quarta-feira, abril 27, 2011

______________

sob o
velho 
vento

sul

pássaros es-
piam: res-
piram o

céu.



_____rodrigo garcia lopes - inédito 2001______

PÉROLA DE NEY LISBOA

Produção Urgente


O mundo dá voltas à volta de Piccadilly Circus
Buscando a nota exótica que falta
Ao seu traje blasé televisivo

O mundo dá tratos à bola
À mesma que destrata
Pisando na miséria imediata

Contrata para produção urgente
Um negro bem dotado
E um latino quase inteligente

O mundo é dos vivos
O mundo é dos bancos
E os bancos dos mendigos

O mundo é de loucos
Que mundos não têm dono
E só somos vencidos pelo sono

O mundo é do novo
E o novo dos antigos
O mundo é quem sobrar no fim da noite
Dos amigos




NEY LISBOA

http://youtu.be/29_wZtIDFJg

terça-feira, abril 26, 2011

***




ia ser hoje


sem nome


o dia foge







***

segunda-feira, abril 25, 2011

FESTIPOA LITERÁRIA

Esta semana começa em Porto Alegre a Festipoa. Programação completa aqui. Estaremos lançando o novo número da Coyote por lá.










sábado, abril 23, 2011

DOPPLEGÄNGER




Pra você ver como é que são as coisas
precisa aprender seu dialeto,
ver de novo, dentro, o verde fora,
espelho onde sentido algum repousa,
saber o que nos falam os objetos.

As coisas não estão nada fáceis,
Se fazem de difíceis, desfiam desculpas,
Não falam mais coisa com coisa
E andam por aí com mil perguntas.

Pra você ver como é que são as coisas           
Só mesmo indo além do olhar, do breu
que elas lançam quando, por acaso,
na rua cruzam sua sombra, seu duplo, eu.


Rodrigo Garcia Lopes 
(do livro inédito e em progresso Estúdio Realidade)

sexta-feira, abril 22, 2011

PROSA DA TARDE



sexta-feira santa

no céu de abril
pinheiro e nuvem
conversam


quinta-feira, abril 21, 2011

“Quando lemos versos que são realmente bons e admiráveis, tendemos a lê-los em voz alta. Um verso bom não pode ser lido em voz baixa ou em silêncio. Se isso for possível, então, o verso não vale a pena, pois um verso sempre exige sua pronúncia. O verso nos faz lembrar que antes de arte escrita foi uma arte oral: o verso nos lembra que inicialmente foi um canto”.

Jorge Luis Borges

GULLIVER (poema de SYLVIA PLATH - tradução Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo)






Sobre seu corpo as nuvens passam
Altas, altas e geladas
E um tanto finas, como se

Flutuassem num vidro invisível.
Diferentes dos cisnes,
Não têm reflexos;

Diferentes de você,
Sem cordas para te prender.
Tudo bem, tudo azul. Diferentes de você –

Você aí, de costas,
Olhos grudados no céu.
Os homens-aranhas te pegaram,

Lançando e enrolando suas frágeis algemas,
Suas seduções –
Tantas sedas.

Como eles te odeiam.
Eles conversam no vale dos seus dedos, minúsculos vermes.
Fariam você dormir em seus armários,

Este dedo e aquele, uma relíquia.
Cai fora!
Cai fora, sete-léguas, como aquelas distâncias

Que se movem num Crivelli, intocáveis.
Deixe que este olho vire águia,
A sombra de seu lábio, um abismo.




SYLVIA PLATH
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo
(Em Ariel, Verus Editora, 2007)

Gulliver: 3-6 de novembro de 1962. Viagens de Gulliver: título do livro de 
Jonathan Swift. Seven leagues (sete-léguas): as botas-de-sete-léguas (cujo 

nome se refere ao fato de que cada passo alcança essa distância) são um 
elemento comum no folclore europeu, como na história do Pequeno 
Polegar. Carlo Crivelli: pintor italiano renascentista, conhecido pela or
namentação no fundo de seus quadros e pelos cenários urbanos cheios 
de detalhes alegóricos elaborados.


segunda-feira, abril 18, 2011

FABLIAU DA FLÓRIDA (WALLACE STEVENS tradução Rodrigo Garcia Lopes)

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 liliana_gelman-ships_dreams_water



Barca fosforescente
Pela praia de palmeiras,

Move-se rumo ao céu,
Dentro dos alabastros
E azuis noturnos.

Nuvem e espuma são uma.
Tórridos monstros-lunares
Se dissolvem.

Encha seu casco preto
Com a prata do luar.

O som dessa rebentação
Nunca mais vai acabar.




WALLACE STEVENS
 Tradução: Rodrigo Garcia Lopes (2011)
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barque of phosphor: barca branca, de phosphor (elemento químico)

FABLIAU OF FLORIDA

Barque of phosphor
On the palmy beach,

Move outward into heaven,
Into the alabasters
And night blues.

 Foam and cloud are one.
 Sultry moon-monsters
 Are dissolving.

 Fill your black hull
 With white moonlight.

 There will never be an end
 To this droning of the surf.


quarta-feira, abril 13, 2011

PÉROLAS DO DIA









"A vida só pode ser compreendida de trás para frente; mas precisa ser vivida daqui para frente".

Soren Kierkegaard


***


"A realidade é aquilo que, quando você pára de acreditar, não vai embora".


Philip Dick




terça-feira, abril 12, 2011

segunda-feira, abril 11, 2011

AS CORES DE ABRIL

foto: rodrigo garcia lopes

De um haiku de Bashô



 
ou ainda, pra tentar fechar (ou abrir):



mar escurece
as vozes das gaivotas voltam
vagas, brancas




E aqui no original do mestre:


umi kurete

                                            

kamo no koe                                   

                 

honoka ni shiroshi                          

***
escurece no mar

vozes dos patos selvagens

vagamente brancas


matsuo bashô
 

domingo, abril 10, 2011

Pérola de Terêncio





humani nil a me alienum puto.


nada do que é humano me é estranho.






terêncio

quarta-feira, abril 06, 2011


foto: rodrigo garcia lopes

BAÍA COM BIOMBOS AO FUNDO


Velha paisagem              
gaivotas roucas
olhos rebrilham

na manhã da mente
aberta em página escrita:
pérola discreta.

O Mar, velho suserano,
molha as barbas nas dunas
conquista os olhos da espuma
interrompe seu romance --

Nos acena
no exato instante
em que acordamos.







(Rodrigo Garcia Lopes, de Estúdio Realidade (poemas), in progress)

terça-feira, abril 05, 2011

DONA MENINA



Temporada:  de 8 de abril a 7 de maio, (sextas e sábados), às 20 horas, na Usina Cultural, na Rua Duque de Caxias esquina com São Salvador, em Londrina.

sexta-feira, abril 01, 2011

LAR




Viver em tantas cidades
fez de lar uma palavra estranha.
Há casas em nossas entranhas
e, dentro, apenas estações.



RODRIGO GARCIA LOPES 

quinta-feira, março 31, 2011

AMORES BRUTOS (poema de rodrigo garcia lopes)


AMORES BRUTOS


Que um beijo nos transe
Outro ser, além, nos dance
Onde a memória não alcance
O abismo do fim e seu lance.

Que este beijo não seja o bastante
Nem que me despedace
Olho do sol que franze
E que nos sangre

(O medo desse querer
Caminhos rompendo o éter
Da dor, polidor, refém
Do milagre de ser
Outra pessoa e alguém.)

Que química imita
A raiva do seu amor?
Que física duplica
Essa faísca de horror?

Que se apaguem
Nossos erros e motivos —
Toda lágrima consagre
Apenas estar vivo,
Este milagre.





(Em Nômada, Lamparina, 2004) 


domingo, março 27, 2011

OUTONO EM FUKUSHIMA













outono em fukushima

surfando ondas 

radioativas












***


rodrigo garcia lopes

sexta-feira, março 25, 2011

PEDRA DE TOQUE

[...]

Jogada num quintal

Enxuta, a concha guarda o mar 

No seu estojo


[...

Chico Buarque, em "A Ostra e o Vento"

quarta-feira, março 23, 2011

De Visibilia (poema de rodrigo garcia lopes)




Seu corpo é uma praia deserta
onde uma música desperta
numa onda esperta e a deserda:
espumas a ferem como pétalas.

Desterra, em tradução infinita,
pérolas na orla do olhar, ilha
que ainda está por ser escrita. 






Florianópolis, 1996
Rodrigo Garcia Lopes (em Visibilia, Seteletras, 1996)

REVISTA RATTAPALLAX AGORA ONLINE

A revista Rattapallax, editada pela poeta e tradutora Flávia Rocha, entre outros, migrou pra rede.
Conheça:

sábado, março 19, 2011

CALIGRAMA

http://boysalmanac.com/wp-content/uploads/2009/01/starfish_hand.jpg


abrimos os olhos
abrimos a mão

e

(milagre)
ei-la
a estrela

de pele
e carne




Rodrigo Garcia Lopes (inédito, do livro Estúdio Realidade, em progresso)

MEDUSA DE RAYBAN em Londrina


A peça Medusa de Rayban, de Mario Bortolotto, estreou na quinta em Londrina, em nova montagem, com elenco 100% londrinense, direção de Maurício Arruda Mendonça e supervisão de Paulo de Moraes. Bortolotto lançou novo livro ontem e hoje faz show com a Banda Saco de Ratos Blues.
Tudo na na Vila Cultural Cemitério de Automóveis.
Mais informações sobre a temporda a peça, aqui:
http://cemiteriodeautomoveisvilacultural.zip.net/

quarta-feira, março 16, 2011

EM AMOUR


Ainda vai haver tempo bastante
Pra ver nuvens abrirem suas pálpebras
Curtir seu gesto e seu instante
Intacto, como um milagre.

Seu olhar gritando nunca pare --
Tarde sem alarme falso, susto ou s.o.s.
Ouço no escuro você e insetos escuto
Cavando seu resto de futuro.

O corredor é longo e sem estrelas
E a gana me nina em seu vácuo.
Quanto mais recuo, mais me aproximo,
Quanto mais erro, mais rimos.
Quem sabe o efeito que isso tem:
Quando, quanto, onde, quem.







(Rodrigo Garcia Lopes, Nômada, 2004)




horas                          tão                                        líquidas

perfume                    em frascos                    fechados

segundos                   como                             vinho

instantes                    feito                               ventania

gota que                      se                                  evapora


sob                               as                                 estrelas

ninguém                    está                              sozinho





Rodrigo Garcia Lopes (em Visibilia, 1996)

quinta-feira, março 03, 2011

RYOANJI

"Podemos ver o jardim de areia como um arquipélago de ilhas rochosas na imensidade do oceano, ou antes como o cimo de altas montanhas que emergem de um mar de nuvens. Podemos vê-lo como um quadro emoldurado pelos muros do templo, ou esquecer-nos da moldura e convencer-nos de que o mar de areia pode se expandir sem limites e cobrir todo o mundo".

"Instruções de uso", no panfleto do templo Ryoanji, no Japão. Em
Italo Calvino (Palomar)

quarta-feira, março 02, 2011

Assaltaram a Gramática (1984)


Com Leminski, Ana Cristina Cesar, Wally Salomão, Francisco Alvim, Alice Ruiz e Chacal.

domingo, fevereiro 27, 2011

sábado, fevereiro 19, 2011

TOUCHSTONE

[...]


Um quase nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire, extraia
Daquele quase nada, quase tudo...


[...]


Raimundo Correia (1859-1911, poeta parnasiano brasileiro)

NOITES EM BRANCO





NOITES EM BRANCO

 Ah, branca página,
branca e pálida vagina,
pele emudecida, papiro sem pátina
onde a cena ainda se imagina
e o mundo parece mágica.

Branca brusca página, albina,
que mão alguma assombra
poente algum assassina
ao mergulhar na penumbra.

Mudo mistério, açucar secreto,
nuvem parada, neblina, refúgio,
praia sem pegadas, neve sem vestígio,
espelho sem imagem, a penetro:  

Página que sempre me ensina
(invisível escrita peregrina)
por este labirinto de ecos:
A luz num canto do jardim
contém segredos para mim.


Rodrigo Garcia Lopes (fevereiro de 2011)

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

AUGUSTO DE CAMPOS - 80 ANOS

A revista virtual Errática publica hoje um especial em homenagem aos 80 anos do poeta, tradutor e ensaísta AUGUSTO DE CAMPOS.

AQUI:

http://www.erratica.com.br/


A revista Mnemozine também tem um especial dedicado a ele.


ICI:


http://www.cronopios.com.br/mnemozine/

domingo, fevereiro 13, 2011

EL DUENDE - rodrigo garcia lopes


EL DUENDE


O dia lapida
o lado mais raro
da dor.

A mulher transpira
pelos poros iridescentes
dos dias.

Há dias
em que um homem
tem o tamanho de uma flor.




Rodrigo Garcia Lopes 

sábado, fevereiro 05, 2011

SCHÖNBRUNN





SCHÖNBRUNN



Enquanto você espera
meus olhos vazios espanham sombras
pelos bosques de viena
e repletos de algo
que a memória já nem.
Sei que
talvez fosse no entanto
lá mesmo um lugar onde
as palavras perdessem seus sentidos
quando se precipitassem de galhos
cuja visibilidade
tornava-se impossível
depois de tamanha tempestade.

Para nosso espanto.




Rodrigo Garcia Lopes (em Solarium, Iluminuras, 1994)