segunda-feira, abril 16, 2012

Poema inedito


ECLESIASTES

Você bate na mesma tecla, repete
aquele surrado clichê: não há nada
de novo sob o sol. Mas quem garante
que isto é real, não um conto de fada?

Nem tudo tem sido, como se tem ouvido,
a mesma coisa desde o começo
dos tempos. Não estou convencido.
Se há algo que não muda, desconheço.

Nem sempre o vento é sul, nem todo rio
segue pro mar. O que está acontecendo agora,
por exemplo, não era pra acontecer. Ora,
você nunca viu este filme. Fica frio:                                                                   
Não há nada de novo sob o sol
só para o sol, que é sempre o mesmo.
Esta é a verdade toda, não se dissol-
ve numa rima ou pensamento a esmo.

Aqui embaixo, tudo muda, todo dia:
a moda, o medo, e mesmo a luz do sol
passa dias assim, arredia, e me arrepia
pensar que é diferente. Olha só:

Pare de ficar repetindo isso. Acorda. Mete
em sua cabeça de uma vez por todas:
nenhum sol se põe a oeste. E este
poema, eu sei, nem ele existe. É foda.




Rodrigo Garcia Lopes

terça-feira, abril 10, 2012

Dois poemas de Estúdio Realidade no caderno Ilustríssima - Folha de S. Paulo

Domingo a Folha de São Paulo publicou dois poemas inéditos (que saem em agosto pela editora Iluminuras ) no caderno Ilustríssima. Estes dois fazem parte da última seção do livro Estúdio Realidade, chamada "Quarto Fechado".





Índice geral São Paulo, domingo, 08 de abril de 2012Ilustrissima
Ilustrissima
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Imaginação
PROSA, POESIA E TRADUÇÃO RODRIGO GARCIA LOPES


ROMANCE POLICIAL


A lanterna da lua banhava o morto.
No rosto do detetive, nenhum sopro
A não ser o ar pesado do mangue, o corpo
Caído, espesso sangue, e o pouco
Dito pelo policial com cara de mau
Que agora segurava um castiçal
Interrogando a loira de olhos negros
Que trabalhava para um restaurante grego
Da grana e dos bilhetes estranhos no porta-luvas,
Do estranho esgar de sorriso, do sangue em sua luva.
E antes que a canção no rádio acabe
Ele diz: "Para salvá-la, só um milagre".
Nas mãos, a carta rasgada ao meio, garrafa de uísque
Pela metade. Mas ainda é cedo para que ele se arrisque.
Nada ficou claro nos depoimentos, de como essa sereia
Foi encontrada pela estrada à lua cheia:
"Do que não se pode falar, deve se calar",
Ela disse, bem no momento dele virar
E ser beijado por seus lábios fatais.
A lua aumentava seus cristais.
Seguiu-se um minuto de silêncio
E os grilos pontuavam um indício. Ela disse:
"As pistas estão em toda parte, em seu diário,
No dia dezesseis em vermelho no calendário".
Enquanto o detetive revistava a lua
A loira derramou uma poção branca na sua
Garrafinha de uísque. "Nessa profissão, é preciso jeito
Para resolver este quase crime perfeito".
Ela não dizia nada, ou quase nada, só o olhava
Sabendo que a verdade estava em cada palavra.
A esta altura, tudo parecia bem nítido
E agora ele a forçava a beber o líquido.




QUARTO ESCURO


O detetive avança pela desordem do estúdio.
A mobília está calada como testemunha.
Lá fora folhas se reviram, se estudam.

O telefone calado como um caramujo.
Um ano depois e todas as pistas
Deram em becos sem saída e luto.

"Nada disso está acontecendo, escuto
meus próprios passos sobre o escuro.
Dois gatos negros transando num muro."

E o criminoso ali perto,
pronto para revelar quase tudo.
E na pequena floresta da biblioteca

O verde é um código secreto.
O detetive deita e cai num sono profundo.
E a carta o tempo todo sobre o criado-mudo.
 


RODRIGO GARCIA LOPES
 
SOBRE OS POEMAS Os dois poemas aqui publicados fazem parte da coletânea "Estúdio Realidade", que Rodrigo Garcia Lopes lançará no segundo semestre, pela Iluminuras. O autor prepara também o lançamento de seu primeiro romance policial.

sábado, abril 07, 2012

ENTREVISTA SOBRE A REVISTA COYOTE - BLOG DE JOSÉLIA AGUIAR

Livros Etc

por Josélia Aguiar

Perfil Josélia Aguiar é jornalista especializada na cobertura de livros
Leia mais

Revistas literárias: Coyote faz dez anos

O número 23 da Coyote começou a circular faz poucas semanas, e Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes já preparam o próximo, bastante especial, pois será o do décimo aniversário dessa revista que criaram em Londrina, no Paraná, para publicar literatura e arte. A caminho, uma das novidades que chega com a data redonda é o site, antigo projeto.
Desde que fiz este post aqui, sobre o número 200 da Paris Review, prometi iniciar série sobre publicações literárias no país  –para ler mais sobre essa revista histórica e até hoje influente, com seus 59 anos, vá por aqui, aonde encontra íntegra da entrevista do colega Fábio Victor com o editor atual, Lorin Stein, que saiu na “Ilustrada” sábado passado.
O blog vai mapear tanto os títulos de teor artístico-literário, como a Coyote, quanto os mais voltados à crítica literária, como Rascunho, os de humanidades, como a Novos Estudos Cebrap, e os literário-digitais, como a Errática.
Quem respondeu sobre a Coyote para o blog foi o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes,  que publicou há pouco ”Nômada” (Lamparina) e lança em agosto “Estúdio Realidade” (Iluminuras). A edição da Coyote, média de duas por ano, tem 52 páginas, custa R$ 10 e é distribuída pela editora Iluminuras –vá por aqui. No número atual, o dossiê dedicado a Moacyr Scliar, inéditos de Beatriz Bracher e a fotografia de Mara Tkotz são alguns dos destaques. 
Como nasceu a Coyote? “De um velho sonho que Marcos Losnak, Ademir Assunção e eu tínhamos de fazer uma revista de literatura e arte, ainda quando cursávamos jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Na época, começo dos anos 1980, fiz com Marcos Losnak e outros amigos os fanzines Hã e K’AN, com a participação do Ademir a partir do terceiro número. Nos anos 1990, eu e Ademir fomos editores da revista Medusa, de Curitiba, com Eliana Borges e Ricardo Corona. A Coyote surgiu em 2002, editada em Londrina. Só existe graças à nossa teimosia e ao Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) da prefeitura local. É este importante programa público que garante os custos mínimos para a impressão e circulação da revista.”
Vocês seguiram algum modelo de revista literária? “Não creio que seguimos nenhum modelo. Buscamos, sim, criar nossa própria linguagem, sobretudo no aspecto gráfico, que é um dos diferenciais, marca registrada da Coyote. Claro que muitas revistas passaram por nossas mãos, sobretudo as de invenção. Somos bastante fiéis ao projeto gráfico e editorial desde o primeiro número. Buscamos sempre a fatia mais radical da literatura brasileira e internacional. Radical na linguagem e nas abordagens.”
Quem é o seu leitor?  “Os interessados em literatura, poesia e arte são potenciais leitores. Temos bastante feedback de artistas, escritores, poetas, jornalistas, formadores de opinião e leitores em geral. O difícil é fazer a revista chegar até eles. Alguns editores confessaram terem conhecido na Coyote autores inéditos que eles depois publicaram. É distribuída para todo o país, apenas em livrarias, mas todos sabem como são grandes as dificuldades de distribuição no Brasil. Além disso, tínhamos uma mala direta bastante grande no começo, até internacional, mas diminuiu pelo preço dos correios, limitando-se apenas ao essencial: bibliotecas públicas e universitárias, alguns críticos e autores.”
A parceria com a editora Iluminuras ajuda a distribuir a revista? “A parceria com a Iluminuras ajuda bastante na distribuição. Todos aqueles que fazem revistas independentes sabem que o maior nó é a distribuição. Muitas livrarias se recusam a vender a revista, sabe-se lá o motivo. Certamente porque não dá tanto lucro quanto um best-seller. Mas há leitores interessados em todos os cantos do país. Quando o mercado só se interessa por lucros estratosféricos, publicações como a Coyote acabam prejudicadas. Vamos resolver este problema com vendas diretas pela internet.”
 O que é mais difícil ao fazer uma publicação literária no país?O mais difícil é manter a longevidade que a Coyote conseguiu. Historicamente, no Brasil, revistas literárias não passam do quinto número. Nós estamos completando dez anos em 2012, com 24 números lançados. Poderíamos ter lançado quase o dobro, se trabalhássemos com condições um pouquinho melhores. Ao longo dos anos, nos inscrevemos em vários editais e nunca conseguimos absolutamente nada, exceto o apoio do Promic, de Londrina. O último edital do qual participamos foi um do Ministério da Cultura para revistas culturais. Perdemos para a Rolling Stones e  Speak-Up. Fidelidade dos leitores, nós temos. Colaboradores também não nos faltam: há ótimos poetas, escritores, fotógrafos, artistas e tradutores em atividade no país, sempre dispostos a divulgar material inédito. A revista tem um enorme prestígio. O que não temos é dinheiro para fazê-la crescer.”  
Existe algum novo projeto, algo relacionado a internet em vista? “Estamos trabalhando na edição de aniversário. Uma década, para uma revista literária, é um marco histórico. Também estamos pesquisando com webdesigners a criação, finalmente, do site da Coyote. Queremos oferecer todos os números anteriores, criar uma versão online da revista e desenvolver um sistema de vendas diretas para aqueles que quiserem a edição impressa. Muita gente nos pergunta: mas como a revista não tem um site ainda? A resposta é: porque cada um dos editores faz uma porção de outras coisas. Nenhum deles sobrevive da revista. Ao contrário: não ganhamos um tostão. Fazemos por pura teimosia e amor à arte, para usar um velho clichê, azul e desbotado.”
Algum número foi particularmente marcante na trajetória da Coyote? “Os números são todos marcantes. Fazemos a revista com muito critério, zelo e capricho. Mas, se fosse mencionar alguns, destacaria os dossiês, com entrevistas inéditas, de Paulo Leminski, Roberto Piva, Marjorie Perloff, Eugen Bavcar, Moacyr Scliar, os textos inéditos de Daniel Wallace,  Domingos Pellegrini, Pedro Juan Gutierrez, João Gilberto Noll, Sebastião Nunes e Wilson Bueno, ou ainda a tradução de poetas nômades do Oriente Médio. Mas, sobretudo, a revelação de vários autores novos, que, em seguida, foram publicados por editoras, como João Filho, Jorge Cardoso e Nilo Oliveira. Esta é uma filosofia da Coyote que seguimos à risca: ao lado de inéditos de autores já consagrados, publicamos sempre autores novos e até totalmente desconhecidos. Brasileiros ou estrangeiros. Não queremos chover no molhado. Um dos elogios mais caros a nós, e que ouvimos com frequência, é: ‘mais uma vez vocês estão publicando autores de que nunca ouvi falar’.”
Existe uma tradição de revista literária no Paraná como um todo, não?Somos de Londrina, não Curitiba, mas tanto os “coxas brancas” (apelido dos curitibanos, por causa do frio e do time da capital) quanto os “pés vermelhos” (o dos londrinenses, devido à cor da terra) têm rica tradição, desde os simbolistas, de revistas, periódicos e páginas literárias. Em Londrina, houve o jornal Panorama, uma experiência jornalística maravilhosa que trouxe escritores e jornalistas de peso à cidade nos anos 1970, como João Antônio, Narciso Kalili, Myltainho, e formou toda uma geração de excelentes profissionais aqui. O Caderno 2 da “Folha de Londrina” era muito lido nos anos 1980, formador de leitor e de opinião. A página dominical “Leitura”, que foi editada por Domingos Pellegrini Jr., Nelson Capucho, Nilson Monteiro e pelo Ademir, antes de mim, era bastante lida e discutida, não só aqui, mas em vários outros pontos do país. Poetas e escritores nacionais, como Carlos Drummond de Andrade, Boris Schnaiderman, Waly Salomão, Paulo Leminski e muitos outros se manifestavam entusiasticamente sobre a qualidade e a ousadia. Guardamos até hoje bilhetes e cartas deles. Publicávamos inéditos de autores locais, paranaenses e brasileiros, e traduções de Rimbaud, Allen Ginsberg, Ezra Pound.
A tradição em Curitiba também é grande. “Em Curitiba, houve a revista Joaquim, editada pelo Dalton Trevisan nos anos 1950. Depois a página Letras e Artes nos 1960, feita por Silvio Back, a Pólo Inventiva e a Raposa nos 1970, por Reynaldo Jardim e Paulo Leminski, entre outros, e o jornal Nicolau, nos 1980, editado por Wilson Bueno, no qual trabalhei também. Nos anos 90 e 2000 existiram outras revistas literárias como Medusa, Oroboro, Etecetera, que não circulam mais. E existe ainda o jornal Rascunho, mais de crítica literária, mas que também pública inéditos de autores brasileiros e estrangeiros. Não sei o motivo pelo qual o Paraná, comparado a outros estados, tem uma trajetória robusta e instigante em termos de publicações literárias. Valeria um estudo sobre isso.” 

WILD NIGHTS - poema de emily dickinson - trad. rodrigo garcia lopes


 
 
 
Noites Insanas! Noites Insanas!
Se estivesse a teu lado
Noites insanas seriam
O nosso pecado!
 
Fúteis os ventos
Para o coração num porto —
Inúteis os compassos,
Inúteis os mapas!
 
Remando no Éden!
Ah! O mar!
Quem dera em ti — esta noite —
Ancorar!



**

Wild Nights! Wild Nights!
Were I with thee,
Wild Nights should be
Our luxury!

Futile the winds
To a heart in port, —
Done with the compass,
Done with the chart!

Rowing in Eden!
Ah! the sea!
Might I but moor
To-night in Thee!
 
 
EMILY DICKINSON
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes 
 

UM POEMA DE DICKINSON - trad. rodrigo garcia lopes




Que Esses tenham morrido nos dá
Calmante na hora da morte
Que Esses tenham vivido, diploma
De imortalidade.

That such have died enables us
The tranquiller to die

That such have lived, certificate
For immortality.

EMILY DICKINSON
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sexta-feira, abril 06, 2012

Pressentimento (poema de E. Dickinson traduzido por Rodrigo Garcia Lopes)


 

Pressentimento é essa longa sombra na grama
Sinal que o sol já se derrama

Às relvas assustadas o aviso
Que as Trevas estão a caminho.


Presentiment is that long shadow on the lawn
Indicative that suns go down

The notice to the startled grass
That Darkness
is about to pass.

EMILY DICKINSON
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Poema de Emily Dickinson tradução; Rodrigo Garcia Lopes



O enigma decifrado
Recebe rápido desdém —
Nada estraga mais rápido
Que a surpresa de ontem.

+

The riddle we can guess
We speedily despise —
Not anything is stale so long
As Yesterday's surprise


EMILY DICKINSON
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

segunda-feira, abril 02, 2012

NOTÍCIAS DO MUNDO - poema de rodrigo garcia lopes



NOTÍCIAS DO MUNDO


Águas muezins no vale das sombras
África agoniza
Iraque se debate
Índia se indigna
Impérios definham
Morro em guerra fratricida
Irã se ira
Um terrorista que se aterroriza
Palestinos palestram
Arábia se ouriça
Europa se gripa.
Mentiras, mentiras.
O mundo é um parque de mentiras.
Diplomacia
Na mão de ignorantes
Nada vale, vale nada.
Barbárie é o nome
Dessas notícias.
Mundo implodindo
Rumo à extinção
Não atenção ao ser, mas atentados ao ser,
Mundo confluindo
Para uma desaparição
Onde, quem ficar, se der, vai ver.
E, no entanto, eu aqui
à sombra de um pensamento
de um amor que seja um lugar,
um lugar como um pensamento.
Mas isto é ir muito longe:
Isto é acordar.




Rodrigo Garcia Lopes
Poema inédito do livro Estúdio Realidade, a sair no segundo semestre pela Editora Iluminuras