domingo, janeiro 21, 2007

PENSAGEM




Árvore entre raios: arvora-se
um ruído. Tudo claro, lindo, ido.

A língua, mente, sente seu gosto:
tudo o que toca é verdade.

O discurso da tarde e seu susto
se cola ao sentido, seu duplo aqui

onde repousa e se excita, visiva,
sua clareza intensiva.



(poema de Nômada, 2004)

sábado, janeiro 20, 2007

Hoje no Diário Catarinense

O poeta e escritor Marco Vasques, de Florianópolis vem fazendo várias entrevistas com escritores brasileiros nos últimos anos. E em julho passado, acompanhado do poeta Vinícius Alves, ele fez uma comigo. Foi no antológico Bar do Arante, num belo fim de tarde de vento sul na Ilha (a musa inspiradora de Visibilia, 1996). Saiu hoje, no Diário Catarinense. Foi-me enviado pelo meu amigo Fernando Alexandre:
Investigação

Rodrigo Garcia Lopes fala, na entrevista a seguir, sobre seu processo de criação poética e de seu trabalho como tradutor de Whitman e Rimbaud, entre outros

POR MARCO VASQUES *

Pergunta - O campo semântico de seu livro Visibilia remete constantemente ao mundo líquido, quase sempre contrastando com o solar. Por que essa escolha?
Rodrigo Garcia Lopes - Esse livro tem muito da poética do olhar. O que proponho, em Visibilia, é um arquivo vivo do olhar. O livro tem muito da minha experiência em Florianópolis, pois foi aqui, no Pântano do Sul, que terminei o livro. O contato com a natureza me colocou uma questão. O que pode a poesia diante do silêncio dos dias, do silêncio do mundo natural? Traduzir? Complementar? Então, o desafio era esse: investigar e indagar como se dá o processo de transferência do mundo real ao mundo poético. E o poema seria exatamente a tradução simultânea desta percepção em palavra, em poesia. O poema surge como o resultado desse atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão. Eu estava fazendo doutorado sobre a Laura Riding, que investiga um pouco disso em sua obra. Mas também é algo que diz respeito a William Carlos Williams e os objetivistas, como George Oppen. A poesia de Laura questiona o real, e Visibilia pode ser enquadrado nesse tipo de poética.
Pergunta - Como você encara a discussão entre forma e conteúdo? Há poetas que dizem que a poesia não deve ter respostas.
Rodrigo - A poesia é sempre uma resposta sobre as experiências humanas. A poesia que eu faço tenta ser uma resposta, sim. Ao contrário de muitos poetas, que acham que a poesia nada diz. Eu não separo forma e conteúdo. Sempre fui um poeta muito preocupado em dizer. Penso que uma coisa que a poesia deve é dizer. Mas ela tem que dizer algo a mais do que a gente encontra na linguagem do cotidiano, ela deve revelar. Num mundo em que a linguagem é usada para mentir, fazer guerra, ferir, o poeta tem o papel de provocar com sua linguagem um silêncio novo, um silêncio que provoque o encontro da pessoa consigo mesma. Claro que sempre com cuidado para não cair num hermetismo absoluto. No livro Nômada tem três séries de poemas chamadas Instantâneos Contemporâneos, Liberdade de Pó: Um Diário e Viagens à Hiperrealidade que dialogam mais abertamente com os conflitos do nosso tempo. Um dos poemas longos do livro fiz sob o impacto da Guerra no Iraque. O desafio está em fazer isso sem ser piegas, panfletário.
Pergunta - De Solarium, seu primeiro livro, ao Nômada, o último, você transita por várias linguagens...
Rodrigo - Nunca procurei a unidade estilística. A poesia é a arte da linguagem em liberdade. A verdade é que sempre tive curiosidade em experimentar com as formas mais diversas. Eu tenho poemas que dialogam com o barroco, com o imagismo, com o clássico, com o dolce stil nuovo, com o concretismo, com a geração beat, mas, claro, nunca é uma reprodução de meros conceitos, é que às vezes o poema pede, grita sua forma, mesmo conduzida pelo poeta.
Pergunta - João Cabral de Melo Neto falava do clic do poema, quando o poema faz clic para você? Rodrigo - O momento em que o poema se fecha é o momento em que ele se abre para o leitor. O fim é apenas o começo. Quando você consegue se desvincular da autoria do que você escreveu e consegue se colocar na condição de um leitor privilegiado. Quando há um distanciamento da obra e se percebe que o texto seduz não egoicamente como autor, mas como escritura, palavra viva. Meu processo de criação não é regular, nunca insisto para que um texto saia. Só vou para o texto quando já trabalhei e convivi com ele o suficiente na mente para poder escrevê-lo. E muitas, muitas vezes, o poema nasce enquanto o procuro. Tenho escrito muitos poemas sobre isso, embora evitando a mera metalinguagem. Um poema, não importa que forma, para mim ele tem que chegar batendo, colocar o leitor em estado de poesia. O tempo do poema é o nocaute. Meu processo criativo é aparentemente caótico, tanto quanto meu processo de leitura. Quando estou lendo, sempre leio mais de cinco livros ao mesmo tempo. Um outro método, que retomei recentemente, é o de ter sempre uma caderneta à mão e ir anotando imagens, frases, enfim, porque idéias e palavras são fugidias. Engraçado, que só quando fui traduzir o Walt Whitman é que descobri que ele usava o mesmo método. Há uns anos redescobriram algumas dessas cadernetas raras e é fascinante perceber a "obra em progresso" ali.
Pergunta - Você traduziu Rimbaud, Laura Riding, Silvia Plath, O Navegante, texto anônimo do anglo-saxão...
Rodrigo - O Pound dizia que ao traduzir você consegue reencarnar o poeta, sua linguagem específica, além do tempo desse poeta, repoetizar o original em sua língua. O tradutor é um traficante, ele trafica significados de uma língua para outra, só que nesse processo ele pode se sair bem como um Ronald Biggs ou pode se sair mal e ser preso! A poesia é um trem pagador. A transcriação, a qual os irmãos Campos aderiram, vem de Pound e de Walter Benjamin e seu conceito da tradução messiânica. Fazer muitas vezes a tradução parecer mais original que o próprio original, mas, sobretudo, recapturar o momento da criação. Acredito que o tradutor é transportador e, retomando Pound, o melhor tradutor de poesia é um bom poeta. Traduzir, para mim, também é uma oficina poética, onde eu exercito outras linguagens, outras vidas, outras subjetividades. Só para você ter uma idéia, o Whitman me absorveu tanto que até agora estou esgotado. Há todo um trabalho de pesquisa da vida, da obra e do momento histórico de quem está sendo traduzido.
Pergunta - Sua relação com a música é evidente, pois seu livro Polivox ganhou um CD com o mesmo título. Como você encara a polêmica alimentada em torno da distinção entre letra de música e poesia?
Rodrigo - O Leminski, nos anos 1980, saiu com essa: poetas, leitores e críticos, fiquem ligados, os melhores poemas hoje não estão nos livros, estão nos discos. Para mim não há polêmica. Se Chico e Caetano não são poetas eu não sei mais o que é poesia. A própria palavra "lírica" era sinônimo de poesia. É bom lembrar que a poesia nasce com a música. Retomando Pound, ele sempre dizia que a poesia não pode se afastar muito da música e vice-versa. Acho que o bom poeta é aquele que consegue fazer música com a linguagem.
Pergunta - Você é editor da revista Coyote, que privilegia a publicação de textos inéditos, ao lado de Ademir Assunção e Marcos Losnak. Qual o papel de uma revista desse gênero?
Rodrigo - A Coyote é uma referência nacional. Já publicamos, em quatro anos, cerca de 300 autores, de diversas partes do Brasil e do mundo. Ela é uma revista de criação, e uma das balizas dela é abrir espaços para textos inéditos. Praticamente tudo que se publica na Coyote é inédito. Várias pessoas que publicaram textos inéditos na revista e que não tinham livros publicados tiveram, posteriormente, livros publicados, pois há vários editores que ficam de olho na revista e resolvem apostar em um e outro autor que nós publicamos. Uma das funções da revista é revelar autores novos e bons. A Coyote procura farejar onde está a boa caça, onde está o bom texto.
Pergunta - Qual o maior problema da literatura hoje?
Rodrigo - Sinceramente, a falta de um sistema literário, de políticas públicas para a literatura, de incentivo à leitura, mas não centradas apenas no mercado e sim na formação do leitor. Também sinto que muitos escritores jovens se ocupam mais em fazer política literária, conchavos, de fazer promoção e marketing de sua literatura do que fazer literatura propriamente. Acham que poesia pode trazer "fama". Melhor experimentar o show business, então. Não sei onde arrumam tempo para criar. Não são poucos os poetas que fazem isso, nossa geração não sabe fazer isso. O fazer literário é outra coisa. Como diria Leminski, a poesia é princípio do prazer na linguagem. Para mim, é um modo de estar no mundo.
* Marco Vasques, poeta, coordenador de Artes da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. Autor de Elegias Urbanas (Bem-te-vi, 2005), Diálogos com a Literatura Brasileira (EdUFSC, Movimento, 2004) e Cão no Claustro (Letradágua, 2002)

sexta-feira, janeiro 19, 2007



"Cristóvão Colombo, como todos sabem, é respeitado pela posteridade por ter sido o último a descobrir a América"


James Joyce

quinta-feira, janeiro 18, 2007

sábado, janeiro 13, 2007




A música acalma
alma e sexo
revela
camadas de sentidos
suores extintos

sexo e alma
se intercalam
meio sem nexo

sonho de verão
a razão se cala
ego vira eco

gritos nítidos
mesclam-se
línguas e corpos
são um.

simultâneos
nossos corpos
brilham no vazio

entre penumbras,
sem perguntas.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

SATORI USO, O FILME

Em 1985, depois de um ano on the road pela Europa, e enquanto editava a página Leitura da Folha de Londrina, quis publicar meus novos poemas, então inspirados no zen budismo e influenciados pelo haiku. Como achei anti-ético publicar meus poemas numa página que eu mesmo editava, achei a solução de inventar um poeta japonês que teria imigrado para Assaí, cidade perto de Londrina, nos anos 50, depois de ter vindo do Japão, ter convivido com os beats na California, e depois de perder toda a sua obra na viagem de navio para o Brasil. Ele acaba recebendo um convite da família Akiro para trabalhar no sítio da família em Assaí até ser descoberto como o grande poeta japonês desaparecido e de ser assediado por poetas que vinham a seu encontro em seu sítio.
Inventei toda uma biografia para Satori Uso (falso brilhante, ou iluminação mentirosa) e o personagem acabou dando muito o que falar. Na página indicava que eu havia traduzido os poemas para o japonês junto com uma tradutora japonesa também inexistente. Lembro que no curso de Jornalismo da UEL fui elogiado pelo meu trabalho de "investigação jornalística" por uma professora até o hoje dramaturgo Paulo de Moraes cair na gargalhada e entregar tudo. O problema é que por um bom tempo passaram a duvidar de qualquer poeta novo que eu apresentasse.
Depois publiquei mais poemas sob a persona do Uso em Polivox (de 2001) e ele passou a cada vez mais adquirir vida própria. Alguns anos atrás passei a bola para o Rodrigo Grota, que se animou a fazer um filme sobre o poeta inexistente. Fizemos juntos o roteiro e o filme acaba de ficar pronto, em 35 milímetros. Tive a honra de ser uma das 30 pessoas que viram a pré-estréia em Londrina, em fim de dezembro. Ficou uma beleza. E minha indicação do escritor e historiador Rogério Ivano para o papel-título foi feliz. Agora o diretor vai inscrever o filme em festivais nacionais e internacionais. Longa vida ao Satori Uso. E já começam a sair as primeiras críticas.

SATORI USO PASSOU POR AQUI
por PAULO BRIGUET

Um curta-metragem – e um grande filme. Assim pode ser definido Satori Uso, do cineasta Rodrigo Grota. Produzido pela Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina), o filme estréia em março. A reportagem do JL teve acesso a uma cópia do curta. É imperdível. Com 15 minutos de duração, Satori Uso conta a história de um poeta japonês que teria vivido em Londrina nos anos 50.
Ele publicou somente um livro durante a vida, quando ainda morava no Japão; em 1986, o poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes escreveu uma nota biográfica sobre Satori, acompanhada da tradução de alguns poemas do autor, conhecido por sua obsessão com as sombras da existência. O narrador de Satori Uso é o cineasta americano Jim Kleist (1941-1992), famoso por jamais ter concluído um filme em toda sua carreira. Nasceu em 7 de maio de 1941, na mesma semana em que era lançado o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Íntimo dos escritores da geração beat – como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs –, Kleist interessou-se pela obra de Satori e chegou a fazer algumas filmagens em Londrina, em 1967.
Os dois Rodrigos – Grota e Garcia Lopes – assinam a quatro mãos o roteiro do filme. A estrela principal é Satine, musa de Satori Uso, vivida pela atriz e modelo paulistana Caren Utino. O poeta é interpretado pelo historiador londrinense Rogério Ivano. Ambos se saem muito bem na tela. Grota acertou em cheio ao convidar Carlos Ebert para a direção de fotografia de Satori Uso. O filme tem toda exuberância do trabalho anterior de Grota (Londrina em três movimentos), com a diferença de que há uma história para contar – ainda não uma trama, mas um enredo e uma atmosfera bastante convincentes. “Procurei fazer um filme que falasse aos sentimentos das pessoas”, diz Grota. Pelo visto, conseguiu.
A maioria das cenas do curta-metragem é feita em preto e branco, com exceção dos trechos em que são exibidos os poemas do protagonista. Em vários momentos, o filme lembra as telas do pintor americano Edward Hopper. “Imaginei cenas como se Hopper pintasse em preto e branco”, comenta Grota. As cenas coloridas, com especial ênfase às belezas naturais do Norte do Paraná, lembram os últimos filmes do mestre japonês Akira Kurosawa. A escolha da trilha sonora dificilmente poderia ter sido melhor: Johann Sebastian Bach, Bill Evans e Astor Piazzolla.Além das telas de Hopper e da música de Bach, Grota conta que encontrou inspiração para escrever e filmar Satori Uso em obras como o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, e o filme Touro indomável, de Martin Scorsese.Ao contrário do que muitos imaginam, está provado: Satori Uso e Jim Kleist existem.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

LADY LAZARUS, poema de SYLVIA PLATH




Tentei outra vez.
A cada dez anos
Eu tramo tudo

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha como um abajur nazista,
Meu pé direito

Um peso de papel
Face sem feições, fino
Linho judeu.

Livre-me dos panos
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo?

O nariz, as covas dos olhos, os dentes postiços?
O hálito azedo
Some num só dia.

Logo logo a carne,
Que a caverna carcomeu, vai voltar
Pra casa, em mim.

Sou uma mulher que sorri.
Não passei dos trinta.
E como um gato tenho nove vidas.

Esta é a Terceira.
Que besteira
Se aniquilar a cada década.

Milhões de filamentos!
A platéia comendo amendoins
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e meus pés
O grande strip-tease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos,
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

Mas sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.

Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
E rolei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar
E arrancar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.

É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral

Voltar em pleno dia
Ao mesmo local, à mesma cara, ao mesmo grito
Brutal e aflito:

"Milagre!".
Que me deixa mal
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração
Ele bate forte.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou um trapo ou uma mecha de cabelo.
E então, Herr Doktor.
E então, Herr Inimigo.

Sou sua opus
Seu tesouro,
Seu bebê de ouro puro

Que se derrete num grito.
Ardo e me viro.
Não pense que subestimei sua imensa consideração.

Cinzas, cinzas
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali

Barra de sabão,
Anel de noivado,
Prótese de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer,
Cuidado
Cuidado.

Renascida das cinzas
Subo com meus cabelos ruivos
E como homens como ar.





Sylvia Plath
(23-29 de outubro de 1962)

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça


domingo, dezembro 10, 2006

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA (de Allen Ginsberg)



















Cada pensamento tive com você, Walt Whitman, enquanto caminhava
pelas calçadas sob as árvores com dor-de-cabeça consciente de mim olhando a lua cheia.
Cansado de fome, fazendo shopping de imagens, fui até o néon do supermercado de frutas, sonhando com suas enumerações!
Que pêssegos, que penumbras! Famílias inteiras indo pro shopping de noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebês nos tomates! –
e você, Garcia Lorca, o que fazia no meio das melancias ?

Eu vi você, Walt Whitman, sem filhos, velho safado solitário, fuçando as carnes do refrigerador e paquerando os garotos da seção de verduras.
Peguei você fazendo perguntas pra eles: Quem matou as costeletas de porco?

Quanto custa a banana? Você é meu Anjo?
Entrei e saí das prateleiras de enlatados te seguindo,
e eu na minha cabeça sendo seguido pelo segurança.

Vadiamos juntos pelos corredores abertos em nossa imaginação solitária
provando alcachofras, passando a mão nos congelados sem nunca passar pelo caixa.

Pra onde agora, Walt Whitman? As portas se fecham em uma hora.

Pra que direção sua barba aponta esta noite ?
(Toco seu livro e sonho com nossa odisséia no super e me sinto absurdo.)
Vamos andar a noite inteira pelas ruas solitárias? Àrvores somam sombras às sombras, luzes se apagam nas casas, logo estaremos sós.
Vamos passear sonhando com a América perdida do amor cruzando os carros azuis

nas estradas, de volta pra nossa cabana silenciosa?
Ah, querido pai, de barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América tinha na mente quando Caronte parou de empurrar a barca e te deixou na margem nevoenta olhando-a sumir nas águas negras do Letes?




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quinta-feira, dezembro 07, 2006




sem som
esquecida em seu
refúgio de

sombras úmidas
de cuja seiva espessa
sobrevive

alguma coisa miúda,
muda, num
ramo qualquer

onde possa se
sentar
— ela nos espreita

hesita, pressente,
espera-nos passar
(até razão
estar ausente)

para que recomece
segura

a cigarra





(De Visibilia, Travessa dos Editores, 2005)

terça-feira, dezembro 05, 2006

EL DUENDE




O dia lapida
o lado mais raro
da dor.

A mulher transpira
pelos poros
iridescentes
dos dias.

Há dias
em que um homem
tem o tamanho de uma flor.


EM SONETO

Todos os quartos eram isto e aquilo: mesmo os detetives
Andavam perdidos pelos corredores dos arquivos
Sem sentido. Uau. Um duelo de lírios flutuava, astronauta,
No tumulto dos telefonemas, nos bilhetes do declive

Da tela que dispensa a diferença num segundo. Falta,
E quem cobrava eram pétalas secas num verão e restos
De toques líquidos como um pensamento: pedra.
Perda é mais fácil, o sonho abre portas que ele mesmo fecha

Enquanto a penumbra da tarde luta para superar a planta,
Os mapas rasgados desta noite descontínua, seguindo o ser,
A linha paralela do que eu não disse, o que acabei de esquecer.

Plins nos despertam: uma fuga de Bach. O autor atrás da porta
Pede mais uma cerveja, enquanto se livra num segundo dos espelhos,
Dos livros sobre a mesa, enquanto livra-se de si e me desperta.

HIKMA




A casa foi sendo progressivamente esvaziada, até que na manhã de domingo só restou ele. E o falcão.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

SPIRITUS MUNDI

A voz toca no ventre da aceleração. No Museu do Dia objetos ecoam na tatuagem da memória de seus habitantes. Abduzido, o olho humanimal é de um metal necrosado e devorador, racimo de genes durante a pressurização. Clareiras. A matriz translúcida como presença de religare, tigre de Lascívia e sua dança filosófica. A estrada do tato. Ilhas femininas. Dentro e fora comercializam artigos baratos e tapetes persas onde me encontro: a escrita de luz nas costas da jovem gueixa dispersa, um continente feito de blocos moventes e piscantes de gelo. Atraquei consoantes, com cimitarras certeiras, e nada. Alguém aumentando o volume da mata. Os nômades olharão para trás: enxergaram a avalanche em sua direção, nada que um leque não possa indicar, um tiro de alguém. A captura se dá a caminho, com nossas presas embrulhadas em tecido de tule, quase transparentes. Na fuga, quase sem saliva, a aranha deixa seus hóspedes de cera para exposição em Lexotan, enquanto contorcionistas regem o vento com um manual de hermenêutica. É preciso reconhecer as trilhas jesuítas, marca d´água revelando ruínas, musgos e brotos em densidade alvoroçada, proliferante, uma imagem de mundo que não reflete nossa mente, mar entrando em surto. O lugar de onde você veio é tão distante que pode muito bem ser aqui.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dois poemas de PAUL AUSTER



PEDREIRA


Nada mais que a canção disto. Como se
só o canto tivesse nos trazido
até este lugar.

Temos estado aqui, e nunca estivemos aqui.
Estivemos a caminho até o lugar onde começamos,
e estivemos perdidos.

Não há fronteiras
na luz. E a terra
não nos deixa palavra alguma
pra cantar.

Pois o desmoronar da terra
sob os pés
é música em si, e caminhar entre estas pedras
é ouvir a gente mesmo
apenas.

Canto, logo, nada,
como se isso fosse o lugar
para onde não volto --

e se voltasse, descontava a minha vida
nessas pedras: esquecer
que um dia estive aqui. O mundo
me caminha

além do meu alcance.





QUARRY

No more than the song of it. As if
the singing alone
had led us back to this place.

We have been here, and we have never been here.
We have been on the way to where we began,
and we have been lost.

There are no boundaries
in the light. And the earth
leaves no word for us
to sing. For the crumbling of the earth
underfoot

is a music in itself, and to walk among these stones
is to hear nothing
but ourselves.

I sing, therefore, of nothing,

as if it were the place
I do not return to --

and if I should return, then count out my life
in these stones: forget
I was ever here. The world
that walks inside me

is a world beyond reach.





FRAGMENTO DE FRIO



Porque ficamos cegos
no dia que se apaga conosco,
e porque temos visto nosso hálito
nublar
o espelho do ar,
o olho do ar vai se abrir
em nada a não ser na palavra
que renunciamos: inverno
terá sido um lugar
de amadurecer.

Nós que viramos os mortos
de outra vida, não a nossa.






FRAGMENT FROM COLD



Because we go blind
in the day that goes out with us,
and because we have seen our breath
cloud
the mirror of air,
the eye of the air will open
on nothing but the word
we renounce: winter
will have been a place
of ripeness.

We who become the dead
of another life than ours.




Paul Auster (De Fragments from the Cold (1976-1977))
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

segunda-feira, novembro 27, 2006

TRANCE MUSIC

Não perde o tempo entre os riffs dessa noite
mais distante que um DJ em transe
Voz rouca segue a linha do baixo, baixe a sanha,
Circule entre senha e groovie
Entre estrelas & champanhe.

Pouco a pouco
O calor liga você.

Como nos pegam de surpresa, sons,
e das vezes em que nos
acuam
Ou suspendem
o branco
com o charme de um grito.

Seara de sorrisos, só isso aqui parece não virar mercadoria.

Talvez mulheres líquidas, ou ícones que se desmancham ao toque da tecla

Delete Cartago,

pois o sonho é só veloz
o solo só é veraz
Se entra na primeira

esquina intuitiva e se
na sintaxe da levada

o Excêntrico Sr. Sentido venha junto,
taxiando

o que quer que vida seja, tensão de arroios,
e o quer que não seja também,
chá de cereja sob uma lua que viceja
nos quatro céus desta canção.





sábado, novembro 25, 2006

Idéia De Camiseta


EU NÃO MUDO.

EU SOU SURDO.





Creta, janeiro de 1984



voltando pela praia

as pegadas na areia

são as minhas



(de Solarium, Iluminuras, 1994)

Há Anos Vende Seu Peixe





Há anos vende seu peixe
podre
seu suflê de vísceras
para vegetarianos sem o menor senso de humor.

Há tempos leciona
o dialeto do caos
dá conselhos ao sol
vende orquídeas escritas com
seu sangue
para vampiros que têm medo do vermelho.

Há séculos ele pratica
a extinta arte da pluviometria
fabrica idéias inúteis
conta os carros da esquina
compondo um poema longo e atroz.

Há minutos ele liga
Para uma secretária eletrônica
Que repete, estranho, exatamente
A gravação de sua própria voz.




(De Nômada, Lamparina, 2004)

Homem-Chama (segundo Richard Pryor)

"Quando você está pegando fogo

E correndo como um doido pela rua

As pessoas evitam seu caminho.

Menos um velho vagabundo

que grita pro homem estranho

Tem fogo aí, amiguinho?"


(sobre uma gag de Richard Pryor)