell jar (1963).
O problema das mortes trágicas de poetas é que às vezes elas acabam por eclipsar, ou deixar em segundo plano, a qualidade literária dos poetas. Sylvia Plath é um dos nomes mais importantes da poesia americana no século 20, mas seu nome foi mitificado de diversas formas. Houve quem a transformasse em mártir da causa feminista ou “suicidada” pela sociedade; essas falácias acabaram por encobrir o grande talento literário da moça.
No Brasil, parte da injustiça começou a ser corrigida com a publicação, em 1991, da antologia Sylvia Plath: Poemas, editada pela Iluminuras, com tradução e estudo crítico assinados pelos autores londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. No livro, foi possível vislumbrar a face de Sylvia: nem heroína, nem delirante, nem “suicidada” – mas acima de tudo uma verdadeira poeta.
Em setembro, a Verus Editorial lança a edição brasileira de Ariel, o mais importante livro de poemas de Sylvia Plath. Os poemas foram traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes, agora em parceria com a professora gaúcha Maria Cristina Lenz de Macedo.
Trata-se de uma edição fac-similar do manuscrito deixado por Sylvia Plath pouco antes de sua morte. O volume é composto por 41 poemas e segue exatamente o plano editorial de Sylvia.
Na edição de Ariel feita por seu ex-marido, o também poeta Ted Hughes, 13 poemas foram suprimidos e trocados por outros 13. Hughes, que morreu em 1998, justificou a supressão desses poemas originais como forma de preservar a memória da autora e da família. Um estudo introdutório assinado por Garcia Lopes elucida a questão e restabelece os fatos.
Com a edição original de Ariel, será possível conhecer, mais e melhor, a obra da autora que certa vez escreveu: “E agora / Espumo como o trigo, um brilho de mares. / O choro da criança // Dissolve-se no muro. / E eu / Sou a flecha, // Orvalho que voa / Suicida, e de uma vez avança / Contra o olho // Vermelho, caldeirão da manhã”.
ENTREVISTA
JL: Em 1991, você e Maurício Arruda Mendonça publicaram um volume de traduções de Sylvia Plath. Alguns dos poemas daquele livro fazem parte de Ariel. Como foi a experiência de traduzir a autora quase 17 anos depois?
Rodrigo Garcia Lopes: Sylvia Plath: Poemas (Iluminuras) foi o primeiro livro publicado pela gente. É um trabalho do qual nos orgulhamos muito. O livro foi importante por ser o primeiro a revelar para o público brasileiro a poesia de Sylvia Plath. Confesso que passei muitos anos longe dela, pois os autores que traduzimos sempre nos consomem muito, espiritualmente até. E ela é barra-pesada. Creio que adquiri nestes anos todos mais cancha como poeta e tradutor, mais intimidade com a língua inglesa devido a mais traduções feitas, mais experiência de vida, anos de vivência com a língua inglesa e leituras também.
Como se deu a participação da professora Maria Cristina Lenz de Macedo nesta edição restaurada?
Há dois anos a professora e tradutora gaúcha Cristina Lenz havia dito que traduzira Ariel, quando publicamos suas traduções de Plath na Coyote. Coincidentemente, na época a Verus Editora, de Campinas, me procurou, pois eu havia sido indicado para a tradução de Ariel. Sugeri que a editora comprasse os direitos não da edição mais conhecida, editada pelo Ted Hughes, e sim a "edição restaurada" — a idealizada por Plath — que havia acabado de sair na Inglaterra e Estados Unidos, e que restabelece o conjunto e a seqüência original, com os fac-símiles caprichosamente datilografados por ela e que estarão no livro. Também convenci a Cristina de que deveríamos atacar o Ariel original. A tradução é uma atividade criativa que favorece a parceria, pois um vê o que o outro não vê e vice-versa. Ela fez a primeira versão e eu fiz a revisão poética, para unificar e dar voz aos seus poemas em português. Isso significou muitas horas de trabalho, um minucioso trabalho de interpretação de metáforas, de transcriação mesmo, até achar o ponto de bala do original. Engana-se quem diz que Sylvia Plath é fácil de traduzir.
De que maneira Sylvia Plath exerce influência sobre a poesia contemporânea?
Uma enorme influência, sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas também no Brasil, mais diretamente sobre Ana Cristina Cesar, para mencionar a mais famosa. Agora, para lhe dar uma resposta mais completa teria que fazer um estudo de sua influência.
Para você, quais são os pontos altos de Ariel? Algum deles estava entre os 13 poemas suprimidos por Ted Hughes?
Sem dúvida: tivemos gratas surpresas ao traduzir poemas como "Um Segredo", "O Candidato", o difícil "Medusa", "Lesbos", o poema longo "Praia de Berck", "Purdah", "Chegando Lá". Em 1962 ela teve um surto poético de altíssima qualidade e dicção inconfundível (25 apenas em outubro). A poesia de Plath estava cada vez mais tensa e cheia de imagens em seqüências alucinatórias, que exigem muito do leitor e tradutor. Isso sem dizer de outro poema, o clássico "Daddy" ("Papai"), um verdadeiro poema-exorcismo do pai (que morreu quando ela tinha 8 anos) e do marido, de quem estava separada. É um dos grandes poemas escritos no século vinte nos Estados Unidos, daqueles poemas que, como "Uivo", de Allen Ginsberg, marcam uma época.
“SATORI USO SOU EU”, DIZ GARCIA LOPES
Certa vez, Gustave Flaubert fez uma declaração enfática sobre sua personagem mais famosa: “Madame Bovary sou eu”. Pois o poeta e tradutor londrinense Rodrigo Garcia Lopes pode afirmar o mesmo sobre um certo poeta japonês fictício: “Satori Uso sou eu”. O personagem central do curta-metragem de Rodrigo Grota, premiado pela crítica no Festival de Gramado, é uma criação de Garcia Lopes, que também é co-autor do roteiro do filme.“Criei o este poeta japonês (cujo nome significa ‘iluminação mentirosa’), sua biografia fake e parte de sua obra em 1985 na página “Leitura”, da Folha de Londrina, que era bastante lida. Causou na época um rebuliço na cidade e mesmo fora. Lembro que no dia seguinte, de manhã, o Paulo Leminski me ligou de Curitiba absolutamente fascinado pelo poeta: ‘Mas como é que você me escondeu isso! Eu preciso saber de tudo!’ Eu lhe disse: ‘Leminski, o Satori Uso não existe’. E ele respondeu, soltando uma risada: “Melhor ainda!”. Deve ter gente até hoje achando que ele existiu de verdade”.
Poeta fictício é heterônimo do criador
Mas Rodrigo Garcia Lopes esclarece que Satori Uso não é apenas uma idéia, mas um heterônimo, ao estilo dos poetas-personagens de Fernando Pessoa. “Tenho publicado poemas dele em meu blog Estúdio Realidade (www.estudiorealidade.blogspot.com) e pretendo publicar no ano que vem um livro, inclusive com os que foram recentemente encontrados nos Estados Unidos”.
Garcia Lopes conta que foi procurado pelo cineasta Rodrigo Grota, lhe sugerindo a idéia de fazer um filme sobre o heterônimo. “Eu o abasteci com material relevante, opiniei e sugeri mudanças quando vi a primeira edição do filme, escrevi o roteiro com ele, traduzi para o inglês os poemas do filme e indiquei o amigo e escritor Rogerio Ivano pro papel principal, que acabou sendo o escolhido.”
Para Garcia Lopes, o sucesso de “Satori Uso”, o filme, é uma satisfação especial. “Fico feliz com o fato de minha criação estar sendo importante para este momento do cinema e da cultura londrinense. Parabenizo o Grota e sua equipe e desejo longa vida a Satori Uso.”