"Storm the Reality Studio, and retake the universe" ("Assaltem o Estúdio Realidade, e retomem o universo") WILLIAM S. BURROUGHS
terça-feira, outubro 10, 2006
Definindo a Magia, poema de Charles Bukowski
um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche
de presunto, quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
domingo, outubro 08, 2006
PELOS OLHOS DE LAURA RIDING, por Mariana Ianelli
Mindscapes
Laura Riding
Trad.: Rodrigo Garcia Lopes
Iluminuras
256 págs.
"Ecce Homo, parece dizer cada poema", foram, certa vez, as palavras de Eugênio de Andrade. Esta ambição da experiência poética por um sentido humano é o que diz, na duração do pensamento, cada poema de Laura Riding. Há mais de uma década de sua morte, Riding ressurge, em sua primeira edição brasileira, convocando o ser para a linguagem. Mindscapes, paragens da mente, do infinito durante - o espaço luminoso onde a consciência lingüística se converte em um projeto de existência.
No ponto em que se tocam criação e crítica, a poesia de Riding tem como origem e destino o próprio homem, este mesmo que, em sua possibilidade de ser, tornou-se alvo da linguagem para Heidegger. "O que é ser?" - pergunta a poeta. "É ter um nome", e carregá-lo em si, inteiramente, até que se faça silêncio. Onde a verdade fala, a palavra consente. Por um momento, Riding e o mundo se cruzam - e este momento, de hesitação e equilíbrio, de amor e contenda, é o poema. Exatamente aí dobra "a sineta do pensamento".
A poeta ronda a "fala absoluta", "o verso simples e impronunciável", o milagre que está dito em sua presença muda. Lê-se, para além da palavra, a eternidade. Para além do tempo, da beleza e do amor, o homem em sua justa dimensão. Não são poemas que se abrem ao primeiro apelo da leitura, antes são muros que procuram os olhos da mente, despertos para a interminável aventura da autognose. Poemas para se olhar por dentro e através de si, no que lhes é sem limite e sem vaidade: este caminho de aprendizagem no abismo, "um continente imaginário", mindscapes.
Companheira de Robert Graves por mais de seis anos, admirada por Yeats e Auden, Riding foi uma daquelas mentes poéticas que, diante do questionamento dos valores humanos na travessia do séc. 20, não se furtou a enfrentar o risco de limites extremos no estudo e na criação da obra literária, chegando a abandonar a poesia por esta mesma fidelidade de consciência que calou a vida de Paul Celan.
"Não somos o vento", segreda a poeta. Não somos isto que é pleno em si mesmo sem ao menos saber seu nome. A morada da natureza humana está em outra parte: na imanência de um porquê."Devemos distinguir melhor entre nós mesmos e estranhos", separar pela diferença e conciliar pela identidade. É assim que, na poesia de Laura Riding, o tempo musical da mente abole o tempo transitivo dos relógios e o pensamento, tal como o compreendia Ralph Waldo Emerson, desdobra sua existência "mutuamente contraditória e exclusiva".
Numa época em que urge a tarefa de pensar, os poemas de Mindscapes vêm atar o elo entre o homem e o mundo por essa íntima relação entre experiência e iniciação, a partir da qual poesia e filosofia se conversam de um modo fecundo, infinito e revolucionário.
Dois poemas de Laura Riding
Isto não é bem o que quero dizer, não,
Nada mais do que o sol é o sol.
Mas como significar mais corretamente
Se o sol brilha aproximadamente?
Que mundo mais desajeitado!
Que hostis implementos de sentido!
Talvez isto seja o sentido mais preciso
Que talvez fiquem bem o saber disso.
Ou então, acho que o mundo e eu, sim,
Devemos viver como estranhos até o fim –
Um amor azedo, ambos duvidando um pouco
Se um dia houve algo como amar o outro.
Não, melhor termos quase certeza
Cada um de nós onde é que exa‑
tamente eu e exatamenre o mundo falha
Em se cruzar por um segundo, e uma palavra.
NENHUMA TERRA AINDA
Mar demorado, como é fugaz,
De aguidéia a aguidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.
Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.
Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu –
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.
O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.
E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.
E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas –
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.
(Em Mindscapes, Poemas de Laura Riding, Trad. RGL, Iluminuras, 2004)
No Blog de Douglas Diegues
RGL LANZA ESTÚDIO REALIDADE
O poeta Rodrigo Garcia Lopes acaba de lanzar um blog, chamado Estúdio Realidade, que merece ser conhecido por los que ainda no lo ficaram sabendo. U blog do Rodrigon tá cheio de coisas legais. Todos os dias tem alguma novidade que ele vem di escrever ou traduzir pras pessoas que gustam do que ele escreve y traduz. Particularmenti gosto dessa mescla de pedra e pluma que o RGL faz sem forçar la barra. Aliás, essa geração Londrix, Ademir, RGL, Losnak, Maurício Arruda Mendonça yo conozco y prezo desde quando eles nem tinham livros publicados e faziam aquela esplêndida revista KAN onde yo los empezava a leer e admirar. No Estúdio Realidade, RGL manda também instigantes traduciones, sempre certeiras, sempre com aquele frescor impagable. Conheci u Rodrigon no Londrix 2006. Me diverti muito com ele naquele primeiro Londrix que ao que tudo indica nunca. Nunca mais irá se repetir.
quinta-feira, outubro 05, 2006
EM RIDING
Viver numa realidade de palavras,
com a consciência de que, a cada passo, falha,
no entanto atenta ao que cada instante desperta,
É a ambição da poesia quando trava
com o artifício mortal da absorção — escrava
do som que a persegue como um alerta —
Entre letra e mente uma batalha.
quarta-feira, outubro 04, 2006
segunda-feira, outubro 02, 2006
As time goes by....

Peguei esta foto hoje no blog do meu amigo Mário Bortolotto. O aniversário dele foi na sexta. O meu e o da Isabela, filha dele, e que está no colo do Marião, é hoje. Três librianos.
Feliz aniversário para nós!
Esta foto foi tirada no lendário Bar Valentino, em 1994, nos ensaios para o Poesia in Concert, que fizemos junto com outros dois grandes amigos, o Maurício Arruda Mendonça e o Silvio Demétrio no violão de aço e slide. A casa lotou duas noites seguidas, pra ver a gente mandar ver na poesia. Lemos de tudo ali, de trechos da Bíblia em hebraico, Marcial, até Ginsberg, Bukowski, Leminski e nossos próprios poemas, é claro. As noites foram um sucesso. Uau, que saudades, de quando tudo parecia mais fácil e leve.
sábado, setembro 30, 2006
terça-feira, setembro 26, 2006
HAIKUS DE JACK KEROUAC
**
Cruzando o campo de futebol
voltando do trabalho,
O empresário solitário
Crossing the football field/ Coming back from work,/ The lonely businessman
*
Hoje nenhum telegrama
— Só mais folhas
caindo na grama
No telegram today/-- Only more / Leaves fell
*
As solas dos sapatos
limpas
de andar na chuva
The bottoms of my shoes/ are clean/ from walking in the rain
*
Tentando estudar os sutras
o gato deita na página
Dizendo me escuta
Trying to study sutras,/the kitten on my page/Demanding affection
*
Inútil, inútil,
pancada de chuva
em direção ao mar.
Useless, useless,/the heavy rain/Driving into the sea
*
O sabor
da chuva—
Por que ajoelhar?
The taste/ of rain—/ Why kneel?
*
A lua ganhou
um bigode de gato,
Por um segundo
The moon had/ A cat´s moustache,/ For a second
*
Uma gota de chuva
desabou do teto
na minha cerveja
A raindrop from/ the roof/ Fell in my beer
*
Noite perfeita de lua
arruinada
Por brigas de família
Perfect moonlit night/marred/ By family squabbles
*
As flores nem ligam
pro otário
sol de maio
The flowers don’t seem/ to mind/ the stupid May sunshine
Tradução de Rodrigo Garcia Lopes
(Do livro Book of Haikus. Edited and with an Introduction by Regina Weinreich. New York: Penguin Books, 2003)








