domingo, fevereiro 04, 2007

Entrevista fake com J.D. Salinger

Uma das raríssimas imagens de J.D. Salinger, tirada logo após o fim de nessa entrevista.
Reparem que ele tá tentando me bater.


Há três anos a Folha preparava um número apenas com escritores inintrevistáveis, como Dalton Trevisan, Pynchon, entre outros. A mim coube a tarefa de entrevistar nada menos que J.D. Salinger, autor de "O Apanhador no Campo de Centeio". O resultado está ai:



São Paulo, domingo, 25 de abril de 2004


EXCLUSIVO E FICTÍCIO

Professor de reclusão


J.D. SALINGER, O AUTOR DE "O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO", ANUNCIA UMA SURPRESA PARA 2005 E DIZ QUE TALVEZ NUNCA DEVESSE TER PUBLICADO SEUS TEXTOS

Rodrigo Garcia Lopes
especial para a Folha

A princípio seria uma missão impossível. Afinal, o homem está recluso desde 1953, quando o sucesso mundial de "O Apanhador no Campo de Centeio" (1950) o levou para o exílio na casa no alto de uma colina, em Cornish, no Estado de New Hampshire. Trata-se do único livro de fato importante de sua obra e que, vira e mexe, volta a ser "cult", como seu misterioso autor, J.D. Salinger, 85. Talvez essa nova onda de interesse se dê, agora, pelo trauma pós-11 de Setembro e a sensação de viver num mundo menos seguro. Ou por termos uma geração de jovens cansados de guerra e de mentiras. Talvez exista um pouco de Holden Caulfield (personagem principal do romance) em todo jovem. Afinal, o protagonista do seu famoso livro era um adolescente problemático vivendo nos anos hipócritas e caretas do pós-guerra.
O contato com "o maior recluso da literatura americana", eu sabia, requereria um processo lento e delicado. Ele foi feito por meio de uma professora da Universidade de Nova York que trabalha para a agente literária de Salinger. Minha amiga me preveniu, dizendo que dificilmente ele responderia a meu pedido, mas não custava tentar, já que nos últimos tempos ele andava mais acessível, pelo menos por e-mail. Arrisquei. Meu e-mail foi enviado a sua agente, que se encarregou de passá-lo a Salinger. Dois meses depois, veio o sinal positivo.
No primeiro dos dois rápidos e-mails trocados antes da entrevista, sempre intermediados pela agente, apresentei-me como escritor e jornalista brasileiro que havia sido incumbido de tentar uma entrevista com ele, a primeira para o Brasil. Pedi desculpas pela invasão e disse que tentaria ser o mais breve e direto possível. Argumentei que no Brasil ele possuía uma legião de fãs que não sabiam de sua histórica animosidade com a imprensa e jornalistas americanos. Disse que respeitava sua reclusão e que a considerava um ato heróico em tempos de celebridades.
Salinger escreveu que, por eu ter sido educado e pouco insistente, ele abriria uma exceção. Disse que eu o havia "pego num bom dia" e que responderia a dez perguntas curtas, "desde que não tomassem mais de 20 minutos". Preferiu que eu enviasse cada pergunta e ele fosse respondendo uma a uma. Também deixou claro que esta seria "a primeira e última entrevista concedida a um país de língua espanhola" [sic].

Por que a resistência em dar declarações?
SALINGER: Não nasci pra falar em público, e as pessoas não entendem isso. Isso me mata. As pessoas acham que, só porque escrevi um livro, eu necessariamente tenha que ser uma pessoa falante ou que isso me qualifique automaticamente como orador. A verdade é que eu sou... bem, não quero que se aproximem de mim. Odeio dar entrevistas, como você sabe, embora esteja abrindo uma exceção para o público brasileiro. A verdade é que tenho halitose, por isso não quero que as pessoas cheguem perto de mim. É para o bem delas. Odeio, por exemplo, quando estou fazendo compras no shopping e alguém olha para mim e diz: "Você não é o J.D. Salinger?". Tenho vontade de fazer uma besteira.

Sim, entendo. Que procedimento o senhor costuma adotar nessas abordagens?
Nenhum. Viro as costas. Outro dia fingi que era surdo-mudo, antes de encarar o sujeito e sair da loja. Sabe que funciona? Pode parecer ridículo, mas foi a maneira que encontrei para evitar esse papo-furado estúpido dessa gente inútil. Acho que o mundo seria um lugar bem melhor para se viver se as pessoas tomassem conta de seus próprios assuntos. Tento proteger o que restou da minha privacidade. Quando as pessoas perdem o respeito comigo, seja quem for, para mim está acabado.

Mas, no caso de alguém precisar entrar em contato com o senhor ou o contrário, qual é o procedimento adequado?
Hoje em dia? E-mail. Se alguém quiser me dizer alguma coisa, escreva três linhas e me envie por meio de minha agente. Não há nada que não possa ser comunicado em três linhas, como os haicaístas e budistas sabem muito bem.

O senhor falou do público brasileiro. Há algo que o senhor conheça de nossa literatura? Também poderia mencionar autores americanos que considera importantes?
Por incrível que possa parecer, sim. Mas, para ser sincero, li muito pouco. O fato de eu não saber espanhol limita muito. Sou eremita, mas não sou desinformado... Li "Bras Cubas Latest Remembrances" (acho que é este o título) quando era jovem e também não ponho minha mão no fogo quanto à qualidade da tradução. Do pouco que acompanho de seu país ou que amigos brasileiros de Cornish comentam comigo por algum motivo, gosto de Rubem Fonseca, José Agrappino de Paula [sic], Hilda Hills [sic] e Dalton Trevisan (que conheci na tradução alemã). Entre os americanos, meus preferidos são Laura Riding, Emily Dickinson e Thomas Pynchon.

E o episódio de um site da internet que o senhor fechou por trazer uma centena e meia de citações de seu romance. O senhor não acha que foi uma atitude exagerada?
O problema é muito simples: não abro mão de meus direitos autorais. Não vou ficar alimentando o bolso desses elementos. O problema é que minha propriedade, minhas histórias foram roubadas. Alguém foi lá e roubou. Não é justo. Você não gostaria que eu fosse na sua casa, pegasse seu casaco preferido e caísse fora. É assim que me sinto em relação a isso.

Foi o que aconteceu também quando o senhor entrou com um processo contra a edição não-autorizada dos seus contos ["The Complete Uncollected Short Stories of J.D. Salinger"]?
Exato. Escrevi aquilo faz muito tempo. Nunca tive intenção de publicar aqueles contos e fiquei muito irritado com aquele episódio. O episódio daquela biografia, em que usaram minhas cartas, também me irritou muito. Como você sabe, ganhei as duas causas. Aqueles contos, para mim, já estavam mortos e enterrados. Foram feitos num tempo em que eu estava começando a escrever e precisava desesperadamente publicar. Não estou tentando esconder as fraquezas do meu trabalho, como insinuaram alguns. Simplesmente acho que m... não se publica.

Não que seja minha opinião, mas o que pensa quando críticos escrevem que o senhor é apenas "um recluso querendo atenção", como Robert Neill no "The New York Times" de novembro passado?
Esses imbecis não têm nenhum respeito, são uns estúpidos. Depois dizem que não tenho motivos para preferir me isolar. Vejo toda a estupidez do mundo pela TV e cada vez fico mais apavorado com o que estou assistindo, principalmente agora. Escritores precisam de solidão para poder escrever.

O senhor poderia adiantar algum projeto ou novo livro para os milhares de leitores brasileiros que cultuam sua obra?
Não sei. O que posso dizer é que escrevo todo dia, passo longas horas trabalhando. Tenho um quarto cheio de escritos. Se não publico, é por opção. Também não penso em lançar livros depois de morrer. Mas diria que vocês terão uma surpresa em 2005.

Não é um paradoxo um escritor evitar publicar? Não é exatamente o que todo autor mais deseja no mundo?
Como escreveu Emily Dickinson, "publicar é leiloar a alma humana". Adoro, amo escrever. Mas só para mim. Publicar é uma coisa perversa demais. Veja o que aconteceu no meu caso. Não tenho mais paz desde 1950. Acho que seria um homem mais feliz se nunca tivesse publicado nada. Não publicar me dá uma indescritível paz de espírito, uma sensação de bem-estar. Também recuso-me a dar autógrafos. Quem tem que dar autógrafo são atores e celebridades da mídia. O autógrafo de um escritor, se ele tiver algum caráter, deveria ser sua própria obra.

Sim, mas seu livro teve tanto impacto... Num trecho, Holden afirma que um livro é bom "quando a gente fica querendo ser um grande amigo do autor, para telefonar para ele quando der vontade". O senhor se arrepende de ter escrito isso?
Acho que o senhor não está me entendendo. Vou repetir pela última vez: escrevo para mim e quero que me deixem só. Quero ser deixado totalmente em paz para fazer minha obra. Não existe mais Holden Caulfield. Por que você não vai ler o livro de novo? Está tudo lá.

Gostaria de saber sua opinião sobre o livro de Joyce Maynard sobre os 11 anos que conviveu com o senhor ["Abandonada no Campo de Centeio", Geração Editorial].
Não, agora chega. Eram dez perguntas, isso precisa parar. Já respondi o que tínhamos combinado. Você está começando a ficar inconveniente.



quinta-feira, fevereiro 01, 2007

POEMA (LANA TURNER DESMAIOU!) poema de FRANK O'HARA





Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher



FRANK O'HARA





Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

domingo, janeiro 21, 2007

PENSAGEM




Árvore entre raios: arvora-se
um ruído. Tudo claro, lindo, ido.

A língua, mente, sente seu gosto:
tudo o que toca é verdade.

O discurso da tarde e seu susto
se cola ao sentido, seu duplo aqui

onde repousa e se excita, visiva,
sua clareza intensiva.



(poema de Nômada, 2004)

sábado, janeiro 20, 2007

Hoje no Diário Catarinense

O poeta e escritor Marco Vasques, de Florianópolis vem fazendo várias entrevistas com escritores brasileiros nos últimos anos. E em julho passado, acompanhado do poeta Vinícius Alves, ele fez uma comigo. Foi no antológico Bar do Arante, num belo fim de tarde de vento sul na Ilha (a musa inspiradora de Visibilia, 1996). Saiu hoje, no Diário Catarinense. Foi-me enviado pelo meu amigo Fernando Alexandre:
Investigação

Rodrigo Garcia Lopes fala, na entrevista a seguir, sobre seu processo de criação poética e de seu trabalho como tradutor de Whitman e Rimbaud, entre outros

POR MARCO VASQUES *

Pergunta - O campo semântico de seu livro Visibilia remete constantemente ao mundo líquido, quase sempre contrastando com o solar. Por que essa escolha?
Rodrigo Garcia Lopes - Esse livro tem muito da poética do olhar. O que proponho, em Visibilia, é um arquivo vivo do olhar. O livro tem muito da minha experiência em Florianópolis, pois foi aqui, no Pântano do Sul, que terminei o livro. O contato com a natureza me colocou uma questão. O que pode a poesia diante do silêncio dos dias, do silêncio do mundo natural? Traduzir? Complementar? Então, o desafio era esse: investigar e indagar como se dá o processo de transferência do mundo real ao mundo poético. E o poema seria exatamente a tradução simultânea desta percepção em palavra, em poesia. O poema surge como o resultado desse atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão. Eu estava fazendo doutorado sobre a Laura Riding, que investiga um pouco disso em sua obra. Mas também é algo que diz respeito a William Carlos Williams e os objetivistas, como George Oppen. A poesia de Laura questiona o real, e Visibilia pode ser enquadrado nesse tipo de poética.
Pergunta - Como você encara a discussão entre forma e conteúdo? Há poetas que dizem que a poesia não deve ter respostas.
Rodrigo - A poesia é sempre uma resposta sobre as experiências humanas. A poesia que eu faço tenta ser uma resposta, sim. Ao contrário de muitos poetas, que acham que a poesia nada diz. Eu não separo forma e conteúdo. Sempre fui um poeta muito preocupado em dizer. Penso que uma coisa que a poesia deve é dizer. Mas ela tem que dizer algo a mais do que a gente encontra na linguagem do cotidiano, ela deve revelar. Num mundo em que a linguagem é usada para mentir, fazer guerra, ferir, o poeta tem o papel de provocar com sua linguagem um silêncio novo, um silêncio que provoque o encontro da pessoa consigo mesma. Claro que sempre com cuidado para não cair num hermetismo absoluto. No livro Nômada tem três séries de poemas chamadas Instantâneos Contemporâneos, Liberdade de Pó: Um Diário e Viagens à Hiperrealidade que dialogam mais abertamente com os conflitos do nosso tempo. Um dos poemas longos do livro fiz sob o impacto da Guerra no Iraque. O desafio está em fazer isso sem ser piegas, panfletário.
Pergunta - De Solarium, seu primeiro livro, ao Nômada, o último, você transita por várias linguagens...
Rodrigo - Nunca procurei a unidade estilística. A poesia é a arte da linguagem em liberdade. A verdade é que sempre tive curiosidade em experimentar com as formas mais diversas. Eu tenho poemas que dialogam com o barroco, com o imagismo, com o clássico, com o dolce stil nuovo, com o concretismo, com a geração beat, mas, claro, nunca é uma reprodução de meros conceitos, é que às vezes o poema pede, grita sua forma, mesmo conduzida pelo poeta.
Pergunta - João Cabral de Melo Neto falava do clic do poema, quando o poema faz clic para você? Rodrigo - O momento em que o poema se fecha é o momento em que ele se abre para o leitor. O fim é apenas o começo. Quando você consegue se desvincular da autoria do que você escreveu e consegue se colocar na condição de um leitor privilegiado. Quando há um distanciamento da obra e se percebe que o texto seduz não egoicamente como autor, mas como escritura, palavra viva. Meu processo de criação não é regular, nunca insisto para que um texto saia. Só vou para o texto quando já trabalhei e convivi com ele o suficiente na mente para poder escrevê-lo. E muitas, muitas vezes, o poema nasce enquanto o procuro. Tenho escrito muitos poemas sobre isso, embora evitando a mera metalinguagem. Um poema, não importa que forma, para mim ele tem que chegar batendo, colocar o leitor em estado de poesia. O tempo do poema é o nocaute. Meu processo criativo é aparentemente caótico, tanto quanto meu processo de leitura. Quando estou lendo, sempre leio mais de cinco livros ao mesmo tempo. Um outro método, que retomei recentemente, é o de ter sempre uma caderneta à mão e ir anotando imagens, frases, enfim, porque idéias e palavras são fugidias. Engraçado, que só quando fui traduzir o Walt Whitman é que descobri que ele usava o mesmo método. Há uns anos redescobriram algumas dessas cadernetas raras e é fascinante perceber a "obra em progresso" ali.
Pergunta - Você traduziu Rimbaud, Laura Riding, Silvia Plath, O Navegante, texto anônimo do anglo-saxão...
Rodrigo - O Pound dizia que ao traduzir você consegue reencarnar o poeta, sua linguagem específica, além do tempo desse poeta, repoetizar o original em sua língua. O tradutor é um traficante, ele trafica significados de uma língua para outra, só que nesse processo ele pode se sair bem como um Ronald Biggs ou pode se sair mal e ser preso! A poesia é um trem pagador. A transcriação, a qual os irmãos Campos aderiram, vem de Pound e de Walter Benjamin e seu conceito da tradução messiânica. Fazer muitas vezes a tradução parecer mais original que o próprio original, mas, sobretudo, recapturar o momento da criação. Acredito que o tradutor é transportador e, retomando Pound, o melhor tradutor de poesia é um bom poeta. Traduzir, para mim, também é uma oficina poética, onde eu exercito outras linguagens, outras vidas, outras subjetividades. Só para você ter uma idéia, o Whitman me absorveu tanto que até agora estou esgotado. Há todo um trabalho de pesquisa da vida, da obra e do momento histórico de quem está sendo traduzido.
Pergunta - Sua relação com a música é evidente, pois seu livro Polivox ganhou um CD com o mesmo título. Como você encara a polêmica alimentada em torno da distinção entre letra de música e poesia?
Rodrigo - O Leminski, nos anos 1980, saiu com essa: poetas, leitores e críticos, fiquem ligados, os melhores poemas hoje não estão nos livros, estão nos discos. Para mim não há polêmica. Se Chico e Caetano não são poetas eu não sei mais o que é poesia. A própria palavra "lírica" era sinônimo de poesia. É bom lembrar que a poesia nasce com a música. Retomando Pound, ele sempre dizia que a poesia não pode se afastar muito da música e vice-versa. Acho que o bom poeta é aquele que consegue fazer música com a linguagem.
Pergunta - Você é editor da revista Coyote, que privilegia a publicação de textos inéditos, ao lado de Ademir Assunção e Marcos Losnak. Qual o papel de uma revista desse gênero?
Rodrigo - A Coyote é uma referência nacional. Já publicamos, em quatro anos, cerca de 300 autores, de diversas partes do Brasil e do mundo. Ela é uma revista de criação, e uma das balizas dela é abrir espaços para textos inéditos. Praticamente tudo que se publica na Coyote é inédito. Várias pessoas que publicaram textos inéditos na revista e que não tinham livros publicados tiveram, posteriormente, livros publicados, pois há vários editores que ficam de olho na revista e resolvem apostar em um e outro autor que nós publicamos. Uma das funções da revista é revelar autores novos e bons. A Coyote procura farejar onde está a boa caça, onde está o bom texto.
Pergunta - Qual o maior problema da literatura hoje?
Rodrigo - Sinceramente, a falta de um sistema literário, de políticas públicas para a literatura, de incentivo à leitura, mas não centradas apenas no mercado e sim na formação do leitor. Também sinto que muitos escritores jovens se ocupam mais em fazer política literária, conchavos, de fazer promoção e marketing de sua literatura do que fazer literatura propriamente. Acham que poesia pode trazer "fama". Melhor experimentar o show business, então. Não sei onde arrumam tempo para criar. Não são poucos os poetas que fazem isso, nossa geração não sabe fazer isso. O fazer literário é outra coisa. Como diria Leminski, a poesia é princípio do prazer na linguagem. Para mim, é um modo de estar no mundo.
* Marco Vasques, poeta, coordenador de Artes da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. Autor de Elegias Urbanas (Bem-te-vi, 2005), Diálogos com a Literatura Brasileira (EdUFSC, Movimento, 2004) e Cão no Claustro (Letradágua, 2002)

sexta-feira, janeiro 19, 2007



"Cristóvão Colombo, como todos sabem, é respeitado pela posteridade por ter sido o último a descobrir a América"


James Joyce

quinta-feira, janeiro 18, 2007

sábado, janeiro 13, 2007




A música acalma
alma e sexo
revela
camadas de sentidos
suores extintos

sexo e alma
se intercalam
meio sem nexo

sonho de verão
a razão se cala
ego vira eco

gritos nítidos
mesclam-se
línguas e corpos
são um.

simultâneos
nossos corpos
brilham no vazio

entre penumbras,
sem perguntas.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

SATORI USO, O FILME

Em 1985, depois de um ano on the road pela Europa, e enquanto editava a página Leitura da Folha de Londrina, quis publicar meus novos poemas, então inspirados no zen budismo e influenciados pelo haiku. Como achei anti-ético publicar meus poemas numa página que eu mesmo editava, achei a solução de inventar um poeta japonês que teria imigrado para Assaí, cidade perto de Londrina, nos anos 50, depois de ter vindo do Japão, ter convivido com os beats na California, e depois de perder toda a sua obra na viagem de navio para o Brasil. Ele acaba recebendo um convite da família Akiro para trabalhar no sítio da família em Assaí até ser descoberto como o grande poeta japonês desaparecido e de ser assediado por poetas que vinham a seu encontro em seu sítio.
Inventei toda uma biografia para Satori Uso (falso brilhante, ou iluminação mentirosa) e o personagem acabou dando muito o que falar. Na página indicava que eu havia traduzido os poemas para o japonês junto com uma tradutora japonesa também inexistente. Lembro que no curso de Jornalismo da UEL fui elogiado pelo meu trabalho de "investigação jornalística" por uma professora até o hoje dramaturgo Paulo de Moraes cair na gargalhada e entregar tudo. O problema é que por um bom tempo passaram a duvidar de qualquer poeta novo que eu apresentasse.
Depois publiquei mais poemas sob a persona do Uso em Polivox (de 2001) e ele passou a cada vez mais adquirir vida própria. Alguns anos atrás passei a bola para o Rodrigo Grota, que se animou a fazer um filme sobre o poeta inexistente. Fizemos juntos o roteiro e o filme acaba de ficar pronto, em 35 milímetros. Tive a honra de ser uma das 30 pessoas que viram a pré-estréia em Londrina, em fim de dezembro. Ficou uma beleza. E minha indicação do escritor e historiador Rogério Ivano para o papel-título foi feliz. Agora o diretor vai inscrever o filme em festivais nacionais e internacionais. Longa vida ao Satori Uso. E já começam a sair as primeiras críticas.

SATORI USO PASSOU POR AQUI
por PAULO BRIGUET

Um curta-metragem – e um grande filme. Assim pode ser definido Satori Uso, do cineasta Rodrigo Grota. Produzido pela Kinoarte (Instituto de Cinema e Vídeo de Londrina), o filme estréia em março. A reportagem do JL teve acesso a uma cópia do curta. É imperdível. Com 15 minutos de duração, Satori Uso conta a história de um poeta japonês que teria vivido em Londrina nos anos 50.
Ele publicou somente um livro durante a vida, quando ainda morava no Japão; em 1986, o poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes escreveu uma nota biográfica sobre Satori, acompanhada da tradução de alguns poemas do autor, conhecido por sua obsessão com as sombras da existência. O narrador de Satori Uso é o cineasta americano Jim Kleist (1941-1992), famoso por jamais ter concluído um filme em toda sua carreira. Nasceu em 7 de maio de 1941, na mesma semana em que era lançado o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Íntimo dos escritores da geração beat – como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs –, Kleist interessou-se pela obra de Satori e chegou a fazer algumas filmagens em Londrina, em 1967.
Os dois Rodrigos – Grota e Garcia Lopes – assinam a quatro mãos o roteiro do filme. A estrela principal é Satine, musa de Satori Uso, vivida pela atriz e modelo paulistana Caren Utino. O poeta é interpretado pelo historiador londrinense Rogério Ivano. Ambos se saem muito bem na tela. Grota acertou em cheio ao convidar Carlos Ebert para a direção de fotografia de Satori Uso. O filme tem toda exuberância do trabalho anterior de Grota (Londrina em três movimentos), com a diferença de que há uma história para contar – ainda não uma trama, mas um enredo e uma atmosfera bastante convincentes. “Procurei fazer um filme que falasse aos sentimentos das pessoas”, diz Grota. Pelo visto, conseguiu.
A maioria das cenas do curta-metragem é feita em preto e branco, com exceção dos trechos em que são exibidos os poemas do protagonista. Em vários momentos, o filme lembra as telas do pintor americano Edward Hopper. “Imaginei cenas como se Hopper pintasse em preto e branco”, comenta Grota. As cenas coloridas, com especial ênfase às belezas naturais do Norte do Paraná, lembram os últimos filmes do mestre japonês Akira Kurosawa. A escolha da trilha sonora dificilmente poderia ter sido melhor: Johann Sebastian Bach, Bill Evans e Astor Piazzolla.Além das telas de Hopper e da música de Bach, Grota conta que encontrou inspiração para escrever e filmar Satori Uso em obras como o Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, e o filme Touro indomável, de Martin Scorsese.Ao contrário do que muitos imaginam, está provado: Satori Uso e Jim Kleist existem.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

LADY LAZARUS, poema de SYLVIA PLATH




Tentei outra vez.
A cada dez anos
Eu tramo tudo

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha como um abajur nazista,
Meu pé direito

Um peso de papel
Face sem feições, fino
Linho judeu.

Livre-me dos panos
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo?

O nariz, as covas dos olhos, os dentes postiços?
O hálito azedo
Some num só dia.

Logo logo a carne,
Que a caverna carcomeu, vai voltar
Pra casa, em mim.

Sou uma mulher que sorri.
Não passei dos trinta.
E como um gato tenho nove vidas.

Esta é a Terceira.
Que besteira
Se aniquilar a cada década.

Milhões de filamentos!
A platéia comendo amendoins
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e meus pés
O grande strip-tease.
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos,
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

Mas sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.

Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
E rolei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram de chamar e chamar
E arrancar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.

É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral

Voltar em pleno dia
Ao mesmo local, à mesma cara, ao mesmo grito
Brutal e aflito:

"Milagre!".
Que me deixa mal
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço
Para ouvir meu coração
Ele bate forte.

E há um preço, um preço muito alto
Para cada palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou um trapo ou uma mecha de cabelo.
E então, Herr Doktor.
E então, Herr Inimigo.

Sou sua opus
Seu tesouro,
Seu bebê de ouro puro

Que se derrete num grito.
Ardo e me viro.
Não pense que subestimei sua imensa consideração.

Cinzas, cinzas
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali

Barra de sabão,
Anel de noivado,
Prótese de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer,
Cuidado
Cuidado.

Renascida das cinzas
Subo com meus cabelos ruivos
E como homens como ar.





Sylvia Plath
(23-29 de outubro de 1962)

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça


domingo, dezembro 10, 2006

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA (de Allen Ginsberg)



















Cada pensamento tive com você, Walt Whitman, enquanto caminhava
pelas calçadas sob as árvores com dor-de-cabeça consciente de mim olhando a lua cheia.
Cansado de fome, fazendo shopping de imagens, fui até o néon do supermercado de frutas, sonhando com suas enumerações!
Que pêssegos, que penumbras! Famílias inteiras indo pro shopping de noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebês nos tomates! –
e você, Garcia Lorca, o que fazia no meio das melancias ?

Eu vi você, Walt Whitman, sem filhos, velho safado solitário, fuçando as carnes do refrigerador e paquerando os garotos da seção de verduras.
Peguei você fazendo perguntas pra eles: Quem matou as costeletas de porco?

Quanto custa a banana? Você é meu Anjo?
Entrei e saí das prateleiras de enlatados te seguindo,
e eu na minha cabeça sendo seguido pelo segurança.

Vadiamos juntos pelos corredores abertos em nossa imaginação solitária
provando alcachofras, passando a mão nos congelados sem nunca passar pelo caixa.

Pra onde agora, Walt Whitman? As portas se fecham em uma hora.

Pra que direção sua barba aponta esta noite ?
(Toco seu livro e sonho com nossa odisséia no super e me sinto absurdo.)
Vamos andar a noite inteira pelas ruas solitárias? Àrvores somam sombras às sombras, luzes se apagam nas casas, logo estaremos sós.
Vamos passear sonhando com a América perdida do amor cruzando os carros azuis

nas estradas, de volta pra nossa cabana silenciosa?
Ah, querido pai, de barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América tinha na mente quando Caronte parou de empurrar a barca e te deixou na margem nevoenta olhando-a sumir nas águas negras do Letes?




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quinta-feira, dezembro 07, 2006




sem som
esquecida em seu
refúgio de

sombras úmidas
de cuja seiva espessa
sobrevive

alguma coisa miúda,
muda, num
ramo qualquer

onde possa se
sentar
— ela nos espreita

hesita, pressente,
espera-nos passar
(até razão
estar ausente)

para que recomece
segura

a cigarra





(De Visibilia, Travessa dos Editores, 2005)

terça-feira, dezembro 05, 2006

EL DUENDE




O dia lapida
o lado mais raro
da dor.

A mulher transpira
pelos poros
iridescentes
dos dias.

Há dias
em que um homem
tem o tamanho de uma flor.


EM SONETO

Todos os quartos eram isto e aquilo: mesmo os detetives
Andavam perdidos pelos corredores dos arquivos
Sem sentido. Uau. Um duelo de lírios flutuava, astronauta,
No tumulto dos telefonemas, nos bilhetes do declive

Da tela que dispensa a diferença num segundo. Falta,
E quem cobrava eram pétalas secas num verão e restos
De toques líquidos como um pensamento: pedra.
Perda é mais fácil, o sonho abre portas que ele mesmo fecha

Enquanto a penumbra da tarde luta para superar a planta,
Os mapas rasgados desta noite descontínua, seguindo o ser,
A linha paralela do que eu não disse, o que acabei de esquecer.

Plins nos despertam: uma fuga de Bach. O autor atrás da porta
Pede mais uma cerveja, enquanto se livra num segundo dos espelhos,
Dos livros sobre a mesa, enquanto livra-se de si e me desperta.

HIKMA




A casa foi sendo progressivamente esvaziada, até que na manhã de domingo só restou ele. E o falcão.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

SPIRITUS MUNDI

A voz toca no ventre da aceleração. No Museu do Dia objetos ecoam na tatuagem da memória de seus habitantes. Abduzido, o olho humanimal é de um metal necrosado e devorador, racimo de genes durante a pressurização. Clareiras. A matriz translúcida como presença de religare, tigre de Lascívia e sua dança filosófica. A estrada do tato. Ilhas femininas. Dentro e fora comercializam artigos baratos e tapetes persas onde me encontro: a escrita de luz nas costas da jovem gueixa dispersa, um continente feito de blocos moventes e piscantes de gelo. Atraquei consoantes, com cimitarras certeiras, e nada. Alguém aumentando o volume da mata. Os nômades olharão para trás: enxergaram a avalanche em sua direção, nada que um leque não possa indicar, um tiro de alguém. A captura se dá a caminho, com nossas presas embrulhadas em tecido de tule, quase transparentes. Na fuga, quase sem saliva, a aranha deixa seus hóspedes de cera para exposição em Lexotan, enquanto contorcionistas regem o vento com um manual de hermenêutica. É preciso reconhecer as trilhas jesuítas, marca d´água revelando ruínas, musgos e brotos em densidade alvoroçada, proliferante, uma imagem de mundo que não reflete nossa mente, mar entrando em surto. O lugar de onde você veio é tão distante que pode muito bem ser aqui.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dois poemas de PAUL AUSTER



PEDREIRA


Nada mais que a canção disto. Como se
só o canto tivesse nos trazido
até este lugar.

Temos estado aqui, e nunca estivemos aqui.
Estivemos a caminho até o lugar onde começamos,
e estivemos perdidos.

Não há fronteiras
na luz. E a terra
não nos deixa palavra alguma
pra cantar.

Pois o desmoronar da terra
sob os pés
é música em si, e caminhar entre estas pedras
é ouvir a gente mesmo
apenas.

Canto, logo, nada,
como se isso fosse o lugar
para onde não volto --

e se voltasse, descontava a minha vida
nessas pedras: esquecer
que um dia estive aqui. O mundo
me caminha

além do meu alcance.





QUARRY

No more than the song of it. As if
the singing alone
had led us back to this place.

We have been here, and we have never been here.
We have been on the way to where we began,
and we have been lost.

There are no boundaries
in the light. And the earth
leaves no word for us
to sing. For the crumbling of the earth
underfoot

is a music in itself, and to walk among these stones
is to hear nothing
but ourselves.

I sing, therefore, of nothing,

as if it were the place
I do not return to --

and if I should return, then count out my life
in these stones: forget
I was ever here. The world
that walks inside me

is a world beyond reach.





FRAGMENTO DE FRIO



Porque ficamos cegos
no dia que se apaga conosco,
e porque temos visto nosso hálito
nublar
o espelho do ar,
o olho do ar vai se abrir
em nada a não ser na palavra
que renunciamos: inverno
terá sido um lugar
de amadurecer.

Nós que viramos os mortos
de outra vida, não a nossa.






FRAGMENT FROM COLD



Because we go blind
in the day that goes out with us,
and because we have seen our breath
cloud
the mirror of air,
the eye of the air will open
on nothing but the word
we renounce: winter
will have been a place
of ripeness.

We who become the dead
of another life than ours.




Paul Auster (De Fragments from the Cold (1976-1977))
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

segunda-feira, novembro 27, 2006

TRANCE MUSIC

Não perde o tempo entre os riffs dessa noite
mais distante que um DJ em transe
Voz rouca segue a linha do baixo, baixe a sanha,
Circule entre senha e groovie
Entre estrelas & champanhe.

Pouco a pouco
O calor liga você.

Como nos pegam de surpresa, sons,
e das vezes em que nos
acuam
Ou suspendem
o branco
com o charme de um grito.

Seara de sorrisos, só isso aqui parece não virar mercadoria.

Talvez mulheres líquidas, ou ícones que se desmancham ao toque da tecla

Delete Cartago,

pois o sonho é só veloz
o solo só é veraz
Se entra na primeira

esquina intuitiva e se
na sintaxe da levada

o Excêntrico Sr. Sentido venha junto,
taxiando

o que quer que vida seja, tensão de arroios,
e o quer que não seja também,
chá de cereja sob uma lua que viceja
nos quatro céus desta canção.





sábado, novembro 25, 2006

Idéia De Camiseta


EU NÃO MUDO.

EU SOU SURDO.





Creta, janeiro de 1984



voltando pela praia

as pegadas na areia

são as minhas



(de Solarium, Iluminuras, 1994)

Há Anos Vende Seu Peixe





Há anos vende seu peixe
podre
seu suflê de vísceras
para vegetarianos sem o menor senso de humor.

Há tempos leciona
o dialeto do caos
dá conselhos ao sol
vende orquídeas escritas com
seu sangue
para vampiros que têm medo do vermelho.

Há séculos ele pratica
a extinta arte da pluviometria
fabrica idéias inúteis
conta os carros da esquina
compondo um poema longo e atroz.

Há minutos ele liga
Para uma secretária eletrônica
Que repete, estranho, exatamente
A gravação de sua própria voz.




(De Nômada, Lamparina, 2004)

Homem-Chama (segundo Richard Pryor)

"Quando você está pegando fogo

E correndo como um doido pela rua

As pessoas evitam seu caminho.

Menos um velho vagabundo

que grita pro homem estranho

Tem fogo aí, amiguinho?"


(sobre uma gag de Richard Pryor)
Deus dorme na pedra
Sonha na planta
Se mexe no animal
E acorda no homem



Ibn Al Arabi, místico sufi, séc. 12

Mantra




Vento sedento de espaço

Vento sedento de espaço

Vento sedento de espaço

Pedra sedenta de tempo


terça-feira, novembro 21, 2006

O Rumor das Máquinas Crescia (de Severo Sarduy)


O RUMOR DAS MÁQUINAS CRESCIA


O rumor das máquinas crescia
Na sala contígua: já minha espera
De um adjetivo—ou de teu corpo—não era
Mais que a intenção de encurtar o dia.

A noite que chegava e precedia
O vento do deserto, a certeira
Luz—ou teus pés nus na esteira—
do ocaso, seu tempo suspendia.

Não recordo o amor e sim o desejo:
não a falta de fé, e sim a esfera—
Imagem confrontando seu reflexo

com a textura branca, verdadeira
página—ou teu corpo que inda releio—;
vasto ideograma da primavera.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

the eye of the hurricane

inside the old school

segunda-feira, novembro 13, 2006

William S. Burroughs - Thanksgiving Prayer

Burroughs lendo um poema em forma de oração pelo Dia de Ação de Graças.

Oração ao Dia de Ação de Graças, de William S. Burroughs

Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo. Dia de Ação de Graças, 28 de novembro de 1986.



Obrigado pelo peru e pelos Pombos Correios, destinados a serem cagados por saudáveis tripas americanas
Obrigado por um continente para se pilhar e se envenenar
Obrigado aos índios, por nos abastecerem com uma quantia módica de perigo e desafio
Obrigado pelas vastas manadas de bisões para se matar e se escalpelar, deixando as carcaças apodrecerem
Obrigado pela recompensas por lobos e coiotes
Obrigado pelo Sonho Americano, por tudo vulgarizar e falsificar até que as mentiras nuas resplandeçam
Obrigado à Ku Klux Klan, por tiras assassinos de negros acariciando as marcas na coronha...por mulheres decentes e carolas, com suas faces amarradas, amargas e más
Obrigado por adesivos tipo “Mate um viado em nome de Cristo”
Obrigado pela AIDS criada em laboratório
Obrigado pela Lei Seca, e pela Guerra Contra as Drogas
Obrigado por um país que não deixa ninguém tomar conta de seus próprios assuntos
Obrigado por uma nação de dedos-duros, é....
Obrigado por todas as lindas lembranças, “tudo bem, maluco, pode ir mostrando os bracinhos! “... você sempre foi uma dor-de-cabeça e um pé no saco
Obrigado
Pela maior e última traição
Do maior e último dos sonhos humanos



Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Em Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Editora Iluminuras, 1994, com entrevistas com Roy Lichtenstein, Meredith Monk, John Cage, Allen Ginsberg, Burroughs, Laurie Anderson, Amiri Baraka, Marjorie Perloff, Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure, John Ashbery, Wanda Coleman, Nam June Paik, entre outros)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Instantâneos Contemporâneos


uma e trinta da matina a loucura quebra minha esquina

esmaga com força sua rotina de estrelas mínimas

ferra as bocas do acaso com trancas de ciúme

de Galatéia expulsa a espuma de seus crimes

condena o Vácuo veloz ao silêncio do tumulto

só resta um pedaço da escotilha do piloto

e uma palavra em transe na testa do palhaço

o padre conversando com um surdo-mudo

anjos em carne viva rasantes no céu de merthiolate

poeira de metal e carnes prédios desabando

o anjo do mal com seu sorriso absorto

na rosa flechada sangrando mental

a aurora ladra seus rubros massacres

e a lentidão do real levita é um milagre

estar aqui entre gritos neste estado de sítio

descobrir que foi a vida que mentiu







(De Nômada, Lamparina, 2004)

terça-feira, outubro 24, 2006





poesia é quando sai faísca do papel


Paulo Leminski

domingo, outubro 22, 2006

DIÓGENES, O CÃO















Há alguns anos eu, Maurício, Beth e Yuri compusemos esta canção:
DIÓGENES, O CÃO


“Saia do meu sol, Alexandre Magno,
Deixe-me na minha barrica
Ou lhe mando um raio
Desferido de meus poderes espaciais.

Eu sou o primeiro cínico da Terra,
O primeiro signo,
O primeiro cigano.

Meu nome é Diógenes
Eu vim de longe
De onde a gente vive o hoje.

Vai tirando o cavalinho da minha chuva
Pare de ficar secando a minha uva
O seu poder não cabe numa luva

Lambo aos que me dão
Ladro aos que não dão
E mordo os maus

Meu nome é Diógenes
Eu vim de longe
De onde a gente vive o hoje.





sábado, outubro 21, 2006

PASCAL




Eu descobri que toda a infelicidade humana vem disso, do homem ser incapaz de ficar quieto em seu quarto.




Blaise Pascal

quarta-feira, outubro 18, 2006

AMOROSA, de Paul Éluard





















Retrato de Paul Éluard, por Salvador Dali



Ela pousa em minhas pálpebras,
Põe seus cabelos sobre os meus,
Tem a forma de minhas mãos,
Tem a cor dos meus olhos,
Se entranha em minha sombra
Como uma pedra contra o céu.

Ela nunca fecha seus olhos
Nem me deixa mais dormir.
Em pleno dia, seus sonhos
Dissipam os sóis,
Me fazem chorar, chorar e rir,

Falar sem ter nada pra dizer.




L´Amoureuse

Elle est debout sur mês paupières
Et ses cheveux son dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mês yeus,
Elle s´englouit dans mon ombre
Comme une pierresur le ciel.

Elle a toujours les yeus ouviers
Et ne me laisse pas dormer.
Sés rêves em pleine lumière
Font s´évaporer lês soleils,
Me font rirer, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.




(De Nourir de ne pas mourir, 1924.)


Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sexta-feira, outubro 13, 2006

Mais Um Poema de Bukowski (saído do forno)

NÃO SOU O SABICHÃO MAS....


um dos problemas é que
geralmente quando as pessoas
sentam pra escrever um poema
elas pensam,
“agora vou escrever um
poema”
e aí
passam a escrever um poema
que
parece um poema
ou o que eles pensam
que deve ser um poema.

este é um de seus
problemas:
claro, tem outros
também:
aqueles escritores de poemas
que se parecem com poemas
começam a achar que precisam
sair por aí
lendo-os para
outras pessoas.

isso, ele dizem, é feito
pelo status e pelo reconhecimento
(eles tomam cuidado
em não mencionar
a vaidade
ou a necessidade de
aprovação imediata
de alguma platéia minguada
e idiota).

os melhores poemas
me parece
são aqueles escritos
por uma necessidade
máxima.
e uma vez escrito
o poema
a única necessidade
é escrever
outro.

e o silêncio
da página impressa
é a melhor resposta
para um trabalho
concluído.

em décadas passadas
alertei alguns
de meus
poetas-amigos
sobre a natureza masturbatória
de leituras de poesia
feitas apenas para
o aplauso de
meia dúzia de
panacas.

“isole-se e
faça seu trabalho e se você
tiver que se misturar, então
se misture com quem
não demonstra o menor interesse
por aquilo que você considera
tão
importante”.

a resposta
que recebi então
de meus poetas-amigos
foi tão raivosa
tão hipócrita
que parecia que eu
havia provado
exatamente
meu ponto de vista.

depois disso,
cada um tomou
seu seu rumo.

e isso acabou resolvendo
só um de meus
problemas
e um problema deles também,
presumo.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

(De Come on In!, Black Sparrow Press, 2006)

quinta-feira, outubro 12, 2006

Bukowski reads

Bukowski lendo
linguagem - paulo leminski

confira leminski falando de poesia

Dor Elegante, poema de Paulo Leminski (musicado por Itamar Assumpção)

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

quarta-feira, outubro 11, 2006

Aqueles Bons e Raros Momentos, de Charles Bukowski




quando os deuses descansam
quando os cães se
calam,
voce sentado numa
espelunca Sushi
mandando ver nos palitinhos
entre duas grandes garrafas
de saquê
só que quietinho pensando
sobre todos os infernos
que você
sobreviveu,
provavelmente mais que
qualquer um
so que esses são seus
pra se lembrar.
Sobreviver é uma coisa
engraçada demais,
e doida.
Passando com segurança por todas
as guerras,
mulheres,
hospitais, xilindrós,
juventude,
meia-idade,
danças suicidas,
décadas
de nada.

Agora aqui
nessa espelunca Sushi
numa rua suburbana
de uma cidadezinha,
tudo passa à sua
frente
rapidamente
feito um filme
bom/ruim.

Há essa
estranha sensação
de paz.

Nem um carro na rua
passa,
nem um som.

Você segura os palitinhos
como se fizesse
isso há
séculos,
repare no pedacindo
de repolho na
borda do seu
prato.
aí, é isso aí,
todo aquele estilo,
graça,
caralho é tão
estranho
sentir-se bem por estar
vivo,
sem fazer nada
de mais
e sentindo
a glória
disso,
como um pleno
coral atrás
de você,
como as
calçadas,
como as
dobradiças.

cresce grama na Grécia
e até os patos
tiram uma siesta.



(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amém, Buk, amém

terça-feira, outubro 10, 2006

BUK


Domingo assisti um documentário maravilhoso sobre Charles Bukowski (pronuncia-se biukauski). Daqueles que dão vontade de rever e rever. Mais de duas horas com entrevistas raras, imagens de Bukowski dirigindo seu volks vagabundo pelas ruas de L.A., levando roupa pra lavanderia, entrevistas pra TV alemã, belga, Bukowski declamando seus poemas para platéias ensandecidas e caindo na gargalhada. E bebendo, claro. Entrevistas com ex-mulheres, o editor John Martin, que foi quem apostou nele, com Ferlinghetti, e com os amigos Bono (do U-2), Sean Penn e Tom Waits.

O filme do John Dullagan traça um ótimo panomara do "Hank", da infância até os últimos anos. É hilariante. É emocionante. É de foder, enfim. Bukowski penou muito até começar a ser reconhecido, é um exemplo de persistência. Engraçado é que até a pouco tempo ele era conhecido apenas como prosador no Brasil, enquanto nos EUA todos o conhecem mais como um poeta. Vou ver se posto uns diálogos e depoimentos aqui neste Estúdio Realidade.

Enfim, um filme daqueles pra gente repensar a vida. Traduzi ins 15 poemas de Bukowski nos últimos anos, sempre me dão muito prazer. Uma amostra está embaixo deste post, com o qual costumo abrir recitais de poesia e música. É killer. Confira:

Definindo a Magia, poema de Charles Bukowski




um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche

de presunto, quando você está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.




Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

domingo, outubro 08, 2006

PELOS OLHOS DE LAURA RIDING, por Mariana Ianelli

A poeta paulistana Mariana Ianelli acaba de publicar no jornal Rascunho, de Curitiba, uma concisa e ótima resenha sobre Mindscapes, o livro de poemas da poeta modernista americana Laura Riding que publiquei em 2004 pela Iluminuras. Dê uma conferida:



Mindscapes
Laura Riding
Trad.: Rodrigo Garcia Lopes
Iluminuras
256 págs.

"Ecce Homo, parece dizer cada poema", foram, certa vez, as palavras de Eugênio de Andrade. Esta ambição da experiência poética por um sentido humano é o que diz, na duração do pensamento, cada poema de Laura Riding. Há mais de uma década de sua morte, Riding ressurge, em sua primeira edição brasileira, convocando o ser para a linguagem. Mindscapes, paragens da mente, do infinito durante - o espaço luminoso onde a consciência lingüística se converte em um projeto de existência.
No ponto em que se tocam criação e crítica, a poesia de Riding tem como origem e destino o próprio homem, este mesmo que, em sua possibilidade de ser, tornou-se alvo da linguagem para Heidegger. "O que é ser?" - pergunta a poeta. "É ter um nome", e carregá-lo em si, inteiramente, até que se faça silêncio. Onde a verdade fala, a palavra consente. Por um momento, Riding e o mundo se cruzam - e este momento, de hesitação e equilíbrio, de amor e contenda, é o poema. Exatamente aí dobra "a sineta do pensamento".
A poeta ronda a "fala absoluta", "o verso simples e impronunciável", o milagre que está dito em sua presença muda. Lê-se, para além da palavra, a eternidade. Para além do tempo, da beleza e do amor, o homem em sua justa dimensão. Não são poemas que se abrem ao primeiro apelo da leitura, antes são muros que procuram os olhos da mente, despertos para a interminável aventura da autognose. Poemas para se olhar por dentro e através de si, no que lhes é sem limite e sem vaidade: este caminho de aprendizagem no abismo, "um continente imaginário", mindscapes.
Companheira de Robert Graves por mais de seis anos, admirada por Yeats e Auden, Riding foi uma daquelas mentes poéticas que, diante do questionamento dos valores humanos na travessia do séc. 20, não se furtou a enfrentar o risco de limites extremos no estudo e na criação da obra literária, chegando a abandonar a poesia por esta mesma fidelidade de consciência que calou a vida de Paul Celan.
"Não somos o vento", segreda a poeta. Não somos isto que é pleno em si mesmo sem ao menos saber seu nome. A morada da natureza humana está em outra parte: na imanência de um porquê."Devemos distinguir melhor entre nós mesmos e estranhos", separar pela diferença e conciliar pela identidade. É assim que, na poesia de Laura Riding, o tempo musical da mente abole o tempo transitivo dos relógios e o pensamento, tal como o compreendia Ralph Waldo Emerson, desdobra sua existência "mutuamente contraditória e exclusiva".
Numa época em que urge a tarefa de pensar, os poemas de Mindscapes vêm atar o elo entre o homem e o mundo por essa íntima relação entre experiência e iniciação, a partir da qual poesia e filosofia se conversam de um modo fecundo, infinito e revolucionário
.
A poeta, crítica e ficcionista Laura Riding, uma das feras da poesia americana do século 20.

Dois poemas de Laura Riding

O MUNDO E EU


Isto não é bem o que quero dizer, não,
Nada mais do que o sol é o sol.
Mas como significar mais corretamente
Se o sol brilha aproximadamente?
Que mundo mais desajeitado!
Que hostis implementos de sentido!
Talvez isto seja o sentido mais preciso
Que talvez fiquem bem o saber disso.
Ou então, acho que o mundo e eu, sim,
Devemos viver como estranhos até o fim –
Um amor azedo, ambos duvidando um pouco
Se um dia houve algo como amar o outro.
Não, melhor termos quase certeza
Cada um de nós onde é que exa‑
tamente eu e exatamenre o mundo falha
Em se cruzar por um segundo, e uma palavra.







NENHUMA TERRA AINDA


Mar demorado, como é fugaz,
De aguidéia a aguidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.

Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.

Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu –
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.

O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.

E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.

E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas –
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.



(Em Mindscapes, Poemas de Laura Riding, Trad. RGL, Iluminuras, 2004)

No Blog de Douglas Diegues

Meu amigo Douglas Diegues acaba de postar um comentário bem simpáico a este modesto Estúdio Realidade em seu blog (lincado aí do lado). Douglas é uma figuraça, e ótimo poeta também.

RGL LANZA ESTÚDIO REALIDADE
O poeta Rodrigo Garcia Lopes acaba de lanzar um blog, chamado Estúdio Realidade, que merece ser conhecido por los que ainda no lo ficaram sabendo. U blog do Rodrigon tá cheio de coisas legais. Todos os dias tem alguma novidade que ele vem di escrever ou traduzir pras pessoas que gustam do que ele escreve y traduz. Particularmenti gosto dessa mescla de pedra e pluma que o RGL faz sem forçar la barra. Aliás, essa geração Londrix, Ademir, RGL, Losnak, Maurício Arruda Mendonça yo conozco y prezo desde quando eles nem tinham livros publicados e faziam aquela esplêndida revista KAN onde yo los empezava a leer e admirar. No Estúdio Realidade, RGL manda também instigantes traduciones, sempre certeiras, sempre com aquele frescor impagable. Conheci u Rodrigon no Londrix 2006. Me diverti muito com ele naquele primeiro Londrix que ao que tudo indica nunca. Nunca mais irá se repetir.

quinta-feira, outubro 05, 2006

EM RIDING



Viver numa realidade de palavras,


com a consciência de que, a cada passo, falha,

no entanto atenta ao que cada instante desperta,

É a ambição da poesia quando trava

com o artifício mortal da absorção — escrava

do som que a persegue como um alerta —

Entre letra e mente uma batalha.




(De Nômada, 2006)
montanhas

não são nuvens
mas tão brancas

solitárias
mas são tantas



(de Solarium, 1994)

quarta-feira, outubro 04, 2006
















"A realidade não está simplesmente ali, ela tem que ser buscada e conquistada"

Paul Celan
"Eu estava mais interessado na poesia do que na prosa -- exatamente porque o poeta é alguém que cria sua linguagem, enquanto o prosador, na maioria das vezes, usa a linguagem"

Aimé Césaire

segunda-feira, outubro 02, 2006

As time goes by....



Peguei esta foto hoje no blog do meu amigo Mário Bortolotto. O aniversário dele foi na sexta. O meu e o da Isabela, filha dele, e que está no colo do Marião, é hoje. Três librianos.

Feliz aniversário para nós!

Esta foto foi tirada no lendário Bar Valentino, em 1994, nos ensaios para o Poesia in Concert, que fizemos junto com outros dois grandes amigos, o Maurício Arruda Mendonça e o Silvio Demétrio no violão de aço e slide. A casa lotou duas noites seguidas, pra ver a gente mandar ver na poesia. Lemos de tudo ali, de trechos da Bíblia em hebraico, Marcial, até Ginsberg, Bukowski, Leminski e nossos próprios poemas, é claro. As noites foram um sucesso. Uau, que saudades, de quando tudo parecia mais fácil e leve.

Mais um ano se vai.
Como diria Chacal, a vida é curta para ser pequena.