quinta-feira, novembro 29, 2007

Traduções no Cronópios em dose tripla


O Edson Cruz, editor do excelente portal Cronópios, acaba de publicar traduções minhas na revista eletrônica.

3 poemas do norte-americano Frank O'Hara
três poemas de Emily Dickinson

e treze epigramas do poeta Marcial



Linke aí:

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=2904

FUGAZ



Passagem por uma paisagem,

lugar do onde, do ontem, do quando,

quantas palavras ficaram faltando

na boca cheia de imagens.


O outro é aquele que ficou à margem,

no espanto de um pronome,

no corpo de uma brisa suave;

o outro é como uma fome,

pluma à deriva, a distância, ou quase.


Estranho em sua própria viagem,

garrafa com uma mensagem,

olhar durando numa flor,

sem nome, secreta, selvagem.


Desterro, água bebida num trem,

peça incompleta, festa adiada, vertigem,

a cabeça sempre em alguém,

eu outro, eu todos, ninguém.




Rodrigo Garcia Lopes, Visibilia (Travessa dos Editores, 2005)

terça-feira, novembro 27, 2007

AO VIVO


O inverno lança estranha antologia

Trevos de trevas e liláses de solidão

Colisão de um satélite de metáforas

Relatos de narcisos terroristas

Provocam alta nas cotações de nuvens de lixo espacial

Racha na cópula de abelhas de absinto

Iminência de guerra de beijos partidos

E o ano-novo passado no Nilo.

O olho do furacão sofre, sobre o Caribe

E conecta memórias-links de estrelas decadentes

Seres isolados em entropia

Soletram e tocam suas reses

Enquanto rimas serial killers invadem os pregões

E palavras apodrecem nos jornais,

No canto das bocas, sem fôlego,

No bilhete amassado e esquecido

Como tudo mais.


Rodrigo Garcia Lopes



LIVE

Winter releases a strange anthology

Clovers of darkness and lilacs of solitude

Collision of a satellite of metaphors

Reports of terrorist narcissists

Provoke high rates of clouds of space junk

Breaks in the copulation of bees of absinthe

Imminent war of broken kisses

And New Year’s spent on the Nile.

The eye of the hurricane bears its cross, across the Caribbean

And connects memory-links of fallen stars

Isolated beings in entropy

Spell out and play their heads

While serial killer rhymes invade the open outcries

And words rot in the newspapers,

In the corner of mouths, breathless,

In the crumpled and forgotten note

Like everything else.



Tradução: Marco Alexandre de Oliveira


LONDRIX 2007 - Festival Literário de Londrina

Começa hoje a terceira edição do Londrix - Festival Literário de Londrina. Em 2005 fui um dos curadores e organizadores da primeira edição, que foi também o primeiro festival de literatura da cidade e trouxe dezenas de autores, gente como Claudio Daniel, Horácio Costa, Paulo Sandrini, Douglas Diegues, Chacal, Thadeu Wojciehowski, Maria Esther Maciel, e os músicos Vitor Ramil, Cida Moreira, entre muitos outros nomes, além de uma mesa apenas para debater a literatura produzida na cidade. Apesar das dificuldades, da pouca grana, da equipe pequena, foi um sucesso. É um trabalho do cão organizar um evento deste porte. O festival começa amanhã e vai até o dia 2 de dezembro, com feira de livros, lançamentos, debates, shows, oficinas e uma ampla programação infantil. Entre os autores participantes este ano estão Fabrício Carpinejar, Cristóvão Tezza, Xico Sá, Nelson de Oliveira, Clarah Averbuck, Tavinho Paes, Botika, Ademir Assunção e os dramaturgos Mário Bortolotto, Samir Yasbeck e Maurício Arruda Mendonça. Estão previstas seis mesas de debates, todas com entrada franca. Desejo sucesso para o evento. Quem estiver em Londrina, fique ligado.

"Se rigores se desfazem como espumas" (poema de Visibilia)



Se rigores se desfazem como espumas

e pássaros não recordam seus registros

como siderar o mar, idéia que se esfuma

sem a menor ponta de remorso,

marcas de luta, porradas, ou mesmo isto?


Ver começa no instante

em que (sem deixar pistas)

A razão tira seu óculos e

seu anti-sol cega nossas vistas.


O sublime não é nada

a literatura nada é

e pode ser patética, até

se não for um olhar

que transforme a paisagem

em floresta significativa.


Não experiêncialida”,

mas percebida

crítica da vida


no que a brisa confirma

a todo tempo

em seu épico de gestos

sutis, como quem, insistente,

um império conquista.




Rodrigo garcia Lopes (em Visibilia, Travessa dos Editores, 2005)

domingo, novembro 25, 2007

PONTO DE FUGA

Um nome e uma invisibilidade, uma cor tenra & brusca e um pronome impossessivo, um nome-cor sucessivo omen no plano elástico do sempre. Quando. Ontem relâmpagos em esperanto, somem flashes no meio do deserto que decifro à espera dos deuses. Quando cada um disser o seu, neste desterro, enquanto conversamos, em intervalos imprevisíveis, então não será repetição. Quase nervuras elétricas, se a pós-imagem orbitasse na retina: folha vista à contra-luz. Metal e cobalto, mel e vácuo, flor-fera de mantra no traste do segundo seguindo segredos de um trovão & um metal sucessivo e urgente, não-identificado, intransparente, escala de sombras e um matiz vértice despedaçado que recua ao olhar a tempestade que chega de si. Sul, som, calor, suor, digo, seu hálito, Árvore, Desejo e Vórtice: nos cruzamos num ângulo branco de guitarra dissolvida pela tela, quina de face-cafeteira, círculos estranhos num campo de milho, vidro opaco fragmentos num abismo de céu verde fumaça e acordes flamencos e uma pausa. As navalhas sucessivas da diferença. A face de um instante, em 360 graus.


Rodrigo Garcia Lopes, em Polivox (Azougue, 2001)

quinta-feira, novembro 22, 2007

PENSAGEM



Árvore entre raios: arvora-se

um ruído. Tudo claro, lindo, ido.


A língua, mente, sente seu gosto:

tudo o que toca é verdade.


O discurso da tarde e seu susto

se cola ao sentido, seu duplo aqui


onde repousa e se excita, visiva,

sua clareza intensiva.



(Rodrigo Garcia Lopes, Polivox, Azougue, 2001)

quarta-feira, novembro 21, 2007

COLETÂNEAS/"A NOVA VISÃO - DE BLAKE AOS BEATS'/"RE-HABITAR - ENSAIOS E POEMAS"

Gary Snyder

O QUE VOCÊ DEVIA SABER PRA SER UM POETA



tudo que puder sobre animais, pessoas.
nomes de árvores e flores e ervas.
nomes de estrelas, e o movimento da lua
e dos planetas.

seus próprios sextos sentidos, com uma mente ligada e elegante.

pelo menos um tipo de mágica tradicional:
adivinhação, astrologia, o livro das mudanças, o tarô;

sonhos.
os demônios ilusórios e os deuses ilusórios e brilhantes;

beijar o cu do demo e comer merda;
foder seu pau farpado e tarado,
foder a bruxa,
e todos os anjos celestiais
e donzelas perfumadas e douradas –

& então amar o humano: esposas maridos e amigos.

jogos infantis, gibis, chiclete,
a piração da propaganda e da TV.

trabalho, longas horas de trabalho chato engolido e aceito
e convivido e enfim amado. Cansaço,
fome, descanso.

a liberdade selvagem da dança, êxtase
silente e solitária iluminação, êntase

perigo real. jogos. e o gume da morte.



GARY SNYDER

(tradução:Rodrigo Garcia Lopes)
Michael McClure



O MISTÉRIO DA CAÇA


É o mistério da caça o que me intriga,
Que nos lança como lemingues, mas cuidadosamente —
Em busca de uma nuvem quadrada cintilante — cheiro de limão
verbena
Ou aprender as regras do jogo que a lontra marinha
Pratica nas ondas.
São essas coisas mínimas — e o segredo atrás delas
Que enchem o coração.
O modelo, o espírito, demônio ígneo
Que tudo une
E empurra sua liberdade em nossos sentidos,

Aroma de um arbusto, uma nuvem, a ação dos animais.

— A subida, a exuberância, quando todo mistério se revela.
São essas coisas mínimas
Que, quando trazidas à visão, viram um inferno.



Nota: lemingues: (zool). pequeno roedor das regiões árticas


Michael McClure
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)


Textos desvendam lógica de geração

RODRIGO GARCIA LOPES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Gary Snyder e Michael McClure são dois dos últimos representantes da geração beat, o mais importante movimento literário e contracultural dos EUA no século 20. Tendo influenciado escritores e artistas em todo o mundo, os beats rejeitavam o convencionalismo e a frieza acadêmica que permeava boa parte da "poesia oficial" da época, além de serem críticos ferinos do "american way of life". Para comemorar os 50 anos da famosa leitura coletiva na Six Gallery (San Francisco, dezembro de 1955), que deslanchou o movimento, duas coletâneas desses autores centrais chegam ao Brasil.
Em sua introdução, Sergio Cohn afasta um equívoco ainda persistente entre nós, o de que a geração beat foi um fenômeno mais comportamental que literário: "A poesia beat foi marcada por uma intensa reflexão sobre a literatura e o fazer poético. Que essa reflexão esteja associada a um pensamento político e existencial só a torna mais vigorosa". Na tradição transcendentalista de Thoreau, Emerson e Whitman, os escritos de Snyder e McClure comungam uma profunda consciência de seu ofício, além do conhecimento de budismo, antropologia, mitologias ameríndias e filosofia. Há uma consciência ecológica, muito antes disso se tornar uma preocupação mundial.
"A Nova Visão - De Blake aos Beats" é uma ótima introdução para a poesia "animal" e o pensamento do poeta, romancista e dramaturgo McClure. Traz textos sobre suas experiências com o peiote, sobre Blake e Artaud, e discorre sobre as relações intrínsecas que ele observa entre poesia e biologia. Também destaca a influência do verso projetivo de Charles Olson, enquanto incorpora a noção de que a poesia -"produto da carne tocando a experiência"- é movida por um princípio muscular. Caracteristicamente centralizados na página, e fazendo uso de capitulares, seus poemas se assemelham a organismos vivos. São espaços verbais em que o poeta ambiciona atingir as muitas dimensões da experiência e da auto-experiência.
Em competente tradução de Luci Collin, "Re-Habitar - Ensaios e Poemas" reúne momentos altos da poesia zen de Snyder, marcada pela poesia oriental, pelo sentido de lugar e pelo imagismo. Já em seus ensaios, entre análises da geração beat, Snyder discorre sobre ecologia (inclusive com referências ao Brasil), sobre o mito do coiote e a importância da etnopoesia: "O estudo das poesias e poéticas de povos iletrados é como um campo da zoologia que estuda espécies em extinção. Devemos ter uma preocupação com isso porque as culturas que compõem e executam tais poemas e canções estão rapidamente desaparecendo". No Brasil, ainda estamos longe de um resgate das tradições afro-indígenas, ao contrário do que ocorre nos EUA desde os anos 60.
Muitos posicionamentos dos ensaios podem soar ingênuos num mundo que caminha lentamente para a autodestruição, mas não deixam de ser verdadeiras aulas de ética estética para os poetas de agora. Em tempos pessimistas, de consumo desenfreado, terrorismo e guerras religiosas, ainda vale a pena ouvir o que essas vozes importantes da literatura americana têm a dizer. Pois, como diz Snyder (recitando Olson), para os escritores conscientes de seu tempo, os que sabem que correr riscos apenas no plano formal é insuficiente, "o que não muda/ é a vontade de mudar".


Rodrigo Garcia Lopes é autor de "Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje" (Iluminuras), "Nômada" (Lamparina) e "visibilia" (Travessa dos Editores)

A Nova Visão - De Blake aos Beats

Autor: Michael McClure
Tradução: Daniel Bueno, Luiza Leite e Sergio Cohn
Editora: Azougue
Quanto: R$ 42 (288 págs.)

Re-Habitar - Ensaios e Poemas

Autor: Gary Snyder
Tradução: Luci Collin
Editora: Azougue
Quanto: R$ 46 (320 págs.)

sábado, novembro 17, 2007

POLIVOX



Em 2001 lancei meu primeiro CD, POLIVOX (independente). Eram quinze faixas compostas por mim desde 1992 (poemas falados, poemas com trilha mas principalmente canções (funk, blues, reggae, balada, rap, flamenco, jazz etc). Tô com material pra lançar outro. Com este trabalho fiz uns trinta shows (alguns com uma banda formada por mim (voz e violão) mais Neuza Pinheiro (que cantou em algumas faixas do disco) e dos músicos Luciano Galbiati (bateria) Ângelo Galbiati (guitarra e violão) e Waldir Moura (contrabaixo). Também fiz shows sozinho ou com mais um músico (Sesc Pompéia, Sesc da Esquina-Curitiba, Sescs no interior de São Paulo, no Porão Loquaz (com o Rubens K e o Marcelo Chytchy) e no Perhapiness, em Curitiba, no projeto Outros Bárbaros (com o André Vercelino e Marco Scolari), no Itaú Cultural), no projeto Sempre às Terças, do Santander em Porto Alegre, mais numa porção de lugares e eventos como Floripa, Festival Internacional de Londrina, Londrix, em Londrina. Alguns shows tiveram até um público razoável, mas lembro que cheguei a tocar para 7 pessoas em Cascavel e para umas cinco no espaço alternativo que meu amigo Mario Bortolotto tinha ali no Bixiga. Para protesto dos gatos pingados, que insistiam para que eu não fizesse o show e fôssemos tomar uma cerveja na esquina. Mas tudo bem: eu sabia onde tinha me metido. Eu tinha acabado de defender o doutorado e há anos acalentava o desejo de fazer um registro de minhas canções e poemas. Mas o projeto acabou ficando maior do que isso, e englobou um livro de mesmo nome (que saiu pela Azougue, em 2001 também). Fui para São Paulo e, quem acompanhou o processo, sabe que foi uma luta terminá-lo. É um trabalho do qual me orgulho muito. Alguns arranjos foram feitos pelo Sidney Giovenazzi, (grande músico e um tremendo baixista que toca em algumas faixas, ex-integrante da lendária Patife Band), outros eu fiz sozinho. O trabalho todo esteve a perigo graças a uma série de contratempos bastante desagradáveis, e o trabalho todo foi salvo em parte graças a um "bruxo": o músico e engenheiro de som Maurício Grassmann, do estúdio Frequência Rara, uma das pessoas mais bacanas com as quais eu trabalhei. Foi um tesão acompanhar todo o processo de gravação de um CD, dos arranjos à mixagem, até a feitura da capa e o produto final. Horas e horas de estúdio. No final do processo, eu estava sem um puto no bolso, mas absolutamente feliz. Gravar um CD é um puta trampo, que as pessoas que ouvem nem imaginam.

Muita gente me ajudou ou deu força neste processo, como o Ademir Assunção (que lançou há dois anos o belo cd de poesia Rebelião na Zona Fantasma), o Bernardo Pellegrini (autor de belas canções), a Iara e o Gabriel Lessa, a Christine Vianna, da editora londrinense Atrito, o meu amigo de mais de vinte anos Maurício Arruda Mendonça, que dirigiu o show em Londrina, o Samuel Leon e a Beatriz, da Iluminuras, além da Beth Yonomae e Cristina Tomé, da Visualitá, que fizeram, na faixa, um bonito projeto gráfico, citando apenas algumas pessoas. Mas, principalmente, os músicos que participaram da segunda parte do trabalho, sobretudo a Neuza Pinheiro (uma das maiores e pouco reconhecidas cantoras do Brasil, poeta de primeira, e que acaba de lançar o primeiro dela, o belo Olodango) e os músicos Marco Scolari (teclados, baixo) e o Ricardo Garcia (na percuteria). Eu menciono esse povo todo porque sem eles o disco não teria sido possível. Uma das coisas hilárias de se fazer um show no estilo mambembe é que eu tinha que me desdobrar em várias coisas. Descobri que produção é um negócio complicado de se fazer ("demorô..."). Uma parte do cenário, além do plotter do disco, que servia de fundo, era um tapete vermelho que eu tinha que carregar daqui pra lá, como se fosse um tapete mágico, mas que na verdade era uma coisa incômoda pra caralho e que suscitava piadas que eu tinha que engolir. Ou mesmo do meu querido e falecido pai, o Bira, que uma vez, quando eu tava morando em Londrina e saía pra fazer um ensaio, soltou essa, dando risada, achando que eu não estava ouvindo: "Estudou tanto pra sair com o violão debaixo do braço" (!).

Disco pronto, comecei a cair na real, e fui sacando aonde tinha me metido. Se poesia já é difícil divulgar, música independente, então, muito mais. A divulgação de trabalho independente ainda era incipiente (hoje temos a internet mais desenvolvida pra divulgar as coisas). Mandei o disco pra umas 150 rádios, a maioria universitária e rádios Cultura. E nada. Tocou em uma ou outra rádio, e o trabalho todo acabou passando batido. E não tem pra vender em lugar nenhum. Uma das poucas resenhas e notas que saíram foi do Pedro Alexandre Sanches, na Folha, um artigo do grande Ricardo Aleixo, no Suplemento de Minas Gerais, e lembro também dos e-mails generosos de Adriana Calcanhotto, Chico César e Vitor Ramil, que me deram feedback e força. Lembro que mandei para umas 200 pessoas (músicos, jornalistas, poetas). Mas não adianta. Se não tiver um mínimo de organização, não se consegue divulgação. Além do que o jabá das rádios, mesmo as universitárias, ainda é uma praga que atrapalha qualquer iniciativa independente.

E ainda tinha o estigma de ser um disco de um poeta. Ou seja, de alguém que "não era do ramo". Ouvi muita besteira. Uma das raras resenhas sobre o disco saiu na época do lançamento, feita pelo músico e professor de música André Luiz Gonçalves, e que reproduzo aqui. Aos poucos eu vou postando algumas faixas do disco aqui neste Estúdio.

POLIVOX

André Luiz Gonçalves de Oliveira

Está sendo lançado por esses dias o CD Polivox, de Rodrigo Garcia Lopes. E é muito bom poder ouvi-lo e comentá-lo, sobretudo ouvi-lo. O poeta estréia como compositor e músico atuando em todas as etapas de produção, desde as concepções, arranjos, violões, voz, concepção de mixagem.... Segundo o próprio autor, o disco todo foi concebido e produzido dentro de um ano, porém há músicas que datam de 1994 e outras que foram sendo desenvolvidas no estúdio nesse ano, durante os trabalhos no estúdio. Trata-se de um disco autoral. O autor teve cuidado de manter certa linha estética durante todo o disco, tarefa em que se saiu muito bem.

Rodrigo dialoga de maneira madura e consciente com tendências da música popular paulistana (pós-vanguarda paulistana). Aliás, isso que eu chamo música popular paulistana, não é tão apenas paulistana assim quando lembramos de nomes como Arrigo, Itamar e Robinson Borba, entre muitos outros que não eram de São Paulo. E dizer que há este diálogo, não é de modo algum engavetar o Polivox de Garcia Lopes. Como já disse é um trabalho maduro, surpreendente para um primeiro disco, mas compreensível e não menos admirável quando se sabe que Rodrigo toca e compõe não é de hoje. Há alguns aspectos que chamam a atenção e que merecem destaque como a qualidade musical do trabalho e a qualidade técnica, desde gravações, edição e mixagem. Rodrigo afirma que acompanhou todos os processos muito de perto, e isso com certeza possibilitou reconhecê-lo em todas as músicas.

A qualidade musical é algo que o ouvinte pode se impressionar. O disco tem uma estruturação consciente, e tem basicamente três gêneros de música utilizando letras e sons. O músico faz canções, poemas lidos com ambientes sonoros ou salas sonoras como diz o próprio compositor, e poemas lidos no seco, sem nenhum acompanhamento. No entanto, é interessante notar que tais classificações têm fronteiras que se movimentam, e assim há músicas que se encaixam em mais de um gênero entre elas as faixas "o assinalado" e "a solidão". A mixagem e todo trabalho de edição também são fatores que chamam atenção por estarem muito bem cuidados. Em certas músicas, como "Thoth", "El Duende", "O Assinalado" (sobre poema de Criz e Souza), a edição e mixagem dão conta de um interessante flerte com a música eletroacústica. Esse flerte se dá principalmente via música concreta, quando o compositor mostra a intenção de trabalhar com o texto enquanto objeto sonoro.

Ele mesmo afirma que busca abandonar a idéia da letra como um acessório para a música. Rodrigo quer fundi-las. O diálogo com essa música popular paulistana fica mais nítido, sobretudo nas canções. Para deixar claro o que estou entendendo como parte dessa música popular paulistana, podemos ter em mente nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Ná Ozzéti, entre tantos outros. A semelhança com Wisnik e Tatit, não é apenas de titulação acadêmica, suas canções têm letras bem colocadas, além de muito bem escritas, adequam-se bem aos tipos de melodias escolhidos. As relações observadas porém, transcendem essa esfera de doutores em letras e músicas. Rodrigo se relaciona com todo esse movimento na concepção harmônica de suas canções. Há uma referência comum à uma harmonia de transição tonal/pós-tonal. A própria presença de Neuza Pinheiro dá um referencial (histórico, inclusive) a essas relações com essa música meio paulistana, meio norte paranaense. Enfim, é um disco muito bom, e muito bom de ser ouvido. Parabéns, Rodrigo, e que não fique apenas nesse.


****

E esta resenha do
CD Polivox, pelo poeta Reynaldo Damazio, que saiu no site Weblivros:

POESIA CANTADA

Se você pegar o encarte do CD Polivox, do poeta Rodrigo Garcia Lopes, e ler sem se preocupar com as melodias, verá que o material se sustenta como um pequeno livro de poemas. Não que as músicas sejam ruins, muito pelo contrário, pois há momentos em que o diálogo é fértil e harmonioso. Mas ocorre que alguns textos transcendem a canção e têm vida própria, pura poesia.

É o caso do bonito poema "Sobre um ditado antigo", que é recitado por Rodrigo com o acompanhamento delicado do violão, que vai emoldurando a voz. Poema lírico com fortes imagens e sonoridades, como nos versos: "relva, céu veloz, veludo e névoa espessa", ou então, "o sândalo respira/ sem fazer nenhum escândalo". Outros cinco poemas aparecem recitados, com acompanhamentos sutis de teclados ou mesmo sem música: os minimalistas "Cerejas" e "El Duende", o elegíaco "O amor é uma mulher de olhos invisíveis", o narrativo-mitológico "Thoth" e o metalingüístico "Polivox", que dá nome ao disco. Neste último está o fecho que interroga o leitor e o próprio trabalho em seu projeto estético: "Será a poesia a arte da escuta?". Poesia e música estão muito próximas às vezes, nasceram juntas na história para dar som e sentido às angústias do homem.

No caso dessa antologia, as canções chamam a atenção para a palavra, ficam em segundo plano, como que tentando vestir a letra. E os poemas revelam uma leveza no tratar o lirismo urbano contemporâneo, contaminado pela multiplicidade de referências, pela brutalidade do efêmero e do massivo. A mulher que atravessa a multidão e provoca o toque do olhar, a solidão que bebe no corpo "seu próprio desespero", o movimento que está parado, "o sol batendo firme num livro dos beats", o "exílio de todos os caminhos".

Segundo o autor, a proposta do CD "é criar um território híbrido, onde poesia e música - como as pegadas de um pássaro na areia - sejam indissociáveis (como sempre foram, dos rapsodos gregos aos rappers)". A experiência resultou interessante e merece ser lida e ouvida com cuidado.


Reynaldo Damazio


CAETANO, cê conhece?



CAETANO VELOSO
fez há dez dias um show memorável aqui em Chapel Hill, o primeiro dele aqui na Carolina do Norte, no Memorial Hall, teatro da UNC (University of North Carolina), um dia antes dele ganhar de novo o Grammy latino. Ele simplesmente conseguiu levantar o teatro lotado (1.500 pessoas) nos últimos quinze minutos de show, coisa que raramente acontece aqui. Não tem nada disso dele "estar se cercando de músicos jovens porque está ficando velho". No show da turnê do disco CÊ (ao vivo bem melhor que o disco) o que eu vi foi um cara de 64 anos que parece ter 30. Pulou, dançou, sambou, tocou violão (e como toca!, menos que o Gil, mas toca). Além de super-compositor, tem domínio perfeito de voz (que alcança, sempre afinado, alturas e extensões de foder, ou como diria o Leminski, "de dar nó na garganta de professor de karatê"), presença cênica, gestos medidos, perfeitos.
Foi engraçado ver os americanos cantando, a plenos pulmões, o refrão de "Odeio": "Odeio Você!", e ele traduzir, depois, que eles estavam cantando "I hate you". Os três músicos que o acompanham, super jovens, na faixa dos 20 e poucos anos, muito bons, seguros, inventivos: Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo, piano Rhodes), e Marcelo Callado (percussão). Foi praticamente um show de rock. Em resumo, um showzaço. Caetano cantou por duas horas e dez minutos sem parar.
Depois do show fui bater um papo rápido com ele no camarim. Dei meu cd de música & poesia Polivox e uma revista Coyote. Lembrei-o que a última vez que vi um show dele tinha sido em 1985, no Moringão, em Londrina (falta ver um do Chico, agora). Lembrei-o que acompanhei, no Hotel do Lago, a entrevista que o Ademir Assunção fez com ele pra Folha de Londrina. Claro que ele riu e disse não se lembrar de nada.
Alguns podem chiar, mas fiquei fã de novo do cara. Isso desde que o Maurício Arruda Mendonça me deu uma cópia de um disco que ele gravou na Itália, Omaggio a Federico e Giulietta, em tributo à Giulietta Masina e Federico Fellini, com várias trilhas sonoras de filmes do mestre italiano que é, literalmente, de chorar. Já tive minhas fases de descurtir o Caetano, mas não dá pra negar que ele é uma das pérolas da cultura brasileira. Mesmo quando a gente não gosta de uma música ou outra, tipo "Eta", ou a "da rata", ou suas olodunzadas, mesmo quando é criticado por falar demais (e ele mesmo comenta com humor sobre isso no show), temos mais é que agradecer por ter um artista como ele entre nós. E ele representa nossa cultura muitíssimo bem no exterior, sabendo que a música é nosso principal produto de exportação.
Esta música abaixo faz parte do disco . A letra é pra calar a boca dos que dizem que letra de música não é poesia. Se isso não for, eu não sei mais o que é.
Salve Caetano!

UM SONHO (CAETANO VELOSO)


lua na folha molhada

brilho azul-branco

olho-água, vermelho da calha nua


tua ilharga lhana

mamilos de rosa-fagulha

fios de ouro velho na nuca

estrela-boca de milhões de beijos-luz


lua

fruta flor folhuda

ah! a trilha de alcançar-te

galho, mulher, folhos, filhos

malha de galáxias

tua pele se espalha

ao som de minha mão


traçar-lhe rotas

teu talho, meu malho

teu talho, meu malho


o ir e vir de tua

o ir e vir de tua ilha


lua

toda a minha chuva

todo o meu orvalho

cai sobre ti

se desabas e espelhas da cama

a maravilha-luz do meu céu

jabuticaba branca



sexta-feira, novembro 16, 2007

TV CRONÓPIOS



A
TV CRONÓPIOS, do site-revista Cronópios, está prestando um grande serviço pra arte e pra literatura brasileira. Entevistas de peso e qualidade, capitaneadas pelo Pipol e Edson Cruz. O site-tv-revista põe em discussão a circulação de informações em nossos cybertempos. Estou louco pra ver a entrevista com o Roberto Piva. Mas tem muita coisa boa lá. Link aí do lado. Vale a pena conhecer. Parabéns pessoal da Cronópios!

quinta-feira, novembro 15, 2007

CITYSCAPE (poema de "Nômada", 2004)

CITYSCAPE

Carros avançam em nossa direção: eis o épico contemporâneo. Ítaca na esquina, Odisseu o mendigo lendo um anúncio travado no chão. Brisa de buzinas o atordoando, atraindo-o para o fluxo & atropelo. Da sinagoga slogans na multidão de rostos anônimos. Ele é o herói transubstanciado de outras eras, ou uma hera plugando o meio das coisas com o que sua flora de aço, voracidade, revela: não há silêncio, luzes traçam linhas de fuga, teu rosto fugaz atrás dos vidros, mancha de detalhe, disparo. Tudo sucede por fluxo e acumulação. Prolifera, fera, néon das lojas de conveniências, você sob eterna vigilância, e as imagens, as imagens. O minuto pede pra ser consumido como mais uma comodidade (impossibilidade) por isso precisa ser veloz, para que a morte não tenha como amortecer as interrupções que a ferem até sangrar para que a verdade não tenha tempo de instalar seu leão de gerânios, sua folha de erva e visão. Pense em Agora e toda uma rede se instala em seu cérebro. Este perfume vindo da vitrine lembra uma idéia, e se estilhaça no instante necessário para que o tempo pare.



Rodrigo Garcia Lopes, em Nômada, Lamparina, 2004



A LUA E O TEIXO (poema de SYLVIA PLATH)

Esta é a luz da mente, fria e planetária.

As árvores da mente são negras. A luz, azul.

Gramados descarregam suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,

Arranhando meus tornozelos, murmurando sua humildade.

Névoas vaporosas e espirituais habitam este lugar

Separado de minha casa por uma fileira de lápides.

Simplesmente não posso ver onde vão dar.


A lua não tem porta. É uma face em seu pleno direito,

Branca como os nós dos dedos, terrivelmente incomodada.

Arrasta o mar atrás de si como um crime sujo; está quieta,

A boca aberta em total desespero. Moro aqui.

Duas vezes aos domingos os sinos assustam o céu —

Oito grandes línguas afirmam a Ressurreição.

E no final, sobriamente, badalam seus nomes.


O teixo aponta para o alto. Tem forma gótica.

Os olhos se elevam e encontram a lua.

A lua é minha mãe. Não é doce como Maria.

Suas vestes azuis libertam pequenos morcegos e corujas.

Se eu ainda acreditasse na ternura —

O rosto da efígie, suavizado por velas,

Derramando, sobre mim, seus olhos meigos.


Tenho caído pelo caminho. Nuvens florescem

Azuis e místicas sobre a face das estrelas.

Na igreja, os santos serão todos azuis,

Flutuando sobre bancos frios com delicados pés,

Suas mãos e faces duras de santidade.

A lua não vê nada disto. É calva e selvagem.

E a mensagem do teixo é escuridão escuridão e silêncio.





Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo
Do livro ARIEL (Verus Editora, 2007)

3 poemas de EMILY DICKINSON







Eu
sou Ninguém! E você, é quem?
Você é — Ninguém — também?
Então há dois de nós? 
Não conte!  eles espalham —  rapaz!
 
Que medo — ser — Alguém!
Que público — como a rã —
Ficar dizendo seu nome — ano após ano —
Para um só fã: o pântano!





I'm Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there's a pair of us?
Don't tell! they'd advertise — you know!
 
How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one's name — the livelong June —
To an admiring Bog!
 
 
 

***



Noites Selvagens! Noites Selvagens!
Se estivesse a teu lado
Noites selvagens seriam
Nosso pecado!
 
Fúteis os Ventos
O coração no Cais —
Abaixo os Compassos,
Abaixo os Mapas!
 
Remando no Éden!
Ah! O mar!
Quem dera ancorar — esta Noite —
Em Ti!



**


Wild Nights! Wild Nights!

Were I with thee,

Wild Nights should be

Our luxury!


Futile the winds

To a heart in port, —

Done with the compass,

Done with the chart!


Rowing in Eden!

Ah! the sea!

Might I but moor

To-night in Thee!

 
 
***



Esta é minha carta para o Mundo,
Que nunca escreveu pra Mim —
Notícias simples que a Natureza contou —
Com terna Majestade.
 
Sua mensagem é entregue
A mãos que não posso ver —
Por amor a Ela — de leve — 
Julguem com carinho — a Mim!



This is my letter to the World,

That never wrote to Me —

The simple news that Nature told,

With tender Majesty.


Her Message is committed

To Hands I cannot see —

For love of her — Sweet — countrymen —

Judge tenderly — of Me!



Emily Dickinson

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes