domingo, novembro 19, 2006

HÁ (poema de Guillaume Apollinaire)
























Há um cargueiro que desatracou com meu amor
Há seis vinas[1] no céu e a noite chega e você pensa vai ver são vermes chocando estrelas
Há um submarino inimigo planejando seqüestrar o meu amor
Há milhares de pinheiros despedaçados pela explosão das granadas caindo a meu redor
Há um soldado passando por mim totalmente cego de gás asfixiante
Há tudo o que reduzimos a pó nas trincheiras Nietzsche Göethe e Colônia
Há minha ansiedade por uma carta que nunca chega
Há na carteira fotos da minha companheira
Há prisioneiros passando pela mina de olhos assustados
Há uma bateria com seus servos fiéis fuçando entre estilhaços
Há um mensageiro que chega pontualmente trotando pela trilha do pinheiro solitário
Há informações que um espião circula por aqui invisível como o horizonte que usa como camuflagem sem vergonha alguma
Há empinado como um lírio o busto do meu bem
Há um capitão desesperado esperando o comando vindo dos cabos transatlânticos
Há soldados por volta da meia-noite serrando tábuas pros caixões
Há mulheres se humilhando por milho gritando diante de um Cristo sangrando na Cidade do México
Há a Corrente do Golfo tão tépida e benéfica
Há um cemitério cheio de cruzes por 5 quilômetros
Há as cruzes de um lado e do outro
Há figos da Barbária nos cactos na Algéria
Há meu amor com suas mãos curvilíneas
Há um tinteiro que fiz de um foguete de 15-centímetros que não explodiu
Há minha sela pegando chuva
Há os arroios que nunca mais vão transbordar
Há o amor que gentilmente me fascina
Há um prisioneiro alemão com sua metralha nas costas
Há homens no mundo que nunca lutaram na guerra
Há os Hindus observando atônitos as campanhas ocidentais
Eles pensam nos chegados com saudades e imaginam se vão vê-los outra vez
Pois fomos longe demais nesta guerra na arte de invisibilidade




[1] Referência aos zepellins, novamente numa operação de animismo metafórico e com referência às salsichas vienenses, ou vinas, como se diz em Curitiba.



Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Um comentário:

elisabete disse...

rodrigo esse cara é bom demais. pensando em todo a sua obra de traduções... na veia que lhe afeta e nos afeta te faço uma proposta... vc já pensou em traduzir para o inglês alguns de nossos poetas mais afinados com o que vc vem traduzindo do inglês para o português, como por ex: ana cristina cesar, clarice, augusto dos anjos e tantos outros? beijos bé