"Storm the Reality Studio, and retake the universe" ("Assaltem o Estúdio Realidade, e retomem o universo") WILLIAM S. BURROUGHS
quinta-feira, setembro 08, 2016
Show com Rodrigo Garcia Lopes e Eduardo Batistella no Sesc Cadeião Cultural
Link para a matéria, aqui:
http://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/um-show-duas-linguagens-957092.html
Poemas na revista Vallejo & Co. (Rodrigo Garcia Lopes)
Saíram 9 poemas traduzidos por Reynaldo Jimenéz na revista Vallejo & Co.
Link: http://www.vallejoandcompany.com/seleccion-de-9-poemas-de-rodrigo-garcia-lopes/
Link: http://www.vallejoandcompany.com/seleccion-de-9-poemas-de-rodrigo-garcia-lopes/
quinta-feira, julho 07, 2016
O NAVEGANTE E MINDSCAPES - resenha Folha de S. Paulo
OBRAS TRILHAM PERCURSO DA FUNDAÇÃO À CRISE DO VERSO
MARCELO PEN
Da fundação à crise na poesia. Esse é o percurso sugerido por dois recentíssimos lançamentos, "O Navegante" e "Mindscapes: Poemas", ambos traduzidos pelo poeta, ensaísta e editor londrinense Rodrigo Garcia Lopes, 39.
"O Navegante" pertence ao domínio oral anglo-saxão, com texto fixado por um monge no século 10. Ezra Pound, que verteu um grande trecho da obra para o inglês, disse em "O ABC da Literatura" que realizou a tradução "para que possam mais ou menos ver onde a poesia inglesa começa".
Já "Mindscapes" é uma coletânea da poeta modernista americana Laura Riding (1901-1991). Depois de uma recepção retumbante, em que foi elogiada por William Carlos Williams, Auden e até (com reservas) por Yeats, Riding abandonou a poesia por quase 30 anos.
Laura havia chegado a um impasse. Para ela, há um conflito entre a forma e o conteúdo da poesia. O artifício da linguagem literária teria deixado de expressar o dizer verdadeiro, o objetivo final da arte poética. Ou, como diz ela, "a verdade começa onde a poesia termina".
Riding é uma figura curiosíssima e polêmica. Filha de um militante bolchevique judeu (que aspirava para ela a condição de uma Rosa Luxemburgo ianque), decidiu para o desgosto do pai tornar-se poeta. Um dos fundadores do "New Criticism", Allan Tate, descobriu-a em 1924. Seu primeiro livro foi publicado pela editora de Leonard e Virginia Woolf. Muito mais tarde, Paul Auster dirá: "Nenhum escritor exigiu mais das palavras do que Laura Riding".
É preciso entender a atitude de Laura dentro do contexto histórico. Os modernistas procuraram aproximar a arte da vida. Muitas vezes, quando ela fala da "verdade" (da "primeva insonoridade da verdade"), está referindo-se ao que acreditava ser o mister poético, o de atingir a pulsão real da existência por meio das palavras. "Desde o começo, a poesia para mim era território da vida, não da literatura", escreveu.
No auge da carreira, em 1938, após publicar "Collected Poems", renega a poesia e muda-se com o novo marido, Schuyler Jackson, para uma fazenda da Flórida, onde se dedica ao comércio de frutas. Nos anos de 1960, Tate diz ter ouvido que Laura estava "em algum lugar lá embaixo na Flórida cultivando laranjas".
Não deve estranhar o fato de a judia Riding ter renunciado à literatura no início da Segunda Guerra Mundial, antecipando-se à máxima de Theodor Adorno de que "escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie"."), está referindo-se ao que acreditava ser o mister poético, o de atingir a pulsão real da existência por meio das palavras. "Desde o começo, a poesia para mim era território da vida, não da literatura", escreveu.
N ão deve estranhar o fato de a judia Riding ter renunciado à literatura no início da Segunda Guerra Mundial, antecipando-se à máxima de Theodor Adorno de que "escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie".
Doces bárbaros
"Bárbaros" pode ser a forma de muitos considerarem os tempos em que foi composto "O Navegante", quando as tribos dos anglos e dos saxões lutavam contra constantes ataques dos viquingues escandinavos. O poema pode ser visto como um longo lamento de um marinheiro, isolado no mar, dividido entre o anseio pela liberdade e os confortos da aldeia, entre a vida efêmera e a morte certa ("... uma entre três coisas // pesam na balança/antes da hora fatal // doença, velhice/ou ódio-de-espada").
Segundo Jorge Luis Borges, que traduziu o poema para o espanhol, a subjetividade lírica de "O Navegante" anuncia poemas de Arthur Rimbaud e de Walt Whitman. No posfácio da edição brasileira, Garcia Lopes observa que muitos "temas caros a toda poesia inglesa posterior estréiam em grande estilo em "O Navegante'".
Ele gastou dois anos para verter os 125 versos do poema. Antes, o que tínhamos era uma tradução de Augusto de Campos, baseada na versão inglesa de Pound. Lopes precisou aprender anglo-saxão e enfrentar algumas peculiaridades desse tipo de poesia, que não se baseia em estrofes e rimas, mas na aliteração, no ritmo sincopado e em compostos expressivos chamados de "kennings" ("estrada-da-baleia", por exemplo, quer dizer "mar").
"Gosto de aventura e tenho uma eterna curiosidade por poesia antiga, tanto quanto moderna", confessa Garcia Lopes à Folha. "Tive como ferramenta indispensável uma versão em hipertexto, literal e completa, do poema; e acesso a dezenas de outras traduções de apoio. Estou seguro quanto ao resultado, tanto que o livro é bilíngüe."
O tradutor acredita que a poesia de "O Navegante" e a de Laura Riding têm em comum a "investigação do consciente, da identidade, da mente que acerta contas consigo mesma". Laura, que nunca deu pelota para o peso da tradição, mas valoriza a eterna contemporaneidade da obra de arte, concordaria.
***
O NAVEGANTE. Autor: anônimo. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes. Editora: Lamparina. Quanto: R$ 25 (80 págs.).
MINDSCAPES. Autora: Laura Riding. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes. Editora: Iluminuras. Quanto: R$ 42 (256 págs.).
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2512200411.htm
quarta-feira, julho 06, 2016
Canções do Estúdio Realidade: Recepção e Alguma Critica
Canções
do Estúdio Realidade é um disco maravilhoso, que escutei nas estradas da
Paraíba, a caminho do sertão e me deu muita alegria e sensações variadas.
CHICO
CÉSAR, músico e compositor
Refinar
o pop a partir da experiência literária não é um sonho novo. Rodrigo Garcia
Lopes faz curioso percurso em seu segundo disco. Aqui, se dá o inverso: é a
leveza do pop que impulsiona uma trama poética sutil [...] Uma natural
familiaridade costura as harmonias do poeta, que nos leva, pelo som, a um
território antigo e novo ao mesmo tempo.
JOTABÊ
MEDEIROS, crítico de música, O Estado de S. Paulo
Em
12 faixas com letras de veio poético, o artista tece uma ode à canção com
arranjos melodiosos e que tomam forma híbrida de jazz e MPB, acentuada pela
formação da banda, que tem baixo acústico, piano, bateria e violão. [...]
Garcia Lopes também foi próximo de Paulo Leminski (1944-1989), outro que
desarranjou as fronteiras entre música e poesia, e de quem musicou versos.
RODRIGO
LEVINO, Folha de São Paulo.
Tendo
a palavra como base, o compositor e poeta se lança em trilhas sonoras
ambiciosas e variadas -- por jazz, funk, afoxé -- sempre valorizando as
harmonias. O resultado oscila entre canções exatas e (bons) poemas.
LEONARDO
LICHOTE, crítico de música, O Globo.
Doze
anos depois da estreia em disco, o paranaense Rodrigo Garcia Lopes volta a lançar
um álbum musical. No ótimo Canções do Estúdio Realidade, o poeta,
compositor e tradutor visita a canção popular com desenvoltura, explorando as
características específicas do gênero sem cair na armadilha de fazer mera
poesia musicada.
ROGER
LERINA, crítico de música, Zero Hora.
Rodrigo
Garcia Lopes, autor de Polivox, é mesmo um cara de muitas vozes. Vozes dele,
vozes de outros. Não é toda a hora que se encontra gente múltipla assim, que
escreve poesia e ensaios, faz entrevistas, toca violão, compõe, canta...Tudo
bem feito, claro. Para o público em geral, ávido de cultura, uma
personalidade criativa e livre dessas por perto, nesta época de especializações,
de nichos de mercado, de repetições e limitações, é motivo para comemorar.
VITOR
RAMIL, músico, cantor, compositor e escritor.
Grande
esmero, produção caprichada mesmo. Prestei atenção em tudo, com um destaque
especial às linhas de baixo, voz e a equalização das vozes, mixagem, os
arranjos...tudo muito bem feito. Parabéns. Muito interessante pra mim ouvir um
disco bem diferente do que faço, mas igualmente trabalhado e ambicioso. Fiquei
contente de conhecer seu trabalho musical. Aliás, todos os instrumentos soam
bem. Parabéns mesmo, e sabe, adorei a sua versão pra música Nobody does it
better. Não só o arranjo é ótimo, como a sua voz soa deliciosa.
MARINA
LIMA, cantora e compositora.
Lírico,
moderno, cinematográfico e com um "livrinho" que faz jus ao disco.
Muito bom! Arrojado, cheio de experiências com versos e com maneiras de dizer.
Também gostei dos arranjos, bastante adequados ao projeto. Uma bela exploração
sinestésica da realidade.
LUIZ
TATIT, músico, compositor e teórico de música brasileira.
Abrir
o disco Canções do Estúdio Realidade é empreender uma viagem ao um bom
tempo da música. Um tempo que resiste na memória e no coração de uma bela
canção. Entrar no estúdio realidade é como entrar num livro, num bom livro.
LUIZ
CLAUDIO OLIVEIRA, crítico de música, Gazeta do Povo.
Em
Canções do Estúdio Realidade não há duas faixas parecidas, com Rodrigo
demonstrando uma tremenda versatilidade, cantando balada, blues, funk, jazz,
rock, rap e canções de sua autoria com autenticidade. As letras falam da
condição humana (ex, ‘Quaderna’) e da vida no mundo moderno (ex, a sobrecarga
sensorial em ‘New York’). Todas as canções são em português, com exceção
da bela balada ‘Butterfly’, escrita em inglês. [parceria com Neuza Pinheiro].
Sua incrivelmente bela interpretação de ‘Nobody does it Better’ [aqui na sua
própria versão em português, Ninguém Melhor que Ela] é o melhor tratamento
que a composição já recebeu. Seu estilo violonístico e a progressão de
acordes em ‘Quaderna’ traz à mente o violonista Guinga. O funk-rap ‘New York’
evoca a Farofa Carioca. Os arranjos, a maioria de André Siqueira, são
luminosos (ex. ‘Cerejas’). Os músicos são esplêndidos (por exemplo, a
deliciosa introdução de baixo de Gabriel Zara e o solo e acompanhamento
pianístico de Mateus Gonsales em ‘Iluminações [parceria com Bernardo
Pellegrini], só para dar dois exemplos. Tudo combinando com a qualidade do
livro suntuoso de 36 páginas [por Marcos Losnak e Beto] com evocativas fotos
coloridas [por Elisabete Ghisleni]. Rodrigo Garcia Lopes assaltou o Estúdio
Realidade e trouxe para nós tesouros musicais e poéticos”
RANDY
MORSE – produtor norte-americano, em seu site de música brasileira “The Best
of Brazil”
Abertas
as portas do Estúdio Realidade o que logo se descortina é a cena paranaense
de cidades como Londrina e Curitiba, lugares pródigos em poesia e literatura
onde a música popular cada vez mais se faz notar. Quem conhece só o Rodrigo
Garcia Lopes vindo da poesia, da intensa atividade intelectual e editorial, vai
descobri-lo agora cheio de desenvoltura com seu violão em meio às névoas
musicais das óperas de araucárias e arames. São quatro as estações do ano,
quatro as linhas do campo, mas a vida é só uma. Rodrigo quer retomar o
universo e nos levar com ele. Por que não?
VITOR
RAMIL, cantor, músico, compositor e escritor
É
muito difícil a gente decifrar o que pretende um autor quando lança um
trabalho. Apenas podemos conjecturar, intuir, ler nas entrelinhas coisas que
não sabemos de verdade, imaginações. Como o próprio autor, que pensa saber
o que pretende, e a cada vez que se aproxima da obra, descobre essa vertigem
(traduzida por uma supressão da qualidade crítica tão fundamental para um
criador, a severidade de julgamento) que o faz oscilar acompanhando os
movimentos daquilo que não sabemos, mas fizemos. Então falamos de coisas
técnicas, da fluidez dos arranjos, da elegância da interpretação, da
competência instrumental, e logo vamos nos perdendo nos adjetivos. Este CD de
Rodrigo Garcia Lopes, que carrega o sinuoso título de Canções do Estúdio
Realidade, lembra sonhos de juventude, quimeras de uma possível aproximação
com a poesia, com a divindade, com o vinho da existência, com a uva da
metáfora sufi, a fonte. Como diria um zen budista: a imersão na realidade.
Que coisa mais bem feita!
ARRIGO
BARNABÉ, compositor e músico
quinta-feira, março 03, 2016
MR. PARADISE, de Rodrigo Garcia Lopes (Em Solarium, 1994)
MR. PARADISE
mr.
paradise sai às ruas com
suas
invisíveis roupas antes
aparentemente
distraído agora
abaixa-se e
toca uma
folha
(qualquer coisa) vermelha
pensando
ser outono ou tudo
aquilo que
pensamos en-
quanto
borboletas brincam
entre punks
e turistas ELA
sorri como
um céu sem nuvens
(sob um chapéu
pensante
de abas
quilométricas)
e a gente
começa a segui-la
enquanto
humildemente acena para
jardineiros
& floristas
________
Londres, Soho, 12 de junho de 1984
De
"Solarium" (editora
Iluminuras, 1994)
sexta-feira, fevereiro 26, 2016
"OUTRAS PRAIAS", de Rodrigo Garcia Lopes
1
O ar do verão vibrava como imitação
que os dedos do maestro regiam, Além,
(uma outra palavra para Adeus)
E sua ausência imediata, que são próprias
das coisas consideradas fora de seus centros;
Náufragas, como ilhas dispersas circundadas
por tanta Luz, e o mar hibernando o surf
das manobras rápidas, radicais, engolindo praias,
prises e personas
Uma tontura que persiste após
o estrondo doce do amor, antes e agora dobrando-se no Tempo
Tudo a caminho, tudo rápida passagem, impressões,
a textura da areia, seixos
ao redor do sexo que é tudo e que sustém em linguagem
Viva, a linguagem das marés e dos exercícios estratégicos do vento
que uiva às coisas e nomeia lagoas e dunas, uma gíria imaginária
O mar da página de jornal, gaivotas
bicando lâmpadas à procura de águas vivas, quebrando-se
Cristais,
& uma visão do vórtex do vir-a-ser distraindo
as cores excessivas, todo ornamento inútil, recolhidas em
fotografias dinâmicas, e que se revelam lentamente em suas
ausências em fuga, como nós, aos pés destas pedras, refletindo-nos
na mudança desse poço, em sua condição.
O que vemos daqui são gestos que querem o além
o reflexo de erras nunca vistas,
brisas nunca sentidas, uma viagem
sem volta a territórios livres, como nômades detidos
no meio de uma tempestade obsessiva. O que
carregamos são espelhos que refletem sempre
o diferente, enquanto nós, eu e você
mudamos juntos. Nuvens
dissipam-se em doces fragmentos, sentidos acenam
do outro lado da baía, onde estivemos
Há alguns instantes que ficaram
Misturados com a lembrança do instante diferenciado,
um ideograma na fumaça do cigarro, o haicai mais simples
recolhido num vazio que vibra, diz, e muda.
Um brilho secreto, isso o mar também nos traz
sem cobrança alguma
e além do privado e do profundo jaz
o não dito, o absurdo de calar, o conferido:
penínsulas e abraços
de mar, studio marinho. E o modo como ele
endereça suas maresias a nós mudos e humanos
com seu estilo que no fim revela ser apenas
a mancha do mar em sua blusa, uma blueprint, um sim.
2
O Agora voava, deixando nossas respostas
sem pergunta alguma.
Acabamos nos cruzando, a caminho da estação
onde nada se detém, na luz que grita atrás das
montanhas,
No som de nossas vozes e olhares assustados
como sempre
Sílabas apagando beijos como a maré faz com
nossas pegadas
recolhendo
Apenas o silêncio, o silêncio.
Registros de amanheceres sendo
Eternamente abertos para agentes secretos
Até que a página se vire como onda
Deixando paisagens no retrovisor
Longe de qualquer ideal de transparência ou nostalgia.
Linhas que nada são a não ser a trajetória das
gaivotas
Deliciadas com as horas que ainda restam antes
do pouso.
Primeiro dia de sol, a casa está vazia.
Tesouras repousam quietas ao lado de
Gencianas. Nova Geografia. A cena
Está quase completa, viva nos músculos que
apanham rápido
um clichê qualquer no ar, uma sombra. A voz,
cada vez mais,
Se estilhaçava, ficando assim impossível dizer
Quem falava ou soprava o vento
no stylus das árvores rabiscando um céu
que não era bem assim
O que se queria dizer, um espaço implodido a
cada passo
Dentro do corpo onde a natureza sopra seu
processo
As sentenças do mesmo rio nunca o mesmo rio
Códigos nascidos sem qualquer charme, e a
gravidade
De tudo o que prossegue, indestrutível, viagem.
3
Aqui o céu é fino feito papel.
Regras se dissolvem como uma velha palavra na boca
velha manhã com um gosto de folhas secas na boca
Muito viva vívida doce e muito viva
distribuindo seu teatro, lírica barata, seu Gesamtkuntswerk,
nos telhados onde pássaros respiram, quietos,
sendo observados por gatos negros e cantados obsessivamente por
Cigarras. Invadem o verão. A indistinta voz que distribui
sons secos pela estação dos sustos, para além de si, desejo
De um presente acelerado como as ondas deste
doce Desterro,
O modo vazio e pleno como o olhar
faz
de tanta luz
o ar vibrar
Nos sentimos Oceanus, Pan, nos sentimos mais humanos
& sacamos
parte da hera tomando a janela onde pouco ou nada é dito
Apenas sentido, o limite de um "ouvir-se dizer"
que já não diz, reprisa
Velhas cenas de um teatro previsível.
Apenas o espectador mudou no fim de tudo
E as estações se amontoam num canto do céu esperando
Um milagre, uma confortável
Invisibilidade, que não tem nada a ver com
O excesso desse sol depois de três dias de chuva
Três úmidas palavras sussurradas e conduzidas como o vento faz
Às nuvens, nada necessariamente difícil ou vazio
gruda à pele, livre
De qualquer engodo, assinatura, assunto.
Horas e horas de vidro, sentenças sem nome flutuam
no manso ar do verão do interior e suas diferenças
Vêm à tona, enfim, o que nos deixa ao menos
uma chance para ouvir uma chuva invisível
atrás da porta pela qual acabamos de passar.
Rodrigo
Garcia Lopes (em Solarium, 1994,
editora Iluminuras)
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