segunda-feira, novembro 10, 2014

Book release: Brazilian detective novel / THE TROUBADOR (Record)

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THE TROUBADOUR

a detective novel by RODRIGO GARCIA LOPES




      An enigmatic Provençal word is at the center of this brilliant debut novel by Brazilian writer Rodrigo Garcia Lopes (1965). Found in the mouth of one of the victims of a series of murders in southern Brazil, the word scrawled on a piece of paper also appears in a strange poem sent to Edward VIII, King of England. The task of investigating the connection between poem and crime is up to Adam Blake, a translator and interpreter sent to the origin of the clue: a British land company that operates in northern Paraná.
     Led to Londrina by the hands of Lord Lovat, Her Majesty’s associate in the lands held by the Parana Plantations Limited, under the auspices of the Inspector Hugh Sinclair and Sir Winston Churchill in person, diligent Mr. Blake faces a city where immigrants Japanese, Russians, Germans, Spaniards and Brits fight for survival.
     Besides the mix of babel, Eldorado and western represented by Londrina at the beginning of its timber and coffee exploration in 1936
— a setting as crucial to the plot as its characters — Blake also finds a solvable puzzle only by an amateur philologist.
    Intially revealing a murder appearing to have stemmed from a love triangle between company employees, the investigation advances to unveil the identity of the ruthless killer called The Troubadour. Who was he and why would a person with talent for language would appeal the murder as one of the fine arts?
    
Everything is surprising in this novel, from the accuracy in applying the rules of American and English detective novels of the '30s, to his rigorous historical research. But nothing beats the aptness of the author in creating his detective: just like Adam Blake, Rodrigo Garcia Lopes is an accomplished poet and translator. Subverting the famous motto "translator, traitor", this narrative delivers to the reader everything but treason. Adam Blake came to Brazil to stay.

JOCA REINERS TERRON, Brazilian critic and writer


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BLOOD ON THE RED LAND

Rodrigo Garcia Lopes brings in his first novel, The Troubadour, a mystery plot that dates back to the period of colonization in southern Brazil

One of the most important poets of his generation, Portugal Telecom Prize finalist in 2014 with the book of poems Reality Studio, Rodrigo Garcia Lopes - also a composer, journalist and translator of authors like Walt Whitman, Sylvia Plath and Arthur Rimbaud - proves to be a complete narrator in his fiction debut with the amazing The Troubadour. A
detective novel written along the lines of Conan Doyle and Dashiell Hammett, the book takes us to Londrina, Brazil, before World War II at the start of its coffee plantations and timber exploration. It is there that translator Adam Blake, along with Lord Lovat, president of the British company Parana Plantations Ltd., seeks to unravel the mystery lurking between the lines of a medieval song. Rodrigo Garcia Lopes gives life to an adventure into a strange and dark past, where dirty sawdust workers, entrepreneurs in dinner jackets and other characters that help us unravel a series of murders which main clue is the given by the poem.
       With an impressive mastery of the classic detective genre, the author evokes a wide range of important issues along the way: from corruption, colonialism and international relations, to broader issues of society, morality and identity, revealing important details of a little-known chapter of Brazilian history.


The TROVADOR
Rodrigo Garcia Lopes
Record Publishing | Grupo Editorial Record
406 pages
Price: R$ 45.00
Format: 16 x 23 cm
ISBN: 978-85-01-03034-4

Release (lançamento): Iluminuras (Gravuras Coloridas), de RIMBAUD, por Editora Iluminuras

O TESTAMENTO POÉTICO DE ARTHUR RIMBAUD

Vinte anos depois da sua primeira publicação no Brasil, Iluminuras lança edição bilíngue, revisada, anotada de um clássico da poesia moderna

iLUMINURAS – gRAVURAS COLORIDAS
ARTHUR RIMBAUD
Tradução, notas e ensaio
Rodrigo Garcia Lopes
Maurício Arruda Mendonça
14x21 / 192 páginas
isbn: 978-85-7321-368-3
R$: 44,00
Lançamento: novembro de 2014

  Illuminations (coloured plates) / Iluminuras (gravuras coloridas), publicado pela primeira vez em 1886, é um dos textos fundadores da poesia moderna e o testamento poético de Arthur Rimbaud (1854-1891). Escrito em parte durante as temporadas em Londres, com seu gosto pela ambiguidade e polissemia, Rimbaud escolheu como título uma palavra inglesa que significa, simultaneamente, tanto iluminações (no sentido de inspiração ou percepção súbitas) quanto iluminuras (gravuras coloridas, acepção reforçada pelo subtítulo), manuscritos “iluminados” (decorados e ilustrados com formas, desenhos, figuras). Ou, ainda, em referência às luzes urbanas artificiais, fogos de artifício e técnicas de iluminar cenários teatrais. Título mais que adequado para uma poesia multifacetada, visionária e que até hoje testa a imaginação dos leitores.
    Escrito dos 19 aos 21 anos, pouco antes de abandonar a literatura e partir para a África, Illuminations traz a aplicação de seus princípios poéticos de invenção e “alquimia verbal”, “pensamento cantado” e “alucinação simples”, onde o poeta, ao “fixar vertigens”, “se faz vidente por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos” (físicos e sociais). Nesta obra que pode ser chamada de As Metamorfoses da era industrial, Rimbaud dissolve os limites entre poesia e prosa, lírica e narrativa, identidade e alteridade, real e imaginário, tempo e espaço, alta e baixa cultura, palavra e mundo, fazendo da linguagem um laboratório para a criação de novas realidades e percepções.
     Nas composições caleidoscópicas de Illuminations, momento culminante de sua escrita, Rimbaud quer levar ao limite a exploração do impacto da mente poética sobre a realidade exterior, fazendo com que o poema, muitas vezes, apareça na forma de um enigma. Como escreveu Leo Bersani: “Longe de ser uma película protetora entre nós e a complexidade psicológica e secreta do poeta, a linguagem em Illuminations chega a ser ofuscada pela própria luminosidade das telas que a linguagem evoca. Tudo se destina — como num número de circo espetacularmente vulgar — a fascinar nossos olhos, tornando impossível para nós desviar nossa visão saturada da cena hipnótica”. É mais do que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências.
     Vinte anos depois da primeira publicação pela Iluminuras, nesta edição bilíngue, revisada, anotada e acompanhada de ensaio crítico, os poetas Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça assumem o desafio de traduzir para o português esta obra-prima da poesia universal.




Release de ILUMINURAS (GRAVURAS COLORIDAS), de Arthur Rimbaud, tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça



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sábado, novembro 08, 2014

RESENHA DE 'O TROVADOR", POR MOACIR AMÂNCIO (O Estado de S. Paulo)

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,trama-policial-revisita-a-londrina-dos-anos-30,1589637O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,trama-policial-revisita-a-londrina-dos-anos-30,1589637
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O Trovador, resenha de Jardel Dias Cavalcanti (Digestivo Cultural)



http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4070&titulo=O_Trovador,_romance_de_Rodrigo_Garcia_Lopes

Agraciado pela Bolsa Funarte de Criação Literária, o poeta, tradutor, músico e ensaísta Rodrigo Garcia Lopes acaba de publicar pela Editora Record o seu primeiro romance: O Trovador.

Trata-se de um romance policial, que tem como centro da narrativa o desvendamento de uma série de assassinatos, crimes e trambiques comerciais envolvendo empresas, autoridades públicas e membros da corte inglesa. A partir das pistas contidas em um poema provençal, e da busca, dentro deste poema, pelo significado da palavra Noigandres, Adam Blake (personagem chave do livro, espécie de detetive-tradutor) envolve-se numa trama perigosíssima que tem como objetivo desvendar os crimes a partir do próprio entendimento do poema e das pistas ali escondidas.

Para a criação de O Trovador o autor partiu da ideia da semelhança entre a tarefa do tradutor e a do detetive: "Comecei a enxergar algo de detetive no poeta e no tradutor. Como o tradutor, o detetive tem que reconstruir um texto, decifrar o que o autor quis dizer, discernir pistas verdadeiras das falsas, recuperar o momento da criação do poema", diz Rodrigo Garcia Lopes em entrevista a Manoela Sawitzki.

Outra ideia que serve como base para a construção da narrativa de O Trovador é a do "assassinato como uma das belas artes" (referência ao escritor inglês Thomas De Quincey). No romance, os crimes e a constituição engenhosa das pistas deixadas pelo assassino se transformam em verdadeira obra a ser decifrada pelo detetive, que assim se faz também intérprete-tradutor.

Mas muito além de sua intrincada trama policial, o romance reconstitui a história da colonização da cidade de Londrina nos anos trinta, momento em que se dava nas terras paranaenses a exploração comercial do café e da madeira pela empresa inglesa Paraná Plantation Limited.

Não querendo destruir o prazer do leitor, deixaremos de comentar detalhes do enredo do livro. Interessa-nos mais aqui falar sobre a estrutura do romance.

Historiadores em geral não sabem narrar. O passado que reconstroem é, além de frio, dominado por uma suposta "verdade objetiva" que os documentos prometem revelar. O caso do escritor é diferente. A história que ele recupera se inscreve numa outra forma de apreensão do tempo, do espaço e da vida. É o que Rodrigo Garcia Lopes faz em seu romance, elaborando através da ficção, que funciona quase como uma cápsula do tempo, o encontro vivo e radiante entre fatos históricos (colonialismo), situação geográfica (Londrina nos anos 30), tensões existenciais (amor, desejo, poder), natureza e cultura (a busca pelo eldorado).

Para compor as 400 páginas de seu romance, fica evidente a grande pesquisa que o autor fez, selecionando materiais de várias áreas: de documentos empresariais e fotografias de época aos estudos sobre as preocupações e tensões político-econômicas do período. Tudo tão bem amarrado que o leitor, ao mesmo tempo em que sente a presença da história, percebe-se dentro da dinâmica da natureza humana no momento da construção de sua própria existência como agente dos fatos.

A questão lapidar é que o autor consegue dar vida à história, imprimindo-a no próprio corpo dos personagens, nas suas angústias diárias (como, por exemplo, a tensão que os emigrantes judeus sentem com o avanço do Nazismo na Europa). Isso faz de Rodrigo Garcia Lopes um grande escritor, que imprime no cerne da própria narrativa as reflexões que pretende expor. Não teoriza sobre os acontecimentos, mas inscreve-os na dinâmica interna de cada personagem, nas suas ações dentro de cada desdobramento do romance.

Para jogar o leitor dentro da trama, com se ele tivesse voltado no tempo, Rodrigo lança mão de descrições minuciosas do espaço físico e da presença humana em relação com esse espaço, reproduzindo a sensação causada pelo cheiro da terra, pelo calor, pelas chuvas, pelo odor das bebidas, cigarro e perfume das mulheres, pela imagem da rusticidade das matas virgens, pelo vento e pela cor do solo. Mas esses elementos jamais se estruturam apenas como simples pano de fundo para os personagens terem chão ou como material enfadonho e descartável. Ao contrário, interagem com as sensações vividas pelos personagens, seu estado de alma, seu dinamismo na trama.

Rodrigo Garcia Lopes realiza de forma impressionante aquilo que desejou ao buscar as características que P. D. James elenca como essenciais para a criação de um bom romance policial: "trama bem construída e interessante, cenário original, personagens multidimensionais, pistas inteligentes, detetive cativante e vilões memoráveis."

Mas buscou mais do que isso, como disse na entrevista citada acima: "Com O Trovador eu quis mostrar que o gênero permite levantar reflexões históricas e questões sociais, morais e de identidade, temas como corrupção, relações internacionais, colonialismo, propondo, ao mesmo tempo, uma reescrita da história. O desafio era conseguir fundir a história de mistério com a colonização de Londrina ao mesmo tempo."

Para essa tarefa, conta o autor, "li biografias, livros de história dos anos 30, da região norte do Paraná, teses de doutorado, no Brasil e no exterior. Assisti documentários, entrevistei pilotos, peritos, historiadores, consultei jornais da época como o The Times, de Londres, o Paraná-Norte e O Cometa, de Londrina. Vi muitos filmes e trabalhei com fotografias para a composição de algumas cenas e cenários."

Toda essa pesquisa, evidentemente, nas mãos de um autor fajuto jamais se tornaria o que O Trovador se tornou. Rodrigo tem uma história ligada à produção poética, tradução e crítica que lhe dá ferramentas para amalgamar documentos, imagens, relatos, impressões como só um poeta pode fazer. O resultado do livro, pela impressão que causa nos leitores, fazendo-os voltar no tempo, penetrarem nas entranhas dos personagens e na trama da História, é o exemplo cabal de uma força poética direcionando sua narrativa.

Criando uma espécie de sertão-babel, o romance faz transitar figuras inesquecíveis, de nacionalidades que vão dos Europeus aos Asiáticos, todos presos a uma rede de intrigas, meias-verdades, onde crimes se sucedem ao sabor de tramas comerciais escusas que partem do império colonial inglês e deságuam na terra vermelha do Paraná.

Chamando atenção para uma parte de nossa história, a colonização do Norte do Paraná, humaniza a prática da história, nos aproximando do cheiro dos aventureiros, seus sonhos do Eldorado, suas angústias na vida no novo mundo, seu trabalho e a existência no contexto da colonização e da história internacional que antecede a segunda grande Guerra e que teve consequências negativas para várias etnias que emigraram para nosso país.

Também nos obriga a reler a História do Brasil, com lentes mais agudas para o Norte do Paraná, naquele momento em que aportaram na região migrantes que formaram uma sociedade composta por militares, médicos, juristas, artistas, cientistas, aventureiros e trabalhadores vindos de várias regiões da Europa e do Brasil.

Mas para além da história, o autor nos devolve o prazer de ler. Como disse Daniel Pennac "um romance deve ser lido como um romance: saciando primeiro nossa ânsia por narrativas". Isso porque, toda grande obra literária nos ensina: "o tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver".

O Trovador, no seu primor narrativo, nos devolve a felicidade de sermos leitores, porque ele representa essa qualidade demoníaca da linguagem que consiste em abrir em expansão o mundo para provar que dentro da literatura a história é mais surpreendente do que se pensava.

Nota sobre o autor:

Rodrigo Garcia Lopes é tradutor, poeta, músico e ensaísta. Traduziu Sylvia Plath, Rimbaud e Whitman. É um dos editores da revista literária Coyote. Publicou os seguintes livros de poesia: Solarium, Visibilia, Polivox, Nônada e Estúdio Realidade. Lançou o CD Canções do Estúdio Realidade em 2013. 

Resenha de "O Trovador, por Moacir Amâncio, em O Estado de S. Paulo

Trama policial revisita a Londrina dos anos 30

Moacir Amâncio - Especial para O Estado de S. Paulo
07 Novembro 2014 | 19h 30


Primeira incursão no romance de Rodrigo Garcia Lopes, 'O Trovador' cria uma intriga labiríntica que se passa na colonização do norte do Paraná


       À intriga labiríntica de O Trovador, romance policial escrito pelo poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, associa-se um episódio real pouco lembrado: a colonização do norte do Paraná, a partir de Londrina, nome inspirado em Londres. Aí está a deixa fundamental para que o autor criasse uma trama complexa, interessante e original na clave do multiculturalismo. Estão envolvidos no imbróglio desde o rei da Inglaterra e outros nobres, até nazistas atuantes no sul do Brasil, tramoias bancárias, assassinatos, adultérios, o japonês, o italiano, um russo, espionagem, refugiados judeus, prostituição, assuntos literários, paixões, tolices, etc. Mesmo abundantes e díspares os ingredientes se integram à narrativa, enriquecendo-a de nuances destinadas a surpreender e a manter o suspense no ar. O escritor tinha a clara consciência de que estava diante de um jogo de regras conhecidas e perigosas, basta qualquer deslize e a estrutura interna se desfaz. Enfim, um romance policial precisa ser montado como uma máquina irretocável, um jogo de arte literária pura, em seus modelos ideais. E há outros aspectos a serem considerados.
      Ninguém poderá acusar o autor de negligente. Observa-se o cuidado que dedicou a O Trovador, apoiado em pesquisa atenta e apurando a técnica ficcional presente nos mestres do gênero. O início, porém, que tem por cenário a Londres dos nobres, é um tanto pesado, com excesso de palavras, e pode afastar leitores que não estejam dispostos a apostar pelo menos até a página 80, quando a ação dispara. 


Garcia Lopes. Obra foi escrita com base em profunda pesquisa histórica (foto Elisabete Ghisleni)
           

         O excesso de palavras anuncia uma opção contrária à moda de seguir Rubem Fonseca, um mestre da linguagem, e a novela policial norte-americana, algo saudável, no entanto a pergunta é inevitável: será que a escolha foi acertada na medida? Porque o descrito pede mais rapidez, menos detalhamento, daí a tensão durante a leitura, afetada pelo descompasso entre o ritmo da “história” reduzida aos fatos e a calibragem com a narrativa, que não deve prendê-la e sim acompanhá-la em sua dinâmica potencialmente eletrizante. O desajuste do tom tende a se diluir rumo ao final do livro, mas já pode ser tarde demais. 
         Nesse jogo, desta vez, o fabulador parece vencer o escritor. Entre equívocos e acertos, destaque-se a criação de uma personagem dominadora pela ausência e a abertura do final. Engana-se quem pensar que uma solução sirva para desfazer todo o mistério. Há dicas de que algumas histórias podem ter prosseguimento, enquanto outras ficarão nas sombras. Adam Blake, o “detetive” improvisado, na verdade um tradutor meio trapalhão que às vezes exagera no uísque, no vinho ou na cachaça, e sofre com as culpas, mostra-se, no entanto, bastante romântico e simpático para se apaixonar por uma prostituta inconformada e não desistir do futuro, sem esquecer os pequenos desastres e as hecatombes sempre à espera nestes tempos azarões. 


MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP, AUTOR DE ATA (REUNIÃO DE POEMAS, RECORD) E YONA E O ANDRÓGINO – NOTAS SOBRE POESIA E CABALA (NANKIN/EDUSP)

O TROVADOR
Autor: Rodrigo Garcia Lopes
Editora: Record (406 págs., R$ 45; R$ 31 o e-book)

sexta-feira, novembro 07, 2014

Resenha de O TROVADOR (Record) no Valor Econômico

Crimes entre a civilização e a barbárie

Por Gonçalo Junior | Para o Valor

Lopes: narrativa envolvente para contar história passada nos anos 1930 em Londrina


Fluência e certa naturalidade narrativa são algumas das principais características do romance policial "O Trovador", que marca a estreia nesse gênero do tradutor, poeta e prosador paranaense Rodrigo Garcia Lopes. O livro tem méritos em um contexto literário brasileiro marcado pelo modismo de certo experimentalismo exagerado, pretensioso e confuso surgido a partir da década de 1990. Ou seja, o esnobismo intelectual e pouco talento para narrativas de fôlego, disfarçados na complexidade de tramas difíceis de ser compreendidas e pouco sedutoras.
Lopes foge do que se poderia chamar de literatura tortuosa, ao seguir um caminho oposto: seus escritos estão amparados na combinação eficiente das palavras e das frases, que funciona por meio de certo tom lírico. Em especial, nas passagens descritivas, que dão mais solidez à história que se quer contar.
Ele escreve com elegância e estilo. Dá ao leitor o prazer em acompanhar suas peripécias literárias, em situações improváveis, mas que funcionam. Seu desafio foi enorme se considerar que ele optou por contar uma história policial, ambientada em sua cidade natal, Londrina, na década de 1930. O protagonista é Adam Blake, escocês tradutor e intérprete que fala português e está na cidade a serviço da companhia britânica Paraná Plantations Limited - que existiu de verdade e se chamava Companhia de Terras Norte do Paraná. O mistério que lhe cabe desvendar envolve figuras históricas importantes e se desdobra em crimes aparentemente sem solução. Tudo é conduzido a partir de uma rigorosa pesquisa documental, que acaba por permitir uma visualização mais precisa e deixa a narrativa mais envolvente.
A trama se passa durante a colonização do norte do Paraná, quando foi importante o papel da Paraná Plantations. O assassinato que deflagra a investigação de fato aconteceu e ficou famoso na época. A vítima foi o contador da companhia inglesa e a apuração passa a ser coordenada pelo próprio governo inglês, que dá a missão a Blake. Ele se aventura como detetive, em parceria com o delegado brasileiro de sobrenome Silva. Os dois acabam por descobrir coisas bem mais erradas que a simples eliminação de um estrangeiro.
Para costurar a trama, Lopes se serviu da visita ao Paraná, verdadeira, do então príncipe de Gales e futuro rei da Inglaterra, Edward VIII, ao Paraná e o inseriu na trama - a introdução do livro, por exemplo, ocorre em Londres. Desse modo, o autor busca seu propósito de ligar a história ao nascimento da "Pequena Londres", como foi depois batizada - Londrina -, cidade que nasceu como um ajuntamento de raças de todo o planeta que vieram desbravar os confins paranaenses. Como se passaram 80 anos da trama até a atualidade, é de imaginar o trabalho que deu para Lopes reconstruir o período, seu trunfo para seduzir o leitor.

Nessa mistura entre a Inglaterra civilizada e o Brasil selvagem, entre a ficção e a história, Lopes mostra que o futuro rei teria colaborado com ascendente nazismo de Adolf Hitler e levaria à Segunda Guerra a partir de 1939, enquanto o protagonista se apaixona por uma prostituta brasileira. Ele faz algumas adequações, sem prejuízo da sua veracidade, como levar os príncipes Edward e James da Inglaterra a visitar Londrina em 1931. De fato, os dois estiveram no Estado, mas só foram perto da cidade e desistiram, por causa das dificuldades de acesso ao local.
Construído com elementos de erudição sem ser chato e referências dos clássicos romances de crimes, "O Trovador" é uma estreia de prosa longa em grande estilo. Ao contar boas histórias, pouco conhecidas, sobre um Brasil perdido, convence que certos supostos absurdos bem poderiam ter acontecido e tornado tudo mais interessante.

"O Trovador"

Rodrigo Garcia Lopes Record 406 págs., R$ 45,00 / BBB
AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

Trechos

"Por dez minutos os faróis do carro cavaram um túnel de luz na estrada rumo ao Heimtal, um patrimônio a poucos quilômetros do centro, na zona norte da cidade. Quando estacionaram, a lua alta iluminava a cerca viva repleta de alamandas."

***
"Blake levantou-se, devagar. Estudou os movimentos lentos do delegado, seus olhos aninhados por bolsões de gordura. Um molho de chaves tilintou. Silva abriu a cela, estendeu o braço como se fosse um garçom apresentando uma mesa e o convidou até sua sala."

***
"Senhal? Uma palavra que dois trovadores compartilhavam, como uma forma de reconhecimento mútuo. Era usado também como um pseudônimo poético que os trovadores costumam utilizar para seu amor proibido."

terça-feira, outubro 28, 2014

Resenha de O TROVADOR na Revista PESSOA



O TROVADOR NA LINHAGEM POLICIAL
PAULINO JÚNIOR


      Não se pode declarar que um romance policial foi executado e sair impune. Gêneros narrativos bem demarcados, tal como a ficção científica e o terror, exigem mais do que a prestação de homenagem para ser levados a cabo. Não basta polvilhar uma história com trivialidades do gênero para dar conta das aparências. E isso sob o risco do pretensioso escritor cometer uma obra, em vez de concebê-la.
      Rodrigo Garcia Lopes assume esse compromisso em O trovador, romance de 406 páginas recém-lançado pela Editora Record. Há as mulheres voluptuosas, os tipos durões, uma galeria de personagens de caráter duvidoso, os crimes, o mistério e o detetive. No entanto, há o algo a mais que legitima a condecoração de “romance policial”.
       Londrina é a cidade que encerra os pecados capitais dos personagens, com participação especial da vizinha Rolândia, e coadjuvantes estrangeiras como a nebulosa Little Tew e a solene Londres. Amplitude geográfica que se estabelece pela ligação entre a cidade no norte do Paraná e a empresa responsável por sua construção, a britânica Parana Plantations Limited. Ficção policial que não tenha mazelas, trapaças e crimes hediondos ligados a grandes interesses econômicos e políticos, não se dá ao respeito. Portanto, O trovador traz um mote convincente para deslindar temas como colonialismo, exploração agrária e negócios escusos com peso na política internacional.
        O ano é 1936 e o núcleo central dos personagens é calcado em pessoas reais com destaque na fase embrionária da cidade de Londrina. Praticamente a cada página o romance revela o quanto o autor precisou se debruçar sobre livros, documentos e registros históricos para elaborar mais que um pano de fundo e trazer a atmosfera de uma cidade sendo erguida. Em algumas passagens isso aparece até com certo didatismo que não se integra muito bem à trama – típico dos “romances históricos”, que, na preocupação de construir a paisagem de época, terminam exibindo apenas quadros decorativos.
        Em contrapartida, justamente no tocante às descrições no desenvolvimento da trama que o autor acerta a mão. Um componente indispensável na argamassa narrativa do romance policial é a apresentação de cenários e descrições dos personagens, físicas e gestuais, que faz com que o narrador guie o leitor ao ponto de transformá-lo em testemunha ocular. Eis o caminho tênue e tenso para o escritor que requer sua inscrição no gênero policial. O controle entre a precipitação e a morosidade no deslocar das peças no tabuleiro, fazendo com que o leitor/espectador se sinta cúmplice e parceiro do detetive, é o atestado da bem sucedida narrativa de suspense.
         O título da obra – O trovador – também é digno de nota. Simples e emblemático, disfarça o criminoso e coloca a poesia para orbitar o centro da trama. Não menos sugestivo é o personagem que faz a vez de detetive, um tradutor. Adam Blake precisa decifrar a mais complexa pista que um assassino meticuloso poderia reservar: um poema creditado ao poeta provençal Arnaud Daniel. Vale lembrar que Rodrigo Garcia Lopes é poeta reconhecido e tradutor de poesia, portanto, não é por acaso que alude ao ofício que precisa aliar intelecto e intuição para desvendar o sentido por detrás das palavras que se conluiem em versos.
          Também entrevejo no recurso à composição medieval outra referência que o autor se mostra caudatário. Trata-se de uma obra seminal no gênero policial moderno, O falcão maltês, de Dashiell Hammett, em que o artifício usado para agitar os personagens também é uma peça de arte, a estatueta do falcão, que vem a ser uma relíquia medieval. Inferências à parte, o recurso funciona muito bem para dar movimento e densidade à trama.
         Ainda que a princípio os personagens soem um tanto caricaturescos e exija certa disposição do leitor para aceitar a proposta do romance, com o decorrer da leitura, e já envolvido na trama, nota-se a acuidade do escritor em se abster de montar diálogos com a precisão mecânica de respostinhas afiadas na ponta da língua. Sim, há as tiradas espirituosas comuns ao gênero. No entanto, os personagens titubeiam, pensam, respiram, enquanto dialogam, em vez de regurgitarem frases prontas a soar como que saídas de um compêndio de citações. E isso mesmo quando a discussão é de teor erudito.
           Talvez eu devesse ter falado mais sobre o enredo, ter discorrido a respeito das vítimas, que têm passado obscuro e portam segredos que merecem… Enfim, tenho um cacoete que não me deixa esquecer que contar uma história é, sobretudo, um trabalho escrupuloso com a linguagem a partir da escolha das lentes. E, sob esse aspecto, O trovador está acima de qualquer suspeita.




Paulino Júnior é autor de Todo maldito santo dia (Florianópolis: Nave Editora, 2014).

quarta-feira, outubro 22, 2014

Sinopse de O TROVADOR, de Rodrigo Garcia Lopes (editora Record, 2014)


Londres, 1936. No escritório da Paraná Plantations, seu presidente, Lord Lovat, chefe de um dos mais famosos clãs da Escócia, recebe uma inusitada missão: viajar para Londrina, Brasil, a fim de descobrir o remetente de uma carta misteriosa contendo uma canção em provençal. Ao mesmo tempo, deve investigar um crime envolvendo dois funcionários da filial da empresa loteadora britânica, dona de 13 mil quilômetros quadrados das terras mais férteis do mundo. Uma série de crimes começa a acontecer no momento em que ele e seu ajudante, o tradutor-intérprete Adam Blake, pisam a terra vermelha. Em O Trovador, uma canção trovadoresca se torna a pista principal para um esquema que pode por em risco a segurança do Império Britânico. Romance policial cheio de ação, suspense e reviravoltas, além de apresentar recriação histórica e reconstituição de época, O Trovador tem como pano de fundo o imperialismo britânico e a saga do empreendimento que reuniu gente de várias partes do Brasil e do mundo em busca de um objetivo: começar vida nova e conquistar o "Eldorado".

O TROVADOR Rodrigo Garcia Lopes
Editora Grupo Editorial Record
406 p.
R$ 45

Sobre romances policiais - Jo Nesbo

"Os romances policiais tem algo de especial. Eles são como uma conversa íntima com o leitor porque, quando o leitor abre um romance policial, ele cria certas expectativas. Isso significa que, quando abre a primeira página, ele espera que você seja mais ou menos um ilusionista, então ele deve prestar atenção; e funciona quase como uma leitura interativa, em que você providencia o leitor com certas dicas. Eu gosto desse jogo – saber de verdade o que é esperado de você –; ter que, por um lado, atender às expecativas e, por outro, surpreendê-los. Penso que é muito desafiador – e gosto disso.

JOE NESBO


sexta-feira, outubro 17, 2014

"SOMOS PESSOAS" (Rodrigo Garcia Lopes, poema de Solarium, 1994)








somos

pessoas
estranhas

nem sabemos
que sonhos
que somos

esses
olhos
poucos

essas
folhas
secas?

esqueçam
fiquem
calados

somos
estranhos
no entanto

esta noite
dormiremos
lado a lado





***

rodrigo garcia lopes
poema de solarium (editora iluminuras, 1994)

sexta-feira, outubro 03, 2014

"O TROVADOR" NO SÃO PAULO NEWS

‘Pequena Londres’ é palco do primeiro romance de Garcia Lopes

The Burney
Por Redação *

Poeta e tradutor experiente de autores como Sylvia Plath e Walt Whitman, Rodrigo Garcia Lopes estreia no romance com O Trovador, narrativa de gênero polícia que remonta, ficcionalmente, ao período de colonização do Norte do Paraná, mais especificamente, na “fase inglesa” de Londrina.

A “Pequena Londres”, uma Babel erguida a partir dos anos 1930 em função da atividade e dos interesses econômicos da empresa britânica Parana Plantations Limited, é palco de um mistério que envolve figuras históricas e se desdobra em crimes aparentemente sem solução.

Uma canção trovadoresca paira sobre a trama como a poeira vermelha se levanta na região. Como sempre há algo de detetive no ofício de um poeta e de um tradutor, caberá a Adam Blake, tradutor e intérprete escocês, a solução dos enigmas.

Leia, abaixo, trecho do romance:


 — Companhia de terras? – perguntou.
Blake fez que sim.
— Da Inglaterra?
Blake balançou de novo a cabeça.
— Bem-vindo ao fim do mundo… Vai ver em que bela porcaria de cidade o senhor veio parar.
Blake riu.
— Não pretendo ficar muito tempo. Só vim resolver algumas coisas.
— É o que todos dizem. O jeito é se divertir. — A moça arrumou a mecha negra sobre os olhos e concluiu: — Bom, todo mundo é meio estrangeiro. A cidade é nova demais. O senhor fala português muito bem. O que faz da vida?
— Sou tradutor.
A moça continuou sustentando o olhar em direção a Blake. Parecia não ter entendido.
— Eu traduzo o que as pessoas falam ou escrevem — explicou Blake.
Ela deu uma tragada, soprando a fumaça para o teto.
— Ah, então é alguém que vive da palavra dos outros?
Blake fez um olhar surpreso para a moça e deu de ombros.
— Digamos que eu facilito a comunicação entre as pessoas que não falam a mesma língua.
A moça fez que entendia com um gesto de cabeça, bebericou o gim, passando a língua sob os lábios superiores. — Então veio pra cá para nada. Vai logo aprender que em Londrina só se fala uma língua.
— E qual seria?
A prostituta sorriu:
— Dinheiro.”



Trecho de "O Trovador", de Rodrigo Garcia Lopes (Record, 406 págs.)