"Storm the Reality Studio, and retake the universe" ("Assaltem o Estúdio Realidade, e retomem o universo") WILLIAM S. BURROUGHS
sexta-feira, outubro 23, 2020
quarta-feira, outubro 21, 2020
Sobre "O enigma das ondas" (poesia, lançamento Edtora Iluminuras)
O enigma das ondas
O que estão falando sobre o livro
“Parece não haver
tema capaz de intimidar o poeta londrinense: de delações premiadas até a
pandemia do coronavírus, ele mostra como é possível fazer uma poesia que é tão rigorosa
na forma quanto urgente no conteúdo”.
Irinêo Baptista Neto, jornal Plural
“Um livro maravilhoso. Uma coleção de poemas primorosa: alta
voltagem estética, temas múltiplos (as questões políticas entram com elegância,
sem estridência), densidade conceitual e referências instigantes”.
Maria Esther Maciel
“A força deste mundo pandêmico controla indiscriminadamente
O enigma das ondas, seu fatal desafiador”.
Silviano Santiago
“Li e reli, com toda a atenção, os poemas de Rodrigo e, para
minha grande surpresa, descobri em seu conjunto, uma trama que os configura e
— para mim — os sustenta. Não é que eles se formam, se
desenvolvem, se armam, explodem e se aplacam como uma grande vaga?”.
Aurora Bernardini
“Em O enigma das ondas Rodrigo Garcia Lopes vai fundo em seu
mergulho pelos tempos atuais. As notícias renovam suas surpresas, mas a
situação não muda. É também esse o espírito de um poema sobre o filme “O
Feitiço do Tempo”, em que Bill Murray acordava sempre no mesmo dia do ano. Com
grande perícia, Rodrigo Garcia Lopes emprega a forma da sextina.
Marcelo Coelho, Folha de S. Paulo
“O enigma das ondas exige que o leitor vá além da diversão
rumo aos problemas que uma poética deve encerrar”.
Jardel Dias Cavalcanti e Ronald Polito, em Digestivo
Cultural
“O autor olha para os conturbados episódios dos dias atuais
como acontecimentos do passado. Faz do distanciamento uma lente de lucidez que
abraça todas as possibilidades do pensar e do sentir”.
Marcos Losnak, Folha de Londrina
“O poeta envereda por uma certa linha de ação, não se
impedindo idas à história da literatura, nem à atualidade, inclusive pandêmica,
nem à vida interior. Há versos maravilhosos, num outro poema, sobre as relações
da vida com as palavras...”
Leda Tenório da Motta
“Poesia honesta e da melhor qualidade, com textos que ao
mesmo tempo confrontam, afligem e atraem – como as efêmeras e concretas e
enigmáticas ondas do mar”.
Luciano Trigo, Gazeta do Povo
“Especialmente em tempos de pandemonium e pandemia, seu
enigma em forma de onda nos leva a realizar o melhor aéreo reverso da
sensibilidade. [...] Uma onda é um monumento momentâneo. Mas O enigma das ondas
durará”.
Vitor Ramil
“Um convite corajoso, o da existência e persistência da
poesia em tempos tão sombrios”.
Diana Junkes, Revista CULT
“Um dos grandes livros da década, e não apenas de poesia”.
Adalberto Muller
“Um momento alto da poesia brasileira recente".
Samuel Leon
“Li o novo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes. Pela
pegada, pelo que falam os poemas desse nosso momento de caos (mostrando que a
poesia pode falar de tudo), por seu lirismo transcendente, é já (na minha
opinião) um dos melhores livros de poesia do ano, se não for o melhor (acho que
sim). Faço minhas as palavras do grande compositor Vitor Ramil sobre "O
Enigma das Ondas". Leiam e supreendam-se!
Maurício Arruda Mendonça
“Por ironia, a obra consolidada em tempos de isolamento
severo é seu trabalho com mais vasos comunicantes. [...] Importa saber que O
enigma das ondas é filho admirável de uma Idade de Trevas”.
José Carlos Fernandes, Revista Pinó
terça-feira, outubro 13, 2020
terça-feira, outubro 06, 2020
Revista CULT: resenha de ‘O enigma das ondas’, de Rodrigo Garcia Lopes, por Diana Junkes
https://revistacult.uol.com.br/home/rodrigo-garcia-lopes-uma-leitura/
Revista CULT:
Poesia, doa a quem doer: uma leitura de ‘O enigma das ondas’, de Rodrigo Garcia Lopes
1.
Diana
Junkes
O enigma das ondas,
de Rodrigo Garcia Lopes, recém-publicado pela Iluminuras, traz ao
leitor um convite corajoso, o da existência e persistência da poesia em tempos
tão sombrios. Mais que isso, sem deixar de doer, sangrar e denunciar as mazelas
que nos assolam no tempo presente e mesmo as históricas, há uma profunda
reflexão sobre o tempo, sobre o amor e o silêncio, perpassando a obra, ocultos
nas ondas, em seus ouvidos invisíveis que nos ouvem há milênios, e nos devolvem
em seu murmurejo constante, a nós mesmos, mas que um sentido, os sentidos, a
visão, o olfato, o paladar, o tato e, claro, a audição, a voz. É o que sugere o
poema que encerra o livro e dá título a ele, “Enigma das ondas”:
[…]
Sei que as ondas nos escutam (falando,
sozinhos nas praias, cegos a seus acenos)
há milhares e milhares de anos
com uma paciência que não temos.
Sei que sob a lua, exaustas, confessam,
quando recuam, mudas, em poças,
e cumprem sua líquida promessa:
A língua que falam é a nossa.
Essa língua falada e ao mesmo tempo inaudível aos
ouvidos insensíveis não é outra senão a própria lalangue,
que como ensina Haroldo de Campos em O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua, é a língua do inconsciente tensionada em função
poética, materialidade pura feita de palavras que performam a si mesmas, ainda
quando o poeta as renega para encontrar sabiamente o amparo solidário do
silêncio. Solidão e silêncio são companheiros inseparáveis em muitos dos versos
de Garcia Lopes. Mas engana-se quem espera dessa conjunção entreguismo ou
tristeza. Solidão e silêncio são parte da subjetividade poética, constituem-na
e por ela são constituídos, engendram versos, orquestram enjambements. Talvez
arriscasse dizer que entre tantos, aí está um leitmotiv caro ao livro todo.
O enigma das ondas,
diz Vitor Ramil, na quarta capa, “nos leva a realizar o melhor aéreo reverso da
sensibilidade”. E é disso que se trata também quando se fala da coragem. Em um
mundo mesquinho e pautado pelas mentiras, mais ainda do que pelo que talvez se
chama “pós-verdade”, a que um poema do livro se refere, a sensibilidade deve
nos manter vivos, atentos, destemidos. Não sentir não é uma opção. Isso nos
ensina O enigma das ondas,
mais que um aprendizado da experiência, é um aprendizado da escuta, da partilha
e da interrogação da experiência, seja pela via mais lírica, seja pela via do
humor ou da ironia, expedientes que o poeta maneja com maestria. Diz Silviano Santiago na apresentação que “A
página em branco é uma onda vivaz e espumosa, a caminho do túnel”; e o túnel
somos nós, leitores, por onde a palavra penetra sutilmente, abruptamente, sob o
murmúrio das ondas ou dos vagalhões. É também a poesia, seu acesso, seu exílio
em si ao mesmo tempo que arraigada na história, na memória e nas utopias, na
“Vontade de crer”:
[…]
Acabou a caneta, o vinho tinto.
O esplendor será secreto.
O espelho nunca esteve tão sozinho.
Mas tudo vai dar certo.
Aqui, a vontade de crer se afirma em “tudo vai dar
certo”, à primeira vista, mesmo considerando certo acento irônico; as rimas
toantes e, claro, o equilíbrio que engendram rimas nas últimas palavras dos
versos, ainda sonham com um mundo apolíneo, não pela ordem e pela perfeição, as
rimas toantes são imperfeitas, mas um mundo em que o diálogo prevaleça – as
rimas toantes são a figurativização do diálogo no poema, pois em sua diferença,
harmonizam. E já nos ensinou Walter Benjamin, em A crítica da violência que onde há entendimento, não há crueldade. As
rimas toantes, neste poema, mostram que a diferença é também o laço, o lastro
que reitera que tudo vai dar certo, são por assim dizer, o próprio
entendimento.
Nas quatro seções do livro, a saber, língua, pandemonium, mentis, loci a sensibilidade provoca fraturas e suturas,
um mergulho sob as ondas imensas do insondável, da crueza e da vileza, mas
também do amor, e esse me parece um aspecto que merece ser elucidados, já que a
crítica – bastante volumosa, para um livro que acaba de nascer – vem
apontando outras praias para a leitura. Vou, portanto, neste exíguo espaço da
coluna, ater-me a um poema em que esse tema salta aos olhos.
Rimas pobres
Dar
o que ninguém quer
Querer
o que não se pode dar
Amar
doa a quem doer
A pobreza das rimas reverbera no jogo de
contradições entre as estrofes, não por acaso, dísticos. É assim que o
sujeito lírico articula o grande desencontro do amor, pelo encontro dos versos,
pela valsa dos versos. Uma equação, a do amor, para a qual não há solução a não
ser amar, a despeito de tudo, “doa a quem doer”. De algum modo, e extrapolando
os sentidos para além do poema, ou seja, refletindo a partir do que ele convida
a fazer, a poesia talvez coubesse nessas “rimas pobres”, de certo modo ela é o
que ninguém quer, como acesso ao sentido e não como sentido em si, não oferece
pausas ou refrescos, é um ponto de impossível ao mesmo tempo que abre tantas
possibilidades. Em um mundo cinza, agreste, de tanta incompreensão, o enigma é
a poesia em si, sua força, seu poder de revolver entranhas, mudar o curso das
marés, doa a quem doer.
DIANA JUNKES é
poeta, crítica literária e professora da UFSCar. Escreve mensalmente a coluna
“Musa militante”.
segunda-feira, outubro 05, 2020
Resenha de "O enigma das ondas" (lançamento Iluminuras), por Luciano Trigo
Resenha de "O enigma das ondas", publicada hoje em Gazeta do Povo:
***
DA POLÍTICA À COVID-19, POEMAS ANCORADOS EM UMA ESTRANHA REALIDADE
Luciano Trigo
O escritor, compositor, tradutor e jornalista londrinense Rodrigo Garcia Lopes está lançando pela editora Iluminuras seu sétimo livro de poesia. Laboriosamente escrito desde 2015, “O enigma das ondas” reúne 91 poemas e se divide em quatro partes.
A primeira, “lingua”, reúne poemas metalinguísticos, que refletem sobre o ato criativo e o fazer poético, mas também sobre aspectos mais concretos da atividade literária, como a dinâmica social do meio e os caprichos do mercado, sempre pronto a exaltar mediocridades convenientes (“Em lugar de poesia eu trago a pose/ (o que você achou que fosse?)/ Não importa ter algo a dizer// Eu quero a poesia gourmet”).
São poemas que, de certa forma, registram o duplo embate do escritor com as palavras e com a realidade – poemas que nascem do atrito entre as duas (“O mundo passa/ pela janela da palavra/ para tocar a realidade”; “Saiam da frente, palavras” etc) e estabelecem pontes sempre efêmeras entre as duas. Brincam, também, com questões teóricas como a “morte do autor” (“Agora temos um problema:/ quem vai assinar este poema?”)
O poema de abertura, “Aéreo reverso” faz um uso inventivo (ainda que não exatamente original) do espaço da página para estabelecer um paralelo entre as atividades de surfar e escrever: a linguagem como mar, que exige habilidade, sorte e coragem. Já a série de epigramas reunidos em “Short cuts” demonstra o talento do autor para a sátira afiada em instantâneos repletos de ironia.
Na segunda parte, “pandemonium”, Rodrigo Garcia Lopes usa a poesia como comentário e crítica política sobre a realidade brasileira (“Para toda maioria silenciosa/ há uma minoria tagarela”), incorporando alguns poemas escritos após a eclosão (e na reclusão) da pandemia de Convid-19. São poemas que têm um sabor de crônica e um sentimento de urgência, ao mesmo tempo serenos e angustiados, como “Vontade de crer” (“Patifes e assassinos por toda parte/ Hipócritas ditam o que é correto./ Só nos resta o agora, esta arte:/ Tudo vai dar certo”) – ou o longo “Pandora”, inspirado pela pandemia e transcrito no final desta resenha.
A terceira e a quarta partes, “mentis” e “loci”, reúnem poemas mais introspectivos, reflexivos e oníricos, que dialogam com um vasto repertório de estilos e tradições poéticas e demonstram a habilidade técnica do autor. A propósito de sua aparente ausência de lealdade a um estilo, o autor declarou em entrevista recente: “Cada poema é uma aventura, a forma aparece no momento da escrita: a forma encontra o seu poema e o seu instante”.
A ilustração da capa evoca a gravura famosa do artista japonês do século 19 Kanagawa, que mostra uma onda monstruosa prestes a engolir alguns barcos. Essa expectativa de algo trágico congelada no tempo, no registro de um instantâneo da realidade, é um sentimento recorrente na leitura do livro. Embora apresente aqui e ali poemas mais fracos (porque mais fáceis), como “Mobydick” e “Tango”, que não fariam falta se excluídos do volume, “O enigma das ondas” traz poesia honesta e da melhor qualidade, com textos que ao mesmo tempo confrontam, afligem e atraem – como as efêmeras e concretas e enigmáticas ondas do mar.
Leia abaixo o poema “Pandora”, de Rodrigo Garcia Lopes:
Pandora
Pânico, pandemia, pandemônio:
é o inimigo invisível, é o novo demônio,
é a face coberta por um pedaço de pano,
é o humano reaprendendo a ser humano.
É uma carreata de caixões pelas ruas de Turim,
é o translúcido azul do céu de Pequim.
É o papa rezando na São Pedro deserta,
são as águas transparentes dos canais de Veneza.
Parece que faz tanto tempo que tudo aconteceu,
presos no labirinto com Minotauro e Teseu.
Legiões de desempregados em Teerã, São Paulo, Paris.
As calçadas de Guayaquil estão cheias de cadáveres.
Estão pregando tapumes nas fachadas.
Todas as fronteiras foram fechadas.
Os médicos e coveiros estão exaustos.
Os jornais nem noticiam mais o holocausto.
São pilhas de corpos-números cobertos por um véu,
São poemas que jamais sairão do papel.
Os confinados batem panelas, invocam os magos,
pumas invadem as avenidas de Santiago.
É uma vida pulsando entre a pedra e a espada,
é o prenúncio de uma economia global robotizada.
São velórios e shoppings vazios, praias desertas,
é o começo de um renascimento, é o fim de uma era.
É o silêncio ensurdecedor e o medo de morrer,
é o tempo pra ler toda a obra de Shakespeare,
é a chance de ser o maior experimento
de controle social de todos os tempos.
É um exército branco higienizando as cidades,
é um planeta em quarentena por toda a eternidade.
É um homem que saiu do isolamento e nunca mais foi visto,
são fanáticos gritando O Vírus é o Anticristo.
São anjos em polvorosa sobre os céus de Berlim,
são amantes aprendendo a amar enfim.
Já ninguém ouve o que os agonizantes urram,
os metrôs voltaram hoje a circular em Wuhan.
É solidão compulsória, é um estado de sítio,
são coiotes vagando livres por San Francisco,
É uma flor desabrochando durante a tempestade
(pois quando tudo acabar talvez seja tarde).
É a solidão futurista da Times Square,
é o suicida alcançando um revólver.
São navios de cruzeiro proibidos de atracar,
são hospitais abarrotados em Milão, Rio, Dakar.
Pássaros continuam voando, geleiras caindo,
há um pôr do sol distante, solitário e lindo.
É viver entre as paredes dos parênteses
em reticências que se alongam como meses.
É o mundo inteiro em stand-by,
é o corpo lutando por ar.
***
Luciano Trigo é escritor, jornalista, tradutor e editor de livros. Autor de 'O viajante imóvel', sobre Machado de Assis, 'Engenho e memória', sobre José Lins do Rego, e meia dúzia de outros livros, entre eles infantis.**Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
segunda-feira, setembro 28, 2020
Lançamento (poesia): "O enigma das ondas", de Rodrigo Garcia Lopes
Rodrigo Garcia Lopes
O enigma das ondas é
o sétimo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, um dos mais instigantes e
inquietos poetas brasileiros que vem, desde os anos 80, construindo uma
sólida carreira literária, com vários títulos publicados por esta casa
editorial.
Rodrigo
Garcia Lopes traduziu Epigramas, de Marcial, O navegante (anônimo
anglo-saxão), Rimbaud, Whitman, Apollinaire, tendo apresentado as obras de
Laura Riding e Sylvia Plath ao leitor brasileiro. Também lançou um livro de
entrevistas com personalidades da arte e da cultura norte-americanas, um
romance policial, dois álbuns de canções e coeditou por doze anos a revista Coyote,
publicando poetas e prosadores brasileiros e do exterior.
O enigma das ondas
revela um poeta em plena maturidade, que reacende a força e a relevância da
poesia, mostrando que ela pode explorar em profundidade, e em registros
múltiplos, a realidade contemporânea e a existência. Em 91 peças, o volume traz
poemas líricos, políticos, críticos, satíricos e reflexivos.
Seus poemas enfrentam o mundo
esteticamente e exibem uma urgência vital em nossos tempos turbulentos, como em
“Selvageria”: “No fim o desembargador era o chefão de uma milícia assassina / E
o incêndio na favela celebrado com fuzis e buzinas. / Mais cadáveres encontrados na lama da barragem / E o coronel torturador ganha
mais uma homenagem [...]”. Ou momentos líricos como “Na praia,
junho”: “[...] os olhos bordejando as ilhas distantes / antes mastigaram o
nevoeiro / nossos corpos satisfeitos e ainda quentes / lendo as pistas que os
detetives noturnos não seguiram / os pés imprimindo em sua passagem /
a sensação de uma vida acontecendo / limpa como a areia após a onda”.
Poesia como
investigação, aventura da palavra, forma de conhecimento do mundo.
Pela abrangência de
questões, pelo esmero estético, O enigma das ondas é um momento
alto da poesia brasileira recente.
Samuel Leon
152 páginas | 15,5x22,5
ISBN: 978-6-555-19048-9
R$: 53,00
Já em pré-venda na loja virtual da Editora Iluminuras com 40% de desconto:
https://www.editorailuminuras.com.br/o-enigma-das-ondas
quarta-feira, setembro 23, 2020
"Pandora", poema de "O enigma das ondas", de Rodrigo Garcia Lopes (lançamento editora Iluminuras)
Pandora
Pânico,
pandemia, pandemônio:
é o
inimigo invisível, é o novo demônio,
é a face coberta
por um pedaço de pano,
é o
humano reaprendendo a ser humano.
É uma
carreata de caixões pelas ruas de Turim,
é o
translúcido azul do céu de Pequim.
É o papa
rezando na São Pedro deserta,
são as
águas transparentes dos canais de Veneza.
Parece
que faz tanto tempo que tudo aconteceu,
presos no
labirinto com Minotauro e Teseu.
Legiões
de desempregados em Teerã, São Paulo, Paris.
As
calçadas de Guayaquil estão cheias de cadáveres.
Estão
pregando tapumes nas fachadas.
Todas as
fronteiras foram fechadas.
Os
médicos e coveiros estão exaustos.
Os
jornais nem noticiam mais o holocausto.
São
pilhas de corpos-números cobertos por um véu,
São
poemas que jamais sairão do papel.
Os confinados batem panelas, invocam os magos,
pumas
invadem as avenidas de Santiago.
É uma
vida pulsando entre a pedra e a espada,
é o
prenúncio de uma economia global robotizada.
São
velórios e shoppings vazios, praias desertas,
é o
começo de um renascimento, é o fim de uma era.
É o
silêncio ensurdecedor e o medo de morrer,
é o tempo
pra ler toda a obra de Shakespeare,
é a
chance de ser o maior experimento
de
controle social de todos os tempos.
É um
exército branco higienizando as cidades,
é um
planeta em quarentena por toda a eternidade.
É um homem que saiu do isolamento e nunca mais foi visto,
são
fanáticos gritando O Vírus é o Anticristo.
São anjos
em polvorosa sobre os céus de Berlim,
são
amantes aprendendo a amar enfim.
Já
ninguém ouve o que os agonizantes urram,
os metrôs
voltaram hoje a circular em Wuhan.
É solidão
compulsória, é um estado de sítio,
são
coiotes vagando livres por San Francisco,
É uma
flor desabrochando durante a tempestade
(pois
quando tudo acabar talvez seja tarde).
É a
solidão futurista da Times Square,
é o
suicida alcançando um revólver.
São
navios de cruzeiro proibidos de atracar,
são
hospitais abarrotados em Milão, Rio, Dakar.
Pássaros
continuam voando, geleiras caindo,
há um pôr
do sol distante, solitário e lindo.
É viver
entre as paredes dos parênteses
em
reticências que se alongam como meses.
É o mundo
inteiro em stand-by,
é o corpo
lutando por ar.
O enigma das ondas (152 págs., lançamento da Editora Iluminuras)
"O enigma das ondas" na coluna de Marcelo Coelho (Folha)
Obras de Sérgio Medeiros e Rodrigo Garcia Lopes ensinam a contemplação
No confinamento, poesia levanta voo e todos ficamos
mais contemplativos, distantes e curiosos na vida alheia
22.set.2020 às 23h15
Olhar o mundo pela janela sempre foi ocupação de
poetas, mas a Covid intensifica a coisa.
Vamos todos ficando mais contemplativos, distantes
e curiosos no que diz respeito à vida alheia.
Mais do que isso, há a estranheza diante dos novos
hábitos, o surrealismo das ruas desertas, o espanto diante da morte coletiva.
Assunto não falta.
Em “O Enigma das Ondas”, livro recém-lançado pela
Iluminuras, o poeta Rodrigo Garcia Lopes vai fundo em seu mergulho pelo tempos
atuais.
“É a face coberta por um pedaço de pano”, diz ele,
“é o humano reaprendendo a ser humano.// É uma carreata de caixões pelas ruas de
Turim,/ é o translúcido azul do céu de Pequim.// É o papa rezando na São Pedro
deserta,/ são as águas transparentes dos canais de Veneza.// Parece que faz
tanto tempo que tudo aconteceu,/ presos no labirinto com Minotauro e Teseu.”
A sucessão de dísticos rimados, que se estende
longamente, produz o efeito de quem folheia as páginas de um mesmo jornal, num
dia que não acaba. As notícias renovam suas surpresas, mas a situação não muda.
É também esse o espírito de um poema sobre o filme
“O Feitiço do Tempo”, em que Bill Murray acordava sempre no mesmo dia do ano.
Com grande perícia, Rodrigo Garcia Lopes emprega a
forma da sextina —em que a palavra final de cada verso tem de ser repetida ao
longo de seis estrofes diferentes.
Desse modo, numa estrofe o personagem, Phil,
percebe que “Às seis tocou o rádio-relógio que ele jogara fora:/ “Mas que
inferno este eterno presente!”/ No quar
to, tudo no mesmo lugar de ontem,/ quando ao som de
Sonny & Cher se levantou às seis/ e diante do espelho perguntou: ‘Será
diferente hoje?’/ —Nasci de mim quando acordei. Tento outra vez?”.
Em outra estrofe, as últimas palavras se repetem:
“‘A marmota viu a sombra antes de ontem,/ ontem, hoje também. Vou dizer mais
uma vez,/ Sou imortal! Sou Deus!’ Foi quando seis/ caipiras jogaram o homem do
tempo pra fora/ do café. Acreditava agora estar num mágico presente./ ‘Algo me
diz que nada será como hoje’”.
A sensação de aprisionamento é vencida, por vezes,
num gesto raivoso. Em “Últimas Notícias”, Garcia Lopes coleciona clichês
jornalísticos no começo de cada verso, subvertendo-os num desbordamento
poético: “o mercado assimilou mal a notícia do vazamento da neblina nas
montanhas, o
sonho dos homens, essa maldita vontade de durar”.
Outras vezes, a contemplação e o assombro vencem o
sentimento de sufoco, e o tempo, que estava em círculo vicioso, parece conhecer
uma ruptura: “Um clarão incrível! revela/ o vulto recortado da costa/ mais ao
sul onde o escuro/ se rebela num flash/ de uma câmera gigantesca/ minutos antes
do ataque/ da tempestade: montanhas”.
É como se só pudéssemos ver o que já acabou de
existir.
Não sei se a quarentena inspirou diretamente os
textos de outro poeta, Sérgio Medeiros. Mas, em “O Barraco das Letras e dos
Hieróglifos” (disponível gratuitamente em medeirossergio.blogspot.com), o jogo
entre prisão e liberdade, morte e sobrevivência, parece responder às sensações
da pandemia.
Como nos outros livros de Medeiros, há aqui uma
capacidade sobrenatural de anotar, como se visto de longe, ou mais precisamente
de uma janela de apartamento, o evento minúsculo, impregnado de vida.
“De costas no chão o besouro parece meio
adormecido…”, escreve Medeiros; “então as formigas se põem a embalá-lo…”.
Nesses poemas, sempre de duas linhas, topamos com tudo quilo que poderia voar,
mas não voa, e o que não pode, mas voa mesmo assim.
“Braços de motoristas pendem/ sobre a rua como asas
inúteis”, diz um poema, enquanto em outro “as nuvenzinhas são como dois
filhotes de cadela:/ se cheiram e se mordem e depois rolam abraçadas”. Enquanto
isso, “A pista está vazia mas lá na cabeceira envolta numa baforada/ de calor
uma cauda opaca gira trêmula”.
E é ainda de confinamento que se trata, quando “no
quarto frio do menino o cata-vento verde/ gira sem parar no pote de lápis sobre
a mesa”, ou “na única sacada acesa da ruazinha escura/ uma moça dá murros num
saco de pancada”. Ou quando “escorrem fios brancos das/ orelhas dos
adolescentes”.
Em outra visão do aeroporto, Sérgio Medeiros nota
que “a sombra rápida passa pela pista silenciosamente/ sem o avião grande que
só toca o solo depois”.
Há muita arte em deixar esse “depois” como última
palavra do verso. Como no “Feitiço do Tempo”, não há quem não esteja esperando,
hoje, esse “depois” que nunca chega.
Marcelo Coelho
Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com
Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.




