terça-feira, abril 29, 2008

"Idéias verdes incolores dormem furiosamente".



Noam Chomsky

domingo, abril 27, 2008

DIZER

dizer é bem mais que falar:

dizer é deixar (o ser desse dizer) ser

fazer com que as coisas digam

delas mesmas se pudessem, dizer.


por isso dizemos: isto diz,

como se disséssemos: "isto é feliz".

dizemos sempre perto

e queremos falar longe


abismo é não-dizer, simplesmente,

quando, onde, algo, digo,


foi dito

na mente


deslizar pelos desvios

(não a fala que só fala,

mas de sentidos sendo)

e depois sair do mar da sala


dizer é bem mais que dizer

dizer é só não querer

a alma calada, parva,

é fazer das coisas

bem mais que palavras.



(Rodrigo Garcia Lopes, poema de Polivox, editora Azougue Ediorial, 2001)

sábado, abril 26, 2008

NEUZA ENCANTA LEMINSKI


Minha amiga, a Neuza Pinheiro, está apresentando em São Paulo, no Sesc Pompéia, nos dias 1 e 2 de maio, um show com músicas que ela fez em cima de poemas do Paulo Leminski. Como ela explica: "'Profissão de Febre', poema de Leminski, dá título ao trabalho que venho realizando há muito tempo, buscando na música de sua poesia a poesia da minha música". Neuza Pinheiro é poeta e compositora de mão cheia e, na minha modesta opinião, uma das maiores cantoras brasileiras. Umas das vozes mais viscerais que eu já ouvi. Pena que pouca gente conhece. Taí uma boa chance:
"Profissão de Febre"
Show com Neuza Pinheiro
Sesc Pompéia- São Paulo
Projeto NOITES SUJAS
Dia 1(19hs.) e 2 de maio(20 hs)



quarta-feira, abril 23, 2008

ESCRITO NUM HOTEL


O que nos leva a escrever

Se até o tempo, escrita da mente,

Desmente estar ali para entreter

Até o tempo se fechar, até a luz se resumir?


O primeiro gesto que a detona

É o eco da palavra que a devora

Exibindo seu osso e seu recheio

Como vem, de seu impulso dono - ou dona.


É para confundir os registros

Que a luz num quarto se anuncia.

E é para tornar-se ainda mais lúcida

Que a mão, distraída, nos escreve. E pára.



Rodrigo Garcia Lopes (Em Polivox, Azougue, 2001)

quinta-feira, abril 17, 2008

De "Canção de Mim Mesmo", de WALT WHITMAN (1855)


[...]
Solitário à meia-noite no quintal, meus pensamentos partem de mim por muito tempo,
Andando pelas antigas colinas da Judéia ao lado do deus belo e gentil;
Acelerando pelo espaço . . . . acelerando pelo céu pelas estrelas,
Acelerando entre os sete satélites e o imenso anel e seu diâmetro de oitenta mil milhas,
Acelerando com o rabo dos meteoros . . . . lançando bolas de fogo com eles,
Levando a cria crescente que traz sua mãe cheia em seu ventre:
Se enfurecendo adorando tramando amando avisando,
Pra trás e pra frente, surgindo e sumindo,
Noite e dia cruzo esses caminhos.

Visito os pomares de Deus e contemplo seus esféricos produtos,
Considero os quintilhões já maduros e os quintilhões ainda verdes.

Meu vôo é o vôo de uma alma fluida e voraz,
Minha trajetória profunda além do alcance das sondas.

Vou me servindo do material e do imaterial,
Não há vigilância que me pegue, nem lei que me proíba,

Ancoro minha nave só por um segundo,
Meus mensageiros não param de partir ou trazer seus relatos pra mim.
Saio à caça de peles polares e focas . . . . salto abismos com uma vara afiada . . . . me
agarro nos picos quebradiços e azuis.

Subo no mastro da proa . . . . já noite alta me ajeito no cesto da gávea . . . . navegamos
pelo ártico . . . . tem luz o bastante,

Pela atmosfera transparente me espreguiço na beleza maravilhosa,
Massas imensas de gelo passam por mim e eu por elas . . . . o cenário é claro em todas as direções,
Montanhas com seus picos brancos apontam na distância, lanço minhas fantasias até elas;
Chegamos a um grande campo de batalha onde logo entraremos em ação,
Passamos pelos postos avançados colossais dos acampamentos . . . . passamos com pés silenciosos e cautela,
Ou entramos nos subúrbios de uma imensa cidade arruinada . . . . [...]


Trecho de "Song of Myself, de Walt Whitman
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
Em Folhas de Relva (Iluminuras 2005)

quarta-feira, abril 16, 2008

ÚLTIMAS PALAVRAS DE DAVID THOREAU

Visita 1: "Você fez as pazes com Deus?"

Thoreau: "Nós nunca brigamos".

Visita 2: "Você está pronto para o próximo mundo?"

Thoreau: "Um mundo de cada vez".

A DEFENSE (cut up, New York Times)


A defense official says a missile launched from a U.S. Navyship in the Pacific hit a decaying U.S. Spy satellite 130 miles above Earth's surface. The results of the strike are still unclear. Official says a missile launched from a U.S. Navy ship in the Pacific hit a decaying U.S. Spy satellite 130 miles above Earth's satellite. The results a defense official says a missile launched from a U.S. Navy Navy ship in the Pacific hit a decaying surface U.S. Spy U.S. satellite 130 miles above Earth's surface. The results of the spy are still unclear. Of the strike are still satellite U.S. Unclear. A defense official says an unclear missile launched from Pacific ship in the U.S. hit a decaying still. Spy satellite 130 miles above Earth's missile. The results of the strike are still unclear.

domingo, abril 13, 2008




Ian Hamilton Finley, Wave/rock. (1966)

sexta-feira, abril 11, 2008

JANELAS (de APOLLINAIRE)


"Janelas abertas simultaneamente", quadro de Robert Delaunay, 1912.

JANELAS

Todo o amarelo morre do vermelho ao verde

Quando as araras cantam nas florestas nativas

Miúdos de pir-rís

É preciso escrever um poema sobre o pássaro de uma asa

Vamos enviar por telefone

Traumatismo gigante

Faz os olhos correrem

Repare naquela moça bonita que passa entre as mulheres de Turim

O pobre rapaz assoa o nariz na sua gravata branca

Você vai erguer a cortina

E eis que a janela se abre

Aranhas quando minhas mãos teciam a luz

Beleza palidez insondáveis violetas

Em vão tentaremos um cochilo

Começaremos à meia-noite

Onde se tem o tempo tem a liberdade

Mexilhões Bacalhau múltiplos Sóis o Ouriço do poente

Um par de velhas botas amarelas na janela

Torres

Torres são ruas

Poços

Poços são praças

Poços

Árvores ocas abrigando mestiços vagabundos

Mulatos cantam cantigas que matam

Mulatos barulhentos

E o ganso trompeteia seu ruá-ruá rumo ao norte

Onde caçadores de guaxinim

Raspam as peles da caça

Vancouver

Diamante brilhante

Onde o trem branco de neve e seus fogos noturnos fogem do inverno

Ô Paris

Todo o amarelo morre do vermelho ao verde

Paris Vancouver Hyères Maintenon New-York Antilhas

A janela se abre como laranja

Bonito fruto da luz



GUILLAUME APOLLINAIRE

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes


Este poema, de 1912, publicado para o catálogo da exposição de seu amigo e pintor Robert Delaunay, exemplifica a estética da surpresa e da simultaneidade da poesia de Apollinaire, altamente paratática, quase uma tradução verbal e cubista da experiência dos quadros "simultaneístas" de Robert Delaunay, com a paisagem da rua sendo desconstruída na linha de Cézanne. Uma naturza morta-viva de palavras, e que é capaz de abarcar tempos e espaços insuspeitos, numa poética que anuncia a consciência da aldeia global.


[1] Pihi, pássaro fantástico da lenda chinesa que teria um olho e uma asa, o que o obrigava a voar sempre em pares: o macho à direita, a fêmea à esquerda. Em vários poemas Apollinare se refere à fauna e seres imaginários.

[2]Referência a dois jornais de Paris da época de Apollinaire, O Tempo e A Liberdade.

terça-feira, abril 08, 2008

THOTH

"Storm Reality Studio...and retake the universe" William S. Burroughs

Para ouvir a faixa do disco Polivox (independente, 2001), clique aqui:

"THOTH": de Rodrigo Garcia Lopes: concepção, voz, vocalize, sampler, sopro e efeitos.
Gravação e mixagem: Maurício Grassman.




domingo, abril 06, 2008



O OURO outro que gira seu olhar a leste

deste outono de granitos

é dia que acaba (mas não

em nossa mente)

em outra trilha (Noite, Nut,

nosso

Norte).

Portões serão abertos: deuses

hiptonizam lagos

Que se calam, mas falam

Sob águas falsas, sob si, onde toda

mudança está.

As chaves pesam,

paredes se derretem

diante do segredo.

A pressa submerge.

- Tempos e espaços são criados

enquanto passam:

no luminoso, batido pela chuva

magnética, a chama do É & do Não É.

No rádio a voz da lua,

Em espirais de vento & fogo:

Ondas

Pensando-as

(pois ser e pensar são uma coisa só).

Parmênides,

Príncipe das marés,

O ser recua sob nossos pés

Grutas se iluminam

Azuis se espalham

Abraçam a musa Vácuo

Céu e Via Láctea

se beijam

enquanto levitam neste sopro

nessa água que se apaga,

de repente,

num canto da mente.








Rodrigo Garcia Lopes

de Polivox (Azougue Editorial, 2001)