quinta-feira, janeiro 31, 2008

"Idéias de Ordem na Poesia Norte-Americana Contemporânea"



Acabo de saber, pela Marjorie Perloff, crítica americana que entrevistei novamente depois de 17 anos (!), que foi publicado, no ano passado, pela editora alemã Königshausen & Neuman, o livro Ideas of Order in Contemporary American Poetry, editado por Diana von Finck e Oliver Scheiding:. A peça que abre o livro, para minha surpresa, é a longa entrevista que o antologista, poeta e tradutor americano JEROME ROTHENBERG me concedeu há oito anos para a revista Medusa, que eu co-editava: "O Futuro da Poesia na Era do Computador".

O link da editora é http://www.koenigshausen-neumann.de/

Mais detalhes também aqui:

http://www.buchhandel.de/detailansicht.aspx?isbn=978-3-8260-3652-1

A versão inglesa está na íntegra. O livro acabou de cair na minha mão e examina aspectos experimentais da poesia americana contemporânea desde os anos 80, pós-L=A=N=G=U=A=G=E, trazendo ensaios sobre as obras de Charles Bernstein, John Cage, David Antin, Jorie Graham, Lisa Jarnot, entre outros. Quem quiser ler o ensaio introdutório à obra do grande Jerome, além de sua entrevista e uma seleção de traduções que fiz da antologia Técnicos do Sagrado, é só clicar no link aqui:http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/roth

Em certo trecho da entrevista, Rothenberg diz:

“A questão das revoluções da palavra e de como hoje elas poderiam existir me leva de volta à sua primeira pergunta: o futuro da poesia na era do computador. Eu insistiria – mas com limitações postas sobre essa urgência – que o globalismo da internet abre a possibilidade de uma vanguarda mundial. Mas as limitações, dado o domínio do inglês e outras línguas hegemônicas, envolvem a ameaça a particularidades culturais e regionais. Contra isso, a internet talvez ofereça uma nova arena para modos visuais, performáticos e interativos, movendo-se (às vezes, pelo menos) em múltiplas direções culturais. O número de sites e home pages na rede é de fato tão imenso, que ao observar o trabalho experimental já engatilhado – a facilidade técnica em sua construção – fica-se com a sensação de um futurismo que chegou a seu futuro”.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

JIM MORRISON NA ZUNÁI

Saíram algumas traduções minhas do JIM MORRISON na revista Zunái. Confiram:
http://www.revistazunai.com.br/traducoes/jim_morrison.htm


terça-feira, janeiro 29, 2008

MARTINIANAS

Hoje acordei com uma frase genial do comediante, diretor e escritor Steve Martin na cabeça:

"Falar sobre música é como dançar sobre arquitetura"

Parodiando, eu diria:

Falar sobre poesia é como dançar sobre arquitetura.

Seguem outras tiradas dele:

* Como ganhar um milhão de dólares? Primeiro, consiga um milhão de dólares.


* Um dia sem sol é como, você sabe, a noite.


* Uma celebridade é alguém que parece ter ficado mais de duas horas arrumando o cabelo.


* Não faça sexo, amigo. Isso leva a beijinhos e logo logo você tem que começar a falar com eles.


* Apresentar o Oscar é como fazer amor com uma mulher: é algo que eu só consigo fazer quando o Billy Crystal não está na cidade.


* Primeiro o médico ia me dar a boa notícia: iam dar o nome da doença em minha homenagem.


* Garoto, esses franceses….eles têm uma palavra diferente pra cada coisa!


* Acredito que Ronald Reagan pode fazer deste país o que ele foi um dia....uma região ártica coberta de gelo.


* O que é comédia? Comédia é a arte de fazer as pessoas rirem sem vomitar.


* Acredito que o sexo é uma das coisas mais salutares, belas e naturais que o dinheiro pode comprar.


* Falar sobre música é como dançar sobre arquitetura.


STEVE MARTIN
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sábado, janeiro 26, 2008

BELEZA: PROCURA-SE (ensaio de PAULO LEMINSKI)



Perguntaram a Aristóteles

O que era a beleza.

Ele respondeu:

— Isso é uma pergunta para cegos.

1

A perfeição da vida das coisas é ser objeto da nossa percepção.

A percepção é a glória das coisas.

O mundo e sua famosa aparência existem para os ouvidos, olfato, paladar, tato e olhos do homem.

2

Primeiro, utilidade.

Depois, beleza.

Serem belos é a destinação final de todos os seres.

Só sendo apreendidos segundo a modalidade da beleza os objetos e fenômenos do mundo estão a salvo da violência contínua e permanente que o homem pratica sobre eles.

A fruição da beleza é um ato pacífico.

De integração do percebedor com a coisa percebida.

Sem conflitos.

3

A experiência estética do mundo é a experiência humana última.

A estetização é uma humanização das coisas, uma erotização.

Belos para o homem são, primeiro, os pontos de atração sexual do corpo e seus objetos culturais.

Ao molde destes, o mundo se embeleza, adquire aquela qualidade única (não há substituto para a beleza) que nos faz dizer que são belos.

As montanhas são belas à semelhança de seios, coxas e nádegas.

As árvores, à imagem do pênis ereto.

O artefato foi belo antes da paisagem.

O canto foi belo antes do nascer do sol.

4

A arte é uma intensificação da experiência.

Por isso, a beleza se concentra nela.

A beleza é o lugar da intensificação do prazer.

Deste prazer, brota uma consciência nova.

A existência de uma obra de arte perfeita é denúncia da sociedade, que não apresenta uma perfeição igual à dela.

Qualquer beleza é contra toda a feiúra do mundo, da qual ela é uma fração libertada.

5

A beleza parece ser algo que se passa com o sentido.

Ela é a plenitude física do sentido.

6

Neste mundo, só a beleza faz sentido.



PAULO LEMINSKI

Publicado originalmente no Correio de Notícias, Curitiba, 2º Caderno, 1986

NOVA ZUNÁI

Está no ar o novo número da Zunái, um dos melhores espaços de poesia na rede, no Brasil.
Como sempre, muita coisa boa. Confiram no link:
http://www.revistazunai.com.br/

quarta-feira, janeiro 23, 2008

"PAISAGEM COM QUEDA DE ÍCARO", POEMA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

"Paisagem com Queda de Ícaro", quadro de Pieter Brueghel (1558)


PAISAGEM COM QUEDA DE ÍCARO

Segundo Brueghel
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador arava
sua plantação
e toda a pompa

da estação
despertava e tilintava
bem perto

a beira-mar
tomava conta
de si

suando no sol
que derretia
a cera das asas

um detalhe banal
perto da costa
um esguicho

passou despercebido
este era Ícaro
se afogando



LANDSCAPE WITH THE FALL OF ICARUS

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings' wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning

WILLIAM CARLOS WILLIAMS
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes©
De Collected Poems: 1939-1962, Volume II (New Directions Publishing Corp. © 1962 ) de William Carlos Williams.

UM POEMA NOVO DE MARCELO MONTENEGRO



Meu amigo Marcelo Montenegro, de Sanca, tá escrevendo uns poemas porretas. Depois de Orfanato Portátil, que é também o nome do blog dele (link aí embaixo), ele prepara um novo livro. Vem coisa boa por aí, como este:


CARPINTARIA REVISiTED

Cabe à poesia, como diria Lobo Antunes,

“despentear a prosa”. Dissolver-se,

nela, engenhosa, anfíbia, como sal

de frutas no estômago dos contos.

Quanto à prosa – entre feiras do livro

e fichas de pôquer – tirar da poesia

seus óculos de ópera, até que uma

jogue fora a chave da algema da outra.

Ah Roman Jakobson, bebaço,

nas estrias do texto. Porque

como o esgoto despeja no mar

a cidade vomitada – ou seja, linguagem

que recai sobre si mesma –

solto agora um romancista dentro

do poema. E o lanterninha

da página. Que o mais é cinema.



FOTO APÓS O POGROM, de Mina Loy




FOTO APÓS O POGROM


Arranjo por raiva

da escória humana


as estátuas falsas e eternas do assassinato,

até ficarem puras.


Jogada numa pilha de mortos,

uma mulher,

corpo saqueado de profunda beleza

estranhamente assassinada


conquista o sorriso absoluto

da despossessão:


a páusa marmórea diante do abrigo extinto

Monotonia da morte

Rasura do medo,


uma compostura

não-admitida


a paz sem propósito

selando as faces

dos cadáveres—


Cadáveres são virgens.



PHOTO AFTER POGROM


Arrangement by rage

of human rubble


the false-eternal statues of the slain

until they purify.


Tossed on a pile of dead,

one woman,

her body hacked to utter beauty

oddly by murder,


attains the absolute smile

of dispossession:


the marble pause before the extinct haven

Death’s drear

erasure of fear,


the unassumed

composure


the purposeless peace

sealing the faces

of corpses —


Corpses are virgin.


MINA LOY (1882-1966)

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

domingo, janeiro 20, 2008

NO CABARÉ VERDE, poema de Rimbaud

Este soneto é um dos grandes poemas de Rimbaud. Um poema-de-estrada, ou road poem. Nome da hospedaria ou restaurante que ele cruzou no caminho de sua fuga para a Bélgica em outubro de 1870. Cinema e rigor.


NO CABARÉ VERDE

cinco da tarde


Oitavo dia já, depois de detonar as botas

Na pedreira da estrada. Cheguei em Charleroi.

— No Cabaré Verde: eu disse solta

Um pão com manteiga, e um pernil meio frio.


Feliz da vida, estiquei as pernas sob a mesa

Verde: viajei nos motivos bregas

Do papel de parede. – E foi uma beleza

Quando a moça de olhos vivos e tetas imensas


Essa aí não se assusta com um beijo!—

Sorrindo, trouxe o sanduíche no jeito

E o pernil num prato colorido. Só


O pernil rosado e branco, perfumado por uma

Pitada de alho, e uma imensa loura gelada, sua espuma

Dourada por um raio perdido de sol.



Outubro de 1870


Au Cabaret-Vert
cinq heures du soir


Depuis huit jours j' avais déchiré mes bottines

Aux cailloux des chemins. J' entrais à Charleroi.

— Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines

De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.


Bienhereux, j' allongeai les jambes sous la table

Verte: je contemplai les sujets très naifs

De la tapisserie. — Et ce fut adorable

Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,


— Celle-là! ce n' est pas un baiser qui l' épeure!

Rieuse, m' apporta des tartines de beurre,

Du jambon tiède, dans un plat colorié,


Du jambon rose et blanc parfumé d' une gousse

D' ail — et m' emplit la chope immense, avec sa mousse

Que dorait un rayon de soleil arriéré.



Octobre 1870


ARTHUR RIMBAUD

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sexta-feira, janeiro 18, 2008

VIGIA NA MONTANHA SORDOUGH EM MEADOS DE AGOSTO, poema de GARY SNYDER

Sordough Mountain

Este é um dos poemas que mais gosto de GARY SNYDER, um dos que não me canso de ler e reler e tentar traduzir. É do seu primeiro livro, Riprap. Data da metade dos anos 50, quando o ecologista-beat-monge zen trabalhava de vigia florestal (atento para incêndios) num posto de observação no alto da montanha Sordough, no estado de Washington (extremo noroeste dos EUA). É de uma clareza e economia impressionantes, ao retratar o sublime banal da cena. Snyder executa de maneira inédita, nos EUA, dos ensinamentos zen-budistas, da poesia oriental, e também da "apresentação direta" e os preceitos imagistas de Pound, Williams, potencializada aqui por um "aprendiz de feiticeiro" (para tomarmos aqui o termo de Murilo Mendes). Simplicidade diante do majestoso: a paisagem abismal das montanhas. O "Eu" não é mais o protagonista, mas mais uma consciência, um ser vivo entre outros, atenta aos mais profundos ensinamentos da natureza. O poeta um detetive que aspira traduzir as pistas do real em verdades portáteis. Uma caneca de folha de flandres. A fumaça e a névoa montanha abaixo.
A coragem simples e alegre de quem não tem nada a perder, apenas a aprender. A coragem de fazer a poesia dizer.

Vigia na Montanha Sourdough em meados de agosto


Vale abaixo neblina fumaça
Três dias de mormaço, depois de cinco de chuva.
Resina reluz nos pinhões.
Entre rochedos e campinas
Enxames de moscas novas.

Não consigo lembrar de coisas que já li
Alguns amigos, mas estão nas cidades.
Bebendo água fria de neve numa caneca
Mirando milhas lá embaixo
Pelo ar alto parado.



Mid-August at Sourdough Mountain Lookout


Down valley a smoke haze


Three days heat, after five days rain.

Pitch glows on the fir-cones
Across rocks and meadows

Swarms of new flies.


I cannot remember things I once read

A few friends, but they are in cities.


Drinking cold snow-water from a tin cup


Looking down for miles


Trough high still air.


GARY SNYDER

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

quarta-feira, janeiro 16, 2008

UM POEMA PARA O DESERTO


com seus rios secos desde o começo
com sua sede sonora
com o sal que não pergunta

do sentido

deste paraíso perfeito
templo sem vozes
do sol que se deita

olho de um sábio egípcio
um oásis
onde o céu
se amplia e revela
uma íris, ou quase,
e a metade da lua
magnifica
uma lágrima minha
fixando
o som misterioso das montanhas
a respiração dessas rochas e pessoas

automóveis deslocando seus vazios
sob o fog azul da luz no sul
o trânsito pesado e veloz
o stress das consoantes

o desdobrar da seda
o cheiro do fumo e de café africano

sensação imprecisa, pedra preciosa
que celebra
a tarde que dura, suprema,

em sua dimensão paralela

o mar invisível que se quebra
manso
aqui
onde não há água.
Não há margens, nem miragens.
Mas cedo ou tarde descobrimos
o que este outono

tem para nos dizer:
tempo de se desfolhar
-- cores, peles, percepções --

tempo de silêncio
flutuando agora no ar

fazendo

bolhas na superfície

de um céu que é mais além.



Tempe, Arizona, agosto de 1990


Em Visiblia (Iluminuras, 1994)

terça-feira, janeiro 15, 2008

Do mestre BASHÔ (mini-poética)


"Vá ao pinheiral se você quer aprender sobre pinheiros, ou ao bambuzal, se você quer aprender sobre bambus. Fazendo isso, você tem que deixar de lado essa preocupação excessiva consigo mesmo. Senão você só se impõe no objeto e não aprende. Sua poesia emana do seu íntimo quando você e o objeto se tornam um. Quando você, enfim, vai fundo o suficiente para ver uma espécie de brilho escondido ali. Por mais bem fraseada que sua poesia possa ser, se seu sentimento não é natural, se você e o objeto estão separados, então sua poesia não é verdadeira poesia, mas só uma mera falsificação subjetiva"


Matsuo Bashô ( 1644-1694)

segunda-feira, janeiro 14, 2008


COM PALAVRAS

nada se admira

nem se aclara

rara rara

cada vez mais rala

nesse diálogo mudo

do mundo

onde tudo

a um tempo zera

e conspira





De Visibilia, 2005

domingo, janeiro 13, 2008

Whitman e Plath

A edição de dezembro da revista BRAVO! elencou os 100 livros essenciais da literatura mundial e incluiu lá o Folhas da Relva, do Walt Whitman, em minha tradução (Iluminuras).

No Estadão, na coluna do Daniel Piza de 23 de dezembro, onde ele faz um balanço dos melhores lancamentos do ano, o elogio foi para a tradução do Ariel, da Sylvia Plath, na minha parceria com a Maria Cristina Lenz de Macedo.

No Brasil não se costuma valorizar o trabalho estético que implica uma tradução literária, especialmente poesia. Felizmente parece que isto está mudando:

Daniel Piza

Este ano editorial repetiu os últimos e trouxe número maior de destaques em não-ficção, especialmente em biografias. Mas em termos de qualidade o destaque vai enfim para a ficção. Li bons romances neste ano, curiosamente pequenos em tamanho. O que mais me agradou, o que mais ficou na minha memória em cenas ou climas, foi O Mar, de John Banville, escritor irlandês, dono de uma prosa que mistura sensibilidade artística com senso científico. Na Praia, de Ian McEwan, não tem a força de Reparação ou mesmo Sábado, mas é uma bela novela. Martin Amis voltou ao seu melhor nível em Casa dos Encontros, um romance “russo” em suas conturbações emocionais e políticas. E Philip Roth continuou a demonstrar por que é o maior de todos, com Homem Comum (original do ano passado, quando eu já o tinha destacado) e Exit Ghost, este ainda não traduzido.

Outros bons autores de língua inglesa tiveram livros editados no Brasil em 2007, mas a meu ver abaixo do que podem, como John Updike, Julian Barnes, Don DeLillo e J.M. Coetzee. Isso para não falar em O Castelo na Floresta, último romance de Norman Mailer, uma das tantas perdas deste ano. Antes que me acusem de só falar de autores anglófonos, confesso que não tive tempo para enfrentar As Benevolentes, do francês Jonathan Littell, e que me diverti muito com Il Colore del Sole, suspense do italiano Andrea Camilleri sobre o pintor Caravaggio, ainda inédito em português.

Quanto aos brasileiros, O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, e O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, são livros interessantes, mas, de novo, abaixo do que cada autor poderia ter feito com a mesma história. Outra tônica foi a grande quantidade de reedições ou novas traduções importantes. Livros de Onetti, Waugh, Faulkner; relançamento do Borges completo; reavaliações como a de Paula Fox, autora dos contos de Desesperados - muitos seriam os exemplos. Na poesia, traduções de Emily Dickinson por José Lira, de Sylvia Plath por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo, além do clássico saxão Beowulf por Erick Ramalho, merecem aplausos.

sábado, janeiro 12, 2008

Um soneto genial e atual de GREGÓRIO DE MATOS


Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:

Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:

Com sua língua ao nobre o vil decepa:

O Velhaco maior sempre tem capa.


Mostra o patife da nobreza o mapa:

Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;

Quem menos falar pode, mais increpa:

Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.


A flor baixa se inculca por Tulipa;

Bengala hoje na mão, ontem garlopa:

Mais isento se mostra, o que mais chupa.


Para a tropa do trapo vazio a tripa,

E mais não digo, porque a Musa topa

Em apa, epa, ipa, opa, upa.



CAREPA.
1. V. caspa.
2. Pó que se forma na superfície das frutas secas, sobretudo nos figos.
3. A superfície da madeira desbastada com enxó.
[Do provenç. garlopa.]
CAPA.
1. Peça de vestuário usada sobre toda a outra roupa a fim de protegê-la, ou proteger quem a veste, contra a chuva.
2. Aquilo que serve para cobrir; cobertura: 2
INCREPAR V. t. d. e i.
2. Acusar, censurar, argüir: &
GARLOPA. S. f.
1. Plaina grande.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

BEATS, 50


A última reunião da beat generation, diante da antológica livraria City Lights, em San Francisco, 1965. Na primeira fileira, da esquerda para direita: Robert LaVigne, Shig Murao, Larry Fagin, Leland Meyezove (deitado), Lew Welch, Peter Orlovsky. Segunda fileira: David Meltzer, Michael McClure, Allen Ginsberg, Daniel Langton, Steve (amigo de Ginsberg), Richard Brautigan, Gary Goodrow, Nemi Frost. Última fileira: Stella Levy, Lawrence Ferlinghetti.

O porre que revolucionou a literatura americana


Há meio século, um bando de “malucos” se juntou para tomar um porre e revolucionar a literatura americana. Ficaram conhecidos por beatniks e viraram a cultura e a literatura norte-americanas pelo avesso


Por Rodrigo Garcia Lopes*


Na noite de 7 de outubro de 1955 um grupo de poetas jovens e rebeldes — de saco cheio das promessas oferecidas pelo way of life americano, do moralismo hipócrita e dos valores literários tradicionais — se reúne na Six Gallery, em São Francisco. O que seria só uma leitura de poemas numa galeria de arte acabou significando o ponto de partida do mais importante movimento literário e comportamental do pós-guerra. Primeira grande oposição cultural nos EUA, o fenômeno beat criticava as normas sociais e literárias do país e pretendia ser um estilo de vida.


A geração beat [termo cunhado pelo escritor Jack Kerouac em 1948 e que traz os significados de geração exausta, de beatitude e, pela aproximação com o jazz, de pulsação rítmica] estava louca para levar às últimas conseqüências a união entre arte e vida. Naquela noite, incentivado pelos gritos de VAI! de Kerouac [que se encarregou de deixar todo mundo bêbado de vinho barato], Allen Ginsberg leu pela primeira vez seu antológico poema "Uivo" para uma platéia de cerca de 150 pessoas. Todas, claro, em estado de transe. Outros nomes lendários como Gary Snyder, Philip Whalen, Phillip Lamantia e Michael McClure também leram seus poemas.


Para marcar o meio século da beat generation, a Azougue [www.azougue.com.br] acaba de lançar duas preciosas coletâneas de poemas e ensaios: Re-Habitar [320 págs., R$ 46], do poeta, zen-budista e ecologista Gary Snyder, e A Nova Visão – de Blake aos Beats [288 págs., R$ 42], de McClure. Já a L&PM — que ficou célebre nos anos 80 com seus lançamentos de livros de William Burroughs, Ginsberg, Neal Cassady e Carl Solomon — publica em agosto os diários de Kerouac, Windblown World, inéditos no Brasil.

Michael McClure, Mr. Bob Dylan e Allen Ginsberg

O recital da Six Gallery foi apenas o aperitivo para o que viria depois. Lawrence Ferlinghetti, outro poeta fundamental e dono da lendária editora City Lights, foi parar na cadeia por obscenidade pela publicação de Uivo, de Ginsberg. O resultado foi um processo ridículo que só contribuiu para transformar o escritor e a geração beat em celebridades da noite para o dia. O livro virou um best-seller, abrindo caminho para outras obras-chave do movimento, como On the Road, de Kerouac, e Naked Lunch, de Burroughs. O fato é que ninguém poderia imaginar que os poetas reunidos naquela noite histórica acabariam virando a cultura e a literatura norte-americana pelo avesso, abrindo espaço para novas experimentações artísticas e liderando boa parte da rebeldia, da política e do comportamento das décadas seguintes. A garotada ainda tem muito que aprender com esses velhinhos.


*Rodrigo Garcia Lopes é tradutor, poeta e ensaísta. Autor de Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje [editora Iluminuras] entre outros

Texto publicado na revista TRIP em 2005

terça-feira, janeiro 08, 2008


A lua brilha sobre o rio,
A brisa sopra pelos pinheiros --
Este entardecer longo e bonito, é para quem?


do Cheng Dao Ke (trad. RGL)

UMA NOITE PRA SE GUARDAR NA NOSSA AMNÉSIA AFETIVA

Semanas atrás lembrei-me que, apesar dos muitos encontros com o Leminski (seja em Curitiba, Londrina ou São Paulo) eu só me lembrava de ter tirado fotos com ele num lançamento em Londrix. Escrevi pro fotógrafo Milton Dória, que respondeu dizendo que os negativos daquela noite haviam se perdido. Mas o Pinduca recuperou pelo menos uma foto pra contar a história.
Noite de lançamento de Leminski e Alice Ruiz no histórico Bar Valentino. Casa cheia, muitas conversas e com direito a uma aparição de um clone da Nina Hagen (!). O ano, 1985. Leminski havia vindo dar uma palestra concorridíssima no curso de Jornalismo da UEL.
Na foto: o saxofonista Beto Coltro (no fundo), Paulo Leminski (olhar tranquilo mas distante, caçando asteróides), eu, Pinduca (mais conhecido como Ademir Assunção), sua namorada na época, a Neuza, a grande Alice Ruiz e a musicista e professora Janete El Haouli, em click de Milton Dória.

sábado, janeiro 05, 2008

MEU ENCONTRO COM "A BESTA DOS PINHEIRAIS"

O "Polaco" diante do quartel-general no bairro do Pilarzinho

Cruzamos pessoas todos os dias, embora alguns encontros, com a marca do acaso, têm a força de mudar nossas vidas de modos insuspeitos. Em 1982, com 17 anos, eu cursava o primeiro ano de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. Apaixonado por poesia, respirava nos corredores da UEL um ambiente de muita criatividade e rebeldia. Eu havia ouvido falar de Leminski ainda na 8a. série e lido alguns poemas seus em jornais e antologias. Uma matéria que saiu na Veja, mostrando a figura, de bigode e violão, parecendo um poeta polonês perdido no século 20, na escada de sua casa no bairro do Pilarzinho, atiçou minha vontade de conhecê-lo pessoalmente.
Certo dia, no início de 82, caiu em minhas mãos um exemplar do Não Fosse Isso. O livro, branco e quadradão, com tipografia à cummings, bateu na hora. Emprestei o livro para sempre e passei os próximos dias devorando-o. A leitura do livro deu a senha para todas as minhas inquietações poéticas da época: como achar uma terceira via entre o rigor de linguagem e o leque de repertório oferecido por Pound e pelos irmãos Campos sem, contudo, abrir mão da espontaneidade e visceralidade da poesia marginal. A resposta estava ali, pós-concreta, pós-marginal, na minha frente, na carne de seus poemas. Absolutamente maravilhado com o livro, parti para a leitura do enlouquecedor e ilegível Catatau. Em julho parti para Curitiba, com a desculpa de fazer uma entrevista com ele para um fictício jornal laboratório.
Na capital, sem nenhuma idéia de como conseguir o telefone da “besta dos pinheirais”, fui passear no calçadão da XV. Entrei na Livraria Gighnone. Depois de folhear alguns livros e lançamentos, já quase ganhando a rua, uma voz alguns decibéis acima do normal, de um sotaque curitibano fortíssimo, chamou minha atenção. Olhei e não acreditei: era Leminski, ali, em carne e osso, indignado com os funcionários por não encontrar seus livros nas prateleiras. Tomei coragem adolescente, esperei a poeira baixar, me aproximei por trás do bigodudo com cara de trotskista e cutuquei suas costas com o dedo indicador. No que ele se virou, fuzilei: “Você é o Paulo Leminski?”. Ele abriu um sorriso maroto, me apresentei e disse, com ar de desafio, que havia acabado de ler o Catatau!”. O cara fez cara de espanto, riu e emendou: “PoRRRa, mas nem eu consigo mais ler aquele livro!”. Perguntei se era verdade que ele havia escrito o Catatau bêbado. Leminski: “Não exatamente”, respondeu, dando uma risadinha sacana. Peguei seu telefone e combinamos a entrevista para aquela tarde.
Algumas horas depois liguei para o tal número e a mesma voz, só que mais relaxada e amistosa, me atendeu com um carinhoso “Oi, meu negô...tudo bem?”, um tratamento que, para um curitibano, me pareceu no mínimo suspeito. “Vamos combinar nosso papo para as 3. Vocês aparecem aqui com o gravador”. Quase desligando, emendou: “E não se esqueçam de trazer umas garrafas de vinho branco!”.
De tarde, ao lado do meu amigo Joel Sampaio, então repórter da Folha de Londrina, desci do ônibus no bairro Cruz do Pilarzinho, perto do pequeno estádio de futebol, e procurei a rua Jorge Khoury Brahim, 874. Subindo a rua, a primeira surpresa: a seqüência dos números das casas não fazia sentido algum. Lembrei de um poema dele que falava do louco que todo bairro tem. Quase no alto, identifiquei a casa que havia visto na foto da Veja. Leminski estava de camiseta e roupa branca, varrendo a varanda. Fomos recebidos calorosamente. Na entrada da sala da casa da Cruz do Pilarzinho, além das almofadas no chão e um ar meio hippie na decoração, a primeira coisa que me chamou a atenção foi um cartaz enorme emoldurado na parede e que trazia apenas uma palavra: OBA!
Falando orgulhosamente de suas recentes parcerias musicais, Leminski comenta sobre os três livros que estavam para sair pela Brasileinse: mostra a arte da capa de Caprichos e Relaxos, e fala animadamente sobre as biografias Matsuo Bashô e Cruz e Souza. Leminski pergunta sobre Londrina e diz de sua admiração por Domingos Pellegrini e Arrigo Barnabé (“barra-pesada”!). Sem ficar parado um minuto, Leminski mostra livros e mais livros, dele e de outros, comentando sobre tudo como uma metralhadora giratória. A entrevista rola entre fumaças e goles de vinho, com Leminski nos deixando completamente à vontade, como alguém que se conhece há muito tempo. Começamos falando sobre política: “Já fui marxista. Mas acho que tudo está amarradinho demais na teoria marxista. Hoje acho a ideologia nociva à poesia. Ela é apenas um dos instrumentos para se entender a realidade. A poesia é algo que deve obedecer apenas a sua sensibilidade e inteligência. Caras com ideologia têm respostas para tudo e eu não agüento mais pessoas que têm um estoque enorme de certezas. Eu quero é a incerteza, e o marxismo é só certeza, coisa que eu, aos 38 anos, não quero mais”.
Mudamos o papo para a MPB (que ele acredita estar passando por uma fase de infantilização), crítica, Caetano Veloso e, claro, poesia: “A boa poesia nunca se impõe num primeiro momento. Ela tem que se impor depois. A poesia é a surpresa, é o anti-discurso. A hora em que a boa poesia pinta na sua frente ela corre o risco de você achar que aquilo é ruim porque ela feriu uma série de automatismos de gosto. Não vejo consistência na poesia marginal. Você pode ser contra a poesia concreta, mas pelo menos ela tem o mérito dela ser clara”.
O telefone toca sem parar. Leminski agora trabalha em casa enquanto cuida de suas duas filhas pequenas, Áurea e Estrela. Estrela devia estar fazendo alguma arte, pois em certo momento é repreendida de um jeito que me chama a atenção: “Estrelinha, eu não estou gostando...Vou ter que tomar medidas drásticas: te ponho num campo de concentração!”. Pergunto sobre suas leituras, e ele comenta sobre a importância da poesia oriental e provençal e concreta, Pound, e de sua experiência no mosteiro beneditino em São Paulo. “A primeira influência que eu tive foi a poesia greco-latina. Aprendi Latim aos 14 anos”. Pergunto sobre a questão de ser poeta social, tema de um de seus poemas mais conhecidos ( “eu queria ser tanto/ um poeta maldito”): “Ah, isso me assombrou durante anos. Neste poema estou zombando de mim mesmo. No Terceiro Mundo a gente tem consciência pesada por ter almoçado e jantado. A felicidade geral do povo é da alçada de duas coisas: da administração pública ou da revolução. A poesia é absolutamente inadequada para fazer isso. Quando o poeta faz um poema social ele está querendo estar apenas dar um alívio para sua consciência de classe média. Poesia não é jornalismo, é uma outra coisa. Aliás, é uma outra substância. O Fidel, que não é poeta, tem uma frase muito interessante: ele diz que preferia um bom poema de amor a um mau poema político, porque o mau poema político desservia a revolução. A verdade é que a poesia articula muito mal no real histórico imediato”, fulmina, para nosso espanto. Pergunto sobre sua visão de poesia: “É o princípio do prazer na linguagem. A linguagem é o instrumento de pensar e de se relacionar com nossos semelhantes. É o que torna possível a vida social. Historicamente, existem povos sem prosa, mas não sem poesia. O povo mais atrasado da Austrália ou do interior da África tem seus cantos, suas fórmulas métricas, de encantamento”.
Leminski conta causos e mais causos, como o de um cara mutcho lôco que desembarcou em sua casa de táxi, chapéu de cowboy e mochila nas costas. “Pensei: putz, mais um vendedor!”. Era um professor do Novo México que queria discutir pessoalmente o Catatau, com umas cem perguntas anotadas num caderno. “O Catatau, sob alguns aspectos”, diz Leminski, “é uma tradução do Finnegan’s Wake, em termos do discurso louco”. Fala de seus encontros com Caetano, Mautner e Gil (Leminski estava embalado com o sucesso de “Verdura”, composição sua gravada por Caetano um ano antes). No meio da conversa, chega Alice, e a conversa continua ainda mais animada. “Vocês querem mais vinho?”.
Antes de irmos embora, já de noitinha, Leminski pede para ver alguns poemas meus e comenta sobre eles com generosidade. Convida-nos para tomar uma “sopa especial” (horrível, por sinal), que ele dizia ter inventado.

“A noite / me pinga uma estrela no olho / e passa”.

Vinte e cinco anos depois, só posso dizer que poucas vezes um encontro foi tão determinante para minha vida. Saí dali feliz, energizado, cheio de idéias e vontade de fazer coisas, principalmente viver a poesia. Certas frases me bombardeavam a cabeça, como “Eu sou um cara que defendo a ligação da vida e a poesia num grau máximo”, “Depois de atingir o artesanato do claro, quero o direito de ser obscuro”, “O lance agora é cada poeta fazer sua síntese particular”. Minha idéia estereotipada dos poetas como seres chatos, mal-humorados e pedantes havia caído totalmente por terra naquele encontro com Leminski. Nele, eu havia cruzado alguém capaz de provocar, com um imbatível bom humor, a poesia e a criatividade em quem estivesse à sua volta. Foram muitos outros encontros com Leminski nos próximos cinco anos: todos intensos e memoráveis, seja em Londrina, São Paulo ou em Curitiba, já nos últimos meses de sua vida, quando eu trabalhava no Nicolau. No entanto, aquele encontro, naquela tarde fria num bairro polonês em Curitiba, foi definitivo para mim.