quinta-feira, novembro 23, 2006

Segunda Rua Cristina (de GUILLAUME APOLLINAIRE)

Publicado pela primeira vez em Les Soirées de Paris (Dezembro de 1913), este é um exemplar da poética revolucionária de Apollinaire e, sobretudo, do grupo de poemas que se pode chamar de “poemas-conversas”, composto quase que inteiramente de “atos de fala”.

O título já posiciona a situação “em estado de colagem” dos fragmentos que o poeta justapõe: segunda-feira (tempo) e Rua Christina (espaço). Fazendo máximo uso de “material encontrado”, com ouvidos e olhos atentos, Apollinaire constrói este poema como um quebra-cabeça, tendo como foco a textualidade do ambiente que o rodeia, os fragmentos de linguagem estereofônicos dispersos, captando a polifonia dos espaços públicos (um café na Rua Christina?).

Apollinaire nos mostra assim o estranhamento daquilo que aparenta ser tão comum, convidando o leitor a ver, no ordinário, o extraordinário. Poema-colagem feito de pedaços de conversas, pleonasmos, protocolos profissionais e sociais, clichês, trocadilhos, interjeições, indiretas, insinuações. Assim como os cubistas apropriavam pedaços de objetos banais (fragmento de jornal, rótulos etc) para sua pinturas, Apollinaire opera o mesmo com a linguagem do seu cotidiano. Faz parte do impulso do que ele chamou de “simultaneísmo” (chave para a sensibilidade modernista), antecipando poemas como “The Waste Land” de Eliot e outros cuja chave é a descontinuidade, ou mais recentemente os cut-ups de William Burroughs.

Ao invés de escrever sobre a experiência da cacofonia dos espaços públicos, Apollinaire decide incorporar no texto a linguagem mesma dessa experiência.





SEGUNDA RUA CRISTINA


A mãe da zeladora e sua filha vão liberar o caminho
Vem comigo essa noite se você for homem
Um só já é bastante para que vigie a porta
Enquanto o outro sobe a escada

Três lamparinas iluminam
A velha está no fim
Quando você terminar vamos jogar um gamão
O maestro com dor-de-garganta
Chegando na Tunísia pinte pra fumar um haxixe

Vixe quase rimou

Pilhas de pires flores um calendário
Pim pam pim
Devo quase 300 paus pra locatária
Prefiro cortar o meu que dar pra ela tá ligado

Caio fora às 8 e 27
Seis espelhos ficam se encarando
Tô achando é que nos metemos numa fria
Caríssimo senhor
Tu é mesmo um bosta
O nariz daquela moça parece um verme
A Luiza esqueceu o casaco
Não tenho casaco mas também não tenho frio
O dinamarquês fuma seu charo enquanto checa os horários
O gato preto cruza o restaurante

Os crepes-suzettes estavam demais
Fonte verte
Vestido negro como suas unhas
Isso é completamente impossível
Aqui está senhor
O anel de malaquita
Chão coberto de serragem
Então é verdade
A garçonete ruiva se mandou com o livreiro

Um jornalista que conheço mais ou menos

Olha Jaques é extremamente sério o que vou te contar

Companhia de navegação mista

Ele diz o senhor gostaria de dar uma olhada no que eu pinto
Eu só tenho uma criada

Depois do almoço Café Luxemburgo
Chegando lá me apresenta um gordão
Que diz pra mim
Escute isso seria chique
Em Smyrna em Nápoles na Tunísia
Meus Deus do céu quando é que estive
Pela última vez na China
Deve fazer o quê uns oito ou nove anos
Honra é um troço que depende da hora
Bati





Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Um comentário:

ana rüsche disse...

olha só - acabo de sair do blog do ronaldo robson e comentei que a tradução dele do apollinaire está fluindo bem, sem dicção de tradução.

Direção: http://sopost.blogspot.com

(explico tb que não sei francês)

achei muito legal os poemas e tb tua explicação sobre eles.

bom ver essa sintonia.

beijos